Dicionrio
    De
c onceitos
Histricos
 Kalina Vanderlei Silva
 Maciel Henrique Silva




Dicionrio
    De
c onceitos
Histricos
    Copyright 2005 Kalina Vanderlei Silva e Maciel Henrique Silva
                 Todos os direitos desta edio reservados 
                  Editora Contexto (Editora Pinsky Ltda.)

                               Projeto grfico
                              Denis Fracalossi
                             Ilustrao de capa
                           Delacroix, "La libert"
                            Capa e diagramao
                           Gustavo S. Vilas Boas
                                   Reviso
                               Lilian Aquino
                               Dida Bessana


          Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
                     (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
          Silva, Kalina Vanderlei
                Dicionrio de conceitos histricos / Kalina
          Vanderlei Silva, Maciel Henrique Silva. 
          2.ed., 2 reimpresso.  So Paulo : Contexto, 2009.

               Bibliografia
               ISBN 978-85-7244-298-5

               1. Histria  Dicionrios 2. Histria  Estudo
          e ensino I. Silva, Maciel Henrique. II. Ttulo.

05-3069                                                         CDD-903
                    ndices para catlogo sistemtico:
                1. Conceitos histricos : Dicionrios 903
                2. Dicionrios : Conceitos histricos 903


                          Editora Contexto
                       Diretor editorial: Jaime Pinsky
                   Rua Dr. Jos Elias, 520  Alto da Lapa
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                       www.editoracontexto.com.br


                                   2009

          Proibida a reproduo total ou parcial.
      Os infratores sero processados na forma da lei.
                  Sumrio



Relao de verbetes ..........................................................................................................................7

Introduo .............................................................................................................................................9

Bibliografia ...................................................................................................................................... 416

Os autores ........................................................................................................................................ 439
                  relao de verbeteS


A                                                                          Discurso ................................................... 101
Absolutismo.............................................. 11               Ditadura ................................................... 105
Aculturao ............................................... 15
Antiguidade .............................................. 19              E
Arqueologia .............................................. 23              Escravido............................................... 110
Arte................................................................. 27   Estado ........................................................ 115
                                                                           tica ............................................................ 119
B                                                                          Etnia ........................................................... 124
Barroco ........................................................ 31        Etnocentrismo ..................................... 127
Burguesia .................................................... 34          Evoluo................................................... 131

C                                                                          F
Candombl ................................................ 39              Famlia ...................................................... 136
Capitalismo ............................................... 43             Fascismo .................................................. 141
Cidadania ................................................... 47           Feminismo.............................................. 145
Cidade .......................................................... 51       Feudalismo ............................................. 150
Cincia ......................................................... 55       Folclore ..................................................... 154
Civilizao ................................................. 59           Fonte Histrica .................................... 158
Classe Social ............................................. 63             Fundamentalismo .............................. 162
Colonizao .............................................. 67
Comunismo .............................................. 70                G
Cotidiano ................................................... 75           Gnero....................................................... 166
Cristianismo ............................................. 79              Globalizao .......................................... 169
Cultura ......................................................... 85       Golpe de Estado .................................. 173

D                                                                          H
Democracia ............................................... 89              Helenismo............................................... 178
Descobrimentos ..................................... 93                    Histria ..................................................... 182
Dialtica ...................................................... 97        Histria Oral ......................................... 186
Historiografia ....................................... 189                  O
Humanismo........................................... 193                    Oligarquia ............................................... 316
                                                                            Orientalismo ......................................... 319
I
Iconografia ............................................. 198
Identidade ............................................... 202              P
Ideologia .................................................. 205            Patrimnio Histrico ...................... 324
Iluminismo ............................................ 210                 Pirataria .................................................... 328
Imaginrio .............................................. 213               Politesmo ............................................... 331
Imperialismo......................................... 218                   Poltica ...................................................... 335
ndio ........................................................... 221       Ps-modernidade .............................. 338
Indstria Cultural .............................. 225                       Pr -histria ........................................... 342
Industrializao ................................... 230
Inquisio................................................ 234              R
Interdisciplinaridade........................ 237                           Raa............................................................. 346
Isl ................................................................ 241   Relativismo Cultural ........................ 350
                                                                            Religio ..................................................... 354
J                                                                           Renascimento ....................................... 359
Judasmo .................................................. 247             Revoluo ................................................ 362
                                                                            Revoluo Francesa........................... 366
L                                                                           Revoluo Industrial ........................ 370
Latifndio/Propriedade ................. 253                                Romantismo .......................................... 374
Liberalismo ............................................ 257
Liberdade................................................. 262
                                                                            S
M                                                                           Servido ................................................... 379
Marxismo ................................................ 267               Sociedade................................................. 382
Massa/Multido/Povo ..................... 272
Memria .................................................. 275
Mentalidades ......................................... 279                  T
Mercantilismo ...................................... 283                    Tecnologia ............................................... 386
Militarismo ............................................ 286                Tempo........................................................ 390
Miscigenao......................................... 290                   Teoria ......................................................... 393
Mito ............................................................ 293       Terrorismo .............................................. 397
Modernidade ........................................ 297                    Trabalho ................................................... 400
Modo de Produo............................ 301                            Tradio.................................................... 405
Monotesmo .......................................... 304                   Tribo ........................................................... 409

N
                                                                            V
Nao ......................................................... 308
Negro ......................................................... 311         Violncia .................................................. 412
          introduo
     Este livro foi concebido tanto para professores e professoras quanto para todos
aqueles que tm interesse na Histria como forma de conhecimento e de explicao dos
fenmenos sociais. Nossa inteno foi a de reunir e apresentar um material que pudesse
auxiliar tanto na capacitao quanto no planejamento de novas situaes didticas.
Nessa perspectiva, organizamos os conceitos em forma de verbetes, apresentados em
ordem alfabtica, para facilitar a consulta, e complementamos o trabalho com uma lista
de livros para aprofundamento, relacionados no final de cada verbete.
     Ao publicarmos este Dicionrio de conceitos histricos, acreditamos necessrio,
antes de tudo, explicar os critrios que nortearam sua elaborao. Conceitos so
dinmicos, tm historicidade. No podem ser utilizados indiscriminadamente. Por
isso, tomamos o cuidado de especificar a natureza de cada conceito histrico. E
foram esses cuidados que nos serviram de critrio para a escolha de, basicamente,
trs tipos de conceitos: primeiro, os conceitos histricos, stricto sensu, aquelas
noes que s podem ser utilizadas para perodos e sociedades particulares, como
Absolutismo, Candombl, Comunismo. Em segundo lugar, conceitos mais abrangentes,
muitas vezes denominados categoria de anlise, como Escravido, Cultura, Gnero,
Imaginrio, que podem ser empregados para diferentes perodos histricos. E por
ltimo, conceitos que funcionam como ferramentas para o trabalho do historiador,
como Historiografia, Interdisciplinaridade, Teoria.
     Estamos cientes de que certos socilogos fazem distino entre conceitos e
categorias  os primeiros dando conta de realidades particulares, como Revoluo
Francesa e Revoluo Industrial, e as categorias tratando de noes mais amplas,
como Revoluo. Mesmo assim preferimos empregar aqui genericamente a palavra
conceito, por ser esse termo mais comumente utilizado pelos historiadores,
abarcando inclusive a prpria ideia de categoria.
     Acreditamos que, no dia a dia em sala de aula, o que precisamos no  apenas
substituir todo o contedo programtico antigo por um novo, mas conseguir
construir estratgias que nos permitam mesclar diversas contribuies, objetivando
sempre tornar a Histria no apenas mais compreensvel, mas tambm socialmente
mais relevante.
                 Por fim, vale lembrar que o trabalho que ora apresentamos foi elaborado com base
Introduo


             em uma viso crtica da Histria e de uma abordagem comprometida com a mudana
             social, de acordo com o artigo de Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky, "Por uma
             Histria prazerosa e consequente", publicado na coletnea coordenada por Leandro
             Karnal, Histria na sala de aula (Contexto, 2004, 2. ed.). Acreditamos que o profissional
             bem preparado e o cidado consciente so instrumentos dessa mudana. Tivemos em
             mente introduzir o professor/historiador em importantes discusses tericas, sem o
             uso desnecessrio do vocabulrio tcnico, to comum em tais discusses. Sempre que
             possvel, procuramos vincular os temas trabalhados s realidades brasileira e latino-
             americana, s realidades com a qual trabalhamos cotidianamente.
                 Este livro s far sentido se propiciar interao com os leitores. Esperamos, pois,
             que comentem e critiquem nossos conceitos, de tal forma a podermos aperfeioar
             a obra em futuras edies.

                                                                                          Os autores




              10
 a
         A
Absolutismo
     O Absolutismo  um conceito histrico que se refere  forma de governo em
que o poder  centralizado na figura do monarca, que o transmite hereditariamente.
Esse sistema foi especfico da Europa nos sculos xvi a xvii. Assim, no podemos falar
de um Absolutismo chins ou africano, pois devemos ter sempre em mente que os
conceitos so construdos para determinado momento e lugar na histria, e no
podem ser aplicados para outras realidades de forma indiscriminada.
     O surgimento do Absolutismo se deu com a unificao dos Estados nacionais
na Europa ocidental no incio da Idade Moderna, e foi realizada com a centralizao
de territrios, criao de burocracias, ou seja, centralizao de poder nas mos dos
soberanos. Essa centralizao aconteceu, no entanto, aps uma srie de conflitos
especficos. Durante a Idade Mdia, os monarcas feudais dividiam o poder com os
grandes senhores de terra, mas com a formao dos Estados nacionais iniciou-se
um processo de diminuio do poder desses senhores. Tal processo foi possibilitado
pelo crescente poder econmico da burguesia, uma camada social nascente que,
sem possuir poder poltico, apoiou-se no rei para combater a nobreza. O Estado
centralizado surgiu, assim, interligado aos conflitos polticos entre nobreza e
burguesia, caractersticos desse momento histrico, alm das disputas polticas entre
os prncipes e a Igreja Catlica, visto que o Papado durante toda a Idade Mdia foi
uma considervel fora internacional.
     Nesse processo,  notvel a ligao entre poltica e religio, pois o Absolutismo
tendia a conceder ao rei um carter sacralizado. Esse aspecto foi mais enfatizado na
Frana pela teoria do direito divino dos reis, defendida no sculo xvii por filsofos
como o bispo Bossuet. Uma teoria que legitimava o poder absoluto da monarquia
francesa, cujo principal expoente foi Lus xiv, o chamado Rei Sol, defendendo que o
poder absoluto do rei e a centralizao do Estado se deviam a Deus. Deus escolhera o rei
e sua linhagem, e logo seu poder no deveria ser contestado por nenhum dos sditos.
     Assim sendo, percebemos que o Absolutismo se liga a um determinado momento
da histria das naes europeias, o momento em que uma monarquia fortalecida
com os conflitos polticos internos entre diferentes grupos sociais, e apoiada por



                                                                                    11
              justificativas filosficas, controla e consolida o Estado nacional. Mas o Absolutismo
Absolutismo



              apresentava variaes regionais que o poderiam fazer mais ou menos centralizado.
              H diferentes Absolutismos, cada qual com suas particularidades, como  o caso
              da Espanha, da Inglaterra e da Rssia. Em comum, a maior parte das monarquias
              absolutistas compartilhava algumas caractersticas: a concentrao de poder na
              figura do rei, a existncia de burocracias e exrcitos pblicos, o enfraquecimento
              dos vnculos feudais, a mercantilizao da economia.
                   Hoje  comum que o Absolutismo francs seja tomado como modelo clssico,
              Lus xiv, como o maior soberano absolutista, e a teoria do direito divino dos reis
              generalizada para todas as monarquias absolutas. No entanto, essa teoria no foi
              aceita e defendida por todas as monarquias. Em pases como a Espanha, apesar do
              carter religioso dos soberanos, a legitimao do poder foi feita mais por princpios
              legais do que religiosos.
                   Na Espanha, o Absolutismo foi legitimado por teses contratuais. Ou seja, o
              poder centralizado do rei era explicado pela existncia de um contrato entre rei e
              sociedade. A sociedade espanhola era ento compreendida, segundo o historiador
              Richard Morse, como uma entidade ordenada, na qual a tarefa de organizar a
              estrutura social pertencia ao rei. Alm disso, as vontades do rei e do povo deveriam
              estar em harmonia, buscando o bem-estar comum.
                   As teorias contratuais tiveram seu pioneiro em Maquiavel, defensor do Estado
              como entidade nascida do contrato entre povo e prncipe. Outro dos grandes
              defensores do Estado contratual foi Thomas Hobbes, que em sua obra O Leviat
              afirmou que todo Estado nasce do contrato mtuo entre os homens. Estes, quando
              em estado de natureza, viveriam em constante conflito e situao de guerra. Assim
              sendo, para garantir a ordem, considerada a nica forma de a sociedade prosperar, os
              indivduos faziam um acordo em que todos abdicavam de suas liberdades em favor
              de um representante, o rei, que, por sua vez, se encarregaria de garantir a ordem.
              Nessas teses, que explicam o Estado a partir de acordos e da concordncia entre reis
              e povo, todavia, a vontade do rei e do Estado sempre  superior  do povo e, logo,
              deve ser obedecida sem resistncia. Somente com a Ilustrao, no sculo xviii, essas
              teorias seriam revistas para apresentar o governo como representante da vontade
              popular. No Absolutismo, todavia, rei e Estado se sobrepem ao povo.
                   J na Inglaterra, o Parlamento muito cedo diminuiu o poder dos monarcas.
              Diferentemente da Frana e da Espanha, antigas provncias romanas onde a
              continuidade do direito romano fez prevalecer, mesmo durante a Idade Mdia, a
              ideia de um prncipe comandando a sociedade com plenos poderes, a Inglaterra,
              provncia menos romanizada, sofrera influncias muito maiores do direito feudal, no
              qual o poder era compartilhado pelos grandes senhores, sendo o prncipe includo


               12
entre eles. Assim, o Absolutismo no prosperou na Inglaterra moderna. Pelo




                                                                                           Absolutismo
contrrio, segundo o historiador Christopher Hill, ele surgiu no sculo xvii como
uma tentativa da monarquia de importar o modelo francs e de se impor a todas
as classes sociais inglesas. Tal tentativa, no entanto, fracassou devido  revolta das
elites, que no aceitaram um soberano que se sobrepusesse de forma hegemnica a
elas. Essa  a origem da Revoluo Inglesa. O Absolutismo ingls, dessa maneira, teve
vida curta, o que no impediu que o Estado nacional e a monarquia sobrevivessem,
adaptando-se a outras realidades sociais e polticas.
     Assim, vemos que o Absolutismo assumiu diferentes formas dependendo do Estado
onde foi aplicado. As justificativas jurdicas ou teolgicas tinham em comum o fato de
que foram construdas para explicar o poder centralizado do rei. No devemos esquecer,
todavia, que esse poder no era absoluto, no sentido de que no era ilimitado. Nenhum
rei absoluto reinava sozinho, ou ditava arbitrariamente a lei, sem qualquer controle por
parte da sociedade. Tal poder, embora centralizado e forte, em geral era limitado pela
tradio, pelos costumes, quando no pela existncia de parlamentos e ministros com
poder de deciso. Perry Anderson, um dos principais estudiosos do Absolutismo, diz-
nos para no confundir o Absolutismo europeu com o despotismo oriental, esse sim
mais abrangente. O poder do rei na Europa no chegava a dispor arbitrariamente das
propriedades e de seus sditos, ao contrrio das monarquias orientais.
     Muitos foram os autores que trabalharam com a conceituao do Absolutismo.
De Friedrich Engels a Nicolas Poulantzas, as principais teses trataram da origem
do Absolutismo e de sua natureza poltica. Perry Anderson, por exemplo, defendia
que o Estado absoluto era uma continuidade do Estado feudal. Nesse caso, o poder
do soberano derivaria do poder da nobreza. J autores como Fernand Braudel,
concordando com Poulantzas, acreditavam que o poder absoluto vinha da ascenso
poltica da burguesia; esta apoiaria o rei em troca da diminuio do poder da nobreza.
A tese defendida pela historiadora brasileira Vera Lcia Ferlini, baseada em autores
como Engels, afirma que o Estado absoluto surgiu no da nobreza ou da burguesia,
mas do conflito de ambas, o que teria fortalecido apenas ao rei. O Estado absoluto
seria, assim, uma entidade que se alimentava e se fortalecia do conflito poltico-
social interno em cada pas.
     A decadncia do Absolutismo se deu no sculo xviii com a ascenso poltica das
burguesias nos Estados ocidentais, impulsionando o surgimento de novas teorias
que defendiam um governo constitucional, representativo e uma economia sem a
interferncia do Estado, como o liberalismo. Por fim, nesse processo, a Revoluo
Francesa, no final do sculo xviii, impulsionada por povo e burguesia, derrubou o
Absolutismo francs, abrindo caminho para que, no sculo xix, Espanha e Portugal
tambm fizessem movimentos na direo do liberalismo ao imporem constituies
a seus reis absolutos.



                                                                                    13
                   A importncia histrica do Estado absoluto est principalmente no fato de ser
Absolutismo



              ele responsvel pela consolidao do Estado nacional europeu, que, por sua vez, teve
              grande influncia na formao dos Estados latino-americanos, fosse pelos vnculos
              coloniais, fosse por servirem de modelos para as independncias hispnicas no sculo
              xix, que copiaram os padres de Estado nacional oriundos da Europa ocidental.

                   Na sala de aula, o Absolutismo  tema recorrente nos contedos programticos
              adotados no Brasil. Mas, alm disso,  tema extremamente relevante para a
              compreenso da Histria do Brasil em seu processo de colonizao. Entretanto, em
              geral sua abordagem nos livros didticos e contedos programticos dos ensinos
              Mdio e Fundamental  bastante simplificada, no considerando que diferentes
              historiadores tm percebido o Absolutismo sob prismas diversos. Alm disso,
              deve-se ter cuidado para no incorrer no erro de generalizar as caractersticas
              francesas para todas as monarquias absolutistas. Para evitar a viso simplista, uma
              boa estratgia  comparar as caractersticas dos principais Estados absolutistas,
              enfatizando tambm as diferentes teorias que justificavam o Absolutismo em cada
              pas. Outra possibilidade interessante  a anlise comparada das obras de Maquiavel,
              Hobbes e Bossuet, para discutir as diferentes formas de justificar o poder. Sem
              esquecer que relacionar poltica e arte, trabalhando como o Absolutismo apareceu
              nas telas de El Greco, em edifcios como Versalhes, por exemplo, pode ser uma
              forma de dinamizar a abordagem do tema.

              Ver tAmbm
                    Barroco; Burguesia; Colonizao; Estado; Feudalismo; Iluminismo; Liberalismo;
                    Mercantilismo; Nao; Poltica; Revoluo Francesa.

              sugestes de leiturA
                    anderSon, Perry. Linhagens do Estado absolutista. So Paulo: Brasiliense, 1985.
                    braudel, Fernand. O mediterrneo e o mundo mediterrnico na poca de Filipe
                      ii. Lisboa: Martins Fontes, 1983.

                    GreSpan, Jorge. Revoluo Francesa e Iluminismo. So Paulo: Contexto, 2003.
                    HobbeS, Thomas. O Leviat: ou matria, forma e poder de um estado eclesistico
                     e civil. So Paulo: Martin Claret, 2003.
                    Karnal, Leandro (org.). Histria na sala de aula: conceitos, prticas e propostas.
                     So Paulo: Contexto, 2003.
                    maquiavel, Nicolau. O prncipe. So Paulo: Paz e Terra, 1996.
                    marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria moderna atravs
                     de textos. So Paulo: Contexto, 1997.



               14
    mondaini, Marco. O respeito aos direitos dos indivduos. In: pinSKy, Jaime; pinSKy,




                                                                                           Aculturao
     Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo: Contexto, 2003.
    morSe, Richard. O espelho de Prspero: cultura e ideia nas Amricas. So Paulo:
     Companhia das Letras, 1988.
    odalia, Nilo. A liberdade como meta coletiva. In: pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla
     Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo: Contexto, 2003.




AculturAo
     O conceito de aculturao, assim como os de cultura, etnocentrismo e sincretismo,
surgiu na Antropologia; no entanto, devido  crescente interdisciplinaridade, a Histria
tambm se beneficia da utilizao das ferramentas de disciplinas como a Antropologia.
     O termo aculturao foi inicialmente cunhado por antroplogos norte-
americanos, sendo o historiador francs Nathan Watchel um dos principais
responsveis por sua adaptao para a Histria. De acordo com ele, o conceito
de aculturao  til para o desenvolvimento de reflexes sobre as mudanas que
podem acontecer em uma sociedade a partir da incluso de elementos externos, ou
seja, do contato com outras culturas. Para perceber a aplicao desse conceito na
Histria, esse historiador estudou o caso da sociedade peruana depois da conquista
espanhola, no sculo xvi.
     Segundo Watchel, aculturao  todo fenmeno de interao social que resulta
do contato entre duas culturas, e no simplesmente a sujeio de um povo por outro.
Para ele, essa noo tem sua maior utilidade quando empregada para o estudo de
situaes coloniais. Aculturao , assim, um conceito construdo com o fim de
explicar uma realidade social nica, aplicvel apenas a determinado momento e
lugar especfico na histria.
     Outros autores, todavia, discordam de Watchel. O estudioso brasileiro Alfredo
Bosi, em sua obra Dialtica da colonizao, define aculturao como o ato de sujeitar
um povo ou adapt-lo tecnologicamente a um padro tido como superior. Para
Bosi, esse  um fenmeno proveniente do contato entre diferentes sociedades e
pode ocorrer em perodos histricos diferentes, estando sujeito apenas  existncia
desse contato entre culturas diversas. Bosi defende ainda que a aculturao 
necessariamente um fenmeno de controle social de um povo sobre outro.
     Podemos, assim, observar que os conceitos de Bosi e Watchel diferem. De
acordo com o primeiro, aculturao  uma categoria que pode ser aplicada a diferentes



                                                                                    15
              momentos histricos e, alm disso,  um processo de sujeio social. Para o segundo,
Aculturao



              tal conceito pode ser apenas aplicado a situaes coloniais e abrange muitas outras
              situaes, alm da mera sujeio cultural.
                   Com base na definio mais genrica de aculturao, algumas tentativas foram
              feitas para se empregar o conceito em pesquisas as mais diversas, como em trabalhos
              sobre a sociedade rural francesa no sculo xvi, durante as transformaes resultantes
              da Reforma Catlica. Tais pesquisas defendiam que, nesse momento, ocorreu um
              processo de aculturao dos camponeses pelo clero francs, processo influenciado
              pelo Conclio de Trento. Para Peter Burke, no entanto, dificilmente poderamos
              aplicar o conceito de aculturao a esse contexto, porque os dois grupos envolvidos
              em tal processo  padres e camponeses  pertenciam  mesma cultura. Tendo em vista
              essas consideraes, percebemos que, apesar dos diferentes significados atribudos
               noo de aculturao, h alguns consensos, como a ideia de que se trata de um
              processo envolvendo culturas distintas. Alm disso, as conceituaes de Watchel e de
              Bosi se aproximam quando o primeiro considera a aculturao uma interao entre
              sociedades de fora desigual, dominantes e dominadas. Contudo, Watchel acredita
              que a aculturao no se d apenas como transformao de sociedades indgenas
              em sociedades coloniais, pois tambm ocorreu nesse processo a incorporao pelas
              sociedades indgenas de elementos culturais estranhos, embora continuando a
              preservar suas caractersticas originais. E uma vez que para esse autor a aculturao
               um conceito aplicvel apenas  colonizao da Amrica, podemos tomar situaes
              coloniais para especificar melhor essa noo.
                   Um primeiro ponto a observar  que o tipo de aculturao resultante entre
              espanhis e indgenas a partir do sculo xvi dependia do tipo de dominao que
              os primeiros conseguiam impor aos segundos. Sobre as sociedades sedentrias,
              astecas e incas, por exemplo, os conquistadores impuseram a proximidade com
              o sistema de valores colonial, ao obrig-los a trabalhar e residir nas propriedades
              dos colonos, facilitando o processo de imposio de costumes e crenas, que era
              uma das formas de aculturao. J com os povos nmades se deu o contrrio, pois
              sociedades indgenas de diferentes regies das Amricas, como os chichimecas no
              norte do Mxico, os araucanos no sul do Chile, as tribos do oeste dos eua e os ndios
              do serto do Brasil, resistiram  dominao europeia, apesar de passarem por formas
              de aculturao teis para sua sociedade, como o emprego do cavalo e das armas
              de fogo. Esses povos escaparam, em seu processo de resistncia, da imposio de
              trabalho e de residncia nas propriedades dos colonos, evitando, tambm, o processo
              de imposio de valores europeus. Mas isso no os impediu de optarem por assimilar
              elementos culturais estrangeiros, como as armas de fogo e a criao de cavalos, que
              em vez de destruir sua cultura, foram incorporados a ela, permitindo-lhes continuar


               16
a resistncia contra a colonizao. Tal incorporao, para Watchel, tambm foi uma




                                                                                          Aculturao
forma de aculturao, realizada, todavia, no por um povo dominado, mas sim por
uma sociedade independente.
     Segundo essa definio, podemos classificar em dois tipos as formas de
aculturao no mundo colonial americano: primeiro, quando um grupo estranho
controlava diretamente a sociedade dominada, direcionando seu processo de
aculturao. Caso daqueles povos nativos que por toda a Amrica foram submetidos
ao controle de missionrios. Sob tal domnio, os indgenas tiveram de assimilar
muitas das instituies espanholas e portuguesas, como o catolicismo, a lngua,
os costumes matrimoniais, os hbitos de vestimenta etc. Essa aculturao imposta
destruiu grande parte das culturas originais indgenas, como os laos familiares, a
religiosidade e a lngua. Por sua vez, o segundo tipo de aculturao pode ser percebido
quando a sociedade indgena, longe de qualquer controle externo, adotou alguns
elementos da cultura colonial voluntariamente, como o uso do cavalo e de armas
de fogo. Nesse caso, a aculturao foi espontnea, e a cultura nativa preservada em
suas estruturas originais. Os elementos estrangeiros assimilados nesse segundo caso
no eram suficientes para modificar as estruturas internas dessas sociedades, mas
foram escolhidos, ao contrrio, por se ajustarem a essas estruturas.
     No podemos esquecer que a aculturao constitui apenas uma das formas
de interao possveis na sociedade colonial, e nem sempre ela  predominante. O
sincretismo, a miscigenao e o hibridismo cultural so exemplos de outras formas
de interao social entre diferentes culturas criadas pela colonizao.
     Alguns autores falam ainda da situao de etnocdio.  o caso do historiador
Frdric Rognon. Para ele, enquanto o genocdio  a extino fsica de um grupo,
violenta e deliberada, o etnocdio seria a destruio de uma cultura, resultante
do processo de aculturao. Situao que ocorreu, sobretudo, com as populaes
indgenas das Amricas, sendo possvel encontrar na Oceania processos de
aculturao aos quais a populao sobreviveu. De acordo com Rognon, o etnocdio
apenas precede o genocdio, e todo processo de aculturao termina por ser um
fenmeno de imposio de uma cultura sobre outra.
     Em sntese, percebemos uma ativa discusso em torno da ideia de aculturao:
enquanto Watchel considera que a aculturao pode ser espontnea e til para uma
sociedade, a maioria dos outros autores acredita que ela  um fenmeno sempre de
imposio cultural. Apesar das discordncias, podemos resumir a aculturao como
um processo de imposio ou assimilao de valores socioculturais de uma sociedade
por outra. Processo possvel principalmente em situaes de colonizao. Watchel
inclusive defende que, quando o conceito de aculturao for mais bem compreendido
para a Amrica colonial, ele poder ser utilizado para outras situaes histricas,


                                                                                   17
              tornando-se assim uma categoria de anlise. Por enquanto, todavia, devido s diversas
Aculturao



              incongruncias e controvrsias em torno desse conceito, a aculturao s seria til
              para o momento do contato entre europeus e indgenas.
                   Precisamos ainda ressaltar que a situao colonial, mesmo quando estamos
              falando de aculturao em seu sentido de imposio cultural,  muito complexa, pois
              os dominados, alvo da imposio de valores europeus, como negros e ndios, no
              eram participantes passivos do processo. Eles reagiam, terminando por influenciar
              a prpria cultura hegemnica, transformando-a. Tal situao leva muitos autores
              a preferirem falar de miscigenao, de sincretismo ou de hibridismo cultural,
              abandonando o conceito de aculturao. Mas todos esses conceitos giram em torno
              da ideia de trocas e de influncias culturais.
                   Devemos lembrar tambm que a aculturao, como poltica de colonizao, foi
              uma prtica de etnocentrismo. A no compreenso da cultura do "outro", ou mesmo
              a negao dessa cultura, deu lugar a prticas de "aculturao", pois esse "outro" 
              exatamente por ser diferente  deveria ser encaixado na cultura dita "superior".
                   Para a sala de aula, excelente atividade seria comparar as diferentes formas de
              aculturao nas sociedades indgenas coloniais. Trabalhar com os casos em que tais
              sociedades demonstraram capacidade de assimilao e adaptao de elementos
              culturais que serviram a seus interesses pode levar os alunos a perceberem que os
              povos indgenas, em geral retratados como facilmente derrotados pelos europeus
              "superiores", no necessariamente se submeteram  dominao sem contestao.

              Ver tAmbm
                    Candombl; Civilizao; Colonizao; Cultura; Etnia; Etnocentrismo; Identidade;
                    ndio; Interdisciplinaridade; Miscigenao.

              sugestes de leiturA
                    boSi, Alfredo. Dialtica da colonizao. So Paulo: Companhia das Letras, 1996.
                    burKe, Peter. Histria e teoria social. So Paulo: Ed. Unesp, 2002.
                    GomeS, Mrcio Pereira. O caminho brasileiro para a cidadania indgena. In:
                     pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So
                     Paulo: Contexto, 2003.
                    meSGraviS, Laima; pinSKy, Carla Bassanezi. O Brasil que os europeus encontraram.
                     So Paulo: Contexto, 2000.
                    pinSKy, Jaime. As primeiras civilizaes. So Paulo: Contexto, 2001.
                    pinSKy, Jaime (org.). Histria da Amrica atravs de textos. 9. ed. So Paulo:
                      Contexto, 2004.



               18
    roGnon, Frdric. Os primitivos, nossos contemporneos. Campinas: Papirus, 1991.




                                                                                           Antiguidade
    WatcHel, Nathan. Aculturao. In: le GoFF, Jacques; nora, Pierre. Histria:
     novos problemas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.




AntiguidAde
     O significado da palavra Antiguidade faz referncia a objetos do passado. Mas
como conceito histrico, Antiguidade  um perodo da Histria do Ocidente bem
delimitado, que se inicia com o aparecimento da escrita e a constituio das primeiras
civilizaes e termina com a queda do Imprio Romano, dando incio  Idade Mdia.
Tal conceito  de vital importncia para a construo da ideia de Ocidente, da mesma
forma que algumas noes correlatas, como clssico e antigo.
     O prprio termo Antiguidade deriva de antigo, que, segundo Jacques Le Goff,
 uma ideia extremamente atrelada ao Ocidente, quase sempre em contraste com
moderno, tambm um conceito ocidental. Para esse autor, o Ocidente foi marcado,
entre os sculos v e xix, por constante oposio entre as ideias de antigo e de moderno,
oposio que teve seu auge com o nascimento da modernidade no sculo xix.
     A palavra antigo, que parece de fcil compreenso pelo seu uso frequente em
nosso cotidiano, na verdade tem vrios significados: antigo pode se referir ao passado
como um todo; pode se referir especificamente a um perodo histrico do Ocidente,
que  a Antiguidade, e com esse significado ela existe desde o Renascimento; e pode
ainda se opor tanto ao novo quanto ao velho, pois em muitas culturas antigo  o
venervel, enquanto velho  a runa, a decrepitude.
     No Ocidente, desde a revalorizao da cultura greco-romana pelo Renascimento,
antigo se tornou sinnimo de clssico, de Idade de Ouro, sendo a Antiguidade
considerada bero da civilizao. Mas, para Le Goff, mesmo nesse contexto, antigo
tambm possua certa ambiguidade: no Cristianismo, por exemplo, antigo  Antigo
Testamento  seria a doutrina prestigiosa dos grandes homens do passado, mas com
menos valor que o novo  Novo Testamento. O prprio Renascimento, ao mesmo
tempo em que via a Antiguidade como uma poca dourada para a humanidade,
tambm usava a palavra antigo para designar o gtico e o carolngio, ou seja,
elementos do medievo, considerados velhos, obscuros e obsoletos.
     Durante o sculo xx, a historiografia tradicional observou a Antiguidade como
o marco fundamental de separao da civilizao e da barbrie. E nesse sentido a
Antiguidade se tornou uma rea de estudos etnocntrica por excelncia. Um dos
principais historiadores dessa linha, que escreveu sua obra monumental sobre o
mundo clssico na dcada de 1920, foi Rostovtzeff, ainda hoje muito lido em diversos
cursos de formao de professores pelo pas.


                                                                                    19
                   Para Rostovtzeff, a Antiguidade significava o incio do desenvolvimento do
Antiguidade



              Homem, perodo em que a civilizao foi formada e a vida poltica e social se
              distinguiu da selvageria. Essa Idade teria tido seu incio no Oriente Prximo,
              entendido como o Egito, a Mesopotmia, a sia Central e o Egeu, e seu auge na Grcia
              e em Roma. A importncia da Histria Antiga, para Rostovtzeff, estava na herana
              palpvel deixada por ela na vida ocidental moderna, sendo os antigos os inventores
              da vida civilizada contempornea. Nessa perspectiva, as ligaes entre Antiguidade
              e mundo atual seriam muitas: comrcio mundial e indstria em larga escala; as
              principais formas polticas ainda hoje utilizadas, como a monarquia, o sistema
              federal e o Estado autogovernado; alm da Filosofia, da tica e da Esttica atuais.
                   Rostovtzeff seguiu a tradio dos historiadores que organizaram a cronologia
              da Histria Mundial em Antiguidade, Idade Mdia, Idade Moderna e Idade
              Contempornea. Uma cronologia que apareceu pela primeira vez com os humanistas
              da Renascena, mas que s se consolidou nas ltimas dcadas do sculo xix, com
              a ascenso do cientificismo. Para historiadores como Mar Ferro, no entanto, essa
              cronologia foi elaborada pelo etnocentrismo do imperialismo europeu no sculo
              xix e est longe de representar toda a Histria mundial. Ela escolheu apenas temas e

              culturas, afirma a historiadora Christine Dabat, representativos do passado da Europa
              ocidental. Segundo essas crticas, a Antiguidade no seria o perodo do nascimento
              da civilizao como um todo, mas s do Ocidente.
                   A maioria dos historiadores, no entanto, no contesta o perodo histrico em si,
              mas procura adapt-lo s novas perspectivas da Histria, surgidas no final do sculo
              xx. Esse  o caso daqueles que defendem a existncia de uma Antiguidade Tardia,

              designao que se difundiu na dcada de 1950, usada para definir um perodo
              histrico que muitos consideravam diferenciado tanto da Antiguidade quanto da
              Idade Mdia, e abrangeria desde a crise do Imprio Romano, iniciada no sculo iii, at
              a queda do Imprio. Essa periodizao foi defendida por autores como Henri-Irne
              Marrou, para quem esse momento de transio entre a Idade Mdia e a Antiguidade
              tinha caractersticas prprias e deveria ser tratado de forma particular. J outros
              historiadores, principalmente medievalistas, contestam a designao do perodo como
              Antiguidade Tardia. Hilrio Franco Jr., por exemplo, aceita que o perodo seja tratado
              de forma particular e diferenciada, mas prefere defini-lo como Primeira Idade Mdia.
              Nos dois casos, a discusso gira em torno das fronteiras temporais entre a Antiguidade
              e a Idade Mdia, o que corrobora a opinio daqueles que acreditam que esses cortes
              cronolgicos etnocntricos hoje no servem mais nem mesmo para a prpria Europa.
                   Entretanto, a historiografia sobre a Antiguidade tem se desenvolvido muito, a
              despeito das controvrsias, e Rostovtzeff no pode ser tomado como exemplo das
              perspectivas atuais da Histria Antiga, que tem assimilado abordagens como a Histria


               20
Social e a Histria Cultural. No Brasil mesmo h uma atualizada produo na rea, que




                                                                                            Antiguidade
pode muito bem ser representada pelo trabalho de Pedro Paulo Funari, arquelogo
e classicista. Para ele, os estudos da Antiguidade tm-se beneficiado da percepo de
que muito do que sabemos, ou acreditamos saber sobre o perodo, so construes
da historiografia. Essa tambm  a perspectiva de Mary Beard e John Henderson.
      Beard e Henderson do especial nfase ao fato de que muito da imagem que o
Ocidente tem hoje do mundo clssico foi construdo pelo Romantismo do sculo
xix: uma viso idealizada e buclica, o que nos leva a inquirir sobre uma ideia em

ntima ligao com a Antiguidade, a noo de clssico.
      Clssico  um termo que em Histria designa a cultura greco-romana da
Antiguidade, sendo assim um conceito histrico delimitado no tempo e no espao. Mas
tal termo tambm  muito empregado em outras reas humanistas, como a Literatura
e a Arte. Outra definio do clssico muito comum no Ocidente  aquela relacionada s
obras de arte: clssica  a obra que serve de modelo, que  considerada de importncia
fundamental para a humanidade, inovadora, fundadora, e quase sempre antiga. A
obra clssica  o consenso, aquela obra sobre a qual ningum em determinada cultura
discorda. Em certa medida, o clssico se aproxima bastante da noo de tradio, visto
que ambos so elementos culturais sobre os quais h consenso social.
      Beard e Henderson associam o conceito de clssico  sua definio histrica, ou
seja,  produo cultural greco-romana da Antiguidade. Mas no deixam de levar em
considerao o outro significado, que atrela o clssico  obra de arte. Consideram,
assim, "clssicas" as obras de arte greco-romanas. Para eles, a relao entre Antiguidade
e contemporaneidade se exprime muito bem na viso que temos dos clssicos, pois
esses so para ns, igualmente, os mesmos que para os antigos, mas tambm diferentes.
So os mesmos porque, ao lermos ou observarmos uma obra clssica j temos um
conhecimento prvio sobre ela, sendo influenciados pelo que geraes de estudiosos
disseram sobre essas obras antes de ns. O exemplo que os autores do  muito eloquente:
se um ocidental observar o Partenon, em Antenas, pela primeira vez, ele inevitavelmente
ter uma sensao de familiaridade, pois em sua vida provavelmente j viu prdios
construdos no estilo neoclssico baseado nas formas e princpios da Antiguidade.
Assim, segundo essa concepo, os clssicos, devido  sua grande influncia na formao
do Ocidente desde o Renascimento, nunca sero totalmente estranhos para ns.
      Por outro lado, sempre leremos uma obra clssica de forma diferente,
por exemplo, de um monge medieval, pois vivemos em contextos histricos
diferenciados, e lemos a mesma obra em formato e circunstncias distintas, cada
um de ns fazendo perguntas que dependem muito da forma de pensar de cada
perodo. Assim, para Beard e Henderson, os clssicos so definidos tanto pela nossa
experincia e interesses quanto pelos deles mesmos.


                                                                                     21
                   Alm disso, devemos atentar para o fato de que construmos os clssicos, assim
Antiguidade



              como construmos nossa viso estilizada e idealizada da Antiguidade. Um exemplo
              disso, segundo Beard e Henderson, est no quadro de Edward Lear, romntico ingls
              do sculo xix, que traz uma famosa paisagem clssica, o templo de Apolo em Bassai,
              na Grcia. A pintura representa a ideia de clssico construda pelo romantismo:
              runas gregas em uma paisagem buclica. Mas, na verdade, o quadro foi pintado
              com base em alguns esboos do templo e de uma paisagem do prprio campo ingls.
              Assim, a imagem do clssico foi construda a partir do prprio cenrio do Ocidente
              contemporneo ao autor. Exemplo eloquente da tese de Beard e Henderson de que
              quase todas as imagens dos clssicos so construdas a partir do prprio contexto
              histrico de quem as elabora, ou seja, a partir do prprio Ocidente contemporneo.
                   Antiguidade, antigo, clssico so ideias to entranhadas no imaginrio histrico
              ocidental que  frequente passarem por ns sem crticas. Mas para a sala de aula,
               interessante tentarmos desconstruir a imagem idealizada que os alunos inva-
              riavelmente tm da Antiguidade Clssica. Uma imagem hoje bastante alimentada pela
              mdia e pelo cinema, em particular. Mas o prprio cinema pode servir de fonte para
              uma anlise mais acurada, levando-nos a observar quais as imagens de civilizao que
              o cinema associa a esse perodo, e a perceber em filmes como Gladiador, de Ridley
              Scott, que essas obras no esto falando apenas sobre a Antiguidade, mas usam esse
              perodo para discutir questes contemporneas. Fica assim mais fcil entendermos
              a pintura de Edward Lear.

              Ver tAmbm
                    Arqueologia; Arte; Civilizao; Democracia; Escravido; tica; Etnocentrismo;
                    Helenismo; Imperialismo; Orientalismo; Renascimento; Romantismo; Tradio.

              sugestes de leiturA
                    beard, Mary; HenderSon, John. Antiguidade clssica: uma brevssima introduo.
                      Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
                    Funari, Pedro Paulo. Arqueologia. So Paulo: Contexto, 2003.
                    ______. Grcia e Roma. So Paulo: Contexto, 2001.
                    ______. A cidadania entre os romanos. In: pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi
                      (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo: Contexto, 2003.
                    Guarinello, Norberto Luiz. Cidades-estados na antiguidade clssica. In: pinSKy,
                     Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
                     Contexto, 2003.
                    Karnal, Leandro (org.). Histria na sala de aula: conceitos, prticas e propostas.
                     So Paulo: Contexto, 2003.



               22
    le GoFF, Jacques. Histria e memria. Campinas: Ed. Unicamp, 1994.




                                                                                             Arqueologia
    oliveira, Waldir Freitas. A Antiguidade tardia. So Paulo: tica, 1990.
    pinSKy, Jaime. As primeiras civilizaes. So Paulo: Contexto, 2001.
    ______. Os profetas sociais e o deus da cidadania. In: pinSKy, Jaime; pinSKy,
      Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo: Contexto, 2003.
    pinSKy, Jaime (org.). 100 textos de histria antiga. 8. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    roStovtzeFF, M. Histria da Grcia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.




ArqueologiA
     A Arqueologia  hoje uma disciplina bastante conhecida no Brasil, no apenas
nos crculos intelectuais mas tambm entre os jovens. Para isso muito contribuiu
o cinema, na figura do personagem Indiana Jones, que se tornou um sinnimo de
arquelogo para a cultura urbana popular do Ocidente. Tal disciplina, no entanto,
dificilmente se encaixa no parmetro do senso comum, o que a torna, apesar de
muito falada, realmente pouco conhecida.
     A Arqueologia  considerada ainda hoje por muitos uma disciplina auxiliar
da Histria, mas no sculo xx ganhou status prprio, com metodologia e teorias
criadas para si, caracterizando-se como uma cincia que se torna cada dia mais
independente. Para alguns, ela  a cincia que estuda os documentos materiais,
ou seja, os vestgios da cultura material dos povos do passado. Dessa forma,
apresenta-se como uma disciplina que pode ser utilizada para auxiliar o estudo de
qualquer poca da histria, visto que todas as sociedades deixam vestgios materiais
em forma de habitaes, utenslios, arte e mesmo lixo. Porm, usualmente, o
mais importante campo de atuao dos arquelogos so as culturas que no
desenvolveram a escrita, ou cuja escrita no foi preservada pelo tempo. Nesse
caso, na impossibilidade de serem desenvolvidos estudos de Histria baseados nos
documentos escritos, a Arqueologia se torna a cincia predominante na busca de
explicaes e conhecimento sobre o passado.
     Geralmente, o campo de estudo da Arqueologia  dividido em dois grandes
blocos: Arqueologia Pr-histrica e Arqueologia Histrica. Enquanto o primeiro
campo se dedica a estudar povos e perodos em que a escrita no existia, o segundo
diz respeito  pesquisa arqueolgica realizada sobre qualquer sociedade, em qualquer
perodo histrico, que possua escrita.
     A Arqueologia surgiu como cincia, ou disciplina auxiliar da Histria, no sculo
xix, mas alguns remetem os primeiros estudos arqueolgicos  Europa da Idade




                                                                                      23
              Moderna, onde o crescente interesse renascentista pela cultura grega e romana
Arqueologia



              clssicas levou  formao de museus e colees de antiguidades. Os prncipes
              europeus gostavam, ento, de constituir colees de curiosidades, angariando assim
              a fama de cultos e instrudos, ou seja, de renascentistas. Nesse contexto, as primeiras
              incurses arqueolgicas surgiram do interesse de eruditos em reunir e coletar peas
              e objetos esquecidos e enterrados dessas civilizaes antigas. Essa coleta de objetos,
              todavia, estava ligada principalmente  Histria da Arte e tinha preocupaes apenas
              estticas com relao a seus achados greco-romanos.
                   Foi s no sculo xviii que surgiu a primeira grande contribuio metodolgica
               Arqueologia. Nesse momento, os achados comearam a ser primeiro estudados a
              partir de sua localizao no solo onde estavam enterrados, antes mesmo de serem
              desenterrados. Os eruditos comeavam, assim, a se preocupar no mais apenas em
              desenterrar peas bonitas, mas tambm em identificar os perodos aos quais elas
              pertenciam. Era o incio do estudo da estratigrafia, at hoje um importante mtodo
              da disciplina. A partir da, no se admitia mais que os objetos fossem simplesmente
              escavados e coletados do solo, era importante tambm estudar o prprio solo onde
              se encontravam.
                   Todavia, apenas durante o sculo xix a moderna Arqueologia se constituiu como
              disciplina. Tal desenvolvimento foi beneficiado por uma srie de fatores, entre os
              quais um dos mais importantes foi a aceitao da teoria da evoluo, de Darwin,
              que, defendendo o princpio de que o homem evoluiu ao longo do tempo, permitiu
              que os estudiosos comeassem a considerar seriamente a importncia do estudo
              dos artefatos de perodos muito antigos, at ento coisa impensvel devido  crena
              generalizada de que o mundo tinha apenas 5 mil anos.
                   A segunda grande contribuio para o desenvolvimento da Arqueologia no
              sculo xix foi a classificao criada por Thomsen para datar a cultura material
              europeia em diferentes idades evolutivas. Tal classificao  at hoje bastante adotada,
              inclusive pelos livros didticos brasileiros, e consiste em Paleoltico, Neoltico, Idade
              do Bronze e Idade do Ferro. Apesar de ser uma classificao amplamente empregada,
              possui um cunho evolucionista muito forte e atualmente bastante contestado, pois
              considera a existncia de uma escala de desenvolvimento entre os povos, comeando
              entre os mais primitivos, considerados inferiores, e terminando no que seria o pice da
              evoluo cultural humana, ou seja, a sociedade ocidental. Essa viso, acentuadamente
              etnocntrica,  hoje criticada por arquelogos, historiadores e pr-historiadores,
              mas no sculo xix configurou um avano, uma ferramenta para se distinguir os
              diferentes perodos histricos ao longo da cultura material, da tecnologia, e facilitou
              o desenvolvimento do trabalho arqueolgico.


               24
     No incio do sculo xx, aventureiros que foram depois considerados "os pais" da




                                                                                          Arqueologia
Arqueologia, empreenderam grandes expedies atrs de tesouros enterrados por
antigas civilizaes. Esse foi o perodo das grandes descobertas arqueolgicas, como a
cidade de Troia, na Turquia, a tumba de Tutancamom, no Egito, e as cidades romanas
soterradas de Herculano e Pompeia. Entretanto, os aventureiros/arquelogos que
fizeram esses achados estavam mais interessados em desenterrar artefatos que
tivessem valor artstico, e principalmente em desenterrar tesouros famosos, do que
em realizar pesquisas sistemticas sobre as sociedades em questo.
     Foi apenas aps o final da Segunda Guerra Mundial que a Arqueologia ganhou
nova cara, mais cientfica, ao investir na estratigrafia e nas tcnicas de escavao.
Nesse momento, os arquelogos comearam a utilizar recursos das cincias naturais
para auxiliar suas pesquisas, principalmente empregando a fsica e a qumica para
estabelecer datas precisas sobre seus achados. Surgiram, assim, as principais tcnicas
de datao de artefatos arqueolgicos, entre elas a mais famosa de todas, a datao por
carbono 14 ou radiocarbnica, que permitiu pela primeira vez estabelecer com preciso
os perodos a que pertenciam os vestgios mais antigos encontrados nas escavaes.
      Da em diante, a partir dessa maior preciso no estabelecimento das etapas
temporais a que pertenciam seus achados, os arquelogos comearam a ter outras
preocupaes de carter metodolgico, comeando a refletir sobre os meios para se
construir um campo de conhecimento especfico para sua nova cincia. Comearam,
assim, a surgir questes em torno da forma como, por exemplo, a cultura material
 que  o objeto de estudo da Arqueologia  est relacionada com o processo de
formao da sociedade a qual pertence. Ou seja, surgiram reflexes acerca da natureza
do prprio objeto de pesquisa que levaram a Arqueologia a se tornar uma cincia
cada vez mais subjetiva e interpretativa, e a se aproximar de cincias humanas como
a Etnologia e a Sociologia.
     Hoje, a Arqueologia  uma das disciplinas humansticas que mais cresce no Brasil:
parques nacionais foram fundados em torno de significativos stios arqueolgicos,
como o Museu do Homem Americano, em So Raimundo Nonato, no Piau; cursos
de Arqueologia foram abertos nas universidades brasileiras, e cada vez mais pesquisas
arqueolgicas, histricas ou pr-histricas so financiadas pelo pas. Todo esse
interesse se reflete em mais conhecimento produzido que, no entanto, nem sempre
chega at o grande pblico ou aos alunos do ensino Mdio e Fundamental. Assim,
apesar do grande interesse que a Arqueologia gera, nem sempre  fcil para o professor
acompanhar as novas pesquisas e os novos resultados, pois esses esto quase sempre
restritos s publicaes especializadas, que trazem por sua vez textos em linguagem
pouco acessvel aos leigos. No entanto, h atualmente algumas obras de carter de
divulgao cientfica disponveis no Brasil, permitindo a professores se debruarem


                                                                                   25
              um pouco sobre essa cincia irm da Histria. Os livros dos professores Funari e
Arqueologia



              Prous so exemplos dessas obras, trazendo discusses e descries acerca do mtodo e
              do objeto de estudo da Arqueologia. O livro de Pedro Paulo Funari, especificamente,
              apresenta todo um roteiro para aqueles que querem enveredar pelo campo de estudos
              da Arqueologia no Brasil.
                  Do ponto de vista do trabalho em sala de aula, a Arqueologia e seus mtodos de
              reconstituio das sociedades a partir de restos materiais pode inspirar a construo
              de projetos a serem desenvolvidos pelos alunos, nos quais esses busquem tambm
              reconstruir alguns aspectos da cultura material das sociedades estudadas. O Brasil possui
              ainda um vasto patrimnio de stios arqueolgicos abertos  visitao, onde no apenas
              o conhecimento produzido a partir das escavaes, mas o prprio mtodo de pesquisa
              da Arqueologia est bastante visvel, e  disposio do professor e de seus estudantes.
                  As visitas a stios e os projetos de trabalhos coletivos em sala de aula auxiliam o
              professor a construir o conhecimento com seus alunos, e no mais simplesmente a se
              contentar em repassar as informaes retiradas dos livros. Devemos, ns professores
              de Histria, ter sempre em mente que o conhecimento construdo  o mais valorizado
              pelo indivduo e o mais difcil de ser esquecido ou deixado de lado.

              Ver tAmbm
                    Antiguidade; Civilizao; Cultura; Fonte Histrica; Histria; Iconografia; ndio;
                    Interdisciplinaridade; Patrimnio Histrico; Pr-histria; Tecnologia; Tradio; Tribo.

              sugestes de leiturA
                    Funari, Pedro Paulo. Grcia e Roma. So Paulo: Contexto, 2001.
                    ______. Arqueologia. So Paulo: Contexto, 2003.
                    ______; noelli, Francisco Silva. Pr-histria do Brasil. So Paulo: Contexto, 2002.
                    leroi, A. Os caminhos da Histria antes da escrita. In: le GoFF, Jacques; nora,
                      Pierre. Histria: novos problemas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.
                    martin, Gabriela. Pr-histria do Nordeste do Brasil. Recife: Ed. uFpe, 1997.
                    moniot, Henri. A arqueologia. In: le GoFF, Jacques; nora, Pierre. Histria: novos
                     problemas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.
                    pinSKy, Jaime. As primeiras civilizaes. So Paulo: Contexto, 2001.
                    pinSKy, Jaime (org.). 100 textos de histria antiga. 8. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
                    prouS, Andr. Arqueologia brasileira. Braslia: Ed. UnB, 1992.
                    triGGer, Bruce. Alm da Histria: os mtodos da Pr-histria. So Paulo:
                      epu, 1973.




               26
Arte




                                                                                            Arte
      A Arte  uma constante na histria da humanidade. Todas as culturas possuem
Arte, mas sua diversidade torna difcil sua definio. No pensamento ocidental, a Arte
 a traduo material da beleza. Por sua vez, a beleza  uma noo da Filosofia Clssica
que pode ser entendida como a essncia invisvel de tudo o que  belo. Dentro da
Filosofia Clssica, a beleza  estudada pela Esttica, que procura diferenci-la do belo.
J o belo designa tudo o que, cotidianamente,  captado pela nossa subjetividade e nos
provoca emoo, levando-nos a um estado diferente da normalidade. Mas essa noo
de belo varia de acordo com o tempo, o espao e a cultura, ou seja, o belo  relativo:
o que  belo para ns, no  para um indivduo de outra cultura. Entretanto, alguns
pensadores consideram que h algo de universal no belo e que pode estar ligado 
simetria. Nessa perspectiva, independentemente de todo relativismo cultural, o ser
humano de qualquer tempo e lugar consideraria belo tudo o que fosse harmnico
e simtrico. De qualquer forma, a noo de beleza deriva da noo de belo, assim
como para a tradio ocidental, a Arte deriva da beleza.
      Nesse sentido, para muitos pensadores, a principal tarefa da Arte  representar
a beleza. Ariano Suassuna, em Iniciao  esttica, define a Arte tanto como o dom
criador quanto como o conjunto de todas as Artes, plsticas, literrias, cinema etc.
Fundamentado na Filosofia Clssica, Suassuna estuda a Arte a partir da Esttica e
dos filsofos clssicos, como Plato, Aristteles, Kant e Hegel. Observa assim que,
enquanto para Plato a Arte  o caminho para o mundo das ideias, tendo uma funo
prtica e mstica de integrao do Homem ao Divino, para Aristteles a Arte tem
simplesmente a funo de criar formas e Beleza, sendo puramente imaginativa, sem
nenhuma funo de produo de conhecimento. Poderamos dizer que essas duas
posies representam bem as duas principais vises correntes acerca da Arte. Por
outro lado, nem todas as abordagens sobre a natureza da Arte buscaram respostas na
Esttica como disciplina. Por exemplo, historiadores como Collingwood defendem
que a beleza no aparece particularmente na Arte, e no  seu objeto especfico; Rafael
Agullon afirma que, do ponto de vista histrico, a reflexo esttica fracassou pela
sua subjetividade: as teorias da beleza no campo metafsico e as muitas doutrinas
estticas no puderam evitar o carter intuitivo que a beleza tem para o ser humano.
      Outra noo tambm bastante complexa  a de artista. Enquanto para alguns
o artista  todo aquele que faz Arte, para outros, artista  apenas aquele que elabora
uma obra de Arte com conscincia esttica, ou seja, aquele que tem conscincia de
que est construindo uma obra de Arte. Nessa segunda perspectiva, o artista existiria
apenas na Grcia clssica e no Ocidente a partir do Renascimento. Em outras culturas
e perodos, como no medievo europeu, por exemplo, o artista era um arteso, e a
obra de Arte tinha status semelhante a qualquer objeto produzido pelo trabalho



                                                                                     27
       manual humano. Nesse sentido, e mais ainda naquelas sociedades onde a Arte tinha
Arte



       um fim religioso ou mgico, a maioria das obras  annima, pois pouco importa seu
       autor. S no Renascimento, retomando uma noo grega clssica, o artista se tornou
       um indivduo que se definia como artista, e no como arteso: era o artista-gnio,
       uma celebridade valorizada justamente por produzir Arte. Mesmo em civilizaes
       como a egpcia, onde havia uma clara distino entre a Arte popular e a Arte para a
       elite  distino inexistente nas ditas sociedades "primitivas" , o artista era tambm
       um arteso. A grande inovao do Renascimento no campo da definio do artista
       foi permitir a liberdade de criao quele responsvel pela elaborao da obra de
       Arte. O artista, ento, possuidor da "inventio", passou a ser capaz de produzir suas
       obras sem interferncia. Surgiu da o artista-gnio, o artista que muitas vezes era mais
       valorizado do que a prpria obra, como Da Vinci, Michelangelo, Rafael. Concepo
       que o Ocidente possui ainda hoje.
            A Arte  o grande objeto de estudo de duas disciplinas, a Esttica e a Histria
       da Arte. Ambas tm forte tendncia para o subjetivismo, o que no quer dizer que
       no sigam mtodos rigorosos. No caso da Histria da Arte, desde o comeo do
       sculo xx, a partir da obra de Heirinch Wlfflin, iniciou-se um estudo rigoroso da
       Arte a partir de sua forma e seus estilos. Wlfflin procurou levar os historiadores
       da Arte a se preocuparem com o estilo e a cultura em que foi produzida, e no
       apenas com o temperamento do artista. Historicizou a anlise da obra de Arte,
       criando conceitos como estilo nacional e estilo de poca, procurando basear a
       anlise artstica em aspectos objetivos, como as formas de representao da Arte
       ocidental, o plano, a linha, a profundidade. At Wlfflin, os historiadores da Arte
       acreditavam que a tendncia natural da Arte em todo o mundo era a representao
       da natureza, bem como que ela sempre evoluiria historicamente at conseguir fazer
       isso cada vez com mais perfeio. Ou seja, acreditavam que a tendncia da Arte era
       o naturalismo. Mas Wlfflin afirmou, em 1915, que a Histria da Arte no poderia
       trabalhar com a noo, para ele desajeitada, de imitao da natureza, e que a Arte no
       era um processo acumulativo em busca da perfeio. Essa perspectiva influenciou
       estudiosos mais recentes, como Peter Burke, que, ao pesquisar os artistas da Itlia
       renascentista, defendeu a possibilidade de algumas sociedades terem um interesse
       maior na representao do visvel  ou seja, da natureza  do que outras, o que seria
       o caso da sociedade renascentista. Assim, o naturalismo seria uma questo cultural.
            Harold Osborne, por sua vez, ao estudar o naturalismo grego, definiu-o
       como um conjunto de tcnicas cuja principal motivao era reproduzir cpias
       das aparncias visveis das coisas, dando origem, assim,  Arte naturalista. Outras
       sociedades tambm tiveram Arte naturalista, como os mochicas no Peru, mas foi o
       naturalismo grego que influenciou a Europa e a formao do Ocidente. Nesse sentido,
       a importncia do naturalismo grego  especfico de um perodo e de uma regio, e



        28
no tem valor absoluto, no sendo superior a outras formas de concepo artstica.




                                                                                         Arte
Na verdade, ainda segundo Osborne, a maioria dos estudiosos da Arte acredita que
o naturalismo  uma concepo minoritria na Arte mundial, que, na maioria das
sociedades, prepondera a Arte conceitual, interessada em representar as coisas no
com sua aparncia no mundo visvel, mas com aquilo que considera sua aparncia
verdadeira, que est fora do tempo e do espao. As sociedades produtoras de Arte
conceitual, como diversos grupos tnicos africanos e nativos americanos, no
almejam reproduzir a aparncia acidental do objeto, ou seja, sua aparncia no mundo,
pois esta varia de acordo com o tempo e mesmo com o observador. Mais importante
 representar a aparncia eterna das coisas, perceptvel apenas no mundo invisvel.
     J Arnold Hauser, ao se debruar sobre a Arte da Grcia antiga, ressaltou seu
carter de inovao no sentido de perda do aspecto religioso. Para ele, nesse momento,
a Arte deixou de ter uma funo religiosa. Na verdade, deixou de ter qualquer outra
funo que no a funo de Arte: a Arte era mais um meio para se alcanar alguma
coisa, e passou a ser um fim em si mesmo; deixou de servir  magia, de ser uma
forma de propaganda, e se tornou uma atividade pura, desinteressada, autnoma.
Essa, na verdade,  uma importante questo na Esttica: ser que a Arte tem como
nico objetivo a criao da beleza ou ela s tem validade quando engajada a uma
ideia, com uma finalidade, por exemplo, educativa? Muitos artistas se identificam
com uma ou outra postura, havendo ainda obras de Arte que podem ser classificadas
em posies intermedirias. Nesse contexto, Suassuna d exemplos de algumas
obras de Arte produzidas no teatro que tm maior ou menor grau de preocupao
com a Arte em si ou com determinadas ideologias: Salom, de Oscar Wilde, seria
um exemplo de obra que se preocupa fundamentalmente com a beleza e com a
Arte enquanto tal; j O mal-entendido, de Albert Camus, seria uma pea "engajada",
na qual a preocupao artstica se mistura com inquietaes de ordem filosfica.
     Podemos assim constatar a grande complexidade que envolve o conceito de
Arte, e seu intrnseco envolvimento com a noo de beleza. Hoje, a Histria da Arte
j inclui campos de pesquisa que valorizam a Arte chamada "primitiva", mas s o
fato de cham-la assim j  um juzo de valor que interpreta a Arte ocidental como
superior. Por outro lado, autores como Osborne elaboraram importantes reflexes
que atribuem  Arte conceitual   Arte das sociedades tribais, por exemplo  seu
legtimo valor histrico, apontando seu alto grau de abstrao. No entanto, essa viso
menos etnocntrica ainda est bastante restrita a alguns crculos acadmicos, e 
comum que os educadores brasileiros continuem a repetir frmulas ultrapassadas,
julgando a Arte a partir do naturalismo ocidental. Isso  mais grave porque a
maioria desses educadores realmente no conhece a Histria da Arte, ocidental ou
no.  muito importante que os professores de Histria estudem a Histria da Arte,
conheam os grandes artistas do Ocidente e ultrapassem essa fronteira para buscar



                                                                                  29
       a Arte conceitual africana ou americana. S assim poderemos levar para a sala de
Arte



       aula uma discusso acurada sobre a Arte. Discusso extremamente importante
       para a formao humanstica do indivduo, pois a formao do cidado no pode
       se restringir a conhecimentos tcnicos e pragmticos, mas precisa oferecer tambm
       uma viso universalista do mundo, que pode ser encontrada na Arte como um todo.
            Como atividade para ser realizada como os alunos, a comparao entre obras de
       arte, africanas e renascentistas, por exemplo, frisando a opo que cada cultura faz ou
       no pelo naturalismo,  um excelente instrumento para derrubar vises etnocntricas
       pr-concebidas, ao enfatizar o enorme grau de abstrao necessrio para a elaborao
       da Arte conceitual, e o considervel desenvolvimento filosfico requerido por tais
       obras. Antes de tudo, entretanto, cabe a docentes e discentes buscarem os instrumentos
       conceituais que lhes permitiro ler melhor a Arte, em suas diversas manifestaes
       (pinturas, colagens, msicas, teatro, poesia, artes manuais, danas etc.), sem estabelecer
       uma dicotomia rgida entre a"obra-prima"e as Artes ditas"menores". Nessa empreitada,
       a valorizao do direito de fruir a Arte deve ser um dos debates preliminares, e os museus
       e os artistas locais devem ser valorizados e discutidos.

       Ver tAmbm
             Arqueologia; Barroco; Cidade; Cultura; Etnocentrismo; Folclore; Fonte Histrica;
             Iconografia; Imaginrio; Interdisciplinaridade; Patrimnio Histrico; Relativismo
             Cultural; Renascimento.

       sugestes de leiturA
             burKe, Peter. O Renascimento italiano: cultura e sociedade na Itlia. So Paulo:
               Nova Alexandria, s. d.
             edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
               entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
             Funari, Pedro Paulo. Grcia e Roma. So Paulo: Contexto, 2001.
             marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria moderna atravs
              de textos. So Paulo: Contexto, 1997.
             napolitano, Marcos. Cultura brasileira: utopia e massificao. 2. ed. So Paulo:
              Contexto, 2004.
             HauSer, Arnold.Histria social da arte e da literatura.So Paulo: Martins Fontes,1998.
             oSborne, Harold. Esttica e teoria da arte. So Paulo: Cultrix, 1993.
             SuaSSuna, Ariano. Iniciao  esttica. Recife: Ed. uFpe, 1992.
             WlFFlin, Heinrich. Conceitos fundamentais da Histria da Arte. So Paulo:
              Martins Fontes, 1996.


        30
 b

bArroco
         B
     Barroco  um termo bastante comum nos livros didticos de Histria. Em geral
fazendo referncia a um estilo artstico surgido na Europa ocidental nos sculos xvii e
xviii, considerado um dos primeiros estilos de Arquitetura, Artes Plsticas e Literatura

do Brasil, com nomes como Gregrio de Matos, Padre Antnio Vieira e Aleijadinho.
     Nesse sentido, o Barroco era o estilo artstico da Reforma Catlica, nascido do
Conclio de Trento, no momento em que a Igreja perdia fiis devido s Reformas
Protestantes na Europa do sculo xvi. Entendendo a Arte como instrumento de
propaganda e pregao, a Igreja passou, ento, a exercer maior controle sobre a
produo artstica, construindo uma estratgia que tambm foi bastante utilizada
pelo Estado absoluto como forma de glorificar o poder de seus monarcas. E uma
das suas principais caractersticas era o poder que os patrocinadores tinham de
ditar os temas a serem trabalhados. Um poder maior do que o dos prprios artistas.
     Do ponto de vista da forma, a arquitetura barroca se caracterizou pela profuso
de detalhes e pelo luxo com altares banhados a ouro e paredes decoradas com
entalhes. A pintura, por sua vez, esteve marcada pela dramaticidade, predominando
os temas religiosos. O estilo de pintura conhecido como claro e escuro, muito
empregado ento, transformava a tela em um palco e criava uma empatia entre
o espectador e a cena retratada, quase sempre de martrio ou da vida dos santos.
     J na Literatura, o formalismo e o rebuscamento conviveram com a ambiguidade
dos temas. O poeta baiano do sculo xvii, Gregrio de Matos, foi um bom exemplo
de escritor barroco. Sua obra rene, lado a lado, poemas religiosos e versos satricos
e mundanos, representando a convivncia de influncias humanistas e preocupaes
religiosas. O imaginrio barroco misturava a religiosidade moralista e rigorosa e o
mundanismo perdulrio e humanista.
     Essa definio do Barroco como estilo artstico  bastante difundida pela
historiografia, mas no  a nica. H uma definio que apresenta o barroco como
um conceito social e cultural. Um dos principais representantes da corrente de
pensadores que trabalha com essa definio  o historiador espanhol Jos Antonio
Maravall. Em sua obra A cultura do Barroco, Maravall definiu-o como a estrutura


                                                                                    31
          sociocultural da Espanha nos sculos xvi e xviii, auge do imprio espanhol. Essa
Barroco



          estrutura teria atingido tambm outros pases europeus, assim como a Amrica
          ibrica, e seria marcada, entre outras caractersticas, por um Estado absolutista e
          pela grande influncia da Reforma Catlica e da Inquisio.
               Muitas vezes, a sociedade barroca  apresentada por diferentes autores como a
          sociedade do Antigo Regime. Tal nomenclatura foi principalmente empregada para
          sua contraparte na Frana absolutista. O reinado de Lus xiv, por exemplo, chamado
          Rei Sol, considerado por muitos historiadores o auge do Absolutismo, possibilitou
          muitos trabalhos sobre a sociedade barroca francesa, desde os estudos sobre a
          etiqueta e as regras de boas maneiras at reflexes sobre a condio do burgus. J
          o historiador brasileiro Eduardo D'Oliveira Frana, em sua obra Portugal na poca
          da Restaurao, esmiuou o imaginrio e a estrutura social do Barroco na pennsula
          Ibrica, observando especificamente o choque da burguesia em ascenso com a
          nobreza, que gerou uma srie de tenses sociais marcantes no perodo.
               Autores como Maravall e Eduardo D'Oliveira Frana descrevem a cultura barroca
          como tendo seu surgimento a partir da crise econmica e dos conflitos sociais nos
          sculos xvi e xvii. Para superar essa crise, o Estado se tornou mais rgido e novas
          formas de pensamento e de moral foram criadas. Tal sociedade vivia do conflito
          entre burguesia e nobreza, assim como do dualismo de pensamento humanista e
          religioso. Sua cultura foi marcada pelo enrijecimento das diferenas sociais entre os
          estamentos da sociedade do Antigo Regime, pelo aumento dos privilgios da nobreza,
          por um intenso controle da Igreja sobre a vida cotidiana e pela criao de uma rgida
          etiqueta, com uma moral dos bons costumes que visava a separar o nobre educado
          do burgus inculto. Para Maravall, essa cultura nasceu da hispanizao da Europa,
          que aconteceu durante a expanso do Imprio espanhol no sculo xvi, tendo assim
          caractersticas marcadamente hispnicas.
               A sociedade barroca baseava-se nos valores de uma nobreza submetida ao
          poder de um rei absoluto. E entre suas principais caractersticas estava o desprezo
          pelo trabalho. Cultivar o cio e ostentar o luxo tornaram-se, dessa forma, os mais
          marcantes aspectos sociais do Barroco. Tal imaginrio criou tambm uma etiqueta
          elaborada para distinguir pelas "boas maneiras" o nobre do burgus e do "peo",
          como ento se chamavam os membros da plebe.
               O Barroco era tambm uma cultura teatral, em que todos os atos cotidianos
          se tornavam uma forma de afirmao do status social. Assim, a nobreza e os que
          aspiravam a ela deveriam se vestir com luxo, ostentando no apenas riqueza, mas bom
          gosto. O espao pblico transformou-se, dessa forma, no palco dessa ostentao. As
          festas pblicas, os enterros e as procisses assumiram, assim, um carter suntuoso
          e teatral, fosse na Frana, na Espanha ou na Amrica colonial.


           32
      No Brasil colonial, as cidades da zona canavieira e de Minas Gerais se




                                                                                            Barroco
transformaram em palco para as procisses barrocas, nas quais os santos eram
reverenciados com uma profuso de luxo em carros alegricos, com msica e joias
que revestiam as imagens catlicas. Tambm o ritual fnebre da extrema-uno e o
enterramento caracterizavam-se como festividades, pois em uma cultura na qual o
valor social estava na aparncia, a pompa funerria indicava o prestgio do defunto
na sociedade. Os testamentos transformaram-se em registros dos planos para os
funerais, em que vastas quantias eram deixadas para que missas fossem rezadas,
carpideiras fossem contratadas para chorar o morto e os tmulos fossem construdos
dentro das igrejas, o mais perto possvel do altar-mor.
     Com base nessas consideraes, podemos perceber que o conceito de Barroco
possui significados mais amplos do que apenas sua caracterizao como estilo artstico.
Significados que envolvem o estudo do imaginrio e das mentalidades. Tal abordagem
tem grande importncia para o estudo das mentalidades e da cultura popular
contempornea em diversas regies brasileiras, pois muitos de nossos costumes atuais
so herana direta do Barroco colonial: o preconceito ainda existente contra o trabalho
braal e contra quem o executa; os grandes investimentos de dinheiro pblico em
carnavais e festividades como forma de apaziguar as inquietaes populares; os gastos
pessoais em roupas e aparncia, muitas vezes maiores do que o possibilitado pelas rendas
familiares. Todas essas prticas so heranas da mentalidade barroca vigente no perodo
colonial. Alm disso, a compreenso do Barroco  uma ferramenta para o entendimento
de muitas tradies populares atuais, de festas religiosas ao carnaval, passando por
tradies regionais, como o maracatu e o ritual de "beber o morto", entre outras.
     Essa riqueza de significados e a intrnseca ligao entre a cultura barroca colonial
e diversos elementos ainda existentes na mentalidade contempornea de diferentes
grupos sociais brasileiros pode ser levada para a sala de aula. Usar a continuidade
desses elementos na contemporaneidade  uma ferramenta possvel para trabalhar
a importncia da Histria Moderna e da Histria Colonial. Em qualquer regio
do Brasil, pode-se ainda encontrar elementos culturais remanescentes dos
costumes barrocos: a escola de samba e o carnaval; velrios e rituais fnebres;
a importncia dada s aparncias; os gastos com a ostentao; o desprezo pelo
trabalho, particularmente o braal, o cultivo do cio etc. Analisar essas caractersticas
atuais a partir de suas origens coloniais  uma ferramenta para auxiliar os alunos
a perceberem as permanncias na Histria e a importncia da disciplina para a
compreenso de seu prprio cotidiano.

Ver tAmbm
    Absolutismo; Arte; Colonizao; Folclore; Humanismo; Imaginrio; Inquisio;
    Mentalidades; Miscigenao; Renascimento; Trabalho; Tradio.


                                                                                     33
            sugestes de leiturA
Burguesia




                  vila, Affonso. O ldico e as projees do mundo Barroco: uma linguagem a dos
                   cortes, uma conscincia a dos luces. So Paulo: Perspectiva, 1994.
                  edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
                    entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
                  Frana, Eduardo D'Oliveira. Portugal na poca da Restaurao. So Paulo:
                    Hucitec, 1997.
                  maravall, Jos Antonio. A cultura do Barroco: anlise de uma estrutura histrica.
                   So Paulo: Edusp/Imprensa Oficial, 1997.
                  tinHoro, Jos Ramos. As festas no Brasil Colonial. So Paulo: Ed. 34, 2000.
                  triad, Juan-Ramn. Saber ver a arte barroca. So Paulo: Martins Fontes, 1991.




            burguesiA
                  sempre difcil definir um grupo social, ainda mais como a burguesia,
            cujos significados mudaram ao longo do tempo, mas que tambm so alvo de
            controvrsias. A definio mais simples de burguesia  aquela que associa o termo ao
            comerciante, ao burgus e ao capitalista. Uma associao que, no entanto, simplifica
            a heterogeneidade profissional dos membros da burguesia, anulando as diferenas
            que muitas vezes existem entre burgueses e capitalistas. Alm disso, essa associao
            rgida tambm no d conta das variaes histricas e geogrficas assumidas pelo
            conjunto da burguesia ao longo do tempo. Outra definio bastante empregada
             aquela cunhada por Marx e Engels em meados do sculo xix, segundo a qual a
            burguesia  a classe dos capitalistas modernos, proprietrios dos meios de produo
            e exploradores da classe dos trabalhadores assalariados. Essa definio, apesar de
            correta, foi criada para delinear apenas as diferenas que antagonizavam capitalistas e
            proletrios nos idos de 1848, quando esse conceito apareceu no Manifesto comunista
            com um sentido fortemente poltico e revolucionrio.
                 Por outro lado, os significados atribudos  burguesia variavam muito entre
            as diversas regies da Europa moderna. Segundo James S. Amelang, no Noroeste
            europeu desse perodo, um burgus era quem residia em uma cidade e gozava de
            certos privilgios e direitos, situao baseada no direito de nascimento, no fato de
            o indivduo residir h muito tempo na cidade e na posse de um mnimo de riqueza
            (geralmente casa ou outros bens imveis urbanos). At o sculo xviii, Paris definia
            o burgus como o indivduo que tivesse vivido na cidade por mais de um ano, que


             34
no trabalhasse como criado, que no morasse em casa alugada e pagasse os impostos




                                                                                         Burguesia
regularmente. Em outros pases no mesmo perodo, ser burgus significava ser
portador de um ttulo legal que correspondesse a um determinado estatuto e a uma
categoria associada tanto a uma atividade econmica rendosa como a um estilo de
vida aproximado ao da nobreza. Ainda segundo Amelang, as classes mais baixas
podiam definir como burgus o patro, seu chefe, normalmente uma pessoa rica
que empregava pessoas da classe inferior; enquanto para os aristocratas, o burgus
era definido como uma pessoa ridcula, de modos grosseiros, falta de gosto e
inadaptado socialmente. Entre as atividades profissionais consideradas componentes
da burguesia francesa do sculo xviii estavam os artesos ricos, os negociantes, os
mercadores, os profissionais liberais, os banqueiros e os funcionrios do governo
(em geral, os de baixo escalo), o que demonstra a heterognea composio social
da burguesia, que comportava desigualdades imensas, alm de tenses e conflitos
entre seus membros. Apenas um ponto unificava esse vasto espectro social: o fato
de que um burgus deveria ter propriedades. Assim, a definio marxista tambm
no caracteriza a burguesia como um todo ao longo da histria.
     Atualmente, os estudiosos tm evitado construir definies muito simples para
o conceito de burguesia. O Dicionrio das cincias histricas, organizado por Andr
Burguire em 1986, por exemplo, recupera o processo histrico que formou a burguesia.
Para ele, os termos burgus e burguesia surgiram por volta do ano 1000 e provm
etimologicamente de burgensis, vocbulo derivado de burg, que significa "o lugar
fortificado", em lngua germnica. Aos poucos, entretanto, esses vocbulos se tornaram
tipicamente franceses, de tal modo que a palavra francesa bourgeoisie (burguesia)
passou a ser a forma mais usual para se referir a essa classe. Na lngua inglesa, que
no possui uma palavra para designar a burguesia, a traduo mais prxima acabou
sendo middle class, um termo ainda mais vago do que o original, tambm empregado
pelos historiadores, cuja traduo para o portugus equivale  "classe mdia".
     Para Burguire, os contornos sociais da burguesia s vieram a ser delineados
com mais clareza aps a Revoluo Francesa, normalmente considerada a revoluo
burguesa clssica. Foi s ento que o papel histrico da burguesia passou a ser fruto
de anlises. Historiadores liberais franceses como Augustin Thierry e Guizot foram os
primeiros a observar a ascenso da burguesia no incio do sculo xix. Guizot, em sua
Histoire de la civilisation en Europe, deu nfase ao processo histrico de formao da
burguesia, localizando sua origem no contexto do Renascimento urbano do sculo
xi. Ele foi um dos primeiros a notar que a burguesia mudou ao longo do tempo, bem

como que em seu incio no era o que veio a se tornar mais tarde. Profundamente
liberal, contemporneo dos avanos burgueses da dcada de 1830, Guizot exaltava
o papel revolucionrio da burguesia de seu tempo, o que era comum no sculo xix.


                                                                                  35
            At mesmo no Manifesto comunista (obra destinada a organizar os proletrios
Burguesia



            na luta contra os capitalistas, identificados como burgueses), podemos encontrar
            passagens exaltando a ao burguesa na transformao das foras produtivas e na
            conduo das naes  civilizao. A chamada Histria Positivista, na segunda metade
            do sculo xix, tambm invocou o papel histrico da burguesia, mas no avanou
            na caracterizao dessa classe. Na verdade, a reflexo histrica sobre a burguesia s
            ganhou impulso entre 1920 e 1950, com o aparecimento da chamada Escola dos
            Annales, na Frana. Mas mesmo em 1955, grandes historiadores ainda preferiam
            evitar elaborar uma definio geral do que seria um burgus, julgando ser melhor
            avanar primeiro nos estudos em diferentes regies.
                 Seja como for, mesmo reconhecendo a dificuldade de se caracterizar o grupo, hoje
            se sabe bem mais acerca da burguesia, de sua formao e de seu desenvolvimento.
            Desde os Annales para c, a historiografia vem revendo a noo de que o burgus
            e o capitalista so uma s pessoa. Em primeiro lugar, durante a Idade Moderna
            nem todo burgus obtinha seu capital de forma tipicamente capitalista, como pelo
            comrcio e emprstimos a juros. Muitos deles, inclusive, compravam propriedades
            agrcolas e cargos pblicos no anseio de viver de rendas como a aristocracia. Assim,
            no sculo xviii, a burguesia no era necessariamente capitalista, nem os capitalistas
            eram necessariamente burgueses, dado o grande nmero de cidados ricos que
            compravam cargos pblicos e assumiam uma posio de passividade econmica.
             em parte por essa razo que certos autores questionam o carter burgus da
            Revoluo Francesa. Por outro lado, deve-se admitir que, em muitos casos, o burgus
            e o capitalista se equivaliam. Muitos burgueses, por exemplo, pouparam os lucros
            auferidos por meio de atividades comerciais e passaram a investir nas indstrias
            txteis e de ferro, tornando-se, desse modo, os representantes autnticos da classe
            burguesa industrial, em particular na Inglaterra do sculo xix. Nesse pas, inclusive,
            foi possvel que pessoas de origem modesta se transformassem em industriais.
                 Outro elemento importante na definio do burgus  a frequente associao que se
            faz entre burguesia e cidade. De fato, a cidade foi o lugar onde se desenvolveu a burguesia,
            desde o chamado Renascimento urbano na Baixa Idade Mdia europeia. J durante a
            Idade Moderna, a burguesia comeou a se distinguir tanto das classes baixas quanto da
            aristocracia, aos poucos construindo uma identidade prpria por meio do consumo
            de bens culturais, conciliando as exigncias prticas dos negcios com a aquisio de
            uma cultura que demandava cio, requintando seus gostos e ampliando seu papel de
            consumidor de cultura.  preciso, ainda, ter sempre em mente que esse grupo social
            mudou bastante ao longo do tempo e que a burguesia moderna, associada ao comrcio
            e s cidades, no corresponde  burguesia industrial contempornea da Revoluo
            Industrial, e muito menos  burguesia atual, que assumiu formas as mais diversas ligadas
            ao capital financeiro e  internacionalizao cada vez maior dos negcios.



             36
     Mesmo com as dificuldades em se definir a burguesia, muitos autores reconhecem




                                                                                         Burguesia
seu papel revolucionrio no Ocidente, particularmente na transformao da Europa
aristocrtica em uma Europa burguesa. Esse carter revolucionrio, entretanto, para
Modesto Florenzano, foi no mnimo contraditrio, pois, para avanar, a burguesia
precisou conciliar com a antiga ordem e, ao mesmo tempo, evitar a radicalizao dos
demais grupos que compunham o Terceiro Estado francs na poca da Revoluo.
Assim, essa burguesia reformista teria avanado no porque foi revolucionria em
si mesma, mas devido  conjuntura que a Revoluo Industrial desencadeou e pela
ao poltica revolucionria das classes populares. Apesar dessa tese ser controversa,
os efeitos gerais da chamada Era das Revolues, como Eric Hobsbawm designou
o perodo de 1789 a 1848, apontam para a consolidao da burguesia como grupo
social distinto e dominante, que teve no sculo xix o seu sculo de ouro. Por volta
de 1830, a sociedade europeia j estava se tornando verdadeiramente burguesa.
     Por ltimo,  preciso lembrar o longo processo de construo da mentalidade
burguesa e da viso de mundo pautada no clculo, na racionalidade pragmtica
que foi se delineando desde finais da Idade Mdia at o presente. Durante todo
esse tempo, a burguesia se metamorfoseou e hoje j h aqueles que questionam
se ela ainda existe. Como exerccio para a sala de aula, o professor de Histria
pode traar a "evoluo" da burguesia no Ocidente, tentando estabelecer a relao
passado/presente, e identificar no mundo atual grupos que podem ser descritos
como burgueses. Vale tambm ressaltar as consequncias da atuao da burguesia
na sociedade contempornea, analisando as propagandas de produtos e servios, as
notcias econmicas (ndices de crescimento econmico, de emprego/desemprego,
as greves, as taxas de exportaes/importaes), alm de notcias que relacionam
economia e temas como ecologia, poltica etc., incentivando os alunos a buscar
nesses dados a influncia da burguesia na transformao do mundo.

Ver tAmbm
    Capitalismo; Cidadania; Classe Social; Iluminismo; Imperialismo; Liberalismo;
    Modernidade; Nao; Revoluo Francesa; Revoluo Industrial.

sugestes de leiturA
    edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
      entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
    Florenzano, Modesto. As revolues burguesas. So Paulo: Brasiliense, 1998.
    GreSpan, Jorge. Revoluo Francesa e Iluminismo. So Paulo: Contexto, 2003.
    HobSbaWm, Eric. A era das revolues: Europa, 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz
     e Terra, 1997.


                                                                                  37
                 ______. A era do capital, 1848-1875. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
Burguesia



                 Karnal, Leandro. Estados Unidos: a formao da nao. So Paulo: Contexto, 2001.
                 luca, Tania Regina de. Indstria e trabalho na Histria do Brasil. So Paulo:
                   Contexto, 2001.
                 marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria moderna atravs
                  de textos. So Paulo: Contexto, 1997.
                 ______. Histria contempornea atravs de textos. 10. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
                 ______. Histria do tempo presente. So Paulo: Contexto, 2003.
                 marx, Karl; enGelS, Friedrich. O manifesto comunista. Rio de Janeiro: Paz e
                  Terra, 1997.
                 pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
                   Contexto, 2003.
                 SantiaGo, Theo (org.). Do feudalismo ao capitalismo: uma discusso histrica.
                   9. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
                 villari, Rosario (dir.). O homem barroco. Lisboa: Presena, 1995.




            38
 c

cAndombl
         C
     Tradicional religio afro-brasileira, o Candombl hoje se encontra envolvido
em uma situao ambgua; por um lado, tem conhecido amplo crescimento entre as
classes mdias e os crculos intelectuais, mas, por outro, ainda sofre com o preconceito
da maior parte da sociedade brasileira.
     Candombl  a religio que cultua os orixs, divindades do povo iorub, que
chegou ao Brasil como escravo, vindo principalmente da regio onde hoje se situa a
Nigria. A religio dos orixs logo se misturou com o culto aos vodus, do povo fon
do Daom, tambm escravizado, dando origem ao Candombl chamado ketu-jeje
ou jeje-nag. Mas tambm a religio dos inkices, de origem banto, recebe o nome de
Candombl,  o Candombl de Angola. No entanto, para autores como Rita Amaral,
o candombl  especificamente o culto iorubano aos orixs. Tambm autores clssicos
como Ren Ribeiro preferem se referir aos cultos afro-brasileiros em geral e no utilizar
a palavra candombl para designar todos os cultos, como o xang e a macumba. Apesar
de designar originalmente o culto aos deuses iorubs, atualmente candombl  a palavra
usualmente empregada para nomear todas as religies de origem africana no Brasil.
     As origens do Candombl esto na colonizao do Brasil. Mas ao contrrio da
crena comum, o Candombl no  uma religio africana, mas sim um conjunto de
cultos e religies nascidos no Brasil a partir de estruturas religiosas africanas. Mesmo
os cultos mais puristas do Candombl, ou seja, os que ainda mantm a lngua iorub
original, como  o caso de vrios terreiros baianos, nasceram mesmo na Amrica.
Para antroplogos como Sidney Mintz e Richard Price, toda a cultura afro-americana
se diferenciou consideravelmente de suas matrizes africanas pela prpria mistura de
etnias realizada pelo trfico de escravos. Assim, teria sido impossvel para a maioria
dos escravos e afrodescendentes na Amrica manter a religio original, pela simples
razo de estarem constantemente em contato com diferentes povos africanos, com
diferentes religiosidades. Essa convivncia forada teria gerado uma cultura nova,
baseada em matrizes africanas, mas de carter miscigenado; tal situao pode ser
percebida no fato de que a religio iorub dos orixs foi assimilada por indivduos
de diferentes etnias africanas, dando origem ao Candombl, o que aconteceu em



                                                                                     39
            outros lugares das Amricas, onde outras religies se desenvolveram com base nas
Candombl



            mesmas matrizes africanas, com semelhanas ao Candombl, mas no exatamente
            idnticas a ele, como  o caso da Santeria cubana e do Vodu haitiano.
                 O culto aos orixs surgiu originalmente nas cidades-estados do delta do rio Nger,
            sendo as principais Oio e If. Quando trazidos para o Brasil, os iorubs foram designados
            genericamente como nao ketu, termo pelo qual seus cultos ainda so conhecidos.
                 Tambm na frica ocidental, prximo aos territrios iorubs, existiam na
            Idade Moderna o reino dos fons no Daom e o imprio Axanti. Esses povos, e
            mais os mahins, agonis e vrios outros, eram chamados de adjeje pelos iorubs, ou
            seja, estrangeiros. E no Brasil foram todos generalizados como jejes. O Candombl
            jeje-nag, ou seja, a mistura dos cultos iorub e fon,  o predominante no Brasil.
            Outro povo que teve grande importncia no Brasil escravista foi o banto, que deu
            origem  religio dos inkices. Os inkices so divindades muitas vezes associadas
            aos orixs, mas que possuem, no entanto, suas particularidades, e seu culto no
            constitui simplesmente uma variante da religio dos orixs. Traficados sobretudo
            para o Recife e Rio de Janeiro, enquanto os fons e iorubs foram preferencialmente
            para a Bahia e o Maranho, os povos de lngua banto vinham dos grandes Estados
            expansionistas onde hoje est o Congo e Angola, ento reinos do Congo e Ndongo.
            Um dos principais cultos do reino do Congo era a celebrao do manicongo, o
            imperador, visto como a encarnao da fora vital de todo o reino. Culto que deu
            origem no Brasil a uma solenidade de grande influncia na cultura colonial, a festa
            de coroao do rei do Congo, da qual surgiu o maracatu nao.
                 Enquanto os iorubs adoravam os orixs, os fons cultuavam os vodus e os
            bantos, os inkices. Todas so divindades animistas, que encarnam aspectos do mundo
            natural e da personalidade humana. Houve grande fuso de vodus e orixs, assim
            como de orixs e inkices, com predominncia quase sempre dos orixs. No entanto,
            lembremos, o prprio maracatu vem de uma forma de celebrao religiosa de origem
            africana, que pouco tinha a ver com o Candombl como o entendemos hoje.
                 O Candombl dos orixs tem por eixo principal o equilbrio entre o ser humano
            e a divindade. Os ensinamentos so transmitidos, ainda hoje, por via oral e se baseiam
            em tradies seculares, nas quais os mitos e as lendas acerca da vida e feitos dos orixs
            tm grande importncia. Na cosmologia do Candombl, o universo se divide em
            orun e ay, sendo o primeiro o mundo perfeito criado por Olorum, e o ay o mundo
            terreno, onde habitam os homens, que  apenas um reflexo imperfeito do orun. O
            Candombl enfatiza o espao sagrado e a presena dos orixs na vida de cada um. Seus
            praticantes so o povo de santo, que vivenciam uma tica particular, em que os orixs
            tm caractersticas humanas, com emoes e atitudes semelhantes aos da humanidade
            e em que o bem e o mal so vistos de acordo com o contexto, sendo o nico pecado


             40
imperdovel no cultuar os orixs. A alegria deve estar sempre presente, e o mundo




                                                                                           Candombl
deve ser vivido da melhor maneira possvel. Os principais valores do Candombl so,
assim, a alegria, a beleza, a sensualidade, e devem estar sempre expressos no cotidiano.
Para Rita Amaral,  essa viso de mundo que caracteriza o ritual do Candombl como
uma grande festa. Todas essas caractersticas so especficas do Candombl dos orixs
ou jeje-nago, nascido do sincretismo fon/iorub, e diferem culto banto dos inkices  o
Candombl de Angola , que possui suas particularidades.
     Os mitos tm grande importncia no Candombl, pois para os iorubs nada 
novidade, tudo j aconteceu. E todos os acontecimentos foram reunidos por Exu, o
mensageiro, em 301 contos, ou seja, em incontveis contos, para guiar os orculos,
chamados de babals ou pais do segredo, e guiar homens e mulheres em seu cotidiano.
A arte da adivinhao, que contm as respostas para todos os problemas, est
associada ao conhecimento dos mitos, hoje dominado pelos pais e mes de santo.
     No imaginrio iorub, os orixs so os deuses que receberam de Oludumar ou
Olorum, o Ser Supremo, o encargo de governar o mundo. Na frica, nos territrios
iorubs, a maioria dos orixs tm seus cultos restritos a determinadas reas, mas
nas Amricas, os cerca de vinte orixs cultuados no Brasil e em Cuba so cultuados
normalmente por todo o territrio. Os principais orixs do Brasil so: Exu, o
mensageiro, sempre presente, pois faz a ligao entre os orixs e os deuses.  o orix
do movimento, da mudana, da reproduo; Ogum, senhor dos caminhos, do ferro,
da metalurgia, da guerra, da tecnologia e das oportunidades pessoais; Nan, a senhora
da terra, guardi do saber ancestral; Xang, o deus do trovo, senhor do poder secular
e da justia, grande patrono do candombl no Brasil; Ians ou Oi, senhora dos ventos,
das tempestades, da sensualidade feminina, dos espritos dos mortos e do cotidiano
feminino; Oxum, deusa do amor, da fertilidade, das guas doces e do ouro; e Iemanj,
senhora do mar, me dos homens e dos peixes, um dos mais influentes orixs do Brasil.
     Desde a colonizao, a perseguio e a intolerncia da Igreja Catlica para com
outras religies demonizaram o candombl, associando-o  "coisa do diabo". Por
isso, muitas das formas de Candombl pelo pas, como a macumba e o xang, ainda
hoje so consideradas pela sociedade "magia negra", feitiaria e satanismo. Apesar
disso, o estudo do Candombl e das religies afro-brasileiras j  bastante antigo no
Brasil e est na prpria origem da Antropologia brasileira. Estudiosos como Nina
Rodrigues e Artur Ramos j estudavam o tema no incio do sculo xx. Mas foi a
partir da dcada de 1950 que surgiram antroplogos como Pierre Verger e Roger
Bastide, que revolucionaram o estudo das religies afro-brasileiras. Ambos estudaram
o Candombl baiano, mas na dcada de 1970 Ren Ribeiro pesquisou o xang
pernambucano, culto derivado da religio dos orixs, abrindo novas perspectivas de
anlise. Atualmente, a cultura e a religiosidade afro-brasileiras so temas reconhecidos


                                                                                    41
            e amplamente estudados pela Histria, Antropologia e Sociologia, mas o preconceito
Candombl



            ainda no acabou. Ainda  possvel vermos, inclusive, educadores que discriminam
            alunos adeptos do Candombl. Devemos lembrar que o respeito ao outro comea
            perto de ns e que a cidadania s pode ser atingida por todos quando as minorias,
            sejam tnicas, sejam religiosas, forem respeitadas em sua prpria identidade. E para
            respeitarmos,  preciso conhecer esse outro.
                 O Candombl, assim, torna-se um tema obrigatrio em sala de aula. Hoje, no
            incio do sculo xxi, a legislao educacional brasileira tem avanado buscando colocar
            a Histria da frica nos currculos escolares. Mas no basta a legislao,  preciso que
            os profissionais de ensino tenham conscincia de que, para formar cidados, deve-se
            derrubar preconceitos arraigados no cotidiano. Primeiro que tudo, para entender
            os cultos afro-brasileiros  preciso estudar os povos africanos e sua capacidade de
            resistncia e adaptao ao contexto adverso no continente americano. A seguir, como
            para a maior parte dos docentes e discentes, o tema aparece como novidade, como
            algo um tanto extico, uma estratgia til pode ser o estudo combinado de outras
            mitologias e religiosidades politestas j mais prximas ao universo de todos. Nessa
            perspectiva, a Grcia pode se apresentar como uma referncia, no no sentido de fazer
            julgamento de valor, mas para estabelecer semelhanas e diferenas na compreenso
            do mundo material e espiritual. Trabalhar com a perspectiva filosfica do Candombl,
            com as cidades-estados de onde vieram seus primeiros elementos culturais e com
            os mitos e as lendas dos orixs, associados ao estudo da cultura grega clssica, pode
            facilitar a aproximao com a cultura africana.

            Ver tAmbm
                  Cidadania; Colonizao; Etnia; Identidade; Miscigenao; Mito; Nao; Negro;
                  Politesmo; Raa; Religio; Tradio.

            sugestes de leiturA
                  amaral, Rita. Xir! O modo de crer e de viver no candombl. Rio de Janeiro/So
                   Paulo: Pallas/Educ, 2002.
                  baStide, Roger. O candombl da Bahia. So Paulo: Companhia das Letras, 2001.
                  cacciatore, Olga. Dicionrio de cultos afro-brasileiros. So Paulo: Forense
                   Universitria, 1988.
                  Karnal, Leandro (org.). Histria na sala de aula: conceitos, prticas e propostas.
                   So Paulo: Contexto, 2003.
                  neveS, Maria de Ftima Rodrigues das. Documentos sobre a escravido no Brasil.
                   3. ed. So Paulo: Contexto, 2002.



             42
    pinSKy, Jaime. A escravido no Brasil. So Paulo: Contexto, 1993.




                                                                                          Capitalismo
    prandi, Reginaldo. Mitologia dos orixs. So Paulo: Companhia das Letras, 2001.
    ribeiro, Ren. Cultos afro-brasileiros do Recife: um estudo de ajustamento social.
      Recife: Boletim do Instituto Joaquim Nabuco, 1952.




cApitAlismo
     Podemos definir Capitalismo como um sistema econmico surgido no Ocidente,
na Idade Moderna, que se expandiu pelo mundo contemporneo nos sculos
seguintes. Assim, pensar o Capitalismo  uma forma de compreender o presente.
Hoje,  esse o sistema econmico que impera em uma escala praticamente global,
rompendo fronteiras e culturas. Mas para entendermos sua hegemonia no mundo
contemporneo, precisamos refletir sobre suas origens.
     Historicamente, o Capitalismo assumiu diversas fases. Surgiu como Capitalismo
comercial, fase chamada de mercantilista, entre os sculos xvi e xviii, e sobre a qual
alguns autores discordam se constituiu de fato uma etapa propriamente capitalista
ou se deve ser interpretada apenas como um perodo de transio entre estruturas
feudais e estruturas capitalistas; a segunda fase do Capitalismo  o momento em
que ele atingiu com vigor a produo industrial. Era o Capitalismo industrial de
livre concorrncia, caracterstico dos primeiros avanos da Revoluo Industrial
na Inglaterra de fins do sculo xviii e grande parte do sculo xix. A seguir, surgiu o
Capitalismo monopolista, tpico do imperialismo dos anos 1870-1914, e caracterizado
pela concentrao de capitais, pela luta por mercados e pelo protecionismo das
Naes em competio. Por fim, ainda no mesmo perodo emergiu o Capitalismo
financeiro. Nessa fase, grandes bancos concentravam os capitais advindos do
crescimento econmico, e as bolsas de valores negociavam aes das empresas.
Hoje, no incio do sculo xxi, com o fenmeno da globalizao, analistas julgam que
entramos em uma nova fase do Capitalismo. Cada uma dessas etapas foi caracterizada
por avanos cientfico-tecnolgicos que impulsionaram o desenvolvimento das
empresas capitalistas. Atualmente, os avanos no campo da informtica e da
eletrnica vm tendo imensas repercusses na produo capitalista, nas relaes
comerciais e nas relaes sociais de trabalho.
     Diversos autores teorizaram sobre o Capitalismo. Dois dos mais influentes foram os
pensadores alemes Karl Marx e Max Weber, que escreveram suas obras nos sculos xix e
xx, quando o Capitalismo industrial estava no auge. Karl Marx pensou o Capitalismo, no

sculo xix, como um entre vrios modos de produo. Por ser um materialista histrico,


                                                                                   43
              Marx buscou identificar e explicar o conjunto de relaes sociais, econmicas e polticas
Capitalismo



              desse sistema econmico, ou seja, o que caracterizava suas relaes de produo e o que
              tinha permitido o surgimento do Capitalismo como modo de produo dominante.
              Nesse sentido, ele encarou a Era Moderna como a fase em que se deu a chamada
              "acumulao primitiva" de capital, que ocorreu a partir do crescimento das relaes
              comerciais europeias com as reas coloniais do mundo, o que equivaleria ao fenmeno
              designado como Mercantilismo, fase sem a qual o Capitalismo no teria surgido.
                   Para Marx, o Capitalismo  um modo de produo que surgiu no interior do
              Feudalismo, modo anterior, uma vez que a explorao feudal se metamorfoseou em
              explorao capitalista. Para ele, no sculo xvi ainda predominavam estruturas ditas
              feudais na Europa, e aos poucos foi se iniciando um processo de intensificao do
              comrcio mundial, cujo eixo central foi a Europa, e um processo de "fabricao"
              do que viria a ser o proletrio  definido como o trabalhador livre, desprovido dos
              meios de produo , tpico da indstria capitalista. Um dos elementos centrais da
              tese de Marx  a constatao de que o sistema capitalista pressupe uma dissociao
              entre os trabalhadores e a propriedade dos meios de produo. No Feudalismo no
              havia essa dissociao, mas no Capitalismo o antigo servo foi desprovido de todos os
              meios de produo, desvinculado da terra e teve de, em troca de um salrio, vender
              sua fora de trabalho, transformada em mercadoria pelo novo sistema capitalista.
              Assim, a base de todo o processo que forjou o trabalhador assalariado e o capitalista
              foi a expropriao dos camponeses de suas terras.
                   Marx acreditava ainda que o modo de produo capitalista criava um conflito
              irremedivel entre as principais classes desse tipo de sociedade: o proletariado e
              a burguesia. Para ele, o Capitalismo, assentado nessa imensa contradio capital/
              trabalho, tenderia a gerar conflitos que terminariam por minar suas prprias bases,
              levando o proletariado a assumir o controle dos meios de produo, abolindo aos
              poucos o pilar bsico do Capitalismo, a propriedade privada. Ou seja, o Capitalismo
              estava fadado a dar lugar a outro modo de produo, o Comunismo.
                   Outro grande terico do Capitalismo foi Max Weber, para quem o Capitalismo
              no poderia ser conceituado unicamente com base em clculos econmicos, sendo
              isolado de questes culturais. Criticou ainda a opinio ento comum de que o
              Capitalismo era pura e simplesmente o esprito ou a nsia do lucro. O "impulso para
              o ganho" ou a "nsia de lucro", afirmou Weber, no tem nada a ver com o Capitalismo
              em si, pois em todas as pocas e lugares os indivduos souberam se aproveitar de
              alguma situao favorvel ao lucro monetrio. Para Weber, atitudes "capitalistas"
              isoladas, aventureiras, existiram em todo o mundo em diferentes pocas da histria:
              financiamento de guerras, aes de pirataria, emprstimos para governos etc. Sua
              tese defende, no entanto, que a forma moderna ocidental era a mais aperfeioada
              de Capitalismo.



               44
     No entanto, segundo ele, o Capitalismo das primeiras dcadas do sculo




                                                                                          Capitalismo
xx configurava um tipo completamente diverso e nunca antes encontrado de

Capitalismo. Para Weber, a Era Moderna trouxe uma peculiaridade fundamental:
a organizao capitalista racional assentada no trabalho formalmente livre. Nesse
sentido, a organizao industrial racional orientada para um mercado real, e no para
oportunidades polticas ou de especulao, foi uma criao peculiar do Capitalismo
ocidental. Nesse contexto, a moderna empresa racional capitalista separou a empresa
(espao de produo, trabalho fabril, comrcio) da economia domstica (espao de
moradia da famlia); criou tambm uma contabilidade racional; estabeleceu um
vnculo cada vez mais estreito entre cincia e economia (cincia como saber aplicado
a tcnicas produtivas, bem entendido, j que cincia havia em outras civilizaes no
ocidentais); e forjou um vasto conjunto de regras legais e de estruturas racionais do
direito e da administrao.
     Em linhas gerais, portanto, o Capitalismo tpico do Ocidente, segundo Max Weber,
seria uma criao recente na histria da humanidade, uma estrutura econmica
baseada nesses princpios racionais desenvolvidos no universo cultural da Era
Moderna. E  a partir desse universo cultural, marcado pela Reforma Protestante,
que Weber forjou o conceito histrico de "esprito do Capitalismo", pois para ele
esse sistema econmico foi se tornando um fenmeno histrico concreto a partir
de certos valores culturais oriundos da tica protestante, em particular de sua
vertente calvinista. Foi no seio do movimento reformista da Era Moderna que o
pensador encontrou um ethos particular, ou seja, uma forma de pensar caracterstica
de determinado grupo, que enfatizava a vocao para o trabalho, a frugalidade, a
honestidade nos negcios, a poupana, a valorizao do tempo (tempo  dinheiro,
dizem os puritanos). Esses princpios secularizantes da vida confluram para justificar
o modo de vida burgus emergente. Foi exatamente esse ethos particular, caracterizado
pelo utilitarismo, que distinguiu o Capitalismo da Europa Ocidental e dos Estados
Unidos do "Capitalismo"  Weber usa assim, entre aspas  da Antiguidade Clssica,
da ndia, da China, da Babilnia e da Idade Mdia. Weber, no entanto, nunca afirmou
que a Reforma religiosa foi a principal e nica causa do Capitalismo, como acusam
alguns crticos ligados ao materialismo histrico.
     O que Weber construiu, na verdade, foi um tipo ideal de Capitalismo, ou seja,
um modelo para entender a formao e o funcionamento desse sistema econmico.
Para ele, o Capitalismo tpico do Ocidente  que seria a forma mais bem definida
de Capitalismo na histria  se define pela existncia de empresas cujo objetivo 
produzir o maior lucro possvel com organizao racional do trabalho e da produo.
O carter tpico do Capitalismo ocidental seria, assim, o resultado da combinao
peculiar entre o desejo do lucro e a disciplina racional.


                                                                                   45
                   Tema polmico no contexto da sala de aula, o Capitalismo suscita opinies as
Capitalismo



              mais diversas. Pode ser entendido de maneira "positiva", ou seja, como o progresso
              humano na produo material, no consumo, no bem-estar promovido pela
              tecnologia etc., ou como a causa de desigualdades sociais gritantes, do individualismo
              exacerbado, do consumismo desenfreado, da explorao existente entre os grupos
              sociais e entre as Naes, dos males ambientais do mundo, e assim por diante.
                   Ns, professores de Histria, devemos tomar cuidado para no impor dogmas.
              Uma viso mais aberta deve ser tanto crtica como compreensiva, sobretudo em
              um contexto no qual o Capitalismo virou uma cultura, um modo de vida, forjando
              e impondo necessidades antes inexistentes, e tomando uma face que se prope a
              ser universal para toda a humanidade. O compromisso social do profissional de
              ensino  ser crtico e nesse sentido temos de estar atentos para no aderirmos ao
              caminho simplesmente mais fcil, de apoiar os discursos hegemnicos em nossa
              sociedade simplesmente para no sermos considerados retrgrados, ultrapassados,
              sobretudo aps o fracasso do Socialismo real. Exatamente porque o Capitalismo se
              apresenta como o destino inevitvel da humanidade  que o profissional de ensino
              deve questionar e promover concepes diferentes de mundo. Vrias estratgias se
              prestam ao aprofundamento do tema. Como sugesto, fica a necessidade de analisar
              as imagens e os discursos do Capitalismo, que aparecem sob a forma de comerciais
              de propaganda, filmes, outdoors, revistas, imprensa falada e escrita de modo geral,
              que fazem parte do cotidiano dos estudantes. Analisar esses elementos da indstria
              cultural como frutos do Capitalismo ajuda a compreendermos como esse sistema
              econmico influi em nossa vida de forma abrangente, no apenas na relao de
              assalariamento, mas em todas as esferas da sociedade e da cultura.

              Ver tAmbm
                    Burguesia; Classe Social; Comunismo; Democracia; Dialtica; Feudalismo;
                    Globalizao; Ideologia; Imperialismo; Indstria Cultural; Industrializao;
                    Latifndio/Propriedade; Liberalismo; Marxismo; Mercantilismo; Modo de
                    Produo; Modernidade; Oligarquia; Revoluo Industrial; Trabalho.

              sugestes de leiturA
                    aron, Raymond. As etapas do pensamento sociolgico. So Paulo: Martins
                     Fontes, 1999.
                    barboSa, Alexandre de Freitas. O mundo globalizado: poltica, sociedade e
                      economia. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
                    catani, Afrnio Mendes. O que  capitalismo. So Paulo: Brasiliense, 1999.



               46
    Faria, Ricardo Moura. As revolues do sculo xx. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2002.




                                                                                            Cidadania
    ______; liz, Mnica Miranda. Da Guerra Fria  nova ordem mundial. So Paulo:
      Contexto, 2003.
    marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria contempornea
     atravs de textos. 10. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    ______. Histria moderna atravs de textos. 10. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    ______. Histria do tempo presente. 8. ed. So Paulo: Contexto, 2005.
    marx, Karl. O capital. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, s. d., 3v.
    peStana, Fbio. No tempo das especiarias. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2004.
    pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
      Contexto, 2003.
    SantiaGo, Theo (org.). Do feudalismo ao capitalismo: uma discusso histrica.
      9. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    W eber , Max. A tica protestante e o esprito do capitalismo. So Paulo:
     Pioneira, 1997.




cidAdAniA
     O tema cidadania aparece frequentemente na mdia, nos discursos de polticos
e capitalistas, na fala de intelectuais e de pessoas comuns. Mas apesar de muito
comentado, o termo  pouco compreendido por aqueles a quem deveria interessar
mais, os indivduos que integram o povo.
     A rigor podemos definir cidadania como um complexo de direitos e deveres
atribudos aos indivduos que integram uma Nao, complexo que abrange direitos
polticos, sociais e civis. Cidadania  um conceito histrico que varia no tempo e no
espao. Por exemplo,  bem diferente ser cidado nos Estados Unidos, na Alemanha e no
Brasil. A noo de cidadania est atrelada  participao social e poltica em um Estado.
Alm disso, a cidadania  sobretudo uma ao poltica construda paulatinamente por
homens e mulheres para a transformao de uma realidade especfica, pela ampliao
de direitos e deveres comuns. Nesse sentido, negros, mulheres, imigrantes, minorias
tnicas e nacionais, ndios, homossexuais e excludos de modo geral so atores que vivem
fazendo a cidadania acontecer a cada embate, em seus Estados nacionais especficos.
O direito ao casamento entre homossexuais, por exemplo, que recentemente virou
realidade em alguns pases,  uma conquista de cidadania: a conquista do direito de
estabelecer uma famlia assentada em bases jurdicas.


                                                                                     47
                  Historicamente, a cidadania , muitas vezes, confundida com democracia, ou
Cidadania



            seja, com o direito de participao poltica, de votar e ser votado. No entanto, nem o
            voto  uma garantia de cidadania, nem a cidadania pode ser resumida ao exerccio do
            voto. De outra forma, para aqueles como Manzini Covre, que defendem o exerccio
            pleno da democracia, os direitos polticos so a base para a conquista dos demais
            direitos que ajudam a definir a cidadania, que so os direitos sociais e civis.
                  Muitos autores se voltam para a Grcia Clssica de Pricles, no sculo v a.C., em
            busca da origem histrica da noo de cidadania. Mas o tipo de cidadania dos gregos
            era muito diferente da cidadania atual. Na Grcia, s os homens, gregos e livres,
            eram cidados e podiam exercer a democracia direta. Hoje, no entanto, milhes de
            indivduos exercem democracia indireta, escolhendo os representantes que decidiro
            por eles. No contexto clssico, existia tambm uma ntima relao entre cidadania
            e cidade: para os romanos, por exemplo, a cidadania era antes de tudo a condio
            de quem pertencia a uma cidade e sobre ela tinha direitos. Atualmente, porm, a
            ligao principal  entre cidadania e Estado.
                  O conceito de cidadania que temos hoje  fruto das chamadas revolues
            burguesas, particularmente da Revoluo Francesa e da Independncia dos eua
            no sculo xviii, mas tambm da Revoluo Industrial. Nesse contexto, foram as
            Constituies francesa e norte-americana os documentos que fundamentaram os
            princpios da cidadania moderna. Sua influncia  to grande sobre o mundo atual
            que os princpios liberais trazidos por elas foram reorganizados e ratificados pela onu,
            em 1948, na Declarao Universal dos Direitos do Homem. Tais marcos histricos
            consolidaram o princpio de que todos os homens nascem e permanecem livres e
            iguais e tm direito  vida,  felicidade e  liberdade, e de que um governo s ser
            legtimo enquanto garantir esses direitos naturais. Tais direitos devem constar na
            lei, nas Cartas Constitucionais de cada Nao e, de certo modo, o cidado s pode
            possuir esses direitos at onde no ofendam os princpios legais institudos. Assim,
            a lei est acima dos direitos civis, como afirma Nilo Odalia. A partir da, surgiu o
            chamado Estado de direito, tpico da sociedade burguesa nascida no sculo xviii, em
            oposio ao Estado de nascimento, tpico da aristocracia e do perodo feudal.
                  Lembremos, todavia, que os direitos institudos pela Declarao de Independncia
            dos eua (1776) e pela Declarao dos Direitos do Homem e do Cidado, da Frana
            revolucionria (1789), no se estendiam a todos os membros de suas Naes. Pois,
            apesar do contedo universalista da Declarao francesa, as mulheres eram excludas
            do voto. J nos Estados Unidos, alm das mulheres, a excluso atingia escravos e
            brancos pobres. Esses excludos tiveram de empreender longas lutas antes de serem
            contemplados pelos direitos bsicos definidos pelas revolues burguesas. Entretanto,
            esses documentos tinham imenso potencial revolucionrio, e muitos daqueles que


             48
foram inicialmente excludos da vida poltica depois usariam o mesmo discurso




                                                                                           Cidadania
liberal para alcanar os direitos previstos por essas declaraes. Foi assim que
mulheres e negros alcanaram seus direitos civis nos eua j no sculo xx, usando a
mesma linguagem do sculo xviii.
     Hoje a cidadania  apresentada como um processo de incluso total, em que
todos so cidados com direitos polticos, sociais e civis. Mas a verdade  que o
prprio conceito de cidadania foi criado em meio a um processo de excluso. Para
Leandro Karnal, dizer quem era ou no cidado tornara-se uma forma de garantir
os privilgios de uma minoria e evitar a possibilidade de participao da maioria. A
cidadania foi excludente na Grcia Clssica e nos eua e Frana do Sculo das Luzes. No
sculo xviii, havia a contradio da coexistncia de cidadania e excluso. Inicialmente,
a burguesia revolucionria acenava com a ideia de cidadania ampla e universal,
incluindo os demais membros do chamado Terceiro Estado (camponeses, artesos
e trabalhadores em geral). Mas aps se assentar no poder, a concepo burguesa do
Estado de Direito concedeu direitos plenos apenas ao cidado proprietrio, abrindo
espao para a dominao do capital e para a explorao dos demais "livres" no
proprietrios. A liberdade, formalmente garantida pela lei, surgiu como um engodo.
O que no impediu que os princpios burgueses institudos em lei (liberdade,
igualdade, entre outros) fossem usados pelos prprios trabalhadores para melhorar
seu status e sua vida.
     No contexto latino-americano do sculo xix, momento de formao dos Estados
nacionais na regio, do mesmo modo, pouqussimos eram os cidados. O Estado
nacional brasileiro durante o Imprio, por exemplo, excluiu escravos, libertos,
mulheres e pobres em geral do exerccio da cidadania. Na Primeira Repblica, a
realidade no mudou muito, apesar de j se intensificar a presso de diversos grupos.
A dcada de 1930, por sua vez, foi palco de remodelaes no Estado brasileiro,
levando este a forjar uma legislao previdenciria e trabalhista para os trabalhadores
urbanos e um cdigo eleitoral que inclusse o direito de voto s mulheres. Entretanto,
como assinala Jos Murilo de Carvalho, a legislao trabalhista e previdenciria
no decorreu do exerccio dos direitos civis e polticos, como na Inglaterra, mas da
"concesso" desses direitos por um Estado centralizador e autoritrio. Por outro lado,
o direito de voto alcanado pelas mulheres no significou a aquisio de direitos
sociais para a grande parte das consideradas pobres, que sequer participaram da
luta que resultou no sufrgio feminino.
     S a partir de 1988, os analfabetos brasileiros tiveram o direito ao voto
assegurado; no Cdigo Civil de 1916, as mulheres e os ndios ainda eram considerados
"relativamente incapazes", no exercendo direitos civis e polticos; e at a dcada
de 1960, os trabalhadores rurais tambm no possuam os direitos trabalhistas j


                                                                                    49
            concedidos aos demais trabalhadores urbanos. Todos esses grupos empreenderam
Cidadania



            lutas para assegurar seus direitos. O que nos mostra que a cidadania no  apenas
            um conjunto formal de direitos e deveres, mas a prtica cotidiana para garantir e
            vivenciar esses princpios.
                 Em resumo, podemos entender a cidadania como toda prtica que envolve
            reivindicao, interesse pela coletividade, organizao de associaes, luta pela
            qualidade de vida, seja na famlia, no bairro, no trabalho, ou na escola. Ela implica um
            aprendizado contnuo, uma mudana de conduta diante da sociedade de consumo
            que coloca o indivduo como competidor pelos bens da produo capitalista. Mas 
            preciso no confundir a cidadania com as solues individualistas estimuladas pelo
            prprio sistema de competio hoje vigente: ou seja, o indivduo que prefere pagar
            por sua segurana em um condomnio fechado ou contratando "polcia" particular,
            no exigindo que o poder pblico fornea a segurana de ir e vir no espao urbano,
            no est exercendo sua cidadania. E um dos grandes problemas para o exerccio
            da cidadania em nossa sociedade  exatamente o individualismo incentivado pela
            sociedade de consumo e pelo neoliberalismo. Ao nos preocuparmos apenas com ns
            mesmos, ao abandonar a defesa da coletividade, estamos enfraquecendo a cidadania
            em nosso pas, assim como nossos prprios direitos. Assim,  tarefa dos educadores
            apontar os limites da cidadania e da democracia em nossa sociedade. Percebendo
            ainda que a cidadania, como conjunto de princpios garantidores da vida e da
            dignidade humanas, est intrinsecamente ligada aos problemas ambientais. Cabe ao
            professor incentivar o exerccio da cidadania nos espaos do cotidiano, explicando
            (e ao mesmo tempo vivenciando-a) como esta se construiu e se constri ao longo
            do tempo e quais os obstculos que encontra hoje.

            Ver tAmbm
                  Classe Social; Democracia; Cotidiano; Estado; tica; Fascismo; Feminismo;
                  Globalizao; ndio; Indstria Cultural; Liberalismo; Liberdade; Massa/Multido/
                  Povo; Militarismo; Nao; Negro; Oligarquia; Poltica; Sociedade.

            sugestes de leiturA
                  barboSa, Alexandre de Freitas. O mundo globalizado: poltica, sociedade e
                    economia. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
                  carvalHo, Jos Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro:
                   Civilizao Brasileira, 2001.
                  edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
                    entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
                  Funari, Pedro Paulo. Grcia e Roma. So Paulo: Contexto, 2001.



             50
    Junqueira, Mary A. Estados Unidos: a consolidao da nao. So Paulo:




                                                                                         Cidade
      Contexto, 2001.
    Karnal, Leandro. Estados Unidos: a formao da nao. 2. ed. So Paulo: Contexto,
     2003.
    Karnal, Leandro (org.). Histria na sala de aula: conceitos, prticas e propostas.
     So Paulo: Contexto, 2003.
    manzini-covre, Maria de Lourdes. O que  cidadania. So Paulo: Brasiliense, 2003.
    marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria contempornea
     atravs de textos. 10. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    ______. Histria moderna atravs de textos. 10. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    ______. Histria do tempo presente. 8. ed. So Paulo: Contexto, 2005.
    martinS, Ana Luiza. O despertar da Repblica. So Paulo: Contexto, 2001.
    pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi. (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
      Contexto, 2003.
    pinSKy, Jaime. (org.). Prticas de cidadania. So Paulo: Contexto, 2004.




cidAde
    Noo considerada por muitos atrelada ao prprio conceito de civilizao, a
cidade constituiu um objeto privilegiado para aqueles que se preocupam com temas
como as origens do Estado, das antigas civilizaes e do mundo contemporneo.
    O conceito de cidade muda de acordo com o contexto histrico observado. Na
Amrica portuguesa colonial, por exemplo, a palavra cidade se referia especificamente
a um ncleo urbano que tivesse sido fundado diretamente pela administrao
metropolitana, contrastando com a vila, que era um ncleo fundado pelos
donatrios. A diferena estava no status poltico de cada uma e no no tamanho,
sendo que muitas vezes as vilas eram at maiores do que as cidades: caso de Olinda
no sculo xvii, que era mais importante poltica e economicamente do que a cidade
de Filipeia de Nossa Senhora das Neves, a atual Joo Pessoa, no mesmo perodo.
Mas de forma geral, uma cidade  um aglomerado populacional organizado em um
espao geogrfico especfico, que possui administrao prpria, e onde a maioria
dos habitantes no trabalha na produo de alimentos.
    As formas de abordar a cidade so mltiplas. A Geografia, a Arquitetura, o
Urbanismo e a Sociologia estudam o espao urbano de diferentes ngulos. Em geral,
arquelogos e historiadores que trabalham com o surgimento das civilizaes e dos


                                                                                  51
         Estados esto entre os que mais se preocupam com a constituio do espao urbano.
Cidade



         Para muitos desses estudiosos, principalmente os especialistas em Antiguidade, como
         Gordon Childe e Arnold Toynbee, a cidade, que apareceu primeiro na Mesopotmia
         e no Egito Antigo, constitui um pr-requisito para a existncia de civilizao.
         Em obra hoje clssica, o arquelogo Gordon Childe, em meados do sculo xx,
         definiu a revoluo urbana, o fenmeno a partir do qual as cidades nasceram e se
         desenvolveram no Oriente Prximo, como o processo que conduziu a humanidade da
         tribo  civilizao. Para ele, esse processo foi fundamental para o desenvolvimento da
         histria, uma vez que s na civilizao h culturas complexas, diversificadas, estatais,
         estratificadas e normalmente possuidoras de escrita. Para esse autor, uma cidade se
         distinguiria das aldeias  ou seja, das aglomeraes humanas mais bsicas  devido a
         seu tamanho e populao, pela cobrana de tributos, pela estratificao social visvel
         na especializao profissional, pela construo em larga escala e pelo surgimento de
         uma classe governante. J para o socilogo Max Weber, o critrio para a definio
         das cidades deveria considerar a existncia de um mercado, de heterogeneidade
         social, de relaes impessoais e de diviso de trabalho. Por sua vez, o historiador Ciro
         Flamarion Cardoso afirma que a noo de cidade varia de acordo com o ambiente,
         a sociedade e a poca de cada uma. Isso nos impediria, por exemplo, de empregar
         a definio de Childe, construda para o Egito Antigo e para a Mesopotmia, para
         compreender as cidades em outras culturas, como as da Amrica pr-colombiana.
              Mas apesar dessas discordncias, a maioria dos estudiosos concorda que o
         surgimento da cidade foi um marco definidor na histria da humanidade. Para Karl
         Marx, por exemplo, a cidade representou a primeira grande diviso de trabalho na
         histria, a diviso entre cidade e campo.
              A grande importncia dada pela historiografia  evoluo das cidades
         fundamenta-se na tese de que, com o aparecimento delas na histria, os seres
         humanos teriam passado de sujeitos das leis da natureza para agentes que a
         dominam. Para essas abordagens, a histria da cidade se confunde com a histria
         das civilizaes e com o nascimento do Estado. No entanto,  preciso ressaltar que
         as formas urbanas surgidas ao longo do tempo so bastante diferenciadas entre si.
         E apesar de ter aparecido primeiro no Crescente Frtil, o tipo de cidade surgido
         nessa regio no deve ser tomado como o modelo definitivo, pois tanto as cidades
         da Amrica pr-colombiana quanto as de diferentes regies da frica Negra, por
         exemplo, surgiram de forma independente e em diferentes pocas, tendo poucas
         semelhanas com o modelo "clssico" de cidade, ou seja, a cidade ocidental.
              Todavia, em qualquer das formas que tome, desde o surgimento das cidades, a
         populao urbana no parou de crescer, em um processo que se acelerou enormemente



          52
com a Revoluo Industrial, fenmeno quase sempre associado  complexificao das




                                                                                          Cidade
estruturas sociais. Flamarion, por exemplo, defende que, para o surgimento de uma
cidade, so necessrios certos pr-requisitos, como a concentrao populacional e a
produo de excedentes agrcolas que fosse suficiente para sustentar uma populao
desligada da produo alimentar. Nessa perspectiva, o excedente agrcola desempenha
importante papel na fundao das cidades e Estados, pois apenas quando a produo
de alimentos ultrapassa o mnimo necessrio para a sobrevivncia do grupo  que
a comunidade pode se permitir manter profissionais especializados em outras
atividades, como artistas, artesos, soldados, burocratas, sacerdotes, nobres. Ou seja,
toda a diversidade de atividades que caracteriza um ncleo urbano, uma cidade,
viria da produo de excedentes.
     H, entretanto, aqueles que discordam que a cidade tenha sido desde seu
surgimento um processo irreversvel. H. G. Wells, por exemplo, j em meados do
sculo xx, falava da opo dos nmades pastores da sia central pela vida itinerante
nas plancies. Tambm o historiador Jaime Pinsky, criticando a viso de Childe, afirma
que nos vales e nas encostas frteis as pessoas no precisavam de relaes sociais
complexas para sobreviver, pois o cultivo era fcil. Logo, no precisavam de cidades,
Estados, nem da civilizao, entendida como a cultura urbana e estatal por excelncia.
A cidade e a civilizao, assim como o prprio Estado, s teriam, dessa forma, sido
necessrios quelas regies mais inspitas, onde a associao comunal e um governo
centralizado eram prementes, entre outras coisas, para melhorar a agricultura. Para
Pinsky, a tese clssica de Childe  de que o homem logo depois de se tornar agricultor
e produzir excedente teria necessariamente de passar a se organizar em cidades  s
tem serventia para o Crescente Frtil. Opinio que se fortalece quando observamos
as sociedades tupis na Amrica colonial e o trabalho do antroplogo Pierre Clastres.
Pois de acordo com Clastres, quando essas sociedades organizadas em tribos,
agricultoras e muitas vezes produtoras de excedente, ultrapassavam em nmero a
populao possvel de ser sustentada por uma tribo, elas no se transformavam em
Estados, mas, pelo contrrio, subdividiam-se em vrias tribos, mantendo assim sua
organizao social original. Ou seja, optavam por continuar sem cidades e sem Estado.
     Atualmente, o estudo da cidade pela Histria se apresenta principalmente em
reas como a Histria da Arte e trabalhos interdisciplinares que unem anlise histrica
e arqueolgica ou arquitetnica. Nesse contexto, enquanto Giulio Argan observou a
cidade a partir da Arte  afirmando que ambas esto intimamente conectadas, pois na
cidade tudo  feito seguindo o mesmo processo de elaborao de uma obra de Arte,
ainda que a Arte seja uma atividade tipicamente urbana , Lewis Munford elaborou
ampla reflexo que aliou preocupaes sociolgicas, antropolgicas e filosficas para
compreender a evoluo das cidades na histria. Para ele, a cidade foi responsvel pela


                                                                                   53
         complexificao das relaes humanas, ao gerar novos tipos sociais. Como exemplo
Cidade



         de sua abordagem, podemos observar a associao que faz entre a vida sedentria e
         a figura feminina: para ele, a revoluo agrcola pr-histrica teria tirado o domnio
         social do macho caador e passado para a mulher, a responsvel pela agricultura.
         Surgiram, assim, as aldeias de agricultores, um contexto dominado pela presena
         feminina, geradora de jardins e filhos. No entanto, a cultura caadora no desapareceu,
         e continuou a interagir com as aldeias em uma convivncia ao mesmo tempo de
         proteo e intimidao que terminou por subjugar o feminino ao masculino. A cidade
         seria, nessa perspectiva, o principal fruto da unio do acampamento de caadores com
         a aldeia de agricultores neolticos e do domnio da mulher pelo homem.
              Ns, como a maior parte dos estudiosos, estamos acostumados a considerar a
         cidade um cenrio de vida social superior ao campo. Tal perspectiva etnocntrica
          a mesma que considera o Estado superior  tribo ou o Ocidente superior ao
         Oriente, acreditando que s as sociedades com organizao similar  nossa podem
         ser consideradas civilizadas. Esse imaginrio que perpassa a mentalidade ocidental 
         ainda muito forte entre os historiadores, e mais do que nunca precisamos combat-
         lo, pois estamos repassando para nossos alunos esses preconceitos arraigados e
         etnocntricos de que o indivduo do campo, do "interior",  ignorante e pouco
         instrudo, por no ter se beneficiado da vida na cidade (entendida quase sempre
         como grandes metrpoles). Tal preconceito  muito vvido no Brasil, onde todos
         elaboram sua identidade de civilizados sobre os outros que consideram inferiores:
         o Sudeste sobre o Nordeste, as capitais sobre as cidades interioranas e o campo. A
         cidade no pode mais ser entendida como uma necessidade de sobrevivncia e de
         proteo. O prprio avano da violncia nos grandes centros urbanos contemporneos
         tem contrariado a ideia que associa o "urbano" ao polido, civilizado e corts. Uma
         situao que inclusive tem levado muitos habitantes de metrpoles a optarem pela
         vida em cidades menores, demonstrando, assim, que a evoluo do urbano no 
         inevitvel. Ao enfatizar que o viver em tribo, ou em pequenas coletividades, muitas
         vezes foi mesmo uma opo, e no uma limitao imposta pela histria aos povos
         ditos "primitivos", uma abordagem possvel para o tema em sala  a discusso do
         carter relativo da escolha de se viver ou no em cidades, uma discusso que precisa
         focalizar os problemas enfrentados pela cidade em que se vive, as condies de vida
         no campo e a prpria interdependncia entre cidade e campo.

         Ver tAmbm
               Arqueologia; Arte; Cidadania; Civilizao; Estado; Etnocentrismo; Industrializa-
               o; Massa/Multido/Povo; Relativismo Cultural; Tecnologia; Tribo; Violncia.



          54
sugestes de leiturA




                                                                                         Cincia
    arGan, Giulio Carlo. Histria da arte como histria da cidade. So Paulo: Martins
      Fontes, 1998.
    cardoSo, Ciro Flamarion. Amrica pr-colombiana. So Paulo: Brasiliense, 1996.
    carloS, Ana Fani A. A cidade. 8. ed. So Paulo: Contexto, 2005.
    cHilde, Gordon. A evoluo cultural do homem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1975.
    claStreS, Pierre. A sociedade contra o Estado: investigaes de antropologia
      poltica. Porto: Afrontamento, 1979.
    Funari, Pedro Paulo. Grcia e Roma. So Paulo: Contexto, 2001.
    munFord, Lewis. A cidade na histria: suas origens, transformaes e perspectivas.
     So Paulo: Martins Fontes, 1998.
    pinSKy, Jaime. As primeiras civilizaes. So Paulo: Contexto, 2003.
    pinSKy, Jaime (org.). 100 textos de histria antiga. So Paulo: Contexto, 2003.
    SpSito, Maria Encarnao Beltro. Capitalismo e urbanizao. So Paulo:
      Contexto, 2001.




cinciA
    A cincia pode ser entendida tanto como o processo de investigao para se
chegar ao conhecimento quanto como o conjunto de conhecimentos construdo
com base na observao emprica do meio natural e social, que tem como finalidade
fornecer fundamentos que permitam  humanidade viver mais e melhor no mundo
que a cerca. Nesse sentido, a cincia, em muitas de suas faces, pode trabalhar em
associao com a aplicao prtica desses conhecimentos, a tecnologia.
    Pode-se definir a cincia tambm, de forma mais simples, como o esforo
de resolver problemas que s o homem se coloca. Todas as culturas tiveram essa
preocupao, desde o egpcio antigo, o grego, o mesopotmico, o chins, o hindu, at
o ndio das tribos americanas que domesticou a mandioca. Esse conceito amplo de
cincia  defendido por autores como Colin A. Ronan, para quem a cincia surgiu
h cerca de 10 mil anos, no Oriente Mdio, quando o homem comeou a reunir
conhecimentos acerca de plantas, animais, formas de dominar e transformar a
natureza. Muitos elementos do saber cientfico atual j estavam disseminados de forma
no sistematizada pelos povos pr-histricos: a observao dos fenmenos naturais,
a experimentao, a coleta de dados, certos princpios lgicos. Mas nessa cincia


                                                                                  55
          "primitiva" havia muito de magia, de animismo, de sobrenatural, aspectos que
Cincia



          muito lentamente foram sendo substitudos por formas mais sistmicas de busca
          do conhecimento. O conceito de cincia tal qual se conhece hoje envolve variveis
          que no existiam nesses momentos iniciais. Um dos principais elementos da cincia
          moderna, nesse contexto,  a crena de que o mundo natural pode ser explicado sem
          recorrer ao sobrenatural. Crena que existiu tanto na Babilnia como na Grcia e
          no Egito Antigo, por exemplo. Essa viso de cincia, todavia, no  necessariamente
          mais lgica do que a magia,  s um modo diferente de encarar a natureza. A magia
          fazia sentido para os magos e as pessoas que a eles recorriam. Alm disso, as tradies
          mgicas esto na origem da prpria cincia moderna, como aponta John Henry. O
          Renascimento, por exemplo, deveu-se em grande medida  redescoberta de antigos
          escritos neoplatnicos e pitagricos, profundamente msticos. Aos poucos, a magia
          natural foi fornecendo elementos importantes para a filosofia natural, at que esta
          suplantou aquela. Para Henry, a viso cientfica do mundo se desenvolveu em parte pelo
          casamento da filosofia natural com a tradio pragmtica e emprica da magia natural,
          casamento que pode ser visto, por exemplo, na grande influncia da alquimia sobre
          a qumica moderna. Apesar disso, o sentido geral da Revoluo Cientfica na Idade
          Moderna foi a antimagia, a dessacralizao do mundo a partir de sua matematizao
          e manipulao cientfica.
               A partir da ascenso do pensamento racional, com o Iluminismo no sculo xviii,
          a cincia assumiu um posto de destaque no Ocidente, chegando a constituir nova
          mitologia. Autores como Robert Foley afirmam que, com a vitria do racionalismo
          a partir do sculo xix, a cincia gerou novas crenas, como a teoria da evoluo,
          que ocuparam o lugar das antigas crenas religiosas na mente de grande parte da
          populao ocidental. Ou seja, apesar de ter surgido combatendo os mitos, a magia e
          o sobrenatural, a cincia tambm se tornou um mito, exatamente porque nos tornou
          dependentes dela. E ganhou um poder tal sobre os homens que at hoje continua a
          valer a frase do cientista ingls Francis Bacon (1561-1626): saber  poder.
               Mas com a crise do Iluminismo a partir de meados do sculo xx, surgiram
          diversas crticas ao papel da cincia no mundo. Essas crticas partiram primeiro dos
          filsofos da chamada Escola de Frankfurt, que viram de perto o avano do nazi-
          fascismo, os horrores do holocausto e da Segunda Guerra e a Era Nuclear, contexto no
          qual a cincia estava a servio do poder e da tcnica, colocando toda a humanidade
          em risco. Esses filsofos questionaram o carter emancipador do Iluminismo e da
          cincia moderna. O Iluminismo acreditava que a cincia traria saber e paz, mas um
          sculo depois da Revoluo Cientfica da Idade Moderna, os filsofos perceberam
          que isso no aconteceu. Pelo contrrio, no sculo xx, os estudiosos passaram a notar
          a estreita relao entre poder e cincia.


           56
     Atualmente, pensadores como Rubem Alves defendem as relaes entre a




                                                                                             Cincia
cincia e o senso comum, afirmando que ambos so expresses da mesma necessidade
bsica  a necessidade de compreender o mundo, a fim de viver melhor e sobreviver.
Ele lembra que o senso comum no  inferior  cincia; que por milhares de anos
os homens sobreviveram sem algo semelhante  cincia atual; e, paradoxalmente,
aps cerca de quatro sculos desde sua fundao, a cincia est apresentando srias
ameaas  sobrevivncia da humanidade.
     Alm disso, o conceito de cincia tem muito a ver com o prprio conceito
de senso comum.  o prprio Rubem Alves quem sugere que a noo de "senso
comum"  uma criao daqueles que se julgam superiores, e o definem como o
campo do irracional  em que o treinamento cientfico inexiste , das paixes,
da magia. Mas, para o autor, o senso comum no  sinnimo de comportamento
pouco inteligente, ingnuo ou simplista. Para ele, na verdade, a cincia no  uma
forma de conhecimento diferente do senso comum. Ela  uma metamorfose dele e,
de qualquer forma, um saber que tem limites.
     Na histria das cincias, uma outra relao que quase sempre se apresenta como
conflitante  a relao cincia/religio. Certamente, entre os sculos xvi e xix, religio
e cincia passaram por alguns conflitos, mas tambm conheceram momentos de
convivncia amistosa. Segundo John Henry, praticamente todos os filsofos naturais
da Revoluo Cientfica tinham motivaes religiosas para suas pesquisas. Kepler,
por exemplo, queria descobrir o padro que Deus impusera ao cosmo. J Newton,
um dos principais nomes na Revoluo Cientfica, era profundamente religioso
e acreditava na hiptese criacionista para explicar a origem do universo. O caso
de Galileu, com sua condenao pela Inquisio, no deve ser generalizado como
exemplo de uma cruzada anticientfica da Igreja. O atesmo no era a regra entre os
pensadores modernos, e muitos eram mesmo bastante religiosos. Apenas no sculo
xix, quando o cientificismo se tornou dogmtico, foi que o atesmo passou a ser

uma espcie de modismo entre os cientistas. Nesse contexto, Auguste Comte foi um
dos pioneiros em colocar a cincia no topo do conhecimento humano, acima da
metafsica e da religio, consideradas formas inferiores de apreenso da realidade. O
sculo xix foi o momento do desenvolvimento da teoria da evoluo, das hipteses
de progresso, da industrializao e da especializao das cincias. Contexto no qual
tomou forma o paradigma cientfico da modernidade, que acreditava na cincia
como saber rigoroso, objetivo, pautado por leis irrefutveis e universais. At ento,
a cincia estava ligada  Filosofia, por isso a expresso filosofia natural para designar
a atividade dos pensadores da Idade Moderna. No sculo xix, por sua vez, disciplinas
especficas como Fsica, Qumica, Matemtica, Biologia, Geografia, Histria,


                                                                                      57
          Sociologia, Psicologia, Psicanlise, e assim por diante, foram desligadas da Filosofia e
Cincia



          da Teologia, dando incio ao saber especializado. Desse modo, a Filosofia e a Teologia
          perderam terreno para as novas formas de saber, que se tornaram autnomas. Esse
          foi o auge do cientificismo: a especializao das cincias, o domnio do homem sobre
          a natureza e sobre ele mesmo. A cincia, para muitos (como os positivistas), era uma
          religio e iria libertar os homens de sculos de ignorncia e misria.
               O cientificismo foi a ideologia da cincia como forma de saber superior, criada
          pelo positivismo no sculo xix. Em linhas gerais, ele pensava a cincia como a busca
          da verdade a partir da rigorosa observao emprica, sem o uso da imaginao ou
          de emoes. Hoje, essa ideologia do progresso ainda existe, mas cada vez mais os
          pensadores comeam a perceber que a racionalizao e o cientificismo no libertaram
          o homem. Ao contrrio, as foras produtivas do capitalismo, justificadas e estimuladas
          pelo saber cientfico-tecnolgico, s fizeram aumentar a dominao predatria
          do homem sobre a natureza e do homem sobre o homem. Sabemos hoje que a
          tcnica e a cincia no so neutras, e servem queles que a possuem e manipulam.
               No sculo xx, particularmente a partir de seu final, muito se tem questionado
          a viso positivista da cincia. A ideia atual  a de que a cincia  uma atividade
          que tem muito de criao e imaginao. E um dos questionamentos centrais da
          atualidade  aquele que aponta os limites da cincia moderna, criticando a descrio
          pura e simples das causas e dos efeitos. Essas crticas remontam a Kant, j no sculo
          xviii, e a Nietzsche, no sculo xix. Com base neles, os crticos do cientificismo e da

          modernidade defendem que o cientista no  algum mudo diante dos fatos e estes,
          sozinhos, nada dizem. Hoje j se questiona, tanto nas cincias humanas como nas
          cincias naturais, o lado frio e pretensamente neutro do saber cientfico.
               Um dos problemas relativos  cincia no contexto da sala de aula  a excessiva
          fragmentao do conhecimento em diferentes disciplinas que no interagem umas
          com as outras. Um problema derivado da prpria especializao do conhecimento
          cientfico em mltiplas cincias, que a interdisciplinaridade e os temas transversais
          tentam contornar. Mas outras questes tambm so fundamentais e cabe ao
          profissional de ensino e seus alunos se perguntarem o que a cincia tem a ver com
          sua vida, refletir sobre a relao entre cincia e tica, entre cincia e poder e tambm
          sobre o que podemos fazer para humanizar a cincia. Os professores precisam estar
          capacitados no apenas para ensinar uma histria das cincias, mas para discutir o
          presente complicado em que nos encontramos, a validade das explicaes cientficas,
          temas polmicos como clonagem e pesquisas com clulas-tronco, a importncia da
          poesia, do romance, da imaginao, do desejo, e as implicaes polticas de todas
          essas questes.



           58
Ver tAmbm




                                                                                              Civilizao
    Cotidiano; tica; Evoluo; Ideologia; Iluminismo; Industrializao;
    Interdisciplinaridade; Modernidade; Ps-modernidade; Renascimento; Revoluo
    Industrial; Tecnologia; Teoria.

sugestes de leiturA
    alveS, Rubem. Filosofia da cincia: introduo ao jogo e a suas regras. So Paulo:
      Loyola, 2003.
    benJamin, Walter; et al. Textos escolhidos. So Paulo: Abril Cultural, 1980.
      (Coleo Os Pensadores).
    GreSpan, Jorge. Revoluo Francesa e Iluminismo. So Paulo: Contexto, 2003.
    Henry, John. A revoluo cientfica e as origens da cincia moderna. Rio de Janeiro:
     Jorge Zahar, 1998.
    Karnal, Leandro (org.). Histria na sala de aula: conceitos, prticas e propostas.
     So Paulo: Contexto, 2003.
    pinSKy, Jaime. As primeiras civilizaes. So Paulo: Contexto, 2001.
    ronan, Colin A. Histria ilustrada da cincia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987, 3v.
    tarnaS, Richard. A epopeia do pensamento ocidental: para compreender as ideias
      que moldaram nossa viso de mundo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.



ciVilizAo
     O termo civilizao  hoje constantemente empregado, seja em trabalhos
historiogrficos, seja pelo senso comum do Ocidente. No entanto, se seu significado
cotidiano  facilmente compreendido, isso no acontece com seu conceito histrico,
que  alvo de controvrsias e mal-entendidos.
     A palavra civilizao surgiu na Frana iluminista do sculo xviii com um significado
moral: ser civilizado era ser bom, urbano, culto e educado. Para os iluministas, a
civilizao era uma caracterstica cultural que se contrapunha  ideia de barbrie, de
violncia, de selvageria. Alm disso, ser civilizado era um ideal que todos os povos
deveriam almejar, mas que poucos tinham alcanado. Em geral, a situao de civilizado
s era atribuda aos adeptos do Iluminismo. Esse primeiro significado de civilizao,
apesar de ser o mais antigo, ainda  o mais constante na histria do Ocidente. Assim, hoje,
quando qualificamos um indivduo de civilizado, ainda estamos utilizando o conceito
iluminista, considerando-o uma pessoa educada, pacfica e culta, que se contrape
aos violentos, queles que consideramos rudes e incultos, normalmente pessoas cujos
valores fogem aos padres das elites urbanas ocidentais.Assim sendo, em seu sentido mais
cotidiano, civilizao distingue aqueles que se consideram culturalmente superiores.


                                                                                       59
                   Mas desde o sculo xix, historiadores e arquelogos foram cada vez mais
Civilizao



              empregando a palavra civilizao no plural, falando em civilizaes, e o termo foi,
              assim, aproximando-se dos conceitos de cultura, de povo, de Nao, e ganhando
              novos significados.
                   No fim do sculo xx, Samuel Huntington, baseado em Fernand Braudel, definiu
              civilizao como uma rea cultural e seu sistema de valores, em que todos os seus
              integrantes compartilhariam de um conjunto de caractersticas comuns. Nesse
              sentido, uma civilizao no  um Estado, ela ultrapassa as fronteiras dos Estados,
              unindo uma regio mais ampla que se identifica por uma srie de caractersticas
              culturais compartilhadas. Para Huntington, civilizao  o mais amplo nvel de
              identidade cultural possvel. As civilizaes chinesa, hindu e ocidental, por exemplo,
              se caracterizariam por certo nmero de traos culturais partilhados internamente
              e por se distinguirem uns dos outros no plano externo.
                   J Bagby, na obra de 1958, Culture and History, que influenciou muitos pensadores
              acerca da civilizao no sculo xx, afirmava que a definio de civilizao deveria
              partir da prpria etimologia da palavra, que vem do latim civitas, "cidade", apesar de
              civilizao ser um termo cunhado na Frana do sculo xviii. Bagby definiu civilizao
              como um tipo de cultura encontrada em cidades, considerando cidade qualquer
              aglomerao humana onde a maioria dos habitantes no estivesse diretamente
              ocupada em produzir alimentos. Tambm o arquelogo Gordon Childe, em sua obra
              igualmente clssica A evoluo cultural do homem, associou a ideia de civilizao 
              de cultura urbana. Arnold Toynbee, por sua vez, discordou dessa definio no ponto
              em que ela necessariamente associava civilizao e cidade, pois para ele existiram
              civilizaes sem cidades. Apesar dessa discordncia, sua definio concordava em
              muitos pontos com a de Bagby, pois ele tambm defendia que civilizao  um tipo
              de sociedade em que a maioria dos habitantes no produz alimentos, mas se ocupa de
              outras atividades que garantam estabilidade material. Para ele, a civilizao estaria em
              geral associada s cidades porque essas camadas sociais que no estivessem ocupadas
              em produzir alimento  soldados, burocratas, artesos  em geral so urbanas. Mas
              tal caracterstica no pode, a seu ver, ser considerada condio indispensvel.
                   Essa abordagem, que considera civilizao aquelas culturas que possuem
              camadas sociais e categorias profissionais desligadas da produo direta de alimentos,
              na verdade determina que uma das caractersticas da civilizao  a produo de
              excedente alimentar. Isso porque s a produo de excedente permitiria que uma
              sociedade pudesse retirar alguns  ou muitos, no caso do conceito de civilizao
              dos autores citados  de seus membros do trabalho na agricultura e permitir que
              se dedicassem exclusivamente  arte,  guerra,  burocracia, ou que se tornassem
              sacerdotes, reis e nobres.  preciso considerar, todavia, que essa produo de


               60
excedentes, tambm caracterizadora do surgimento do Estado, foi o incio da




                                                                                          Civilizao
desigualdade social, da apropriao do excedente pelo Estado, da estratificao social
e da hierarquia de classes ou camadas sociais. Assim, se seguirmos essa definio,
chegamos ao fato de que as civilizaes so baseadas em Estados, na produo de
excedentes e na estratificao social  e, logo, na desigualdade social. Sem esquecer
que cada civilizao pode, por sua vez, abranger diferentes Estados, cidades, Naes.
     Toynbee considera ainda que civilizao  um tipo de sociedade que busca
atingir a convivncia harmnica entre seus membros, considerando essa harmonia
o resultado de ampla produo artstica e cultural. Nesse sentido, para ele, o aspecto
principal que definiria uma civilizao seria sua produo intelectual. Alm disso,
essa abordagem  bastante eurocntrica, porque julga que as civilizaes so
superiores s outras formas de organizao social e poltica encontradas na Histria 
como as tribos, os grupos de caadores-coletores e os bandos  por suas
caractersticas "espirituais".
     Toynbee, em Um estudo de histria, obra clssica, escrita entre 1930 e 1950,
realizou tambm um estudo comparado entre aquelas que ele considerava as
principais civilizaes da histria. Sua preocupao era estabelecer um modelo
que pudesse ser aplicado a qualquer civilizao em diferentes lugares e perodos.
Tal modelo foi construdo com base no estudo da histria judaica, grega e chinesa.
Mas esse modelo geral de civilizao  que, para Toynbee, poderia ser empregado
para culturas to diferentes quanto  China antiga e a Grcia clssica  deve ser visto
com cautela, pois no se pode generalizar caractersticas de certas culturas para
determinar e definir se outros tipos de cultura so ou no civilizao.
     Apesar das ressalvas que a historiografia atual faz ao modelo de Toynbee, por suas
generalizaes, alguns pensadores no incio do sculo xxi, como Samuel Huntington,
procuram renovar a ideia de um modelo geral de civilizao. Huntington foi alm
de Toynbee e elaborou uma lista das civilizaes existentes ao longo da histria, que
seriam: mesopotmica, egpcia, clssica, chinesa, mesoamericana, andina, cretense,
islmica, indiana, bizantina, ocidental, japonesa, latino-americana e africana. Para
ele, essas duas ltimas estariam em formao em pleno sculo xxi.
     O conceito de Bagby, por sua vez, influenciou tambm diversos outros
pensadores. Se Toynbee se voltou principalmente para a Antiguidade e o Oriente
em busca de seus modelos civilizacionais, arquelogos como Michel Coe, na dcada
de 1960, procuraram civilizaes em outro lugar: na Amrica indgena. Estudando
os maias clssicos da Amrica Central, entre 300 e 900 d.C., Coe se perguntou o
que distinguia uma "civilizao" de um grupo brbaro. Fazendo referncias s
teorias de Bagby, Coe afirmou que para alguns autores uma civilizao teria estrita
relao com as cidades. E para outros, citando Gordon Childe, a escrita seria um


                                                                                   61
              elemento definidor. Para a Amrica, no entanto, essas referncias no poderiam
Civilizao



              ser vlidas, pois os incas possuam civilizao, mas no escrita, e os maias, segundo
              Coe, no possuam cidades.
                   A partir dessas consideraes, percebemos que a maioria dos autores, apesar
              das divergncias, considera que um dos principais elementos definidores de uma
              civilizao  o Estado. No entanto, alguns autores, como Toynbee e Huntington,
              defendem que a civilizao est alm do Estado, abarcando muitas vezes vrios
              Estados, e se caracterizam mais como um princpio de identidade cultural.
                   Mas qualquer que seja o conceito de civilizao, em geral ele  consideravelmente
              etnocntrico, acreditando que culturas com Estados, alta densidade populacional e
              centros urbanos so superiores s outras. Essa perspectiva comumente acredita que
              a civilizao  o ltimo e melhor estgio cultural atingido por um povo ao longo de
              sua "evoluo". Alm disso,  preciso estar atento para a prpria utilizao cotidiana
              que fazemos do conceito iluminista de civilizao, tambm este etnocntrico, pois
              ao nos considerarmos mais civilizados que tal ou qual grupo de pessoas, estamos, na
              verdade, considerando-nos superiores a ele. A melhor forma de desconstruirmos os
              sentidos etnocntricos das palavras que empregamos no cotidiano  buscarmos suas
              origens e suas mudanas de significado ao longo da histria. E antes de trabalharmos
              em sala de aula temas como "civilizao egpcia" ou "civilizao grega",  importante
              apontarmos os muitos significados que a palavra civilizao possui nesses contextos,
              e como esses significados, apesar de serem associados diretamente a essas duas
              culturas, foram produzidos ao longo do tempo. Outra forma de abordar o tema 
              partir do princpio de que o conceito de "civilizado"  uma imagem construda por
              um povo, e implica tambm a construo de uma imagem oposta para povos com
              os quais haja contato, imagem esta que representa o "brbaro", de no civilizado. E
              nesse sentido, no caso do estudo do processo de colonizao do Brasil,  fundamental
              discutir as imagens que os colonizadores criaram sobre os ndios, apresentando-os
              como selvagens, preguiosos, canibais, violentos etc.

              Ver tAmbm
                    Antiguidade; Cidade; Cultura; Estado; Etnocentrismo; Evoluo; Identidade;
                    Iluminismo; ndio; Isl; Orientalismo; Tribo.

              sugestes de leiturA
                    braudel, Fernand. Gramtica das civilizaes. So Paulo: Martins Fontes, 1989.
                    cHilde, Gordon. A evoluo cultural do homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
                    coe, Michael. Os Maias. Lisboa: Verbo, 1971.
                    demant, Peter. O mundo muulmano. So Paulo: Contexto, 2003.


               62
    Funari, Pedro Paulo. Grcia e Roma. So Paulo: Contexto, 2001.




                                                                                             Classe Social
    HuntinGton, Samuel P. O choque de civilizaes: e a recomposio da ordem
     mundial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.
    Karnal, Leandro (org.). Histria na sala de aula: conceitos, prticas e propostas.
     So Paulo: Contexto, 2003.
    meSGraviS, Laima; pinSKy, Carla Bassanezi. 2. ed. O Brasil que os europeus
     encontraram. So Paulo: Contexto, 2002.
    pinSKy, Jaime. As primeiras civilizaes. So Paulo: Contexto, 2001.
    pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
      Contexto, 2003.
    toynbee, Arnold. Um estudo da histria. Braslia/So Paulo: UnB/Martins
     Fontes, 1987.




clAsse sociAl
     Classe social  um desses conceitos fundamentais da Sociologia que, com o
tempo, caram no uso dos historiadores. Entre os principais pensadores a trabalhar
com tal conceito esto Karl Marx e Max Weber. Ambos elaboraram modelos
explicativos, construes tericas que simplificam a realidade para facilitar sua
compreenso. Mas Marx e Weber j percebiam, no sculo xix, que estudar a sociedade
a partir das classes sociais  uma tarefa complicada, pois muitos indivduos no so
classificveis facilmente nesta ou naquela classe.
     Marx definiu classe social como a posio comum de um conjunto de indivduos
no interior das relaes sociais de produo. Para ele, classe era um grupo social
com uma funo especfica no processo produtivo. Por exemplo, os proprietrios de
terra, os capitalistas e os trabalhadores constituem classes distintas. Cada um deles
ocupa um lugar especfico no processo de produo: uns possuem a terra, outros,
o capital, e os trabalhadores, a habilidade de trabalho. As diferentes funes do a
cada classe interesses conflitantes, alm de ideias e maneiras de agir diferentes. A
Histria, por sua vez, seria o relato desses conflitos. Nesse sentido, a tradio marxista
tende a conceituar classe com base no lugar que cada grupo ocupa na economia.
     Segundo Peter Burke, as obras de Marx apresentam vrios sentidos para
classe, o que constitui um problema, pois s vezes ele fala de oprimidos e opressores
ou explorados e exploradores; outras vezes oferece uma definio muito ampla,
considerando classe desde escravos e plebeus romanos at servos medievais e artfices



                                                                                      63
                assalariados, opondo-os genericamente a aristocratas, senhores feudais e mestres.
Classe Social



                H ainda situaes em que Marx prope um conceito mais limitado, excluindo, por
                exemplo, os camponeses franceses de meados do sculo xix de seu conceito. Esses,
                embora vivessem na mesma situao econmica, eram desprovidos de solidariedade
                e conscincia de classe devido a seu isolamento geogrfico, que os tornava meros
                agregados de indivduos ou de famlias. Assim, a partir da anlise geral da obra
                de Marx, o exerccio de atividades profissionais, a maneira de pensar e o modo de
                vida seriam condies necessrias para a definio de um grupo como classe, mas,
                alm disso, para que esse grupo se torne uma classe no sentido pleno  preciso que
                tenha conscincia de sua unidade e de distino (possivelmente at de hostilidade)
                diante de outros agrupamentos sociais. Ou seja, para Marx, sem luta no h classe.
                     Os estudos de Marx e Engels estiveram voltados principalmente para as
                estruturas de classe das sociedades capitalistas, no dando muita ateno s relaes
                de classe em outras sociedades. Por um lado, ao afirmarem que a histria de todas
                as sociedades tinha sido at ento a histria da luta de classes, deram a entender
                que houve classes sociais em vrios perodos histricos. Por outro, defenderam que
                classe era uma caracterstica especfica das sociedades capitalistas. Em A ideologia
                alem, Marx sugeriu mesmo que classe era um produto da burguesia.
                     Como Marx foi um grande observador da sociedade de seu tempo, testemunhou
                o proletariado crescer numericamente e em organizao, lado a lado (mas em
                oposio) com o grupo dos capitalistas. E embora reconhecesse que mesmo na
                Inglaterra havia ainda "camadas intermedirias ou transitrias", para ele o conflito
                fundamental era entre as classes proletria e capitalista, e a "classe mdia" tenderia
                a desaparecer, sendo absorvida por um dos dois polos. Todavia, no sistema
                capitalista, a classe mdia continuou a crescer. O prprio Marx j havia notado esse
                fenmeno. Mas tanto ele quanto Engels usavam a expresso "classe mdia" com
                diversos significados, no estabelecendo distino entre os diferentes setores que
                compunham essa classe. Outra dificuldade era perceber qual a orientao poltica
                desse grupo. Em geral, Marx e Engels consideravam a pequena burguesia (a classe
                mdia) politicamente conservadora, ou uma espcie de aristocracia operria. Essa
                classe continuou sendo objeto de debate mesmo depois deles, e hoje ainda  difcil
                classificar satisfatoriamente esse grupo com expresses como "alta" e "baixa" classe
                mdia, por exemplo. As controvrsias continuam: existe uma classe mdia ou
                vrias? Apesar disso,  inegvel que a classe mdia vem crescendo, em particular no
                mundo europeu recente, e que a classe operria (numerosa na poca de Marx) vem
                diminuindo comparativamente  classe mdia nos pases de capitalismo avanado.
                     Na sociedade industrial do sculo xix, todavia, a classe operria transmitia a
                imagem de uma classe revolucionria. Era assim que Marx a concebia. No seio desse


                 64
grupo, composto por trabalhadores de minas, fbricas, transportes e tarefas




                                                                                         Classe Social
correlatas, houve posies polticas conflitantes ao longo da histria: havia partidos
operrios comunistas propriamente ditos ("revolucionrios") e partidos operrios
de cunho socialista ("reformistas"). Mas sua predio no teve resultados no sculo
xx, j que as principais revolues socialistas se deram, sobretudo, em sociedades
camponesas. Alm disso, os marxistas do sculo xx discordavam quanto  forma
de se fazer a revoluo proletria: para Lenin, a conscincia revolucionria deveria
ser incutida na classe operria pelo partido de vanguarda, que estaria  frente dessa
classe, orientando-a, enquanto Rosa Luxemburg e outros marxistas pensavam de
modo diferente. Por sua vez, a Escola de Frankfurt, no nome de Marcuse, acreditava
que a classe operria ocidental no era revolucionria, e optou, em fins da dcada
de 1960, por se vincular a outras foras revolucionrias, como estudantes, jovens,
grupos tnicos explorados e massas camponesas do Terceiro Mundo.
     Outro importante modelo explicativo que fundamentou estudos sobre classe
social foi o proposto por Max Weber, no incio do sculo xx. Na tradio weberiana,
h uma diferena entre "classes" e "estados" ou "ordens": enquanto as classes so
definidas como grupos de pessoas cujas oportunidades na vida so determinadas
pela situao do mercado, os estados seriam "grupos definidos por status" e cuja
"honra" ou "status" lhes eram conferidos por outros. Para muitos autores, os
modelos marxista e weberiano so antagnicos. Mas para Peter Burke, eles so
complementares, pois Marx e Weber tentaram responder a questes distintas: o
primeiro enfatizou o poder e o conflito, o segundo se interessou mais pelos valores
e estilos de vida. Ou seja, ambos analisaram diferentes caractersticas da estrutura
social. Burke chega a afirmar que o modelo de ordens weberiano  mais aplicvel s
sociedades pr-industriais, enquanto o modelo marxista de classes  mais aplicvel
ao entendimento das sociedades industriais.
     Seja como for, o objetivo dos modelos explicativos  simplificar a realidade
para facilitar sua compreenso. Assim, no devem ser tomados como reprodues
das estruturas histricas. Nesse sentido, os estudiosos da histria latino-americana
tm grande dificuldade ao empregar o conceito de classe para essa regio.  bastante
problemtico, por exemplo, definir classes e utilizar esse conceito para analisar
protestos ou rebelies de grupos sociais do Brasil do sculo xix. Isso se deve, entre
outras razes, pelas diferenas que existem no interior do grupo dos escravos, entre
eles e os livres, e no interior desse ltimo grupo. Alm disso, temos de considerar
outros elementos, como raa e etnia. Um quilombo, por exemplo, poderia ser
formado por escravos, libertos e outras pessoas pobres (muitas delas mestias) que
no encontravam lugar no sistema. Os libertos, por sua vez, s vezes se comportavam
como os senhores brancos, chegando a comprar escravos. Entre o final do Imprio e


                                                                                  65
                incio da Repblica, a elite brasileira chegou a se referir a esse variado espectro social
Classe Social



                nomeando-o genericamente "classes perigosas". Ora, uma expresso rica como essa
                no se encontra nos modelos marxista e weberiano, o que nos mostra que os modelos
                no fornecem respostas para todas as questes suscitadas na histria.
                     O conceito de classe social j se incorporou ao cotidiano da disciplina
                histrica, apesar da emergncia de abordagens culturalistas no final do sculo xx ter
                desprestigiado o trabalho com esse conceito. Mas alm de ser uma noo de grande
                utilidade para a anlise histrica, o fato de j ter se tornado comum  linguagem da
                Histria duplica sua importncia. Nesse sentido  que ns, professores, no podemos
                nos furtar ao rico debate em torno dessa categoria. J na sala de aula,  preciso cautela
                para no cometer anacronismo, julgando que todas as sociedades tm diviso de
                classes. E mesmo em uma sociedade dividida em classes, como a contempornea,
                h numerosos grupos, fragmentados, cujo comportamento no se pauta pela classe
                a que "pertencem". Hoje, muitas reivindicaes sociais, comportamentos polticos
                e ideolgicos no so necessariamente especficos de uma classe social. E os atores
                sociais e histricos nem sempre se comportam como esperamos de "sua classe".
                Entretanto, isso no significa que a situao social de classe no condicione certos
                comportamentos do indivduo. Devemos tambm sempre relacionar classe social 
                estratificao social, funo e papel social e mobilidade social.  uma tarefa complexa,
                que requer estudos interdisciplinares, mas que permite aos educadores conhecer
                melhor as realidades estudadas. Lembramos que esses estudos sobre a complexidade
                do conceito de classe social precisam ser feitos para o aprofundamento do prprio
                professor, assim como por complexidade terica, podem no ser apropriados para
                o trabalho em sala de aula com alunos mais jovens.

                Ver tAmbm
                      Burguesia; Capitalismo; Comunismo; Feminismo; Ideologia; Indstria Cultural;
                      Industrializao; Latifndio/Propriedade; Massa/Multido/Povo; Marxismo; Modo
                      de Produo; Oligarquia; Revoluo Francesa; Servido; Sociedade.

                sugestes de leiturA
                      andreW, Edgar; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
                       entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
                      aron, Raymond. As etapas do pensamento sociolgico. So Paulo: Martins
                       Fontes, 1999.
                      bottomore, Tom (ed.). Dicionrio do pensamento marxista. Rio de Janeiro:
                        Jorge Zahar, 1988.
                      burKe, Peter. Histria e teoria social. So Paulo: Ed. Unesp, 2002.



                 66
    cHalHoub, Sidney. Cidade febril: cortios e epidemias na corte imperial. So




                                                                                            Colonizao
     Paulo: Companhia das Letras, 1999.
    Faria, Ricardo Moura. As revolues do sculo xx. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2002.
    Funari, Pedro Paulo. Grcia e Roma. So Paulo: Contexto, 2001.
    marx, Karl; enGelS, Friedrich. A ideologia alem. So Paulo: Cincias Humanas, 1982.
    meSGraviS, Laima; pinSKy, Carla Bassanezi. 2. ed. O Brasil que os europeus
     encontraram. So Paulo: Contexto, 2002.
    pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
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    reiS, Joo Jos; Silva, Eduardo. Negociao e conflito: a resistncia negra no Brasil
      escravista. So Paulo: Companhia das Letras, 1999.




colonizAo
     O conceito de colonizao est bastante presente em nossa sociedade, seja na
sala de aula, nos livros didticos, na mdia ou na produo cientfica. E desde as
comemoraes dos 500 anos de descoberta da Amrica, na dcada de 1990, as ideias
de conquista e colonizao vm cada vez mais sendo alvo dos olhares acadmicos
e do grande pblico.
     Colonizao, mais do que um conceito,  uma categoria histrica, porque
diz respeito a diferentes sociedades e momentos ao longo do tempo. A ideia de
colonizao ultrapassa as fronteiras do Novo Mundo:  um fenmeno de expanso
humana pelo planeta, que desenvolve a ocupao e o povoamento de novas regies.
Portanto, colonizar est intimamente associado a cultivar e ocupar uma rea nova,
instalando nela uma cultura preexistente em outro espao. Assim sendo, a colonizao
em determinadas pocas histricas foi realizada sobre espaos vazios, como  o
caso das migraes pr-histricas que trouxeram a espcie humana ao continente
americano. Mas, desde que a humanidade se espalhou pelo mundo, diminuindo
significativamente os vazios geogrficos, o tipo de colonizao mais comum tem
sido mesmo aquele executado sobre reas j habitadas, como a colonizao grega do
Mediterrneo, na Antiguidade, e a colonizao do Novo Mundo, na Idade Moderna.
     A palavra colnia e suas variantes coloniais, colonizao, colonizador vieram do
verbo latino colo, que, segundo Alfredo Bosi, significa "eu moro, eu ocupo a terra, eu
cultivo". Dessa matriz, o termo colnia adquiriu sentido de espao que est sendo
ocupado. A mesma matriz gerou ainda as palavras e os conceitos de culto e cultura:


                                                                                     67
              Cultus, o particpio passado de colo, e culturus, o particpio futuro. Assim, para
Colonizao



              Bosi, uma colonizao  um projeto que engloba todas as foras envolvidas nos
              significados do verbo colo. Ou seja, colonizar significa ocupar um novo cho, trazer
              a memria da terra antiga (o culto) e transmitir prticas e significados s novas
              geraes (a cultura). Mas, se o significado de colo  cuidar, tambm  mandar, e o
              autor ressalta que dominar, explorar e submeter os nativos tambm so sentidos
              inerentes  colonizao. Nesse contexto, colonizar est sempre associado a conquistar.
                   No caso do processo colonizador movido pela Europa Moderna na Amrica,
              esse foi realizado em um conjunto especfico de relaes de dependncia e controle
              poltico e econmico que as metrpoles impuseram a suas colnias. Conjunto
              denominado sistema colonial.
                   Visto a amplitude da ideia de colonizao, muitos so os autores que procuraram
              classific-la, como Marc Ferro e Antonio Robert Moraes. O primeiro estabeleceu o
              imperialismo como uma forma de colonizao, sendo a principal distino entre
              ambos o fato de que o imperialismo no precisa necessariamente do controle poltico
              direto sobre os territrios explorados, enquanto a colonizao  um processo em
              que existe sempre o controle poltico da colnia pela metrpole. Robert Moraes,
              por sua vez, observou, na prpria expanso europeia dos tempos modernos, que a
              colonizao era apenas uma das formas de contato com outros espaos, coexistindo
              com o comrcio, o escambo e a pilhagem. Moraes definiu ento a colonizao
              americana como uma explorao contnua e sistemtica da terra, com a apropriao
              do espao pela metrpole e com a formao de territrios coloniais. No seria, assim,
              uma relao simplesmente baseada no comrcio, mas no controle.
                   No Brasil, a historiografia desde seus primrdios sempre se preocupou com o
              processo colonizador do pas, desde a Histria produzida nos institutos histricos da
              segunda metade do sculo xix, da qual Varnhagen foi o principal expoente. E a partir
              da Revoluo de 30, a preocupao com a modernizao do Brasil e com o carter
              nacional levou vrios pesquisadores a buscarem na colonizao a explicao para
              a realidade brasileira. Foi dessa preocupao que surgiram algumas das principais
              obras que definiram a forma como pensamos a colonizao do Brasil. Dentre elas,
              Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, foi um primeiro marco, contestando as
              teorias de superioridade racial branca, e vendo com olhar benevolente o processo
              colonizador. Tambm Razes do Brasil, de Srgio Buarque de Holanda, procurou
              estabelecer o carter nacional, considerando a cordialidade do homem brasileiro fruto
              da colonizao realizada por um povo, os portugueses, acostumado  miscigenao
              e sem preocupaes racistas. Outra abordagem, entretanto, presente na obra de Caio
              Prado, A formao do Brasil contemporneo, considerava a colonizao o fundamento
              para explicar os problemas sociais e as desigualdades do pas.


               68
     No entanto, a partir do ltimo quartel do sculo xx, com a influncia da Nova




                                                                                          Colonizao
Histria francesa e do materialismo histrico ingls, mais preocupados com a cultura
e as relaes sociais do que com explicaes de carter nacional, a forma como a
historiografia brasileira pensava a colonizao ganhou novos rumos. Estudos sobre
escravido, religiosidade, histria indgena, histria da famlia e das mulheres deram
novos significados ao processo de colonizao do Brasil, abandonando a ambio
de buscar nesse processo as explicaes para um suposto carter nacional ou para
todos os males do pas.
     Essas consideraes nos levam a perceber que o conceito de colonizao
tem tanto o carter de ocupao e cultivo de novos territrios como de domnio,
explorao e instalao cultural, pois a cultura do colonizador  transposta para
o novo territrio. Na maioria dos casos, entretanto, o territrio colonizado j est
ocupado, com habitantes que possuem cultura e estruturas sociais prprias, o
que pode dar margem a diferentes formas de contato e ao nascimento de novas
sociedades. No esquecendo, ainda, que a violncia e o conflito esto, em geral,
presentes na maioria dos processos de colonizao, pois a fixao de uma cultura em
territrio j ocupado gera no apenas a imposio de valores culturais, mas tambm
o controle fsico sobre os dominados e a resistncia por parte desses.
     Para o professor brasileiro, as questes em torno da ideia de colonizao esto
no primeiro plano de importncia, tanto pela prpria relevncia histrica do
perodo, que em seus trezentos anos de durao gestou a maior parte das estruturas
contemporneas quanto pela visibilidade que esse momento histrico tem na mdia.
Tendo em vista sua presena nos programas de Histria dos nveis Fundamental e
Mdio, a colonizao  um tema trabalhado por todos os professores da disciplina.
Usualmente, tanto os contedos programticos como os livros didticos se
preocupam sobretudo em abordar o processo de estabelecimento da colonizao
do Brasil e suas estruturas. Mas seria interessante, antes de adentrar a especificidade
desse processo no Brasil, que professores trabalhassem com seus alunos a
colonizao como um fenmeno geral da histria da humanidade, enfatizando-a
como expanso de uma sociedade que, em geral, produz conflitos culturais. Alm
disso, uma estratgia didtica que pode ser til  observar criticamente as vises
benevolentes e pitorescas da colonizao do Brasil que predominam na sociedade
atual, por meio da televiso, do cinema.

Ver tAmbm
    Aculturao; Barroco; Descobrimentos; Escravido; Etnocentrismo; Imperialismo;
    ndio; Inquisio; Latifndio/Propriedade; Mercantilismo; Miscigenao; Pirataria.



                                                                                   69
            sugestes de leiturA
Comunismo




                  andrade, Manuel Correia de. A trajetria do Brasil: de 1500 a 2000. So Paulo:
                   Contexto, 2000.
                  boSi, Alfredo. Dialtica da colonizao. So Paulo: Companhia das Letras, 1996.
                  Ferro, Marc. Histria das colonizaes: das conquistas s independncias, sculos
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                  Freyre, Gilberto. Casa-grande & Senzala: formao da famlia brasileira sob o
                    regime da economia patriarcal. Rio de Janeiro: Record, 1995.
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                  marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria contempornea
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                  ______. Histria moderna atravs de textos. 10. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
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                   territrio colonial do Brasil no "longo" sculo xvi. So Paulo: Hucitec, 2000.
                  peStana, Fbio. No tempo das especiarias. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2004.
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                  pinSKy, Jaime (org.). Histria da Amrica atravs de textos. So Paulo: Contexto, 1994.




            comunismo
                O Comunismo  uma ideia que se incorporou ao imaginrio do Ocidente
            contemporneo, sempre colocada em oposio ao Capitalismo. Tal ideia, no entanto,
            tem se tornado pouco compreendida pelas novas geraes, depois da queda do bloco
            de pases socialistas, a partir da 1989, e com a ascenso da ps-modernidade e da
            globalizao. Embora, para muitos, o Comunismo tenha sido um projeto poltico que
            morreu com o sculo xx, sua importncia para a Histria do mundo contemporneo
            ainda faz dele um tema atual.
                O Dicionrio do pensamento marxista oferece duas definies para Comunismo:
            primeiro, ele seria o movimento poltico da classe operria dentro da sociedade
            capitalista, iniciado com a Revoluo Industrial. Esse sentido do termo surgiu
            na dcada de 1830, com o crescimento da classe operria na Europa Ocidental.


             70
Em segundo lugar, o Comunismo seria a sociedade criada pela classe trabalhadora em




                                                                                         Comunismo
sua luta com as classes dominantes na sociedade capitalista. Esses dois sentidos foram
propostos por Karl Marx e esto intimamente relacionados: assim, o Comunismo
 ao mesmo tempo o movimento poltico e a sociedade que dele emerge. Podemos
entend-lo ainda como uma ideologia, um conjunto articulado de princpios tericos
que fundamentam um tipo de sociedade e uma ao poltica.
      importante ressaltar que o conceito de Comunismo difere do de Socialismo,
este ltimo atuante em diversos regimes polticos ao longo do sculo xx. Os termos
Socialismo e Comunismo, durante a segunda metade do sculo xix, eram usados
indiscriminadamente como referncia  luta da classe trabalhadora. Mesmo Marx
e Engels, autores do Manifesto comunista, no fizeram grande distino entre os
dois nem objetaram o uso da expresso social-democrata, que designava grandes
partidos socialistas, como o alemo e o austraco. Todavia, as lutas polticas entre
as numerosas organizaes operrias ao longo do sculo xix e comeo do xx foram
criando grupos separados de socialistas e comunistas. Mas foi somente em 1917,
quando foi criada a Terceira Internacional Comunista, que esse afastamento se
consolidou: nesse momento, os partidos definidos como comunistas se engajaram
na ao revolucionria de derrubada violenta do Capitalismo, enquanto o
Socialismo passou a ser entendido como um movimento constitucional e mais
pacfico de reformas progressivas. Por outro lado, Lenin defendia que o Socialismo
era uma fase de transio que conduziria a sociedade capitalista ao Comunismo
propriamente dito. Nesse sentido, o Socialismo seria uma primeira fase de domnio
das classes trabalhadoras, quando estas tomariam o poder e imporiam a Ditadura
do Proletariado, mas onde ainda haveria diviso de classes. O Comunismo, por
sua vez, seria a fase posterior, aperfeioada, em que as classes sociais deixariam de
existir, e com elas, a dominao do homem sobre o homem. Foi esse esquema de
Lenin que inspirou praticamente todas as revolues socialistas do sculo xx. Por
isso falamos de marxismo-leninismo como o conjunto de ideias e prticas da busca
pelo Comunismo. O historiador Eric Hobsbawm assinala a importncia de Lenin
para todo o sculo xx, considerando-o um homem realista, um articulador e um
organizador da ao poltica revolucionria que serviu de modelo para inmeros
revolucionrios subsequentes. Foi ele quem organizou o Partido Bolchevique,
fortalecendo-o de tal modo que o tornou a nica fora capaz de assumir os destinos
do Rssia na Revoluo de Outubro de 1917.
     Precisamos estar atentos para o carter histrico do Comunismo, pois como ao
poltica revolucionria que buscava superar a sociedade capitalista ele  um fenmeno
datado. Originrio do sculo xix, desdobrou-se nas ondas revolucionrias do sculo xx
e entrou em decadncia nas ltimas dcadas desse mesmo sculo, o que foi simbolizado


                                                                                  71
            pela queda do muro de Berlim e pelo fim do bloco de pases socialistas aps 1989.
Comunismo



            Entretanto, o Comunismo como ideal de sociedade possui alguns princpios que j
            so encontrados na Antiguidade e no Cristianismo primitivo. Por exemplo, Plato, na
            Repblica, previu o fim da propriedade privada como soluo para o conflito entre
            o interesse privado e o Estado. Mas o filsofo grego no defendia o povo, afirmando
            que as classes inferiores deveriam continuar nesse estado, dependentes das classes
            superiores. No caso do Cristianismo primitivo, os ideais comunistas tambm podem
            ser encontrados nas crticas dessa doutrina  riqueza, assim como em sua proposta de
            uma vida comunitria, de pobreza e caridade e de desapego aos bens terrenos. Tambm
            a Idade Moderna construiu utopias com princpios comunistas. Em um momento em
            que as classes burguesas ascendiam, intelectuais eminentes criavam locais imaginrios
            onde a propriedade privada e o dinheiro seriam abolidos, todos os bens imveis
            pertenceriam ao Estado, e os trabalhadores trabalhariam apenas o suficiente para
            satisfazer as necessidades coletivas. Um dos principais representantes desse pensamento
            foi Thomas More (1478-1535). A prpria Revoluo Inglesa do sculo xvii  que no
            teve carter comunista e pode ser definida como uma revoluo burguesa  foi palco
            da radicalizao poltica de grupos reduzidos  misria, conhecidos como "cavadores",
            pois muitos eram camponeses expropriados de suas terras. Para esse grupo, os meios
            de subsistncia, especialmente a terra, eram um direito comum, e era preciso abolir a
            propriedade privada, fonte de todas as injustias e males. Tambm a Revoluo Francesa,
            apesar de ser uma revoluo da burguesia, teve elementos comunistas.
                 Ao longo do sculo xix, com o avassalador crescimento das relaes capitalistas e
            a degenerao das condies de vida dos trabalhadores industriais, surgiram muitas
            escolas de pensamento que retomaram os ideais comunistas. Filsofos como Fourier,
            Robert Owen, Cabet e Saint-Simon, entre outros, formularam propostas para corrigir
            os males gerados pela Revoluo Industrial. Radicais saint-simonistas chegaram
            a condenar explicitamente a explorao do homem pelo homem, algo retomado
            depois por Karl Marx (1818-1883). Mas foi mesmo a partir de Marx que a relao
            entre o pensamento terico comunista e a prtica poltica revolucionria comeou.
            Para Marx, pensamento e ao deveriam se unir para transformar a realidade. O
            chamado "Socialismo cientfico" de Marx e Engels suplantou as escolas socialistas
            anteriores, tachadas de "socialistas utpicas", pois acreditavam na passagem pacfica
            do Capitalismo ao Comunismo. E a concepo marxista do Comunismo se tornou
            a concepo terica adotada pelos movimentos revolucionrios do sculo xx, o que
            no significa que o pensamento de Marx tenha sido plenamente compreendido e
            implementado pelos pases que adotaram o Socialismo.  preciso lembrar que Marx
            discutiu a sociedade comunista apenas em termos gerais, no analisando detidamente
            um modo de produo que no existia de fato, que era apenas um projeto. Apesar
            disso, ele acreditava que o Comunismo seria o fim lgico da humanidade.



             72
     Marx  considerado o pensador que melhor investigou o Capitalismo em sua




                                                                                            Comunismo
origem e em seus mecanismos. Vivendo em Londres, terra da Revoluo Industrial,
o autor encontrou o contexto ideal para entender o Capitalismo em sua forma mais
avanada na poca: o ingls. Ele aplicou os princpios do materialismo histrico e
da dialtica  anlise de fenmenos histricos concretos, entendendo o Capitalismo
como um regime resultante da expropriao de grandes grupos humanos dos
meios de produo, o qual colocava em oposio os proprietrios desses meios de
produo (os burgueses) e os proletrios, no proprietrios. Para Marx, o prprio
avano do modo de produo capitalista entraria em choque com as relaes
produtivas, gerando uma nova forma de sociedade, a comunista. Ou seja, o avano
do Capitalismo poria em conflito a classe burguesa e o proletariado, transformando
as relaes produtivas e criando uma sociedade igualitria com a vitria do
proletariado. Essa sociedade comunista teria como caractersticas fundamentais a
abolio da propriedade privada, da alienao humana, da diviso do trabalho e das
classes sociais; o restabelecimento do controle sobre as foras materiais, deixando
a produo dos bens a cargo de uma sociedade de produtores associados. Marx
defendia que o Comunismo seria implantado primeiro naquelas sociedades em que
o Capitalismo teria chegado ao mximo desenvolvimento de suas foras produtivas.
E o Comunismo s apareceria quando fossem criadas as condies materiais na
ordem capitalista. Nesse sentido, as sociedades no industrializadas no teriam o
grau de contradies necessrias a essa revoluo.
     Com base nessas consideraes, podemos nos perguntar se, historicamente,
houve sociedades que chegaram realmente a implantar o Comunismo em suas
relaes sociais. Segundo os marxistas, existiu um Comunismo primitivo na histria
da humanidade, quando no havia propriedade privada e os bens eram divididos
coletivamente. Nesse perodo, no haveria desigualdade social. Esse estgio, tpico
de sociedades tribais, teria terminado com o surgimento da propriedade privada e
da hierarquizao. Porm, para muitos pensadores no marxistas, o Comunismo
nunca existiu, pois era um projeto vinculado  sociedade capitalista e, como tal, no
pode ser encontrado em outros contextos histricos. E a urSS no seria a primeira
nao comunista da histria? A maioria dos pensadores considera que a urSS foi uma
construo poltica socialista, e no comunista. Mas para Trotski, contemporneo e
articulador da Revoluo de 1917, que fundou o Socialismo sovitico, a urSS era apenas
uma sociedade intermediria entre o Capitalismo e o Socialismo. Para ele, as foras
produtivas existentes na urSS ainda eram insuficientes para dar um carter socialista
 Revoluo. Esse argumento estava fundamentado no prprio Marx, para quem
o Socialismo no poderia levar um pas atrasado como a Rssia  industrializao.
Isso deveria ser feito j no Capitalismo, que seria a fase anterior. Para muitos autores,


                                                                                     73
            inclusive marxistas, o regime da urSS foi stalinista, pretensamente fundamentado
Comunismo



            no marxismo-leninismo. Por outro lado, estudos recentes sobre o declnio da urSS
            definem esse pas como protossocialista, ou seja, havia nele um Socialismo embrionrio
            mesclado com elementos capitalistas. Tambm Angelo Segrillo no pensa a urSS como
            o modelo do modo de produo comunista. Para ele, seu modelo econmico era
            hbrido, protossocialista com caractersticas fordistas tomadas de emprstimo do
            Capitalismo. O que isso significa? Que a urSS, desde Stalin, para alcanar e ultrapassar
            as economias capitalistas desenvolvidas, fez uso da racionalidade produtiva do
            fordismo, ou seja, da produo rgida com especializao das tarefas, controle de
            tempo, controle de qualidade separado da produo, nfase nas grandes quantidades
            com uma qualidade apenas "suficientemente boa" etc. Muitos marxistas, inclusive
            Lenin, lutavam pela ecloso de revolues socialistas em escala global, e durante
            muito tempo esperaram que naes como a Alemanha viessem em apoio da Rssia.
            O fato  que o Ocidente no quis o Socialismo, e seus focos de revoluo foram
            malsucedidos. E, para Marx, o Comunismo s teria sucesso em escala global.
            De todo modo, a urSS foi comunista pelo menos quanto  abolio da propriedade
            privada. Em meados da dcada de 1980, suas estatsticas oficiais diziam inexistir
            a propriedade privada de empresas urbanas e agrcolas, ou mesmo produtores
            privados independentes. Ou seja, praticamente 100% das empresas e trabalhadores
            estavam "socializados".
                 Para muitos crticos, o modelo socialista estatista, burocrtico e autoritrio deve
            ser enterrado. Esse era o modelo do "Socialismo realmente existente", expresso
            que, como notou Hobsbawm,  bastante ambgua, querendo significar, por um
            lado, que pode haver outros e melhores tipos de Socialismo e, por outro, que esse
            era o nico que realmente funcionava. Mas, historicamente, existiram numerosas
            tradies socialistas empurradas para longe pela tradio bolchevique, responsvel
            pela implantao do Socialismo sovitico, ou Socialismo real, que considerava essas
            outras interpretaes "revisionistas". Entre elas esto Rosa Luxemburg, Kautsky, os
            austro-marxistas, a Escola de Frankfurt, Antonio Gramsci. Muitos foram os autores
            julgados "renegados" pelo bolchevismo. Hoje, as organizaes de esquerda, aps o
            fracasso da experincia do "Socialismo real", tm a oportunidade de buscar outros
            caminhos, outras tradies, sem necessariamente jogar fora a herana terica
            marxista. Precisamos perceber que o Comunismo, como projeto e utopia, foi
            apenas esboado e no chegou nem perto de sua formulao ideal. Para o professor
            de Histria que acredita que o trabalho em sala de aula deve estar a servio da
            transformao humana, temas como o Comunismo no podem ser esquecidos.
             possvel trabalhar o Comunismo tanto em sua vertente histrica, como projeto
            poltico de crtica ao Capitalismo, quanto em seu sentido mais filosfico, como
            proposta de busca pela igualdade na humanidade.



             74
ver tambm




                                                                                          Cotidiano
    Burguesia; Capitalismo; Dialtica; Estado; Ideologia; Iluminismo; Marxismo;
    Modo de Produo; Revoluo.

SuGeSteS de leitura
    barboSa, Alexandre de Freitas. O mundo globalizado: poltica, sociedade e
      economia. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    bobbio, Norberto; matteucci, Nicola; Paquino, Gianfranco. Dicionrio de poltica.
      Braslia: Editora UnB/Linha Grfica, 1991.
    bottomore, Tom. (ed.) Dicionrio do pensamento marxista. Rio de Janeiro:
      Jorge Zahar, 1988.
    coutinHo, Carlos Nelson. Democracia e socialismo: questes de princpio &
     contexto brasileiro. So Paulo: Cortez, 1992.
    Faria, Ricardo Moura. As revolues do sculo xx. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2002.
    ______; Liz, Mnica Miranda. Da Guerra Fria  nova ordem mundial. So Paulo:
      Contexto, 2003.
    HobSbaWm, Eric. A era dos extremos: o breve sculo xx, 1914-1991. So Paulo:
     Companhia das Letras, 1998.
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    ______. Histria do tempo presente. So Paulo: Contexto, 2000.
    pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
      Contexto, 2003.
    ______; ______. Faces do fanatismo. So Paulo: Contexto, 2004.
    SaSSon, Donald. Cem anos de socialismo: a esquerda europeia ocidental no sculo
      xx. So Paulo: Contexto, 2001.
    SeGrillo, Angelo. O declnio da urss: um estudo das causas. Rio de Janeiro:
      Record, 2000.




cotidiAno
      comum o cotidiano ser entendido como o dia a dia, como algo que envolve
monotonia e repetio. Entretanto, cotidiano  mais do que o dia a dia e, alm disso,
ele pode tambm ser o lugar da mudana.
     H pouco consenso na definio de cotidiano. Para Certeau, por exemplo, o
cotidiano se compe de numerosas prticas ordinrias e inventivas e no seguem


                                                                                   75
            necessariamente padres impostos por autoridades polticas ou institucionais. J
Cotidiano



            para Agnes Heller, a vida cotidiana  a vida de todo homem, e todos j nascem
            inseridos na sua cotidianidade, na qual participam com toda sua personalidade: com
            todos os sentidos, capacidades intelectuais, habilidades manipulativas, sentimentos,
            paixes, ideias, ideologias. Heller identifica e delimita as partes que constituiriam
            a vida cotidiana como a organizao do trabalho e da vida privada, os lazeres e o
            descanso, a atividade social sistematizada, o intercmbio e a purificao.
                 Durante o sculo xix e as primeiras dcadas do xx, os historiadores entenderam
            como legtimos apenas os estudos de Histria Poltica e Econmica. O cotidiano no
            era ento uma preocupao. Mas no decorrer do sculo xx, as renovaes conceituais
            e metodolgicas da Histria propiciaram abertura para os estudos do cotidiano,
            que comearam a ganhar espao com a corrente historiogrfica chamada Nova
            Histria. Da em diante, intensificaram-se os estudos de temas como a famlia, o
            papel da disciplina, as mulheres e os significados dos gestos cotidianos. Para Maria
            Izilda Santos de Matos, a historiografia comeou, ento, a estudar o poder em outros
            espaos, no apenas nas instituies pblicas e no Estado, mas tambm na esfera
            do privado e do cotidiano.
                 Os historiadores comearam tambm a redefinir os espaos polticos, no mais
            pensados apenas como "poltica institucional", mas valorizando a esfera do cotidiano
            como um espao igualmente politizado. Se antes as preocupaes dos historiadores
            se restringiam ao estudo da macropoltica, as resistncias midas e quase invisveis do
            cotidiano passaram, com a Nova Histria, a ser objeto legtimo de pesquisa, e muitos
            personagens antes ocultos  porque no participavam diretamente dos aspectos da
            vida pblica  passaram a ter suas vozes e gestos reconstitudos. Mulheres, prisioneiros,
            loucos, marginais e muitos outros "esquecidos" podiam enfim ter sua histria contada.
                 Apesar de hoje contarmos no Brasil com excelentes estudos relativos  dimenso
            da cotidianidade, tais esforos no foram seguidos pelo desenvolvimento de uma
            reflexo terica acerca do tema, como afirma Silvia Regina Ferraz Petersen. Para a
            autora, o termo cotidiano no est sendo definido pelos autores que o empregam.
            Ocorre que cada autor recorta a realidade social a seu modo, fragmentando o
            cotidiano para sua investigao particular.
                 Mas ento, de que se compe o cotidiano? Como separ-lo  se isso  possvel
            ou mesmo desejvel  de outras esferas, como a poltica e a economia? H alguma
            organizao na vida cotidiana que nos permita criar um mtodo que a compreenda?
            Para definir cotidiano, temos de pensar essas questes, mas sempre considerando,
            como Maria Odila Dias, que qualquer mtodo que suponha estabilidade, equilbrio
            e funcionalidade no cotidiano talvez seja muito rgido para explic-lo. Apesar disso,
            muitos estudiosos se esforam para entender as "regras" do cotidiano.


             76
     Michel de Certeau, por exemplo, pensa o cotidiano como o lugar da inveno.




                                                                                           Cotidiano
Para ele, as pessoas comuns, em seu anonimato, em sua invisibilidade, possuem
imensa criatividade para elaborar prticas cotidianas que as fazem interpretar o
mundo a seu modo e forjar microrresistncias e microliberdades que se opem s
estruturas de dominao dos poderes e das instituies. Para Certeau, o cotidiano
s pode ser pensado como um lugar prenhe de interpretaes, de desvios que
transformam os sentidos reais em sentidos figurados. Dessa forma, as pessoas comuns
podem, no cotidiano, subverter a racionalidade do poder, agindo de forma sub-
reptcia e engenhosa. Se, para muitos estudiosos, o cotidiano  o lugar da opresso e
do controle social, em que criaturas submissas se comportam uniformemente a partir
de imposies sociais, para Certeau, no entanto, os indivduos encontram brechas no
cotidiano para driblar a opresso com tticas sutis e silenciosas. Para o autor, devemos
ver no s opresso e disciplina por todo lado, mas tambm o cotidiano como o
espao de surpresas interessantes, de resistncias midas quase imperceptveis, de
antidisciplinas que so formas criativas de sobreviver e de inteligncias acionadas
nas mais diversas situaes.
     J para Agnes Heller, a vida cotidiana est no centro do acontecer histrico, e
ela seria a prpria substncia da histria. At as grandes aes no cotidianas  a
proclamao da Repblica brasileira, por exemplo  partiriam da vida cotidiana e a
ela retornariam. A faanha histrica, afirma a autora, s pode ser considerada como
tal devido a seu posterior efeito na cotidianidade. Podemos notar, assim, que tanto
em Heller como em Certeau, apesar das diferenas, o conceito de cotidiano no 
entendido isoladamente. Para esses estudiosos, aspectos cotidianos e no cotidianos
se interpenetram na realidade social. Se Certeau se preocupa com a relao entre
prticas cotidianas ordinrias que ressignificam os valores e as normas de instituies
e autoridades, Heller, por sua vez, percebe que em nenhuma esfera da atividade
humana se pode separar com rigidez o comportamento cotidiano do no cotidiano.
Do mesmo modo, se Certeau identifica o carter mltiplo e inventivo das prticas
cotidianas, Heller afirma que a vida cotidiana  mesmo cheia de alternativas e supe
escolhas feitas muitas vezes de forma improvisada. E enquanto Heller postula a
ideia de que h um "pensamento" prprio no cotidiano  nunca atingindo o nvel
da teoria, mas fundamentado basicamente no pragmatismo , Certeau, por sua vez,
imagina o cotidiano como o lugar de uma cultura peculiar, uma linguagem prpria.
Por fim, para Agnes Heller, algumas das caractersticas bsicas da vida cotidiana
seriam o pragmatismo, a espontaneidade e a imitao  pois reproduzimos muitos
dos atos pelo costume. J Certeau enfatiza a inventividade, ou seja, a resistncia feita
no cotidiano, com base em leituras inteligentes da vida e do mundo.



                                                                                    77
                 Do exposto at aqui, percebemos que ainda no existe um conceito definitivo de
Cotidiano



            cotidiano. Mas  possvel realizarmos algumas distines entre o cotidiano e outras
            esferas da vida humana. Nele, prticas de trabalho, lazer, resistncia, religiosidade,
            vises sobre a vida e sobre a morte, modos de morar, falar  s para mencionar
            alguns dos seus mltiplos aspectos  compem um quadro rico em que a reflexo
            do professor/pesquisador pode ser ativada. E embora existam muitas dificuldades,
            pensar o cotidiano nos nveis Fundamental e Mdio pode ser uma forma atraente
            de fazer os estudantes sentirem uma histria mais humana, mais prxima de sua
            realidade concreta. E, para isso, as estratgias de ensino-aprendizagem so infinitas
            com a inventividade de cada professor e com a realidade de cada escola. Mas h
            algumas abordagens da Histria do Cotidiano que esto ao alcance de quase todos
            os professores: o trabalho com fontes histricas diversas que retratem o cotidiano de
            perodos passados, desde textos de cronistas, gravuras e fotografias at registros da
            cultura material expostos em museus, como mveis, roupas, utenslios domsticos
            etc. Todavia, no devemos estudar o cotidiano de forma isolada ou enfatizando o lado
            "pitoresco" do passado.  preciso abord-lo em sua ntima relao com as questes
            culturais, sociais, econmicas e polticas de cada poca e sociedade.

            Ver tAmbm
                  Cultura; Histria; Histria Oral; Historiografia; Identidade; Imaginrio; Memria;
                  Mentalidades; Poltica; Sociedade.

            sugestes de leiturA
                  certeau, Michel de. A inveno do cotidiano. Petrpolis: Vozes, 2002, 2v.
                  cHalHoub, Sidney. Vises da liberdade: uma histria das ltimas dcadas da
                   escravido na corte. So Paulo: Companhia das Letras, 1998.
                  del priore, Mary. Histrias do cotidiano. So Paulo: Contexto, 2001.
                  ______. Mulheres no Brasil colonial. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
                  del priore, Mary (org.). Histria das mulheres no Brasil. 6. ed. So Paulo:
                   Contexto, 2002.
                  ______. Histria das crianas no Brasil. 4. ed. So Paulo: Contexto, 2004.
                  diaS, Maria Odila da Silva. Quotidiano e poder em So Paulo no sculo xix: Ana
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                  Heller, Agnes. O cotidiano e a histria. So Paulo: Paz e Terra, 1992.
                  macedo, Jos Rivair. A mulher na Idade Mdia. 5. ed. So Paulo: Contexto, 2002.
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                   Histria moderna atravs de textos. 10. ed. So Paulo: Contexto, 2003.


             78
    matoS, Maria Izilda Santos de. Cotidiano e cultura: histria, cidade e trabalho.




                                                                                          Cristianismo
     Bauru: Edusc, 2002.
    meSGraviS, Laima; pinSKy, Carla Bassanezi. 2. ed. O Brasil que os europeus
     encontraram. So Paulo: Contexto, 2002.
    meSquita, Zil; brando, Carlos Rodrigues. (orgs.). Territrios do cotidiano: uma
     introduo a novos olhares e experincias. Porto Alegre/Santa Cruz do Sul:
     Ed. Universidade/uFrGS/uniSc, 1995.
    pinSKy, Jaime. O cotidiano no imaginrio medieval. So Paulo: Contexto, 1992.
    ______. A escravido no Brasil. So Paulo: Contexto, 1993.
    pinSKy, Jaime (org.). O ensino de Histria e a criao do fato. 11. ed. So Paulo:
      Contexto, 2004.




cristiAnismo
     O Cristianismo  uma religio monotesta que apresenta numerosas ramificaes
surgidas das diversas misturas culturais realizadas durante seus dois mil anos
de histria.  alm disso uma das maiores religies do mundo contemporneo,
dominante no Ocidente, influenciando mesmo os mais cticos.
     A religio crist, como movimento cultural,  antes de tudo uma construo
histrica, o que significa que ela precisa ser historicizada, sempre entendida a partir
do perodo e da sociedade na qual est inserida. Mas de outro modo, como religio,
 tambm um conjunto de prticas e ritos.  preciso lembrar, porm, que Cristo
no elaborou claramente uma doutrina teolgica propriamente dita, o que s foi
realizado posteriormente pelos primeiros cristos a organizarem sua Igreja.
     O Cristianismo surgiu no Imprio Romano, com a pregao dos seguidores de
Jesus Cristo, profeta martirizado na Jerusalm romana no sculo i. A palavra cristo
foi usada pela primeira vez em Antioquia, cidade Sria, que era ento um dos mais
importantes ncleos urbanos do Imprio Romano. O termo equivalia a povo de
Cristo. Por essa mesma poca e na mesma cidade, surgiu outra expresso, por muito
tempo fortemente vinculada ao povo de Cristo: catlico. Esse termo foi utilizado
pela primeira vez para se referir  "Igreja como um todo", opondo-se s diversas
posturas divergentes que as comunidades possuam. A partir desse ponto, catlico
foi progressivamente tornando-se sinnimo de universal. Essa definio permitiu 
Igreja Catlica apresentar-se como detentora do nico ponto de vista correto que
deveria ser aceito por todas as comunidades crists primitivas.



                                                                                   79
                    Desde muito cedo, entretanto, grupos divergentes apareceram, contrapondo-se a
Cristianismo



               essa viso de mundo que se considerava universalista. A vasta maioria deles, todavia,
               foi sufocada pela Igreja, como as chamadas heresias medievais. Outros, ao longo do
               tempo, conseguiram resistir ao esmagamento, tornando-se igrejas independentes
               e criando tradies prprias, como  o caso das ramificaes protestantes surgidas
               a partir da Idade Moderna. Nesse sentido, percebemos que no h uma unidade
               interna ao Cristianismo, chegando mesmo suas diferentes faces a se separarem
               totalmente, muitas vezes tornando-se rivais.
                    Mas apesar da fragmentao que o Cristianismo foi sofrendo na histria,
               caracterstica fundamental que a tornou uma das mais importantes religies do mundo
               foi sua grande expanso. Primeira religio a cruzar os oceanos e estabelecer-se em
               todos os continentes: na Idade Mdia, igrejas crists floresciam desde os planaltos
               ridos da Etipia at os fiordes gelados da Groelndia; missionrios levaram a religio
               crist para os pontos mais distantes do continente asitico, desde o Mar Cspio e
               a China, at s praias indianas; padres catlicos chegaram ao Japo no sculo xvi
               e acompanharam as expedies portuguesas e espanholas durante a conquista do
               Novo Mundo; importantes comunidades protestantes fundaram colnias na Amrica
               do Norte, na frica do Sul e na Austrlia, definindo a religiosidade que at hoje
               marca esses pases.
                    Praticamente todas as igrejas crists tm um denominador comum e
               reconhecem Cristo como seu fundador. Alm disso, outro ponto de unio  a
               crena monotesta herdada da tradio judaica, mas que defende a divindade de
               Jesus Cristo e do Esprito Santo, ou seja, a teoria da Santssima Trindade. Nessa
               teoria, o nico Deus se revela em trs "pessoas" independentes, o Pai, o Filho e o
               Esprito Santo, que so tambm consideradas uma unidade, por compartilharem
               de uma mesma "substncia". Com algumas excees, a maior parte das Igrejas
               crists aceita as deliberaes dos trs primeiros conclios ecumnicos: Niceia, em
               325; Constantinopla, em 381; e Calcednia, em 425. Entre essas deliberaes est
               a crena na identidade da substncia, ou seja, no chamado mistrio da f, segundo
               o qual as trs pessoas so e no so um nico Ser; tambm est a crena em Maria
               como paridoura de Deus, visto que seu filho teve duas naturezas, a divina e a humana
               (excetuando o pecado). Entre as Igrejas que no aceitam tais crenas, esto a Igreja
               Etope, as orientais, como a caldaica, e denominaes crists surgidas no sculo xix
               e chamadas de "ramos colaterais" do Cristianismo, como as Testemunhas de Jeov,
               os Mrmons e a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos ltimos Dias.
                    O Cristianismo primitivo foi baseado nos ensinamentos de Cristo e na crena em
               sua morte e ressurreio. Para as primeiras comunidades crists e sua doutrina, Deus


                80
intervinha diretamente na histria humana, a morte de Cristo representava o penhor




                                                                                         Cristianismo
pela salvao de toda a humanidade e o reino de Deus era instalado naquele momento.
At o momento em que o Apstolo Paulo expandiu a f crist, a partir do sculo i d.C.,
para muitos rinces do mundo romano helenizado, o Cristianismo foi considerado
apenas um movimento reformista no Judasmo e bastante prprio de Jerusalm. As
primeiras comunidades crists eram pequenas e dispersas e se formaram quando os
Apstolos, discpulos do prprio Cristo, ainda viviam em seu meio. Todavia, com
a morte de Paulo, a hierarquia da Igreja comeou a se enrijecer, o que permitiu a
sobrevivncia da nova religio. Por volta de 110 d.C., o bispo Incio estabeleceu
os trs cargos clssicos da hierarquia eclesistica: bispos, presbteros e diconos,
instituindo, assim, a separao entre povo e hierarquia. Se antes predominavam
nas comunidades aqueles com mais carisma, e a capacidade administrativa era uma
qualidade irrelevante, a partir de ento apenas os funcionrios eclesisticos podiam
dirigir as igrejas, e o povo tornou-se audincia. A eucaristia, por exemplo, no podia
mais ser celebrada sem a presena de um bispo.
     O Cristianismo passou ento a se identificar com a Igreja Catlica, que at
o cisma da Igreja Ortodoxa foi a nica Igreja crist existente. Seu fortalecimento
institucional deu-se exatamente nos sculos de crise do Imprio Romano, quando
as instituies romanas ruam. A ausncia de ordem e poder, assim como os temores
advindos da situao de crise em muito contriburam para a aceitao dos valores
cristos pela maior parte da populao do Imprio. Assim, de religio perseguida, o
catolicismo se tornou religio oficial do Estado romano decadente. A Igreja surgiu,
assim, com uma face protetora, assumindo as funes das antigas autoridades
polticas romanas e, ao mesmo tempo, uma face perseguidora, pois os judeus e os
fiis dos cultos pagos passaram a ser acossados. Durante a Idade Mdia, com o
incremento do poder institucional da Igreja, o Cristianismo se tornou instituio de
carter supranacional, e o sentimento de pertencer  cristandade, na Europa, deveria
ser maior do que o sentimento de pertena a um povo em particular.
     J com o surgimento dos Estados nacionais europeus, na transio da Idade
Mdia para a Idade Moderna, o poder secular e poltico da Igreja entrou em crise,
criticado pelos Estados emergentes. Em alguns casos, esses Estados se associaram
 Igreja, passando a ser seu brao secular, como Portugal e Espanha. Em outros,
entretanto, iniciaram-se srias disputas polticas, como na Frana e nos principados
alemes, que culminariam na Reforma Protestante.
     Mas um dos primeiro abalos s pretenses catlicas de centralizao poltica
e religiosa foi o chamado Cisma do Oriente em 1054, quando a exigncia feita
pela linha romana do catolicismo de ter a primazia sobre toda a Igreja afastou o


                                                                                  81
               Cristianismo ocidental do oriental. Tal processo foi desencadeado porque o patriarca
Cristianismo



               latino sediado em Roma (posteriormente designado de papa), que era apenas um
               dentre os cinco patriarcas lderes da Igreja, e o nico no Ocidente, exigiu para si a
               supremacia poltica, entrando em choque com a organizao da Igreja Oriental. A
               Igreja Oriental, que era uma comunho de Igrejas  originalmente os patriarcados
               de Antioquia, Alexandria, Constantinopla e Jerusalm , no aceitou as pretenses
               centralistas que emanavam de Roma. Essa disputa poltica serviu como pano de
               fundo para uma srie de pequenas questes teolgicas que terminou por separar
               as duas metades da Igreja. E diferentemente da Reforma Protestante, o Cisma de
               1054 no apresentou nenhuma grande questo teolgica de relevo, tanto que hoje,
               revogadas as excomunhes mtuas entre as duas Igrejas, quaisquer dos sacramentos
               recebidos em uma Igreja so vlidos na outra. De qualquer maneira, foram as
               pequenas diferenas teolgicas que serviram de estopim para a separao. A Trindade,
               aceita por ambos os lados, por exemplo, era vista de maneira diferente: os padres
               gregos ortodoxos entendiam o Deus nico como uma estrela que d luz a uma
               segunda e a uma terceira, apresentando o Esprito Santo (a terceira "estrela") como
               provindo apenas do Deus Pai. A viso latina, por sua vez, a partir de Santo Agostinho,
               defendia que as trs estrelas brilhavam simultaneamente no mesmo nvel, assim
               como o Esprito Santo, fruto do amor entre Deus Pai e Deus Filho, era proveniente
               de ambos, e no apenas do primeiro  era um Deus que se autodesdobrava.
                    A partir de seu bero bizantino-mediterrnico, o Cristianismo oriental
               espalhou-se pela Europa do Leste: o bizantinlogo Charles Diehl, no final do sculo
               xix, falou do papel de "educador" exercido por Bizncio. De fato, os povos ditos

               brbaros localizados alm do Danbio no foram atingidos pela Igreja Romana,
               mas pelos padres orientais. O monge oriental Cirilo, por exemplo, antes do sculo
               x, serviu junto aos morvios, incutiu-lhes a religio crist em sua prpria lngua

               e criou para eles um alfabeto a partir do grego com sinais apropriados s suas
               expresses. Esse alfabeto, chamado cirlico,  ainda hoje a escrita de quase todas as
               lnguas eslavas. Alm disso, srvios, blgaros, russos, ucranianos, todos abraaram
               a religio crist ortodoxa.
                    No Ocidente, por sua vez, diante da decadncia geral em que se encontrava a
               Igreja ao fim da Idade Mdia, no foram poucos os que tentaram reform-la. Alguns
               agiram a partir de dentro, tentando transformar a estrutura sem abandon-la de
               vez, como os franciscanos. Outros, diferentemente, no viam naquele sistema seno
               corrupo e perverso, e defendiam uma mudana to profunda na estrutura que, ao
               fim, a Igreja no seria mais a mesma. Essa linha mais radical deu origem s diversas
               denominaes protestantes.


                82
     Diferentemente da Igreja Catlica, para quem uma nica interpretao 




                                                                                         Cristianismo
fundamental, para o Cristianismo protestante a livre interpretao sempre foi
uma das premissas bsicas. Dessa maneira, com as igrejas ou denominaes mais
tradicionais, outras tantas surgiram com sutis variaes teolgicas. A partir da
vertente Luterana, por exemplo, fortemente ligada ao Estado, surgiram igrejas
nacionais como a sueca, a alem, a norte-americana, entre outras, todas guardando
entre si certa independncia. Do Calvinismo, a mais relevante igreja a surgir foi
a Presbiteriana. A partir da matriz Anglicana, evoluiu o maior nmero de novas
denominaes: a Episcopal (surgida aps a independncia dos Estados Unidos, pois
os fiis recm-independentes no queriam ficar atrelados a uma igreja inglesa), as
Pentecostais, a Batista, a Congregacional, entre outras.
     Mais ao sul, uma forte e antiga Igreja crist resistiu: a Igreja Copta, termo que
significa egpcio em grego, depois abreviado pelos rabes para fazer referncia aos
cristos egpcios. Igreja crist africana, com marcante presena na Etipia, onde
gerou toda uma cultura e um alfabeto prprios, a Igreja Copta se distingue das
demais Igrejas crists, mesmo as orientais, por ser monofisista. Enquanto todas as
Igrejas ocidentais sustentam que Cristo teve, ao mesmo tempo, duas naturezas, uma
humana, outra divina, o monofisismo sustenta a existncia de apenas uma natureza,
a divina. Como o monofisismo foi condenado pela Igreja ocidental ainda unificada
com o Oriente em 451, no Conclio de Calcednia, a Igreja africana se separou do
ramo maior do Cristianismo, isolando-se das outras vertentes.
     Percebemos, assim, grande diversidade no Cristianismo. Embora durante sua
longa histria a maior parte de suas Igrejas tivesse se envolvido com questes de
Estado, disputas, perseguies e violncias de toda natureza, no devemos esquecer
que, em seus fundamentos, o Cristianismo  uma doutrina filosfica que prega a
no violncia, o desapego ao mundo material, a caridade material e espiritual. Os
princpios fundamentais do Cristianismo no so responsveis, em si mesmos, por
prticas fundamentalistas, violentas e intolerantes. Historicamente, todavia, essas
prticas existiram.
     Sendo a religio dominante no Ocidente, o Cristianismo, em suas muitas
variaes, termina por ser a religio da maioria dos alunos e dos professores no
Brasil. Tal situao torna-se perigosa para o ensino e a conscientizao social, dada
a tendncia a no se historicizar essa f. No entanto, com dois mil anos de idade,
diversas vertentes e uma histria de relaes com os Estados, o Cristianismo precisa
ser estudado do ponto de vista histrico, e no entendido como uma entidade abstrata
e atemporal. O pretenso universalismo das Igrejas crists e os vnculos estabelecidos
com o poder secular permitiram por muito tempo uma srie de imposies culturais


                                                                                  83
               combinadas com interesses de ordem econmica responsveis pela destruio fsica
Cristianismo



               e cultural de diversas populaes. A viso crtica, todavia, no precisa obliterar o
               fato de que h no Cristianismo, como em outras religies, valores importantes
               para a vida em sociedade. Alm disso, visto que essa religio est presente nos
               programas do ensino Mdio e Fundamental em diferentes momentos, temos de
               nos defrontar com a necessidade de fazer uma reflexo crtica sobre nosso nvel de
               envolvimento com o tema, repassando essa necessidade para os alunos. O desafio
               com que professores de Histria se defrontam ao abordar esse tema  trabalhar com
               os alunos mais religiosos o carter histrico do Cristianismo, apresentando-lhes o
               fato de que analisar criticamente o processo histrico que envolve essa religio no
               significa perder de vista sua f.

               Ver tAmbm
                     Candombl; Fundamentalismo; Helenismo; Inquisio; Isl; Judasmo;
                     Monotesmo; Politesmo; Religio.

               sugestes de leiturA
                     anGold, Michael. Bizncio: a ponte da Antiguidade para a Idade Mdia. Rio de
                      Janeiro: Imago, 2002.
                     del priore, Mary (org.). Histria das crianas no Brasil. 4. ed. So Paulo:
                      Contexto, 2004.
                     Fernandez-armeSto, Felipe; WilSon, Derek. Reforma: o Cristianismo e o mundo
                       (1500-2000). Rio de Janeiro: Record, 1997.
                     Hoornaert, Eduardo. As comunidades crists dos primeiros sculos. In: pinSKy,
                      Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
                      Contexto, 2003.
                     HinnelS, John R. (ed.). Dicionrio das religies. So Paulo: Crculo do Livro, 1990.
                     KnG, Hans. A Igreja catlica. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.
                     marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria moderna atravs
                      de textos. 10. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
                     pancera, Mrio. So Pedro: a vida, as esperanas, as lutas e as tragdias dos
                       primeiros cristos. Petrpolis: Vozes, 1993.
                     Silva, Eliane Moura da. Estudos de religio para um novo milnio. In: Karnal,
                       Leandro (org.). Histria na sala de aula: conceitos, prticas e propostas. So
                       Paulo: Contexto, 2003.
                     tarnaS, Richard. A epopeia do pensamento ocidental: para compreender as ideias
                       que moldaram nossa viso de mundo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.



                84
culturA




                                                                                           Cultura
     O conceito de cultura  um dos principais nas cincias humanas, a ponto de a
Antropologia se constituir como cincia quase somente em torno desse conceito.
Na verdade, os antroplogos, desde o sculo xix, procuram definir os limites de sua
cincia por meio da definio de cultura. O resultado  que os conceitos de cultura
so mltiplos e, s vezes, contraditrios.
     O significado mais simples desse termo afirma que cultura abrange todas as
realizaes materiais e os aspectos espirituais de um povo. Ou seja, em outras palavras,
cultura  tudo aquilo produzido pela humanidade, seja no plano concreto ou no plano
imaterial, desde artefatos e objetos at ideias e crenas. Cultura  todo complexo de
conhecimentos e toda habilidade humana empregada socialmente. Alm disso, 
tambm todo comportamento aprendido, de modo independente da questo biolgica.
     Essa definio foi criada por Edward Tylor no sculo xix e, apesar de sua
atualidade, geraes e geraes de antroplogos procuraram aprofund-la para
melhor compreender o comportamento social. Entre esses pensadores, um dos mais
influentes foi Franz Boas, que no comeo do sculo xx iniciou uma crtica sistemtica
s teorias at ento vigentes que defendiam a existncia de uma hierarquia entre
culturas. Tais teorias, chamadas evolucionistas pela influncia da obra de Charles
Darwin, defendiam que todas as culturas passavam pelas mesmas etapas, ou estgios,
durante sua existncia, evoluindo, progredindo das mais primitivas para as mais
avanadas ao longo do tempo, sendo que o estgio mais avanado da humanidade
era o atingido pelo Ocidente, viso que dava ao etnocentrismo status de cincia.
     Boas, por sua vez, foi um dos pioneiros em criticar essa viso, afirmando que
toda cultura tem uma histria prpria, que se desenvolve de forma particular e no
pode ser julgada a partir da histria de outras culturas. Assim, Boas usou, j no incio
do sculo xx, a Histria para explicar a diversidade cultural, a grande diferena de
culturas na humanidade, fazendo pela primeira vez uma aproximao entre Histria
e Antropologia at hoje bastante utilizada, chegando a influenciar obras como Casa-
grande & Senzala, de Gilberto Freyre, discpulo de Franz Boas.
      exatamente essa diversidade cultural que a Antropologia procura estudar. Qual
a natureza do comportamento cultural? Raa e meio ambiente influem nas definies
culturais? As culturas evoluem? Essas so algumas das questes que desde o sculo xix
tm interessado aos antroplogos. Atualmente, na Antropologia no h um consenso
sobre o que  cultura, mas existem muitos conceitos diferentes. Apesar disso, h
concordncia com relao a alguns pontos dessas mltiplas definies. Um desses
pontos afirma que diferenas genticas no determinam comportamentos culturais,



                                                                                    85
          ou seja, toda diviso de trabalho com base no sexo ou na raa, por exemplo,  cultural
Cultura



          e no predeterminada pela natureza. A mesma premissa serve na afirmao de que o
          meio geogrfico tambm no determina comportamentos culturais. Assim, quaisquer
          tipos de discriminaes sociais feitas com base em sexo ou raa, como aqueles discursos
          proferidos em nossa sociedade que afirmam que determinados trabalhos no podem
          ser feitos por mulheres, ou que algumas atividades consideradas inferiores so
          exclusivamente "trabalho de negro", no possuem base biolgica. Mas so discursos
          criados para justificar a posio dominante de determinados grupos sociais.
               Mas nem toda definio de cultura vem da Antropologia. O estudioso brasileiro
          Alfredo Bosi, por exemplo, em Dialtica da colonizao, define cultura a partir da
          lingustica e da etimologia da palavra: cultura, assim como culto e colonizao, viria do
          verbo latino colo, que significa eu ocupo a terra. Cultura, dessa forma, seria o futuro
          de tal verbo, significando o que se vai trabalhar, o que se quer cultivar, e no apenas
          em termos de agricultura, mas tambm de transmisso de valores e conhecimento
          para as prximas geraes.
               Nesse sentido, Bosi afirma que cultura  o conjunto de prticas, de tcnicas, de
          smbolos e de valores que devem ser transmitidos s novas geraes para garantir a
          convivncia social. Mas para haver cultura  preciso antes que exista tambm uma
          conscincia coletiva que, a partir da vida cotidiana, elabore os planos para o futuro
          da comunidade. Tal definio d  cultura um significado muito prximo do ato
          de educar. Assim sendo, nessa perspectiva, cultura seria aquilo que um povo ensina
          aos seus descendentes para garantir sua sobrevivncia.
               Em todo universo cultural, h regras que possibilitam aos indivduos viver
          em sociedade; nessa perspectiva, cultura envolve todo o cotidiano dos indivduos.
          Assim, os seres humanos s vivem em sociedade devido  cultura. Alm disso, toda
          sociedade humana possui cultura. A funo da cultura, dessa forma, , entre outras
          coisas, permitir a adaptao do indivduo ao meio social e natural em que vive. E  por
          meio da herana cultural que os indivduos podem se comunicar uns com os outros,
          no apenas por meio da linguagem, mas tambm por formas de comportamento.
          Isso significa que as pessoas compreendem quais os sentimentos e as intenes das
          outras porque conhecem as regras culturais de comportamento em sua sociedade.
          Por exemplo, gestos como rir, xingar, cumprimentar, assim como os modos de vestir
          ou comer, indicam, para outras pessoas do grupo tanto a posio social de um
          indivduo quanto seus sentimentos, mas apenas porque quem interpreta seus gestos
          e sua fala possui os mesmos cdigos culturais.  por isso que, ao depararmos com
          uma pessoa de cultura diferente, podem acontecer confuses e mal-entendidos, como
          um cumprimento ser considerado rude ou uma roupa ser considerada imprpria.
          O desentendimento provm do choque cultural, do contato entre duas culturas


           86
distintas. Isso pode acontecer entre indivduos ou entre sociedades inteiras, nesse




                                                                                          Cultura
caso provocando transformaes em ambas as sociedades.  o caso do confronto
entre as culturas indgenas e europeias depois da conquista da Amrica, ou entre a
cultura islmica e a ocidental hoje.
     Alm dessas caractersticas,  preciso ressaltar que todas as culturas tm
uma estrutura prpria, todas mudam, todas so dinmicas. Assim, no  possvel
falarmos de povos sem histria, porque tal fenmeno significaria a existncia de
uma cultura que no passasse por transformaes ao longo do tempo, algo que hoje
tanto a Histria quanto a Antropologia refutam veementemente. Tambm a noo
de culturas "atrasadas"  obsoleta, pois para considerarmos uma cultura atrasada
teramos de julg-la segundo o parmetro de "adiantamento" de outras sociedades,
o que no  possvel. Outro dado a considerar  que as culturas esto sempre em
interao, pois nenhuma cultura  isolada. H trocas culturais e influncias mtuas
em todas as sociedades. Nesse sentido, se todas as culturas so dinmicas e mudam
ao longo do tempo, todas as sociedades so tambm histricas, independentemente
de serem tribos, bandos de caadores-coletores ou grandes Estados.
     A definio de cultura como o conjunto de realizaes humanas, materiais ou
imateriais leva-nos a caracteriz-la como um fundamento bsico da Histria, que
por sua vez pode ser definida como o estudo das realizaes humanas ao longo do
tempo. Tal percepo, no entanto, s se desenvolveu plenamente com a Nova Histria,
na segunda metade do sculo xx. Seguindo a perspectiva interdisciplinar da Escola
de Annales, os historiadores da Nova Histria comearam a fazer conexes entre
Histria e Antropologia e Histria e Literatura, algo em que o antroplogo brasileiro
Gilberto Freyre foi precursor. Os historiadores da Nova Histria passaram a escolher
temas cada vez mais voltados para o cotidiano e as mentalidades, realizando, dessa
forma, trabalhos de Histria Cultural. So exemplos dessas pesquisas os estudos de
Georges Duby sobre o amor e o casamento na Idade Mdia francesa e os de Jacques
Le Goff sobre os intelectuais medievais.
     Historiadores mais recentes, no fim do sculo xx, como Robert Darnton, deram
continuidade a essa abordagem, mesclando mtodos e teorias antropolgicas para
esmiuar sociedades, culturas e imaginrios passados. O trabalho de Darnton, O
Grande Massacre dos Gatos, tornou-se um marco no estudo antropolgico das formas
de pensar em diferentes pocas da histria, nesse caso especificamente a sociedade
francesa do sculo xviii. No Brasil, tal linha fez escola, e a Histria Cultural  hoje
uma das mais produtivas, com pesquisadores como Ronaldo Vainfas, Lilia Moritz
Schwarcz e Luiz Mott, que trabalham seja com a Histria do cotidiano, o imaginrio, a
micro-histria e da Histria das Mentalidades, todas elas reas que se desenvolveram
com a insero da cultura como objeto da Histria.


                                                                                   87
               Outro sentido muito comum atribudo  palavra cultura  aquele que a define
Cultura



          como produo artstica e intelectual. Assim, podemos falar de cultura erudita,
          cultura popular, cultural de massa etc., todas expresses que designam conceitos
          especficos para a produo intelectual de determinados grupos sociais.
               Trabalhar com a rica gama de significados do conceito de cultura d aos
          educadores uma importante ferramenta contra o preconceito, pois esse  derivado
          principalmente do etnocentrismo. Uma estratgia possvel para as salas de aula 
          trabalhar com os alunos elementos de culturas diferentes da nossa, como as sociedades
          africanas ou indgenas, japonesa etc., expondo como cada uma dessas culturas
          corresponde a respostas a seus prprios problemas e tem significado para os seus
          membros. Essa estratgia tem outra vantagem, que  a possibilidade de se discutir a
          diversidade cultural e estimular o respeito  diferena. Assim, vale lembrar que um
          dos principais objetivos de trabalhar com esse conceito nos nveis Fundamental e
          Mdio  a necessidade de se combater o etnocentrismo.

          Ver tAmbm
                Aculturao; Civilizao; Colonizao; Etnocentrismo; Histria; Identidade;
                Indstria Cultural; Interdisciplinaridade; Mentalidades; Imaginrio; Relativismo
                Cultural; Sociedade; Tradio.

          sugestes de leiturA
                boSi, Alfredo. Dialtica da colonizao. So Paulo: Companhia das Letras, 1996.
                collinSon, Dian. 50 grandes filsofos: da Grcia antiga ao sculo xx. 2. ed. So
                 Paulo: Contexto, 2004.
                darnton, Robert. O Grande Massacre de Gatos: e outros episdios de histria
                 cultural francesa. Rio de Janeiro: Graal, 1986.
                edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
                  entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
                HuGHeS-WarrinGton, Marnie. 50 grandes pensadores da Histria. So Paulo:
                 Contexto, 2002.
                laraia, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropolgico. Rio de Janeiro:
                  Jorge Zahar, 2003.
                napolitano, Marcos. Cultura brasileira: utopia e massificao. 2. ed. So Paulo:
                 Contexto, 2004.
                pinSKy, Jaime. As primeiras civilizaes. So Paulo: Contexto, 2001.
                SantoS, Jos Luiz dos. O que  cultura. So Paulo: Brasiliense, 2003.
                ScHWarcz, Lilia; GomeS, Nilma (orgs.). Antropologia e histria: debate em regio
                  de fronteira. Belo Horizonte: Autntica, 2000.



           88
 d
         D
democrAciA
     Democracia  uma forma de governo que tem como caracterstica bsica a
escolha dos governantes pelo povo. A democracia moderna nasceu na Europa do
sculo xviii, em oposio ao Absolutismo ento vigente. Mas no estamos tratando
de um conceito esttico. Nesse sentido, o Estado Moderno no tem o mesmo
projeto democrtico da polis grega do sculo v. a.C. Sob certos aspectos, a polis era
amplamente mais democrtica que o Estado Moderno, pela simples razo de que a
democracia ateniense era direta, ou seja, um corpo de cidados reunidos em praa
pblica decidia diretamente acerca dos assuntos relativos ao Estado. No mximo
20 mil cidados, reunidos em Assembleia, constituam a comunidade poltica da
Atenas de Pricles, e eram eles que, por meio do dilogo e da persuaso, votavam e
deliberavam os negcios pblicos. Nesse momento, a ideia de democracia no era
a de "maioria", mesmo porque os cidados atenienses eram, de fato, a minoria da
populao da polis. Segundo Denis L. Rosenfield, a democracia grega era sobretudo
um valor ligado  noo de liberdade poltica, ao "bem viver", isto , ao viver de
acordo com uma comunidade virtuosa e justa. E nela existia um efetivo interesse e
respeito pela coisa pblica, pela troca de opinies, pelo debate e pela ao poltica
assentados em valores pertencentes a todos. Lembremos, entretanto, que cidados
eram apenas os homens gregos e livres, e s eles tinham direito a essa democracia.
     O Estado Moderno, por sua vez, no recriou o "espao pblico", a gora ateniense
onde a democracia ateniense era exercida pelos cidados, que participavam igualmente
da administrao pblica. A democracia das sociedades burguesas modernas e
contemporneas, desde seu incio, foi apenas formal, um espao administrativo e
burocrtico situado fora do corpo de cidados. Nesse modelo, ainda hoje vigente,
a participao de todos os cidados foi substituda pela eleio de representantes
da maioria, polticos profissionais que tomam decises sobre a vida de todos os
representados. Nesse contexto, o ato de votar termina sendo um mero ritual, um
espao limitado do exerccio democrtico. Democracia  muito mais do que votar,
e esse ato em si no garante para o votante a alcunha de cidado, nem para o Estado
a alcunha de democrtico. Essa  a chamada democracia representativa, vigente hoje
na maioria das Naes soberanas do mundo.



                                                                                 89
                  Para a Sociologia, segundo Boudon e Bourricaud, h dois tipos de democracia
Democracia



             moderna: a liberal e a radical. A primeira, cuja referncia  o modelo ingls e norte-
             americano, d prioridade  liberdade, resguardando os interesses privados da
             interferncia da autoridade pblica, e pensa a igualdade apenas como a ausncia
             de privilgios e condio que permite ao indivduo a independncia e a realizao
             pessoal, alcanada ou no conforme o mrito de cada um. J a democracia radical,
             atribuda geralmente a Rousseau, prioriza a igualdade e tende a suspeitar da liberdade
             por sua origem aristocrtica. Entende, assim, a fraternidade como sinnimo de
             civismo. Enquanto a democracia liberal depende do equilbrio de poderes e prope
             o pluricameralismo, a democracia radical tende a concentrar e simplificar o poder,
             reivindicando a existncia de uma Assembleia nica, por meio da qual o governo, que
             seria apenas um comit executivo, pode ser revogado a qualquer momento. Existem,
             assim, entre os democratas radicais, aqueles mais favorveis ao Socialismo e os que
             veem no Socialismo o "despotismo tutelar" da burocracia.
                  Apesar das diferenas, essas ideologias democrticas possuem uma tradio em
             comum: a afirmao individualista e a desconfiana em relao aos governantes.
             Nessa tradio, s o conjunto dos cidados deve julgar o que  bom para a coisa
             pblica, e os governantes deveriam ser to somente prepostos da coletividade.
             Essa desconfiana em relao aos governantes, nas atuais sociedades democrticas,
             aparece sob a forma das eleies, momento em que se elege ou no aqueles que se
             candidataram a membros do governo.
                  Todos os regimes contemporneos, paradoxalmente, qualificam-se sempre
             como mais ou menos democrticos. Ou seja, eles precisam fazer crer que h
             uma legitimao coletiva para suas aes, e que, de certo modo, seus anseios
             representam os anseios da Nao. Assim, mesmo considerando a democracia um
             regime corrompido e negando ser democrata, Hitler afirmava que o nazismo era o
             autntico representante da "vontade profunda" do povo alemo; Franco, por sua vez,
             definia seu regime como "democracia orgnica"; e o Partido Comunista sovitico
             se considerava a "vanguarda do proletariado". Em outros termos, as sociedades
             contemporneas, mesmo aquelas cujos regimes adotaram caminhos diferentes da
             democracia, possuem em geral uma "sensibilidade democrtica".
                  Hoje a democracia se apresenta como a legitimao dos Estados e seus regimes
             de governo. E apesar de, na maioria das vezes, esses regimes democrticos no
             representarem a vontade da maioria da populao, o ideal da democracia ultrapassou
             as fronteiras do Ocidente e  buscado por grandes parcelas da populao mundial.
             Esse projeto democrtico ideal seria o regime em que a sociedade civil organizada
             fizesse ouvir seus mltiplos discursos (liberdade de expresso); em que os indivduos
             no confundissem a coisa pblica com a coisa privada; em que os valores morais


              90
e polticos no estivessem voltados para a satisfao das necessidades puramente




                                                                                        Democracia
materiais, mas que se preocupassem com a melhor forma de governo; em que a
administrao do que  pblico no estivesse nas mos de "cientistas" e "tcnicos",
controlando de fora o que diz respeito aos cidados; em que o exerccio da palavra e
o exerccio da ao no se contradissessem; em que as leis pudessem coincidir com
os anseios dos destinatrios; uma sociedade, enfim, em que as pessoas tivessem o
sentido de comunidade a inspirar suas aes.
     Assim, tomando a democracia como se apresenta hoje e o projeto ideal que ela
inspira, vemos que  sobretudo um regime aberto, incompleto e imperfeito, mas
que sobre ele  possvel construir novas formas de sociabilidade mais efetivamente
democrticas. Por outro lado, no podemos esquecer que o Estado democrtico
 criticado por ser o promotor da excluso social e um mecanismo a servio dos
poderosos. Isso porque, desde que o Estado Moderno fez reaparecer a democracia
como projeto, exacerbou-se o individualismo e a busca extremada das satisfaes
materiais. Raros foram os momentos em que aes autenticamente democrticas se
deram. Lembremos a comuna, os sovietes e os conselhos operrios hngaros, que
foram diferentes tentativas de estabelecer formas autnomas e diretas de produo
das leis. Todavia, tais tentativas foram, no mais das vezes, sufocadas pelo prprio
processo revolucionrio que as engendrou, como o caso dos sovietes, anulados pela
estrutura rigidamente partidria e estatal que a Revoluo Russa construiu.
     Os projetos contemporneos de democracia sofreram grande influncia
do pensamento iluminista do sculo xviii, principalmente de pensadores como
Rousseau. Para ele, a democracia era uma forma de governo perfeita demais para
os homens, e chegou mesmo a dizer que se houvesse um povo de deuses, ele seria
governado democraticamente. Em outros termos, a democracia demandaria um
corpo de virtudes que os homens no possuem, e por isso Rousseau concluiu que
nunca houve nem jamais existir uma verdadeira democracia. Precisamos ressaltar,
no entanto, que Rousseau se referia  democracia direta, pois a democracia indireta,
que ele j criticava, ainda estava emergindo em seu tempo. Apesar de apontar as
dificuldades inerentes  democracia direta, ele exaltava a necessidade de algo que
est longe de existir em nosso tempo: a participao dos cidados no servio pblico.
Nada mais atual: ele lamentava que os cidados preferissem pagar tropas para irem
 guerra e nomear deputados para irem aos conselhos unicamente para ficarem em
casa. Discordava, assim, que os cidados escolhessem a vida privada em detrimento
de seus deveres pblicos, relegando-os a representantes que lhes impunham leis. Em
uma frase emblemtica e ainda muito atual, afirmou que, quando um cidado se
refere aos negcios do Estado dizendo "Que me importa?", pode-se ter certeza de
que o Estado est perdido.


                                                                                 91
                  Do que foi dito, vemos que a democracia implica numerosas dificuldades. Alm
Democracia



             da fora muitas vezes sufocante do Estado, a apatia poltica reinante nas sociedades
             contemporneas tambm a pe em risco. As instituies democrticas so frgeis e
             carecem de cidados vigilantes para que elas possam se aprimorar, evitando assim
             os riscos de aventuras autoritrias. Para que o Estado no se apodere da nossa
             autonomia, precisamos criar instncias que configurem espaos polticos pblicos:
             escolas, comunidades rurais, bairros etc. Do contrrio, vamos continuar isolados,
             atomizados sob a fora de um Estado que  democrtico apenas na forma. Devemos
             evitar a conduta pretensamente neutra do educador, pois essa no se coaduna com
             o aperfeioamento das formas sociais e polticas, nem com a formao de cidados,
             uma funo a qual o educador no deve se furtar.
                  A maioria dos professores de Histria considera difcil trabalhar com o conceito
             de democracia em sala de aula, devido  sua complexidade. Mas, na verdade, a
             prpria escola possibilita espaos mais ou menos democrticos em que os temas
             os mais diversos devem ser tratados pelos membros da comunidade escolar: so os
             grmios estudantis, as associaes de pais e mestres etc. Tendo esses e outros canais
             de participao poltica como ponto de partida para a reflexo sobre o processo
             democrtico, o educador pode discutir com os estudantes e pais a importncia
             desses canais e o papel que eles exercem ou deveriam exercer na construo da
             instituio escolar. S eleger grupos restrito de pais ou de estudantes, por exemplo,
             como forma de se isentar de responsabilidades, seria a melhor opo? Se no nvel de
             um estabelecimento de ensino no se consegue uma efetiva participao da maioria,
             ento fica difcil falar de democracia em termos de Nao.

             Ver tAmbm
                   Cidadania; Comunismo; Ditadura; Estado; tica; Fascismo; Liberalismo; Poltica.

             sugestes de leiturA
                   boudon, Raymond; bourricaud, Franois. Dicionrio crtico de sociologia. So
                     Paulo: tica, 1993.
                   Funari, Pedro Paulo. Grcia e Roma. So Paulo: Contexto, 2001.
                   GreSpan, Jorge. Revoluo Francesa e Iluminismo. So Paulo: Contexto, 2003.
                   J unqueira , Mary A. Estados Unidos: a consolidao da nao. So Paulo:
                      Contexto, 2001.
                   K arnal, Leandro. Estados Unidos: a formao da nao. 2. ed. So Paulo:
                     Contexto, 2003.
                   KucinSKy, Bernardo. O fim da ditadura militar. So Paulo: Contexto, 2001.
                   martinS, Ana Luiza. O despertar da Repblica. So Paulo: Contexto, 2001.



              92
    pinSKy, Jaime (org.). 100 textos de histria antiga. So Paulo: Contexto, 2003.




                                                                                             Descobrimentos
    ______. Prticas de cidadania. So Paulo: Contexto, 2004.
    pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
      Contexto, 2003.
    roSenField, Denis L. O que  democracia. So Paulo: Brasiliense, 1994.
    rouSSeau, Jean-Jacques. O contrato social. So Paulo: Martins Fontes, 1996.




descobrimentos
     Com o surgimento da Anlise do Discurso e da Lingustica na pesquisa histrica,
cada vez mais os historiadores tm se preocupado com as palavras que usam, com o
correto emprego dos conceitos, com os significados dos termos comuns em Histria.
No caso do estudo da colonizao da Amrica, isso  bastante visvel com relao 
utilizao da palavra descobrimento.
     Descobrimento  um termo tradicionalmente empregado pela historiografia
latino-americana e ibrica, desde o sculo xix, para se referir  chegada dos
primeiros europeus  Amrica e ao incio da colonizao desde continente. Designa,
principalmente, as jornadas de Cristvo Colombo, de Pedro Alvarez Cabral e dos
muitos conquistadores espanhis, como Balboa e Cabeza de Vaca, que devassaram
o continente, da Flrida  Patagnia. Podemos observar o sentido clssico de
"descobrimento", por exemplo, na obra de Capistrano de Abreu, historiador do final
do sculo xix e um dos grandes inovadores da historiografia brasileira. Em seu livro
Captulos de Histria Colonial, ele faz as primeiras crticas ao movimento predatrio
das bandeiras contra os ndios e inaugura a historiografia dos sertes brasileiros.
Capistrano utiliza, de acordo com o uso ento comum, a expresso "descobrimento
do Brasil" para falar das primeiras expedies ao que viria a ser o territrio brasileiro.
Mas o termo parece ter cado em desuso no fim do sculo xx. A crtica ao processo
predatrio de colonizao rendeu frutos e atualmente a maioria dos historiadores
latino-americanos prefere nem mesmo falar de descobrimento, mas de conquista e
de colonizao. A razo para isso est no seu forte cunho ideolgico.
     Tal termo foi primeiro empregado para encobrir uma situao histrica. Durante
o sculo xvi, a Coroa espanhola pregava que a conquista da Amrica era um projeto
cristo de converso dos gentios  os ndios   "verdadeira f", entendida como
o Catolicismo. Mas em 1552, Frei Bartolomeu de Las Casas publicou a Brevssima
relao da destruio da ndia, descrevendo as atrocidades cometidas pelos espanhis
contra os povos americanos. Sua obra teve tal impacto na Espanha que colonizadores


                                                                                      93
                 e escritores de Histria deixaram de utilizar a palavra conquista para se referir
Descobrimentos



                  colonizao da Amrica, e passaram a empregar descobrimento, palavra que,
                 esperavam, no fosse to carregada com os significados de destruio e genocdio
                 que Las Casas imps ao vocbulo conquista. Desde ento, descobrimento se tornou
                 o termo clssico para designar o "achamento" da Amrica.
                      Mas o sculo xx viu uma crtica cada vez mais crescente a esse termo. A organizao
                 dos movimentos polticos indgenas, dos movimentos pela terra e movimentos negros
                 por toda a Amrica Latina, alm da prpria crtica ao imperialismo contemporneo,
                 incentivou cada vez mais os historiadores sociais a evitarem o termo. Por outro lado,
                 o desenvolvimento cada vez maior da importncia da Semitica e da Lingustica
                 na Histria, com a emergncia da Anlise do Discurso, trouxe para a historiografia
                 instrumentos de anlise detalhada dos textos e da produo dos documentos, alm
                 de seu contedo. Tudo isso contribuindo para que o termo descobrimento fosse
                 compreendido como uma construo poltica e evitado por muitos.
                      Mas o conceito no sumiu. Alguns historiadores continuam a utiliz-
                 lo, embora no no sentido tradicionalmente empregado. Janice Theodoro, por
                 exemplo, em sua obra Amrica barroca, ao analisar a fundao da Amrica por uma
                 perspectiva culturalista, emprega o conceito como referncia s narrativas coloniais
                 sobre a fundao da Amrica, narrativas essas que so os objetos principais de
                 sua obra. Outro importante autor que utiliza a expresso descoberta da Amrica 
                 Tzvetan Todorov. Mas ele a emprega em um sentido inovador: o da descoberta do
                 Outro, do choque que  entrar em contato com uma cultura totalmente diferente.
                 Para Todorov, a descoberta e a conquista da Amrica representaram a descoberta
                 dos americanos pelos europeus e vice-versa. E nesse contexto, o mais importante
                 para o estudioso  observar as reaes em face da descoberta de culturas diferentes.
                 Para ele, somos todos descendentes de Colombo, ou seja, nossa identidade atual
                 se formou a partir da descoberta da Amrica, quando o mundo se "globalizou"
                 pela primeira vez.
                      Apesar desses casos, a maioria dos historiadores hoje prefere usar a palavra
                 conquista. Descoberta e descobrimento, para autores como Vicente Romano, tm
                 cunho eurocntrico muito forte. Isso porque o sentido etimolgico da palavra
                 descobrimento refere-se quilo que est sendo encontrado pela primeira vez, que
                 ningum nunca encontrou antes. O que, ao ser empregado com relao s conquistas
                 territoriais empreendidas pelos europeus, d a entender que esses tinham direito
                 de estar nesses lugares  a Amrica, a Oceania, a frica, a sia , j que teriam
                 sido os primeiros a chegar. Dessa forma, o conceito de descobrimento, tal como
                 empregado tradicionalmente, desconsidera por completo a existncia de povos
                 nativos nesses territrios.


                  94
     A partir de 1992, com a comemorao do v Centenrio do Descobrimento




                                                                                            Descobrimentos
da Amrica, principalmente na Espanha, a discusso em torno da utilizao das
palavras descobrimento e conquista aumentou. Muitos preferiam mesmo falar de
encontro de culturas, procurando, assim, afastar qualquer ideia de superioridade
expressa pelos outros termos. No entanto, visto a patente desigualdade gerada por
esse "encontro", diversos so os historiadores que optam por um termo que traduz a
violncia dos primeiros contatos. A palavra conquista, assim, vem ganhado espao,
principalmente na obra daqueles que trabalham a partir da perspectiva indgena, como
o mexicano Miguel Lon-Portilla. A prpria comemorao dos quinhentos anos de
descobrimento/conquista gerou muita discusso entre os especialistas e na mdia.
Enquanto a Espanha realizou um evento de porte internacional, comemorando os
descobrimentos com a Exposio Universal de Sevilha, na Amrica Latina a maioria
dos pases preferiu no se manifestar, tendo em vista a hostilidade popular com relao
s comemoraes espanholas. Por outro lado, a prpria controvrsia em torno das
comemoraes na Amrica Latina fez que movimentos polticos que contestavam a
comemorao, sobretudo os movimentos indgenas, tivessem visibilidade nunca vista.
A polmica, assim, ajudou a prpria contestao dos "descobrimentos".
     No Brasil, o emprego da palavra descobrimento pelo grande pblico ainda 
frequente, apesar de bastante contestado pelos especialistas. E mesmo na acepo
mais amena do termo, usada pelos historiadores que defendem que o descobrimento
da Amrica significa um encontro de civilizaes, ainda se emprega largamente os
smbolos do conquistador. Por outro lado, o uso de expresses como contato de cultura
ou encontro de culturas continua a favorecer uma viso idlica da conquista, viso que
defende que as diferentes culturas envolvidas contriburam harmonicamente para a
formao da sociedade colonial, esquecendo que muitas dessas contribuies foram
feitas  fora. Essa viso dos descobrimentos como encontro se beneficia muito do
trabalho de Todorov, que via a colonizao da Amrica como um momento nico
na histria da humanidade, momento em que se teria dado incio a um processo
mundial de integrao entre as culturas. No entanto, Todorov no omite a violncia
desse encontro. Pelo contrrio, para ele, essa violncia terminou sendo um elemento
fundador da Histria Contempornea. Tambm Eni Orlandi, seguindo Todorov,
afirma que o discurso do descobrimento do Brasil  um elemento fundamental na
construo de nossa atual identidade como brasileiros.
     Assim, se hoje a maioria dos historiadores j aceita a existncia dessas implicaes
e evita utilizar a palavra descobrimento, isso no acontece com o termo ocupao. Essa
palavra, e seu sinnimo povoamento, carrega um peso ideolgico equivalente ao de
descobrimento. Tambm significa o estabelecimento em uma terra at ento desabitada.
Mas se o conceito de descobrimento est sendo contestado, ainda h todo um setor da


                                                                                     95
                 historiografia (muito reproduzido em vrios livros didticos) que, ao tratar da
Descobrimentos



                 conquista dos sertes brasileiros no perodo colonial, emprega quase sempre a
                 expresso ocupao do serto ou povoamento do serto. O resultado disso  a construo
                 do mito de que os sertes brasileiros foram ocupados pela primeira vez somente com
                 o estabelecimento dos colonos e da pecuria, no sculo xvii, escamoteando assim
                 o grande contingente populacional indgena que habitava a regio e estava sendo
                 deslocado para a formao de latifndios e currais.
                      Assim, o discurso da descoberta das Amricas  ele prprio um mito fundador
                 das identidades latino-americanas, mito muito forte no Brasil. A tendncia atual da
                 historiografia  observar o processo de construo da Amrica a partir de um enfoque
                 que ressalta o sentido de conquista e de violncia impregnados na colonizao ou
                 de um enfoque que privilegie a noo de encontro de culturas. Nesse ltimo caso, o
                 encontro pode ser visto a partir da violncia da dominao ou de uma forma mais
                 amena. E  essa perspectiva mais amena que acredita em um descobrimento e uma
                 colonizao baseados na cordialidade e na sensualidade, que fundamenta a viso do
                 grande pblico brasileiro, por quem conquista e colonizao so entendidos como
                 acontecimentos amenos. Tal viso  incentivada pela mdia e baseada na popularidade
                 da tese da democracia racial e da miscigenao, ainda forte em nosso imaginrio.
                       Nesse contexto, a partir dessas polmicas, e considerando que os significados
                 das palavras so construes polticas, acreditamos que os termos conquista e
                 colonizao so mais precisos para explicar a complexa realidade histrica a que se
                 destinam. Alm disso, a crtica  palavra descobrimento deve ser levada para a sala
                 de aula, no sentido de desconstruir mitos e construir uma leitura mais complexa de
                 Brasil. E analisar a origem do termo e seus significados ao longo da histria  um
                 excelente exerccio, alm de ajudar a desconstru-lo. O mesmo pode ser feito para os
                 termos povoamento e ocupao, ainda largamente empregados nos livros didticos.
                 Descobrir os significados dessas palavras e compar-las aos fatos histricos aos quais
                 se remetem  um bom treinamento para a construo da capacidade dos alunos de
                 criticarem os discursos e os mitos que nos so transmitidos.

                 Ver tAmbm
                       Aculturao; Colonizao; Discurso; Globalizao; Identidade; Ideologia; ndio;
                       Memria; Miscigenao; Mito; Negro.

                 sugestes de leiturA
                       azevedo, Francisca Nogueira; monteiro, Jonh Manuel (orgs.). Confronto de
                        culturas: conquista, resistncia, transformao  Amrica 500 anos. Rio de
                        Janeiro/So Paulo: Expresso e Cultura/Edusp, 1997.



                  96
    len-portilla, Miguel. A conquista da Amrica vista pelos ndios: relatos astecas,




                                                                                              Dialtica
      maias e incas. Petrpolis: Vozes, 1991.
    maeStri, Mrio. Uma histria do Brasil colnia. 3. ed. So Paulo: Contexto, 2002.
    marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria moderna atravs
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diAlticA
     A dialtica  um mtodo de anlise, fundamentado na contradio, que organiza
o raciocnio para a busca da verdade, analisando uma situao contraditria de
dada realidade: para comprovar uma tese, o investigador usa uma anttese, ou
seja, a negao da prpria tese original. Mas a negao no  suficiente para a
compreenso do fenmeno investigado, pois toda negao, em si mesma, contm
alguma positividade (no se pode negar sem afirmar alguma coisa).  preciso ento
aproveitar as contribuies positivas que existem na tese e na anttese para se chegar
a uma sntese dos dados conseguidos. De forma simples, a sntese seria o conjunto
de concluses s quais o investigador chega por meio da anlise dialtica, mas que
no se apresenta como definitivo, visto que toda realidade est sujeita ao princpio
da contradio, e comea-se ento uma nova situao em que o movimento
teseanttesesntese ressurge, dando possibilidade a outra situao, que pode ser
observada pelo movimento tese/anttese/sntese.
     A origem do pensamento dialtico est entre os gregos. Os Dilogos de Plato j
continham a forma argumentativa da dialtica. A prpria definio grega do termo
dialektike (tekhne)  discusso, arte de argumentar e discutir. Nos Dilogos platnicos,
dois debatedores estabeleciam um raciocnio acerca de determinado tema, e cada um


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            argumentava de modo a sair da mera opinio (imaginao e crena) para ascender
Dialtica



            ao verdadeiro conhecimento (episteme) da realidade. Esse conceito platnico de
            dialtica, que quase se confunde com discusso,  um mtodo, um caminho para se
            chegar s Ideias ou Formas perfeitas, a verdadeira realidade para Plato. Aristteles
            tambm conhecia todos os artifcios do debate dialtico. Entretanto, ele substituiu
            a dialtica pela lgica formal, que acreditava ser um instrumento mais eficaz para
            se chegar ao conhecimento universal.
                  Mas o sentido do termo dialtica mudou com o passar do tempo. O pensamento
            dialtico, depois de sculos de desuso, foi recuperado pela filosofia alem do final
            do sculo xviii e comeo do sculo xix. Pensadores como Kant, Fichte e Hegel deram
            ao termo novo significado. Fichte foi quem primeiro caracterizou a estrutura da
            argumentao dialtica como tese, anttese e sntese. Hegel, por sua vez, aprofundou o
            mtodo. Filsofo do idealismo, Hegel acreditava que o pensamento fundamentado nos
            princpios da tese, anttese e sntese era a forma mxima de se chegar ao Absoluto. Para
            ele, toda a estrutura csmica era dialtica, ou seja, envolvia o princpio da contradio.
            Embora acreditasse que a realidade era racional, essa racionalidade no era esttica,
            e sim dinmica. Portanto, a viso hegeliana  a de que o mtodo dialtico  o nico
            capaz de favorecer a compreenso de uma realidade em constante mudana. Da a
            preferncia hegeliana pela dialtica diante da lgica formal de origem aristotlica.
                  Entre os numerosos pensadores que se opuseram ao idealismo hegeliano, esto
            Marx e Engels. Marx, particularmente,  um discpulo de Hegel, de quem recebeu
            conceitos fundamentais, entre os quais o de dialtica. Todavia, Marx props uma
            nova forma de pensar o destino humano, no se limitando apenas a parafrasear seu
            mestre. Enquanto para Hegel, a mente era o que determinava o desdobramento da
            liberdade das pessoas, para Marx o determinante era a vida material. Marx construiu,
            desse modo, uma dialtica em torno da matria, formulando o materialismo
            dialtico em oposio  dialtica dos idealistas Hegel e Fichte. Para o materialismo
            dialtico, sendo as condies materiais de existncia (a economia) o verdadeiro
            mvel das aes humanas, a dialtica seria o mtodo para se perceber e superar as
            contradies sociais e histricas frequentes nas diversas sociedades humanas ao
            longo da histria. O pensamento de Marx consiste em partir do real (dos homens
            reais e de suas contradies), e no das ideias ou da mente, como Hegel. De acordo
            com o materialismo dialtico, o desenvolvimento histrico da humanidade no se
            d pela sucesso de fatos isolados, mas por um processo que envolve movimento e
            mudana (movimento e mudana que, por sua vez, implicam contradies).
                  Se Hegel construiu uma histria do pensamento, Marx, ao usar o modelo hegeliano
            para explicar o desenvolvimento da histria humana, construiu uma explicao
            histrica das mudanas ocorridas na vida concreta dos indivduos. Foi ento que ele


             98
props uma sequncia de pocas ou de modos de produo que se sucediam conforme as




                                                                                               Dialtica
contradies inerentes a cada um deles. Do mesmo modo que, para Hegel, a cada sntese,
o conhecimento humano avanava rumo ao Absoluto, Marx entrevia sempre uma
forma de produo da vida material mais avanada do que a primeira, at se chegar ao
Comunismo, quando o indivduo se encontraria consigo mesmo (ou seja, no seria mais
alienado) e teria a autoconscincia de ser um ser social, que faz a histria e a sociedade
a partir de escolhas conscientes. Ressalte-se que Hegel concebe a alienao apenas no
plano metafsico ou filosfico, enquanto Marx via a alienao na prpria sociedade
produzida pelos homens, particularmente na de tipo capitalista.
     Mas antes de Marx, Engels definiu e classificou as trs leis do materialismo dialtico:
lei de unidade e luta dos contrrios; lei de converso da quantidade em qualidade e
vice-versa; e lei de negao da negao. A primeira considera que tudo, na natureza,
est composto por pares de opostos em contnua luta, o que ocasiona os movimentos
e as mudanas; a segunda postula que o aumento ou a diminuio da quantidade de
matria transforma e muda a qualidade das coisas (e vice-versa); a ltima afirma que
todas as mudanas implicam a negao, ou seja, nega-se em primeiro lugar a tese a
partir da anttese, e depois se nega a prpria negao para o estabelecimento da sntese.
     Ao longo do sculo xx, interpretaes de Hegel assinalaram sua presuno em
conhecer a "verdade absoluta". Pensadores como Theodor Adorno e Jacques Lacan
rejeitaram o autoritarismo do sistema hegeliano. Para Adorno, no era possvel
compreender o terceiro estgio da dialtica (a sntese). Assim, ele props uma "dialtica
negativa", ou seja, uma dialtica que terminava no segundo estgio (a anttese) e nas
contradies a percebidas. Para ele, no seria possvel escapar dessas contradies.
     A dialtica (particularmente na forma materialista), ao enfatizar as contradies e
as mudanas, constitui uma interpretao da realidade que serve mais para se visualizar
os conflitos e as relaes antagnicas existentes na histria (senhores versus escravos,
capitalistas versus proletrios, por exemplo) do que os momentos de permanncias
e de solidariedades. Entretanto, na realidade histrica no h s conflito o tempo
inteiro, no h s antagonismos. Ao se analisar uma dada revoluo (a Francesa, por
exemplo), o pensamento dialtico procura identificar quais os elementos que, no modo
de produo anterior, estavam em contradio, em conflito, e como essas contradies
foram superadas pelo confronto entre os grupos envolvidos. Por essa anlise um tanto
determinista, haveria contradies inevitveis no modo de produo anterior, que
necessariamente descambariam em um processo revolucionrio. Critica-se, assim,
o mtodo do materialismo dialtico exatamente nesse ponto: de antemo, antes
da investigao da realidade social, ele acredita que h um determinismo histrico
que impele os agentes de agirem de formas especficas e necessrias. Desse modo, a
sociedade capitalista, em uma dada interpretao do materialismo dialtico, estaria


                                                                                        99
            fadada a gerar contradies insolveis que terminariam por impor a destruio
Dialtica



            necessria dessa sociedade e a instituio de uma nova soluo, uma nova e definitiva
            sntese, o Comunismo. Todavia, nem toda interpretao do materialismo dialtico
            apresenta esse determinismo. Jean-Paul Sartre e Merleau-Ponty, apesar de concordarem
            com as noes de alienao e de ao predominante das foras produtivas e das relaes
            de produo, discordavam da formulao de leis histricas pelo materialismo dialtico.
            Para eles, esses conceitos so instrumentos necessrios  anlise da situao dos homens
            no regime capitalista, mas no so leis deterministas dos destinos da humanidade.
            Nesse ponto, as divergncias de interpretao so numerosas.
                 Tanto o sistema metafsico de Hegel quanto o sistema materialista proposto pelo
            marxismo foram bastante criticados, j no sculo xix, e sobretudo no sculo xx. Mas
            no se pode negar o mrito desses pensadores que se esforaram para compreender
            a realidade e acreditaram que se podia alcanar o conhecimento da realidade,
            otimismo que hoje est cada vez mais raro, com o ceticismo e o excesso de relativismo
            predominantes. Hoje vivemos a crise dessas grandes linhas interpretativas, que
            incluem o materialismo dialtico. Mas algumas de suas formulaes ainda esto
            presentes na elaborao de muitos livros didticos. E o professor, sem cair nas
            armadilhas de uma interpretao meramente determinista da Histria, deve se
            aproximar desses conceitos. De todo modo, o debate em sala de aula sobre temas
            controversos pode ser mais bem fundamentado sob a forma de uma argumentao
            dialtica. Assim, o professor pode apresentar temas polmicos ao grupo-classe
            (aborto, propriedade privada, legalizao das drogas, armamentismo, a Questo
            Palestina, a desigualdade social etc.), iniciando um debate a partir da defesa e da
            negao, deixando em aberto a possibilidade de se chegar ou no  sntese. Todavia,
            sem uma pesquisa prvia orientada pelo professor, essa discusso no vai muito
            longe. Situaes didticas dessa natureza podem ser bastante enriquecidas com um
            trabalho interdisciplinar entre Histria, Filosofia e Sociologia.
                 Discutir, afirmar, negar, negar a prpria negao , no mnimo, valorizar o
            pensamento, algo que professores e alunos no podem dispensar sob o risco da
            repetio de frmulas prontas e da ausncia de interpretao da realidade.

            Ver tAmbm
                  Capitalismo; Comunismo; Ideologia; Marxismo; Modo de Produo; Teoria.

            sugestes de leiturA
                  andreW, Edgar; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
                   entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
                  aron, Raymond. As etapas do pensamento sociolgico. So Paulo: Martins
                   Fontes, 1999.


            100
    cHaraudeau, Patrick; mainGueneau, Dominique. Dicionrio de anlise do discurso.




                                                                                           Discurso
     So Paulo: Contexto, 2004.
    collinSon, Dian. 50 grandes filsofos: da Grcia antiga ao sculo xx. 2. ed. So
     Paulo: Contexto, 2004.
    HuGHeS-WarrinGton, Marnie. 50 grandes pensadores da Histria. So Paulo:
     Contexto, 2002.
    malaGodi, Edgard. O que  materialismo dialtico. So Paulo: Brasiliense, 1988.
    mondin, Battista. Curso de filosofia: os filsofos do Ocidente. So Paulo: Paulinas,
     1987.




discurso
     Com a ps-modernidade e o crescimento da interdisciplinaridade na Histria,
a Anlise do Discurso se tornou um mtodo de pesquisa dos mais difundidos no
Brasil do incio do sculo xxi. Tal anlise  uma metodologia derivada de disciplinas
como a Semitica e a Lingustica que tem como objetivo interpretar o discurso, este
definido como a forma por meio da qual os indivduos proferem e apreendem a
linguagem como uma atividade produzida historicamente determinada. Segundo
Eni Orlandi, uma das principais estudiosas da Anlise do Discurso no Brasil, o
discurso  a prtica da linguagem, isto , uma narrativa construda a partir de
condies histricas e sociais especficas. Para ela, todo discurso materializa
determinada ideologia na fala a partir de um idioma especfico. Desse modo,
todo discurso possui uma ideologia, e  a lngua que permite aos indivduos
compreenderem e assimilarem tal ideologia.
     Um dos principais componentes do discurso como fala ou narrativa so os
significados histricos presentes no imaginrio de quem o elabora. Cada discurso
, assim, uma representao do imaginrio no qual seu autor est inserido. Mas,
embora todo discurso seja proferido por algum  um indivduo (ou vrios) , esse
sujeito (que pode ser o autor de um texto, por exemplo) no  responsvel pelos
significados que existem em seu discurso, uma vez que nenhum discurso  de autoria
exclusiva de seu autor, j que todos os indivduos fazem parte da mesma memria
coletiva. Ou seja, um discurso no  fruto de opinies e vises particulares, mas uma
partcula do imaginrio dominante que abarca cada indivduo e, segundo Orlandi,
pode ser usado para reformular as relaes sociais.
     Esses elementos bsicos do discurso tornam-no onipresente no cotidiano,
pois viver em sociedade exige a produo de muitos discursos. Assim, a Anlise do


                                                                                   101
           Discurso constitui uma metodologia que tem como objetivo explicar como o
Discurso



           discurso funciona historicamente e como transmite uma ideologia. Nessa disciplina,
           a ideologia  definida como o direcionamento poltico dado aos sentidos do discurso.
           Ou seja, ideologia  a tendncia que temos de atribuir uma nica interpretao
           aos diversos significados de um discurso. Para entender melhor como a ideologia
           funciona nos discursos, alguns analistas elaboraram o conceito de formao
           discursiva, que designa um conjunto de discursos pertencentes a determinado
           contexto histrico e determinada ideologia: o discurso comunista, por exemplo, o
           discurso dos ruralistas no Brasil etc.
                Os analistas do discurso buscam ainda entender como os smbolos e a lngua
           produzem os significados. Em outros termos, analisar um discurso no  ler um
           texto buscando as informaes trazidas por ele. Esse  o mtodo da anlise de
           contedo, amplamente empregado em Histria e nas cincias humanas em geral.
           Para a Anlise do Discurso, o importante no  saber o que um texto quer dizer, mas
           como ele diz o que diz, ou seja, como os elementos lingusticos, histricos e sociais
           que o compem fazem sentido juntos. Esse questionamento vem do fato de que a
           lngua no  autnoma, e tanto ela quanto os indivduos so muito afetados pelas
           condies sociais e pelo imaginrio que os cerca. Alm disso, o indivduo no tem
           controle sobre como essas coisas o afetam, o que o isenta de responsabilidade pelos
           sentidos produzidos no discurso, j que esses so diretamente influenciados pelo
           meio social e pelo contexto histrico, que fogem ao seu controle.
                Outros conceitos fundamentais para a compreenso do discurso so imaginrio
           e memria. A memria coletiva guarda tudo o que j foi dito, tornando possvel que
           possamos dizer tudo de novo, ou entender quando algo for dito por outros. Ou seja,
           como no somos responsveis pelos sentidos do discurso, s o entendemos porque
           esses sentidos j existem antes de ns, em nossa sociedade, na memria coletiva e
           no imaginrio. As palavras, alm disso, no possuem sentidos fixos: seus significados
           so dados a partir da posio ideolgica de cada um, ou seja, da interpretao.
           Assim sendo, as palavras, mesmo as mais simples, j chegam at ns carregadas de
           significados que ns no construmos, que no sabemos como foram construdos,
           mas que entendemos, que fazem sentido para ns.
                O princpio fundamental da Anlise do Discurso  a interpretao que
           vai alm do contedo do texto. Outros campos de conhecimento, como a
           Hermenutica, tambm se preocupam com a interpretao dos textos, mas
           do maior nfase ao contedo, considerando muitas vezes que eles transmitem
           sentidos fixos, verdades predeterminadas. Nesse ponto est a diferena da Anlise
           do Discurso, que relativiza e historiciza os significados impregnados nos textos ou
           nas falas, ressaltando ainda que toda interpretao  histrica, ou seja,  parcial e


           102
feita sob condies sociais especficas. E, no entanto, nenhuma interpretao se v




                                                                                        Discurso
como histrica, mas se considera a nica verdade. E isso se deve  ideologia que
existe em cada interpretao.
     Disciplinas como a Semitica e a Lingustica, desde sua fundao, trabalham
analisando a composio formal da lngua, o entendimento dos smbolos e
a transmisso de mensagens. Construram, assim, um esquema clssico para
representar a transmisso de mensagens em falas e textos: primeiro um indivduo,
o emissor, transmite uma mensagem a outro indivduo, o receptor. Essa mensagem,
por sua vez, est formulada em um cdigo conhecido por ambos, que os especialistas
chamam de referente. Ento, o emissor transmite a mensagem, e o receptor a
interpreta, decifrando o cdigo simblico ou lingustico no qual ela est elaborada.
Mas para Eni Orlandi, esse esquema tradicional apresenta a mensagem como se ela
resultasse de um processo de etapas, quando na verdade a informao e seus sentidos
so elaborados no mesmo momento de sua transmisso, e no antes ou depois.
     Mas, como  possvel aplicar essas consideraes tericas  anlise prtica de
documentos?  ainda Eni Orlandi quem nos oferece um dos melhores exemplos
de anlise de documentos histricos pela Anlise do Discurso no Brasil. Na obra
Terra  vista, a autora interpreta os sentidos existentes nos textos de capuchinhos e
viajantes franceses dos sculos xvi a xviii, buscando entender como os argumentos
que aparecem nesses textos influenciaram a formao de certa forma de ver o Brasil.
     Em outro texto, a mesma autora oferece tambm um exemplo prtico de como
um discurso pode ser analisado: durante uma eleio universitria, os organizadores
do evento colocaram uma grande faixa preta com os dizeres "vote sem medo!",
informando que os votos no seriam identificados. Para Orlandi, o texto da mensagem
e os sentidos transmitidos por ele no so iguais, mas contraditrios, devido  forma
como a mensagem foi transmitida. Pois ao optarem por uma faixa negra, e por usarem
a palavra medo, os organizadores fizeram referncia, inconscientemente,  tradio de
eleies fraudulentas e de ditadura no pas. Para ela, isso fica claro se produzirmos
uma faixa diferente, com o mesmo propsito, dizendo "vote com coragem!" em letras
vermelhas sobre fundo branco. Nesse caso, os sentidos da mensagem simblica so
diferentes, com smbolos (a palavra coragem, a cor vermelha) que remetem a um
passado de lutas revolucionrias. Ela lembra ainda que os sentidos transmitidos na
primeira faixa so inconscientes, e os emissores da mensagem no poderiam fugir
deles devido  sua insero no contexto histrico que produziu aqueles sentidos.
      tambm possvel percebermos, pelo discurso, as mltiplas relaes construdas
entre o sujeito e o objeto que ele representa. Podemos tomar como exemplo os
discursos proferidos pelos cronistas e administradores portugueses sobre o serto
brasileiro entre os sculos xvii e xviii. Quando analisamos esses textos a partir do


                                                                                103
           contexto de sua produo, de suas origens, das condies sociais de seus autores
Discurso



           e do imaginrio ento dominante, notamos que representam no apenas o que se
           pensava do serto daquela poca, mas o modo pelo qual a sociedade colonial se
           relacionava com o serto, por meio, por exemplo, de projetos de colonizao. Nesse
           sentido, o imaginrio dominante da sociedade aucareira caracterizava o serto como
           um espao selvagem; os discursos de padres e administradores sobre os habitantes
           sertanejos sempre os apresentavam como pessoas rudes e violentas. Isso influenciava
           as polticas de colonizao. Assim, como os ndios do serto eram considerados e
           retratados por esse imaginrio como "brbaros", as prticas que transparecem nos
           discursos eram sempre de intolerncia e violncia para com eles.
                Todas essas consideraes s confirmam o quanto  importante entendermos
           os significados impregnados em termos e expresses utilizados pela Histria. Uma
           vez que as palavras carregam sentidos que so definidos historicamente, conhecer
           os significados por trs dos conceitos  conhecer a historicidade das palavras, a
           forma pela qual foram entendidas ao longo do tempo por diferentes sociedades; 
           aprofundar o conhecimento da prpria Histria, entendendo como ela age sobre
           os indivduos pela produo, na maioria das vezes imperceptvel, de significados. A
           ttulo de concluso, poderamos dizer que os sentidos buscados nos discursos tm
           a ver no somente com o que foi dito, mas tambm com o que no foi dito e com o
           que poderia ser dito. Deve-se ento perguntar por que essas palavras e no outras,
           por que essa forma de apresentar a mensagem e no outra. Perguntas que nos levam
           a pensar para alm do contedo.
                Apesar de sua posio recente na historiografia, a Anlise do Discurso, em um
           sentido mais amplo, j  empregada por todo bom profissional de Histria, quando
           esse se coloca as seguintes perguntas diante de um documento ou de uma obra
           histrica: Quem o produziu? Quando foi produzido? Por que foi produzido? Para
           quem foi produzido? Essas so perguntas simples, mas bsicas para entendermos os
           sentidos que esto alm do contedo do texto. Assim, no  preciso ser especialista
           em Lingustica ou Semitica para poder empregar os conceitos bsicos da Anlise
           do Discurso na Histria. O que  preciso sempre  questionar as condies de
           produo de cada documento ou obra bibliogrfica que utilizamos, procurando
           compreender os sentidos e as ideologias que ele pretende transmitir. Os professores
           de Histria precisam, aos poucos, treinar os estudantes para ler o mundo, e para
           isso algumas ferramentas da Anlise do Discurso podem ser muito teis na
           interpretao de textos (documentos histricos, artigos de jornal, matrias de
           revista). Cabe ainda experimentar um trabalho interdisciplinar com os colegas que
           ensinam Lngua Portuguesa.



           104
Ver tAmbm




                                                                                           Ditadura
    Cotidiano; Histria; Ideologia; Imaginrio; Interdisciplinaridade; Memria;
    Mentalidades; Ps-modernidade; Poltica; Relativismo Cultural; Teoria.

sugestes de leiturA
    cHaraudeau, Patrick; mainGueneau, Dominique. Dicionrio de anlise do discurso.
     So Paulo: Contexto, 2004.
    collinSon, Dian. 50 grandes filsofos: da Grcia antiga ao sculo xx. 2. ed. So
     Paulo: Contexto, 2004.
    edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
      entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
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     Contexto, 2002.
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    traSK, R. L. Dicionrio de linguagem e lingustica. Trad. e adap. Rodolfo Ilari.
      So Paulo: Contexto, 2004.




ditAdurA
     A Amrica Latina, desde sua formao como conjunto de Estados independentes
no sculo xix, passou por diferentes momentos em que um ou mais desses Estados
estiveram envolvidos em algum tipo de ditadura. A ideia de ditadura, portanto, 
uma constante na formao dos historiadores latino-americanos.
     Antes de tudo, podemos definir ditadura como um regime poltico, uma forma
de governo. Como tal,  sempre um conceito relacionado  prpria ideia de Estado.
Alm disso, a noo mais comum de ditadura no Ocidente est, paradoxalmente,
bastante relacionada  ideia de democracia. Nessa perspectiva, a ditadura existe por
oposio  democracia. Desde o sculo xix, com a ascenso da sociedade burguesa e



                                                                                   105
           dos Estados liberais no Ocidente, a democracia passou a ser considerada a melhor
Ditadura



           forma de governo, principalmente por ser oriunda do projeto poltico vencedor, o
           projeto poltico burgus. Da em diante, o termo ditadura passou a designar todos os
           governos no democrticos, assumindo, para a sociedade ocidental, um significado
           negativo, visto que, para os valores burgueses, um regime positivo seria a democracia,
           o regime de governo da maioria.
                Essa relao entre ditadura e democracia, assim como o constante aparecimento
           das ditaduras nas sociedades democrticas do Ocidente, foi cuidadosamente
           analisada por vrios cientistas polticos e historiadores ao longo do sculo xx. Esses
           pensadores, preocupados com o paradoxo que  o aparecimento de ditaduras em
           Estados que se apresentam como democrticos, procuraram classificar os diferentes
           tipos de ditaduras ao longo da histria. Para Norberto Bobbio e Nicos Poulantzas, por
           exemplo, a ditadura  uma forma de relao entre os poderes executivos e legislativos
           de um Estado. J Franz Neumann definiu ditadura como o governo de uma pessoa,
           ou grupo de pessoas, que se arroga o direito de exercer o poder, monopolizando-o
           e exercendo-o sem restries. Partindo dessas consideraes, podemos classificar as
           ditaduras em trs tipos: a ditadura simples, na qual o poder  exercido por um ditador
           que se baseia nos meios tradicionais de coero da sociedade pelo Estado, que so a
           poltica, a burocracia, o exrcito e o judicirio. Nessa categoria esto os ditadores do
           Terceiro Mundo no sculo xx, como Idi Amin em Uganda, Papa Doc no Haiti e Pol
           Pot no Cambodja. Tais ditadores, por controlarem pases pobres, precisaram basear
           seu poder sobretudo na coero policial, e no criaram meios de manipulao de
           opinio muito sofisticados. A segunda categoria de ditadura  a chamada "cesarista"
           ou "bonapartista", na qual o poder do ditador vem principalmente do apoio popular.
           Tal poder depende do carisma do poltico e pode ser exemplificado nas ditaduras
           latino-americanas do sculo xx, como a de Getlio Vargas no Brasil e a de Pern na
           Argentina. O ltimo tipo de ditadura  o totalitrio, em que um partido controla o
           Estado, utilizando tambm o apoio popular. Esse  o caso das ditaduras da Europa
           no sculo xx, o fascismo italiano, o nazismo alemo e o stalinismo sovitico.
                A ideia de ditadura, todavia,  bastante antiga, e j pode ser encontrada
           na Antiguidade Clssica. No entanto, como todas as ideias, esta tambm sofreu
           transformaes ao longo de tempo, de modo que as ideias de ditadura no sculo xx
           tornaram-se bastante diferentes daquelas existentes no Imprio Romano, por exemplo.
           Na Roma antiga, ditadura era um termo positivo que significava o governo de um
           magistrado, o dictator, nomeado excepcionalmente em casos de guerras ou revoltas,
           para organizar o governo e o Estado em perodos de caos administrativo. Para isso,
           eram-lhe atribudos poderes extraordinrios. Mas o dictator tinha funo temporria, e
           logo terminado o trabalho para o qual fora nomeado, seus poderes eram revogados pelo


           106
Senado e pelos cnsules. Assim, originalmente, a ditadura era uma instituio legal, uma




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vez que estava prevista em lei para casos de extrema necessidade do Estado.
     J durante a Idade Moderna surgiu, na Europa, um outro tipo de ditadura. Este,
diferente da ditadura romana, no era legalista e tentava modificar totalmente o
contexto poltico existente. Em comum com o modelo romano, a ditadura moderna
tinha o fato de tambm procurar remediar uma situao de necessidade do Estado,
mas no de forma parcial, dependente de um Senado e com tempo determinado
para existir, e sim instaurando um novo poder, no qual normalmente o ditador
era autoproclamado, ao contrrio do ditador romano, que recebia seus poderes
temporrios do Estado. Essa ditadura moderna pode ser vista, por exemplo, no
governo jacobino de Robespierre na Frana da Revoluo Francesa. Nesse caso, em
1793, foi instaurada a ditadura do Comit de Salvao Pblica, comandado por
Robespierre, que suspendeu a Constituio e estabeleceu um governo provisrio. Esse
governo foi considerado pelos estudiosos modelo de ditadura "clssica", caracterizada
pela suspenso dos direitos constitucionais e pelo comando do Estado por um grupo,
e no por um nico indivduo.
     Foi ainda nessa mesma fase de transformao da sociedade do Antigo Regime
em sociedade burguesa, durante as reviravoltas da Revoluo Francesa, que no
final do sculo xviii surgiu na Frana um outro conceito de ditadura, a ditadura
revolucionria, teorizada por conspiradores como Buonarroti. Para ele, uma
sociedade ps-revolucionria, com suas estruturas transformadas (o que seria o
objetivo de qualquer revoluo), s poderia ser instaurada depois do governo de uma
ditadura revolucionria, colocada no poder pela prpria revoluo. Ela teria como
funo eliminar os vestgios do passado, acabar com a antiga ordem e instaurar a
nova sociedade. Tal ditadura revolucionria seria um governo de "sbios", que teria
como funo principal preparar uma nova Constituio. Buonarroti dava, assim, 
ditadura revolucionria o significado positivo que a ditadura romana antiga possua.
     Com relao a esse tipo de ditadura de carter revolucionrio,  bastante
conhecida a expresso de Karl Marx, elaborada na segunda metade do sculo xix,
sobre "a ditadura do proletariado". Mas, para ele, tal expresso no significava o
domnio de um partido sobre a sociedade, como seria efetivamente aplicado depois
na Unio Sovitica ps-revoluo socialista, mas sim o controle de uma classe sobre
a sociedade. Ou seja, sua ditadura do proletariado no tinha o sentido atribudo at
ento s ditaduras revolucionrias, o sentido de controle do governo por um grupo
poltico, defendido por Buonarroti. Marx postulava que o Estado deveria ser regido,
ao menos no perodo revolucionrio, por uma determinada classe social, at ento
fora do poder. Acreditava, na verdade, que todos os governos eram ditaduras, pois
todos seriam domnios de uma classe sobre outras.


                                                                                   107
                Apesar de existirem diferentes formas de ditadura no mundo contemporneo,
Ditadura



           algumas caractersticas bsicas so compartilhadas por todas: o cerceamento de direitos
           polticos e individuais, a ampla utilizao da fora pelo Estado contra sua prpria
           sociedade e o fortalecimento do poder executivo em detrimento dos outros poderes.
                Em suma, ditadura  uma categoria de anlise poltica que pode ser aplicada a
           diferentes sociedades e perodos histricos. Apesar disso, no podemos generalizar:
           cada momento histrico tem sua particularidade, e assim no devemos considerar
           iguais a ditadura de Stalin na Unio Sovitica em meados do sculo xx e a ditadura
           de Fujimori no Peru nas ltimas dcadas do sculo xx. Dessa forma, para uma
           compreenso desse fenmeno, precisamos nos debruar no apenas sobre a definio
           geral de ditadura, mas sobre as especificidades de cada ditadura.
                Como a Amrica Latina  um terreno frtil para diferentes tipos de governos
           ditatoriais, tal discusso conceitual se torna imprescindvel para se compreender a
           realidade vivida no continente. Observando o caso especfico do Brasil, no devemos
           esquecer que hoje, mesmo com o regime democrtico brasileiro, a herana cultural,
           social e econmica da ltima fase de ditaduras latino-americanas ainda  bastante
           visvel em nossa sociedade. Os professores de Ensino Mdio e Fundamental, ao
           trabalharem com ditaduras em sala de aula, esto tocando em um tema bastante
           sensvel para determinados grupos sociais, pois os atores sociais que participaram
           contra ou a favor do governo militar no Brasil so pessoas que, em muitos casos, ainda
           esto atuantes no cenrio poltico. Alm disso, muitas famlias das vtimas da represso
           ainda permanecem sem explicaes sobre o destino de seus parentes mortos nas malhas
           da ditadura, fato que nos leva a uma das questes mais importantes no trabalho com
           esse tema: a represso  caracterstica muito forte dessa forma de governo.
                O trabalho em sala de aula com tal tema no  fcil, pois ele ainda est muito
           prximo de ns. Justamente por isso, faz-se necessrio um cuidado redobrado ao
           abordar as ditaduras ao longo da histria. Mas tal cuidado no inclui omitir dados. 
           preciso tentar abordar as ditaduras contemporneas de forma objetiva, observando
           como influram nas estruturas econmicas e sociais e as consequncias da atuao
           de suas mquinas repressivas sobre a cultura e o cotidiano. Assim, no caso especfico
           das ditaduras militares latino-americanas, o trabalho em sala de aula pode utilizar
           artigos de revista para a analisar a economia, por exemplo, alm de msicas e filmes
           para analisar a produo cultural e sua relao com a censura. Outra abordagem
           possvel  observar como as ditaduras surgem em diferentes momentos da histria,
           enfatizando as diferenas entre elas. Dessa maneira, comparar a ditadura romana,
           bastante legalista, com as ditaduras bonapartistas latino-americanas no sculo xx
           permite que o professor e os alunos reflitam sobre as modificaes que o tempo e
           o contexto exercem sobre os conceitos e as ideias polticas.


           108
Ver tAmbm




                                                                                             Ditadura
   Antiguidade; Cidadania; Democracia; Estado; Fascismo; Golpe de Estado;
   Liberdade; Marxismo; Militarismo; Nao; Violncia.

sugestes de leiturA
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     Contexto, 2004.
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     instituies e personagens. Rio de Janeiro: FaperJ/Mauad, 2000.




                                                                                     109
 e

escrAVido
          E
     No  simples oferecer uma conceituao para a escravido. Em primeiro lugar, a
dificuldade inicial est em diferenciar os indivduos submetidos  escravido daqueles
submetidos a outras formas de subordinao e explorao. Em muitas sociedades
tradicionais, por exemplo, filhas pberes, filhos caulas e esposas estiveram to
submetidos aos chefes de famlias patriarcais que suas condies sociais no eram
to superiores s dos escravos. Porm, qualquer definio de escravido deve ser
suficientemente flexvel para conter os significados diversos que os agentes histricos de
uma dada poca lhe conferiram. Ou seja, por mais que a escravido ao longo da histria
humana tenha assumido alguns traos mais ou menos universais, seus significados
variaram em larga medida ao longo do tempo. Da decorre que o conceito de escravido
precisa se fundamentar em sua prpria historicidade, ou seja, nas diferentes formas que
assumiu e nos significados que cada sociedade e poca lhe atriburam.
     De qualquer modo, uma definio de escravido que nos parece bastante
aplicvel a seus diversos contextos histricos  a proposta por Claude Meillassoux.
Segundo ele, a escravido  um modo de explorao que toma forma quando uma
classe distinta de indivduos se renova continuamente a partir da explorao de outra
classe. Ou seja, a escravido aparece quando todo um sistema social se estrutura com
base na explorao e na perpetuao de escravos continuamente reintroduzidos seja
por comrcio ou reproduo natural. O autor ainda afirma que para a escravido
existir  preciso uma rede de relaes entre diferentes sociedades: h aquelas nas
quais os escravos so capturados, aquelas que dispem de uma estrutura militar para
capturar os cativos das primeiras, aquelas sociedades ditas mercantis que controlam
o escoamento dos escravos e, por fim, h sociedades mercantis consumidoras de
escravos. Essa definio demonstra o quanto a escravido mobiliza um conjunto
econmico e social geograficamente extenso.
     O senso comum, em nossa sociedade, faz uso da expresso escravo para diversos
tipos de situaes relativas a formas degradantes de trabalho, ou a um tipo de sujeio
considerado humilhante. Isso se d porque as condies de sobrevivncia da maioria
da humanidade ao longo da histria e os diversos modos de subordinao e explorao



110
adquiriram formas to humilhantes e grotescas que os indivduos tendem,




                                                                                          Escravido
vulgarmente, a atribuir o termo escravo para qualquer situao em que essas
condies se apresentem. Mas  fundamental distinguir a escravido de outras
formas de opresso. A escravido, antes de mais nada, define o escravo a partir de
seu status jurdico. A principal distino entre o escravo e o servo, e entre o escravo
e outras pessoas submetidas a trabalhos compulsrios, nesse sentido, est no fato
jurdico de o escravo ser propriedade do senhor, no sendo, portanto, definido como
pessoa. Mas esse aspecto jurdico que regulamenta e define o escravo foi sempre
problemtico, segundo David Brion Davis, uma vez que o escravo definido como
propriedade (coisa) no deixava de ser tambm uma pessoa, um homem.
     Pensadores, filsofos, juristas e telogos, ao longo do tempo, em diferentes
sociedades escravistas, debateram arduamente se o escravo era ou no um homem
e se a escravido estava ou no conforme a lei natural. Aristteles, por exemplo,
julgava que no se podia falar em interesses do escravo, pois este no tinha nenhuma
faculdade deliberativa, sendo apenas um instrumento ou posse, uma extenso da
natureza fsica do seu senhor; quem de fato tinha interesses era este. Assim, os
interesses do escravo estavam restritos aos interesses do senhor. Aristteles, desse
modo, desumanizou totalmente o escravo. Em toda sociedade em que a escravido
foi o motor das relaes sociais, o objetivo dos escravagistas (fossem mercadores
ou proprietrios) era exatamente esse, eliminar do escravo qualquer vestgio de sua
humanidade. Assim, o escravo seria uma no pessoa e, portanto, no teria sonhos,
projetos, valores prprios. Todavia, se o escravo ideal era aparentemente aquele mais
desumanizado, mais coisificado,  preciso reconhecer, como fez Claude Meillassoux,
que, na prtica, os escravos no eram utilizados como objetos ou animais, pois em
todas as tarefas em que eram empregados era preciso apelar para sua inteligncia
humana. Alm disso, o discurso do escravo-coisa, que fazia parte da ideologia dos
senhores, resvalava na resistncia dos prprios escravizados, que davam a todo o
momento provas de sua humanidade. Para Meillassoux, a definio jurdica segundo
a qual o escravo  descrito como um objeto submetido a seu proprietrio era uma
fico que mascarava as relaes sociais da escravido, uma vez que a relao
pretensamente individual entre o senhor e o escravo (coisa, propriedade) contida
na lei dissimula e neutraliza a relao de classe.
     Desde o Egito antigo, passando pela Babilnia, Assria, Grcia, Roma, ndia,
China e em parte da Europa medieval, as sociedades escravagistas elaboraram
arcabouos jurdicos para definir o escravo como coisa. Apesar disso, a escravido e
a identidade do escravo no podem ser definidas pelo aspecto meramente jurdico.
Os prprios sistemas legais que definiram o escravo como coisa, como o sistema
romano, admitiram a face humana do escravo ao puni-lo por delitos e ao reconhecer


                                                                                  111
             um mnimo de proteo contra o assassinato e danos corporais graves por parte
Escravido



             do poder arbitrrio de seus senhores. Os juristas romanos, portanto, reconheceram
             abertamente que o escravo era tanto uma coisa quanto uma pessoa. Para David
             Brion Davis, a escravido ultrapassa a definio jurdica e deve ser encarada como
             uma instituio real que envolve funes econmicas e relaes interpessoais. Ou seja,
             essa instituio apresenta uma face cotidiana e tensa, com diferentes formas de
             negociaes e conflitos entre senhores e escravos. Nesse sentido, a escravido  um
             sistema social dinmico, sujeito a mudanas e lutas entre os grupos envolvidos.
                  Para as sociedades que mantinham a escravido, um problema fundamental era
             o de delimitar as diferenas entre o grupo dos livres e o dos escravos. Em sociedades
             mais notadamente etnocntricas, como a dos hebreus e gregos antigos, normalmente
             se buscava capturar e escravizar apenas os estrangeiros. Isso no quer dizer que no
             havia escravido de indivduos do mesmo grupo tnico, mas que havia diferenciao
             no tratamento entre estrangeiros e no estrangeiros escravizados. Para um hebreu,
             por exemplo, os cativos de sua mesma religio no eram considerados verdadeiros
             escravos. No esforo de diferenciar escravos de no escravos, as sociedades antigas em
             geral no usavam a cor da pele como critrio, mas impunham tatuagens ou estigmas
             que caracterizassem o baixo status do escravo. Foi apenas na Idade Moderna que
             as sociedades promotoras da escravido consideraram a escurido da pele marca
             natural de inferioridade.
                  Os gregos antigos foram os primeiros a atribuir um conceito mais racional e
             jurdico  escravido, e em vez de usarem estigmas fsicos e tatuagens, definiram o
             escravo, ou doulos, com maior preciso legal. O doulo pertenceria, desse modo, a
             um grupo  parte, e seria um "tipo de propriedade com alma". Os romanos seguiram
             a mesma trilha. Mas os egpcios e os rabes percebiam mais as distines raciais.
             Aos poucos, a palavra rabe para designar escravos, abid, foi sendo cada vez mais
             atribuda aos negros. Tambm os chineses da dinastia Tang pensavam a escravido
             a partir de preconceitos raciais. A pele escura, para os chineses dessa dinastia, era
             associada  inferioridade. Entretanto, todos os estrangeiros de modo geral eram
             escravizados: os persas eram considerados negros pelos chineses, e estes escravizavam
             ainda turcos, indonsios e coreanos. A escravido moderna, retomada pelas Naes
             ibricas em seus imprios coloniais na Amrica, teve certamente uma base racial
             bem mais ntida, e a cor negra foi cada vez mais associada  escravido.
                  Mas desde a expanso da f crist, a escravido foi associada tambm ao pecado.
             Embora tendo pregado a necessidade de um tratamento mais humano para os escravos,
             o Cristianismo, at o sculo xix, no chegou a defender o abolicionismo ou destruir a
             base tica da escravido construda na Antiguidade. A Igreja medieval acreditava que a
             escravido teve origem na queda do homem. Assim sendo, a escravido se tornara uma


             112
pea fundamental na ordenao do mundo, e constava no projeto divino de salvao dos




                                                                                           Escravido
homens. A ideia de pecado original, desse modo, surgiu como um elemento ordenador
do mundo, e os homens deveriam ser resignados diante do poder das autoridades.
Pensava-se que o escravo era um pecador. Para Santo Agostinho, a escravido era to
somente uma punio para o pecado, mas o escravo poderia se salvar. Na verdade, para
o Cristianismo, a escravido fsica pouco importava, pois sua ideologia pregava uma
libertao no plano espiritual. Havia uma dualidade no pensamento cristo: de um
lado, Deus era o senhor dos senhores terrenos e tambm dos escravos, o que significava
a existncia de uma igualdade no plano divino; de outro, os escravos, na terra, no
deveriam lutar por sua liberdade, pois o que importava era a sua alma e sua obedincia a
Deus, e no a posio social ocupada no mundo. Essa combinao de liberdade espiritual
e cativeiro corporal assinalava o forte dualismo do pensamento cristo, adaptado de
ideias dos filsofos gregos da escola estica, que tambm preconizavam um conceito
filosfico e transcendental de liberdade, em nada compatvel com as necessidades fsicas
dos escravos. O conceito estoico e o cristo, embora com certas diferenas, postulavam
que a verdadeira escravido era a da alma e, nesse sentido, mesmo ricos mercadores ou
senhores de escravos poderiam ser escravos de sua ganncia, dos prazeres mundanos.
Por sua vez, o homem fisicamente escravo poderia ter uma alma livre.
     Na Idade Moderna, com o advento de um pensamento mais secular, cada vez
menos se pensava na escravido como tendo sua origem no pecado. A definio
moral da escravido saa de cena para dar lugar ao pragmatismo dos interesses
dos Estados europeus escravistas, que julgavam bastante natural o uso de escravos
nas zonas colonizadas, enquanto o mundo europeu caminhava cada dia mais para
prticas de liberdade. Nessa poca, alguns pensadores modernos chegaram ao
dualismo extremo de rechaar a escravido em sua nao de origem enquanto a
defendiam nas terras colonizadas. O ingls Thomas More, por exemplo, criticava
veementemente muitas injustias em seu prprio pas, como os cercamentos e o
cdigo penal brbaro, mas admitia a escravido.
     Entretanto, j no sculo xvii, e sobretudo no sculo xviii, surgiu um discurso
antiescravocrata, que defendia a liberdade natural do homem. No sculo xviii,
mesmo pensadores conservadores como Montesquieu criticavam a legitimidade da
escravido, considerando-a contrria s leis naturais. Segundo Brion Davis, o sculo
xviii assistiu a um conjunto amplo de discursos sobre a felicidade dos indivduos e
de seu direito de dispor de sua vontade. A reflexo racional do Iluminismo abria,
assim, uma fenda que desembocaria no abolicionismo do sculo xix.
     Na prtica, como se percebe, o estudo da escravido deve enveredar pelas relaes
sociais, notando as resistncias e acomodaes, os conflitos e as negociaes que podiam
existir entre senhores e escravos. Ou seja, para entendermos essa instituio, deve-se
ter como referencial as multifacetadas relaes interpessoais entre senhores e escravos.


                                                                                   113
                  Do ponto de vista da utilizao em sala de aula, professores dos nveis Fundamental
Escravido



             e Mdio podem encontrar um bom instrumento de anlise na comparao de
             diferentes sistemas escravistas ao longo da histria, trabalhando com diferenas
             e similaridades, percebendo as aproximaes e os distanciamentos entre o que
             afirmavam as legislaes escravistas e as prticas cotidianas dos escravos. Mas talvez
             o interessante seria partir do prprio presente e questionar com os alunos as relaes
             de trabalho no mundo contemporneo, comparando-as  situao jurdica da
             escravido antiga e moderna, alm de desenvolver pesquisas sobre a permanncia da
             escravido em pleno sculo xxi, mesmo aps a proibio legal por parte das Naes.
             Casos de escravido, infelizmente, ainda persistem no mundo globalizado, inclusive
             no Brasil. E uma forma de contribuir para sua extino  no deixar que os estudos
             sobre o tema percam intensidade, sempre instigando as novas geraes a pensar
             criticamente essa forma de explorao de trabalho. Nesse sentido,  urgente que
             tomemos conhecimento da existncia de uma vasta rede de escravido no Brasil
             contemporneo, em particular no Par. E para isso se torna necessrio lermos o
             livro do padre Ricardo Rezende Figueira, Pisando fora da prpria sombra, que no
             apenas realizou um exaustivo estudo sobre a escravido atual, como luta contra a
             permanncia dessa instituio na sociedade brasileira.

             Ver tAmbm
                   Aculturao; Cidadania; Colonizao; Cristianismo; Etnocentrismo; Iluminismo;
                   Latifndio/Propriedade; Liberdade; Negro; Servido; Trabalho; Violncia.

             sugestes de leiturA
                   daviS, David Brion. O problema da escravido na cultura ocidental. Rio de Janeiro:
                    Civilizao Brasileira, 2001.
                   del priore, Mary (org.). Histria das mulheres no Brasil. 6. ed. So Paulo:
                    Contexto, 2002.
                   ______. Histria das crianas no Brasil. 4. ed. So Paulo: Contexto, 2004.
                   FiGueira, Ricardo Rezende. Pisando fora da prpria sombra: a escravido por
                     dvida no Brasil contemporneo. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 2004.
                   Funari, Pedro Paulo. Grcia e Roma. So Paulo: Contexto, 2001.
                   GomeS, Flvio dos Santos. Quilombos: sonhando com a terra, construindo
                    a cidadania. In: pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da
                    cidadania. So Paulo: Contexto, 2003.
                   maeStri, Mrio. Uma histria do Brasil colnia. 3. ed. So Paulo: Contexto, 2002.
                   ______. Uma histria do Brasil imprio. 3. ed. So Paulo: Contexto, 2002.



             114
    meillaSSoux, Claude. Antropologia da escravido: o ventre de ferro e dinheiro.




                                                                                              Estado
     Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
    neveS, Maria de Ftima Rodrigues das. Documentos sobre a escravido no Brasil.
     So Paulo: Contexto, 1996.
    peStana, Fbio. No tempo das especiarias. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2004.
    pinSKy, Jaime. A escravido no Brasil. So Paulo: Contexto, 1993.
    pinSKy, Jaime (org.). 100 textos de histria antiga. So Paulo: Contexto, 2003.
    SleneS, Robert W. Na senzala, uma flor: esperanas e recordaes na formao da
      famlia escrava, Brasil, Sudeste, sculo xix. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.




estAdo
     Pairando sobre muitos dos conceitos de grande relevncia para a vida poltica
atual, como cidadania, democracia, liberalismo, est o Estado, entidade abstrata que
comanda e organiza a vida em sociedade. O Estado , poderamos assim sintetizar,
entidade composta por diversas instituies, de carter poltico, que comanda um
tipo complexo de organizao social. Muitas vezes associamos Estado e Nao,
tratando-os como sinnimos, mas enquanto o Estado  uma realidade jurdica, a
Nao  uma realidade sociolgica e, para estudiosos como Miguel Reale, o Estado
seria a Nao politicamente organizada.
     A palavra estado vem do latim"status", verbo stare, manter-se em p, sustentar-se. Mas
na Antiguidade Clssica, a expresso para designar o complexo poltico-administrativo
que organizava a sociedade era "status rei pubblicae", ou seja, situao de coisa pblica,
em Roma, e polis, na Grcia. Foi na Europa Moderna que surgiu a realidade poltica do
Estado nacional. E com Maquiavel, o termo estado comeou a substituir civitas, polis e
res publica, passando a designar o conjunto de instituies polticas de uma sociedade
de organizao complexa. O socilogo Max Weber afirmou, no incio do sculo xx, que
o Estado Moderno se definiu a partir de duas caractersticas: a existncia de um aparato
administrativo cuja funo seria prestar servios pblicos, e o monoplio legtimo da
fora. Weber defendia, dessa forma, que o Estado era o nico que poderia empregar
a violncia legalmente, esta passando a ser um instrumento de controle da sociedade.
Ele afirmou ainda que o processo histrico que constituiu o Estado conviveu com a
expropriao dos meios de produo dos artesos pelos possuidores do capital. Desse
modo, o Estado seria ento contemporneo do Capitalismo.



                                                                                      115
              A partir do surgimento do Estado nacional na Europa Moderna, a historiografia
Estado



         comeou a se questionar se o conceito de Estado deveria ser aplicado apenas a esse
         contexto histrico ou tambm aos perodos anteriores. Levantou-se, ento, a seguinte
         questo: o Estado sempre existiu? Uma primeira corrente defende que Estado  um
         conceito que deve ser aplicado s a partir do surgimento do Estado-nao, e no
         antes disso. Para os autores que pensam assim, o Estado  uma forma histrica
         recente, oriunda da concentrao do poder de mando sobre determinado territrio
         por meio do monoplio da lei e de servios essenciais. Nessa abordagem, que segue
         a tese de Weber, autores como Denis Rosenfield afirmam que o Estado Moderno 
         tanto a organizao da sociedade em um governo autnomo quanto o aparelho que
         governa essa sociedade. No entanto, outros autores, como Miguel Reale, acreditam
         que a caracterizao do Estado como governo que organiza a sociedade equipara-o
          Nao e, apesar de Estado e Nao estarem em conexo, so conceitos distintos.
         Esses autores definem o Estado como um aparato administrativo que executa funes
         s visveis a partir da Idade Moderna. Assim, nem a polis nem o Estado feudal  isso
         s para ficarmos nos Estados ocidentais  seriam realmente Estados. Por outro lado,
         uma segunda viso  aquela que discorda da tese de Weber. Para esses pensadores,
         que criticam a definio restritiva de Estado, se a polis grega, por exemplo, tivesse um
         aparato administrativo que no se encaixasse nesse conceito, ento os tratados polticos
         de Aristteles no teriam serventia para o Ocidente moderno e contemporneo. Mas
         pelo contrrio, a tipologia que Aristteles criou para as formas de governo, assim
         como suas ideias sobre Constituio etc., tiveram e tm grande influncia sobre os
         Estados ocidentais. Essa  a corrente que predomina atualmente, e hoje a maioria
         dos historiadores aceita que o Estado  uma categoria presente em diferentes pocas
         e sociedades. Mas discordam bastante quanto  origem dessa instituio.
              Desde o Renascimento, pensadores como Thomas Hobbes, Maquiavel e
         Rousseau j se preocupavam em explicar o surgimento do Estado. Uma dessas teorias
         propostas teve grande influncia sobre os Estados absolutistas da Europa ocidental
         no sculo xvii: a teoria de Hobbes, que defendia o Estado como uma criao dos
         indivduos para controlar os impulsos naturais e egostas de cada um e possibilitar a
         vida em sociedade. Nessa perspectiva, o Estado de Hobbes seria uma ferramenta de
         controle social, no qual para obter os benefcios da sociedade, o indivduo abdicava
         de seus direitos e se submetia ao controle de um soberano. Tal teoria teve a funo
         de legitimar o Estado absolutista.
              Outra teoria de influncia, mas que, ao contrrio da de Hobbes, foi elaborada
         para criticar o Absolutismo, foi a proposta por Rousseau. Nela, o Estado surgiria
         de um compromisso entre os indivduos, da vontade do povo, e como tal deveria
         ser governado por representantes dessa vontade. Essa teoria influenciou a formao


         116
dos Estados-nacionais latino-americanos no sculo xix, como repblicas que




                                                                                              Estado
afirmavam obter seu poder da vontade popular, apesar de na realidade isso raramente
acontecer. Outra teoria clssica acerca do surgimento do Estado, elaborada no sculo
xix, afirmava que ele surgiu da dissoluo da sociedade primitiva baseada em vnculos

de parentesco e da formao de comunidades no familiares. O Estado estaria,
assim, na origem da civilizao. Friedrich Engels, em obra clssica do materialismo
histrico, A origem da famlia, da propriedade privada e do Estado, foi um dos autores
que defenderam essa hiptese, enfatizando o fator de expropriao econmica na
constituio do Estado.
      A definio de Engels influenciou certa abordagem historiogrfica que defende a
relao entre Estado, cidade e civilizao, principalmente na Histria antiga. O Estado
seria, nesse sentido, o principal fator na constituio das civilizaes e o principal
diferencial entre estas e as sociedades menos complexas, como as tribos. Sanders
e Marino, por exemplo, classificaram as sociedades americanas em bandos, tribos,
chefias e Estados, sendo que essa ltima categoria corresponderia s "altas culturas",
ou seja, s culturas "superiores" (astecas, incas e maias), tese que demonstra o carter
etnocntrico do conceito de Estado empregado por esses autores, que seguiram a
tradio de Gordon Childe de considerar que sociedades urbanas e Estados (logo,
civilizaes) possuam cultura mais refinada e superior que as outras formas de
organizao social. Tal viso, evolucionista e progressista, apesar de amplamente
criticada por diferentes setores cientficos, ainda tem um peso muito grande no
imaginrio ocidental, que continua a acreditar que o Estado  a forma superior de
organizao poltica humana.
      No entanto, antroplogos como Pierre Clastres criticam veementemente essa
viso. Para ele, o Estado no  algo inevitvel na histria da humanidade. Ele afirma
que as sociedades tribais tupi se negaram a ter Estado. Isso porque o Estado, para existir,
precisa da produo de excedente alimentar que garanta a subsistncia de grupos sociais
desligados da agricultura, como burocratas, governantes e soldados. Uma situao que
leva  estratificao social e, logo,  desigualdade social. E, segundo Clastres, as tribos
tupis se recusavam a constituir uma organizao poltica baseada na desigualdade.
Alm disso, o Estado s existe onde a chefia  um espao poltico, um espao de
coero social, e, para Clastres, essas tribos submetiam o chefe, e no o contrrio.
      Do ponto de vista histrico,  preciso considerar ainda a grande diversidade
de formas de Estado, a maioria das quais no se encaixa nos parmetros do Estado
Moderno: os Estados africanos da Idade Mdia e Moderna, por exemplo, como o Reino
do Congo, possuam governos centralizados, mas no se baseavam em definies
territoriais, e tinham por base a organizao de aldeias clnicas. Parecem, assim, muito
pouco com o Estado-nacional europeu. Por sua vez,  comum os historiadores falarem


                                                                                      117
         de Estado feudal, Estado absoluto, Estado representativo, conceitos histricos
Estado



         construdos para momentos especficos da histria da Europa. A complicao aumenta
         quando tentamos empregar esses conceitos para outros contextos e falar em Estado
         feudal japons ou Estado absoluto persa. O emprego do conceito de Estado, dessa
         forma, deve ser feito levando-se em considerao as conjunturas diversas e peculiares
         de cada sociedade. Assim, o Estado asteca  to diferente do banto quanto do japons,
         e apesar de continuarem a ser Estados, dificilmente podem se encaixar em uma nica
         tipologia construda com base na histria europeia.
              Nesse contexto,  bastante controverso tentarmos estabelecer uma definio
         geral para o Estado. Mas podemos, pelo menos, definir algumas das funes do
         Estado nacional fixadas historicamente no Ocidente: cabe ao Estado o domnio da
         fora e da represso, a proteo do territrio e do povo, o estabelecimento da lei, a
         manuteno da infraestrutura da sociedade.  claro que essas funes variaram ao
         longo do tempo e dependendo da sociedade: em momentos em que a religio e o
         Estado estiveram intimamente conectados, por exemplo, esse tinha funes tambm
         de carter religioso.  interessante observarmos ainda que, apesar de considerarmos a
         represso estatal algo negativo para a sociedade, o controle social  tarefa fundamental
         do Estado, tarefa legitimada pela prpria sociedade. Ou seja, sem o apoio da maioria da
         populao, o Estado no tem legitimidade para reprimir a sociedade.  funo estatal
         impor limites  sociedade, limites com os quais a maioria da sociedade concorda. Essa
         caracterstica levou muitos pensadores a verem o Estado como um mecanismo de
         opresso da sociedade civil.  o caso dos anarquistas, que rejeitaram o Estado tanto
         social quanto politicamente. Tambm alguns defensores do liberalismo, em defesa
         do individualismo, criticaram severamente a interveno do Estado na vida social.
              Hoje a maior parte da populao mundial se organiza em Estados. E mesmo que
         consideremos que todo Estado sobrevive da apropriao do excedente produzido
         pela maioria da populao, e usa esse excedente para a manuteno das elites,
         atualmente o volume da populao mundial no cabe em nenhuma outra forma
         de organizao poltica-social conhecida. Todavia, outras formas esto surgindo,
         com a formao de blocos regionais supraestatais, o que leva alguns estudiosos a
         acreditarem no fim do Estado em um futuro prximo. No entanto, o Estado ainda 
         a forma hegemnica de organizao poltica no mundo contemporneo. Mas temos
         de ter cuidado para no consider-lo o pice da evoluo humana, pois ele no  o
         estgio mais elevado de organizao das sociedades;  simplesmente uma forma de
         organizao poltico-social entre outras. Precisamos, nessa perspectiva, trazer para
         a sala de aula a percepo de que o Estado no  inevitvel, e muito menos perfeito,
         analisando as diversas formas e papis que tomou ao longo da histria.



         118
Ver tAmbm




                                                                                          tica
    Cidadania; Cidade; Civilizao; Ditadura; Fascismo; Golpe de Estado; Massa/
    Multido/Povo; Nao; Poltica; Sociedade; Tribo.

sugestes de leiturA
    barboSa, Alexandre de Freitas. O mundo globalizado: poltica, sociedade e
      economia. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    bobbio, Norberto. A teoria das formas de governo. Braslia: UnB, 1997.
    claStreS, Pierre. A sociedade contra o Estado: investigaes de antropologia
      poltica. Porto: Afrontamento, 1979.
    edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
      entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
    Funari, Pedro Paulo. Grcia e Roma. So Paulo: Contexto, 2001.
    maluF, Said. Teoria geral do Estado. So Paulo: Saraiva, 1998.
    marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria moderna atravs
     de textos. 10. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    ______. Histria contempornea atravs de textos. 10. ed. So Paulo: Contexto, 2003
    martinS, Ana Luiza. O despertar da Repblica. So Paulo: Contexto, 2001.
    pinSKy, Jaime. As primeiras civilizaes. So Paulo: Contexto, 2001.
    pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
      Contexto, 2003.
    SantiaGo, Theo (org.). Do feudalismo ao capitalismo: uma discusso histrica.
      9. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    Weber, Max. Estudos de sociologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1974.




ticA
    Tema complexo, a tica envolve ao mesmo tempo reflexes metafsicas e reflexes
sobre os problemas concretos da vida cotidiana.
    O Dicionrio de filosofia, de Nicola Abbagnano, define tica como a cincia da
moral, ou cincia da conduta, que possui duas concepes fundamentais: uma que
considera a tica uma cincia do fim para o qual a conduta dos homens deve ser
orientada; e outra que se preocupa menos com o fim e mais com a investigao das
questes que impulsionam a conduta humana. A primeira concepo busca entender


                                                                                  119
        qual a finalidade da vida, afirmando que o ideal para o qual o homem se dirige  a
tica



        felicidade. Nessa perspectiva, Aristteles defendeu que os atos do homem racional
        devem ser virtuosos para que ele alcance a felicidade. Em sua obra tica a Nicmaco,
        Aristteles props que a alma moderada e racional deve evitar os extremos (o excesso
        e a deficincia) se quiser evitar o comportamento vicioso. Sua lista de virtudes inclui
        coragem, temperana, liberalidade, magnanimidade, mansido, franqueza e justia,
        sendo esta ltima considerada a maior de todas. Essa concepo foi desenvolvida por
        numerosos outros pensadores ocidentais. A Idade Mdia, por exemplo, permaneceu
        fiel a ela com So Toms de Aquino, que imaginou Deus como o fim ltimo do
        homem, princpio esse do qual deriva sua doutrina da felicidade e da virtude. J para
        Hegel, que segue a mesma concepo, o Estado era o objetivo da conduta humana.
        Esse Estado  a totalidade tica, o pice do que ele designa como eticidade. Mesmo
        criticando a moral vigente no sculo xix, tambm Nietzsche props uma doutrina
        que, estruturalmente, mantinha a noo de tica como cincia do fim. Mas para ele,
        novas virtudes eram necessrias para substituir as antigas e assim formar o super-
        homem, virtudes que diriam sim  vida e ao mundo: altivez, alegria, sade, amor
        sexual, inimizade, guerra, vontade forte, disciplina intelectual, entre outras. Como esse
        filsofo inverteu toda a moralidade ento vigente, fruto da religio e da tradio,
        costuma-se dizer que Nietzsche  imoralista. Certamente, a postura nietzschiana
        quanto  tica  profundamente distinta da ocidental-crist.
              J a segunda concepo da tica investiga as motivaes das aes humanas, e no
        essas aes propriamente. Alguns filsofos chegaram a dizer que o mvel da conduta
        dos homens (o que os faz seguirem regras) era o desejo de sobreviver; outros que a
        motivao humana era o prazer; outros, ainda, que era a autoconservao.
              Mas a definio de tica como cincia da moral no  aceita por todos. Nelson
        Saldanha, em seu livro tica e Histria, pensa ser um equvoco definir tica como cincia.
        O autor recusa-se a aceitar a tica como um modelo abstrato de normas categricas e
        prescritivas e d a entender que no h apenas uma tica, mas ticas diferentes conforme
        os distintos agrupamentos humanos. Segundo essa definio, tica  um conceito
        histrico e relativo, isto , histrica e socialmente situado. Mas o autor distingue a moral
        e a tica universais, inerentes ao ser humano, das experincias ticas especficas de cada
        contexto histrico. De forma mais abrangente, Saldanha define tica como o conjunto
        de todas as formas de normatividade vigentes nos agrupamentos humanos. Conceito
        que concilia, assim, a postura mais universal de que todos os seres humanos tm tica e a
        postura histrica, que diferencia as mltiplas experincias ticas de diferentes culturas.
              Segundo o filsofo Manfredo Arajo de Oliveira, so trs os pressupostos
        fundamentais para o conhecimento da tica: o primeiro diz que o homem  o nico ser
        que precisa constituir-se como ser, justificando seus atos e decises, e como o homem


        120
 o ser da deciso, a tica  uma questo eminentemente humana. Segundo, a tica diz




                                                                                           tica
respeito no apenas ao homem em sua transcendncia e universalidade, mas ao homem
em sua historicidade e particularidade, tornando-se um tema tanto da Filosofia quanto
da Histria. Por ltimo, a tica, sobretudo a chamada tica prtica, diz respeito  vida
de todos ns, quando deparamos com situaes em que temos de tomar decises para
resolver problemas como o aborto, a eutansia, o tratamento dispensado aos animais
a responsabilidade de ajudar os pobres, entre outras situaes.
     O conceito de tica se relaciona aos conceitos afins de problema tico e de ao
tica. Peter Singer define um problema tico como aquele que exige do indivduo um
confrontamento, uma escolha sria e racional a ser tomada. Para o autor, os juzos
ticos so universalizveis, e alm disso a ao verdadeiramente tica  aquela que
pode ser justificada no apenas pelos interesses do indivduo que a executa, mas
tambm pelos interesses dos outros sobre quem essa ao recai. Ou seja, no estamos
agindo eticamente quando s nossos interesses esto envolvidos. Isso  fundamental
para se pensar as nossas responsabilidades para com os outros, sejam eles parentes,
amigos, membros de nossa prpria comunidade ou pessoas distantes. A dimenso
racional da tica, entretanto, no significa que h correspondncia perfeita entre
razo e tica. Se a ao tica envolve uma racionalidade que lhe fundamenta, a ao
racional no envolve necessariamente a tica. Uma pessoa egosta pode fundamentar
racionalmente aes no ticas. Um investidor da bolsa de valores, por exemplo, pode
praticar uma ao racional com respeito aos fins que almeja, mas as consideraes
de cunho tico podem passar bem longe dessa ao.
     Para Singer, as pessoas costumam confundir tica com moralismo proibitivo,
sobretudo em questes relativas  sexualidade e ao prazer; outras a encaram como
um sistema ideal, nobre na teoria, mas inaplicvel na realidade; h ainda quem pense
que a tica s tem sentido do ponto de vista religioso (agir corretamente  seguir os
mandamentos divinos); por fim, h aqueles que adotam o relativismo e o subjetivismo
em questes ticas, negando a possibilidade concreta de princpios ticos de validade
universal. O autor refuta todas essas vises: primeiro, a tica no  moralismo sexual,
pois mesmo na era da aids o ato sexual em si no envolve nenhuma questo moral
especfica, embora envolva consideraes gerais, como honestidade, prudncia,
preocupao com os outros; segundo, a tica no  uma cartilha, um sistema de
normas simples e prticas do tipo No minta, No roube, No mate (normas simples
como essas no resolvem a complexidade da vida); terceiro, tica e religio no so
termos necessariamente sinnimos, e o comportamento tico, em si, no precisa do
respaldo da autoridade divina ou da religio para se efetivar. Plato j argumentava: se
os deuses aprovam algumas aes, isso ocorre porque elas j so boas em si mesmas,
e no porque os deuses as aprovaram. A tica, do ponto de vista da Filosofia e da


                                                                                   121
        Histria, apela para a liberdade e a autonomia do ser racional, e no para a autoridade
tica



        divina ou religiosa. Quarto, dizer que a tica  relativa a uma sociedade especfica 
        certo, por um lado, e falso, por outro, pois princpios mais gerais podem ter validade
        universal; por fim, a tica no  subjetiva porque os juzos ticos esto sujeitos 
        crtica e  razo, no sendo aes puramente individuais de um sujeito isolado.
             Singer acredita que a razo exerce importante papel nas decises ticas, e a tica
         universal. Esses argumentos so interessantes e polmicos, sobretudo em uma
        poca como a que vivemos, em que a razo e a ideia de uma tica universalizante
        vm sendo desacreditadas. A prpria Filosofia ocidental ps-moderna, como indica
        Manfredo Arajo de Oliveira, vem falando do fim da Razo, que estaria dando lugar
        a uma pluralidade de razes fragmentrias, situadas historicamente. Os tericos
        ps-modernos encaram a pluralidade no apenas como um fato, mas como um valor
        que liberta o homem do totalitarismo de uma tica universal etnocntrica. Por fim,
        alertam para o risco de determinados valores de uma cultura especfica se tornarem
        universais de modo arbitrrio e postulam a necessidade de ticas particulares. Ou seja,
        a negao da Razo, pela ps-modernidade, implica a negao da tica como conjunto
        de princpios universais da conduta humana. A ps-modernidade est ligada a um
        profundo senso histrico, pensando o Homem (e a tica) em sua particularidade.
             Se, por um lado, tal conduta ajuda a desconstruir o etnocentrismo da cincia,
        que considera os valores ocidentais oriundos do Iluminismo universais, por outro, o
        relativismo ps-moderno levado a extremos no responde aos principais problemas
        ticos do mundo contemporneo. Se todos os governos e povos julgarem que sua
        tica particular est correta em si mesma, e no tem relao com a tica de outros
        povos e governos, jamais haver consensos estveis sobre temas como a preservao
        do meio ambiente, a ajuda humanitria aos pases pobres, as aes de violncia
        contra os direitos humanos, relaes comerciais mais justas, entre outros temas da
        agenda poltica mundial. No h como negar o pluralismo cultural que existe no
        mundo e mesmo nos pases, assim como no  possvel negar as razes histricas
        da tica de cada povo, mas isso no significa que devemos renunciar ao princpio
        do homem em sua universalidade.
             O grande projeto que a humanidade precisa colocar no Terceiro Milnio, segundo
        sugere Sergio Paulo Rouanet,  o de reconquistar a universalidade perdida do homem.
        Esse projeto no deve resultar na imposio de valores ocidentais a outros povos.
        A humanidade precisa encontrar nas particularidades de cada cultura o elemento
        universal para a construo de uma tica para toda a humanidade. Nesse sentido,
        os professores de Histria do ensino Fundamental e Mdio devem se preocupar
        com a tica nas escolas, estimulando aes ticas quanto aos problemas do mundo
        contemporneo e discutindo o tema no dia a dia. As escolas tambm precisam estar


        122
envolvidas com projetos educativos sobre questes ticas, pois as instituies de




                                                                                          tica
ensino interessadas apenas em cumprir programas curriculares podem perder de
vista a dimenso formativa do homem como ser tico e poltico. A tica, j dizia
Aristteles,  uma reflexo que tem como ponto de partida a vida histrica dos
homens e busca melhorar a prxis, que  a prtica social consciente. Ou seja, a
tica no  uma reflexo estritamente metafsica, uma vez que busca efetivar-se
historicamente como aes virtuosas. Esse sentido da tica relacionada  prxis
humana implica o estabelecimento de relao entre os homens, no sentido de que
as nossas escolhas diante de problemas ticos afetam os outros, e no dizem respeito
unicamente ao agente da deciso. Esse sentido comunitrio, engendrado no conceito
aristotlico, precisa ser retomado e discutido na contemporaneidade.
     A precariedade da formao filosfica da maioria dos historiadores brasileiros 
responsvel pelo desconhecimento de obras fundamentais de autores como Aristteles
e Nietzsche. Mas muitas ferramentas didticas e paradidticas esto  disposio dos
profissionais de ensino. Uma boa sugesto para o trabalho em sala de aula  desenvolver
a discusso da tica em linguagem acessvel aos alunos. Um caminho pode ser o debate
filosfico em torno da srie de tv norte-americana, bastante conhecida no Brasil, Os
Simpsons. Por meio de uma perspectiva bem-humorada sobre um programa de tv
popular, os professores e estudantes do Ensino Mdio podem comear a conhecer o
pensamento filosfico de pensadores como Aristteles e Nietzsche, assim como adentrar
discusses sobre tica, moral e virtude. O trabalho interdisciplinar entre Histria,
Filosofia e Sociologia deve ser tentado, adotando temas importantes da atualidade,
como aids, terrorismo, guerras, fundamentalismo, religio, cincia, entre outros.

Ver tAmbm
    Cidadania; Cincia; Cotidiano; Etnocentrismo; Interdisciplinaridade; Poltica;
    Ps-modernidade; Relativismo Cultural; Religio.

sugestes de leiturA
    abbaGnano, Nicola. Dicionrio de filosofia. So Paulo: Martins Fontes, 1998.
    ariStteleS. tica a Nicmaco. So Paulo: Abril Cultural, 1973.
    collinSon, Dian. 50 grandes filsofos: da Grcia antiga ao sculo xx. 2. ed. So
     Paulo: Contexto, 2004.
    GreSpan, Jorge. Revoluo Francesa e Iluminismo. So Paulo: Contexto, 2003.
    nietzScHe, Friedrich. Para alm do bem e do mal: preldio a uma filosofia do
     futuro. So Paulo: Martin Claret, 2002.
    oliveira, Manfredo Arajo de. tica e prxis histrica. So Paulo: tica, 1995.



                                                                                  123
              pinSKy, Jaime. As primeiras civilizaes. So Paulo: Contexto, 2001.
Etnia



              pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
                Contexto, 2003.
              SaldanHa, Nelson. tica e histria. Rio de Janeiro: Renovar, 1998.
              SinGer, Peter. tica prtica. So Paulo: Martins Fontes, 1998.
              SKoble, Aeon; conard; Mark; irWin, William (orgs.). Os Simpsons e a filosofia.
                So Paulo: Madras, 2004.




        etniA
             O conceito de etnia vem ganhando espao cada vez maior nas cincias sociais
        a partir das crescentes crticas ao conceito de raa e, em alguns casos, ao conceito
        de tribo. Apesar disso,  ainda considerado por muitos uma noo pouco definida.
             O termo etnia surgiu no incio do sculo xix para designar as caractersticas
        culturais prprias de um grupo, como a lngua e os costumes. Foi criado por Vancher
        de Lapouge, antroplogo que acreditava que a raa era o fator determinante na histria.
        Para ele, a raa era entendida como as caractersticas hereditrias comuns a um grupo
        de indivduos. Elaborou ento o conceito de etnia para se referir s caractersticas no
        abarcadas pela raa, definindo etnia como um agrupamento humano baseado em
        laos culturais compartilhados, de modo a diferenciar esse conceito do de raa (que
        estava associado a caractersticas fsicas). J Max Weber, por sua vez, fez uma distino
        no apenas entre raa e etnia, mas tambm entre etnia e Nao. Para ele, pertencer a
        uma raa era ter a mesma origem (biolgica ou cultural), ao passo que pertencer a
        uma etnia era acreditar em uma origem cultural comum. A Nao tambm possua
        tal crena, mas acrescentava uma reivindicao de poder poltico.
              A etnia  um objeto de estudo da Antropologia, e se caracterizou desde cedo
        como tema principal da Etnologia, cincia que se prope a estudar diferentes grupos
        tnicos, constituindo-se em torno da prpria noo de etnia. Durante o sculo xx,
        essas duas disciplinas multiplicaram as conceituaes sobre o termo. Autores como
        Nadel e Meyers Fontes afirmam que uma etnia  um grupo cuja coeso vem de seus
        membros acreditarem possuir um antepassado comum, alm de compartilharem
        uma mesma linguagem. Para essa definio, baseada em Weber, uma etnia seria um
        conjunto de indivduos que afirma ter traos culturais comuns, distinguindo-se,
        assim, de outros grupos culturais.
             Nesse sentido, no importa se o grupo realmente descende de uma mesma
        comunidade original: o que importa  que os indivduos compartilhem essa crena em
        uma origem comum. Uma crena confirmada, a seu ver, pelos costumes semelhantes.


        124
     Assim, uma etnia se sente parte de uma mesma comunidade que possui religio,




                                                                                        Etnia
lngua, costumes  logo, uma cultura  em comum. Notemos que nesse conceito
no importa somente o fato de as pessoas que compem uma etnia compartilharem
os mesmos costumes, mas sobretudo o fato de elas acreditarem fazer parte de um
mesmo grupo. Nesse sentido, a etnia  uma construo artificial do grupo, e sua
existncia depende de seus integrantes quererem e acreditarem fazer parte dela.
     Toda etnia se identifica como um grupo distinto, considerando-se diferente
de outros grupos, e baseia sua identidade em uma religio e rituais especficos.
Assim, os judeus e muulmanos dentro das atuais Naes europeias so, cada um
por seu lado, etnias, por se identificarem como grupos distintos e reivindicarem
identidades prprias baseadas em religies e costumes diferentes das sociedades em
que esto inseridos. No caso dos muulmanos, a construo artificial desse conceito
 mais ntida, pois quase sempre oriundos de migraes recentes para a Europa,
seus integrantes so originrios de diferentes pases e culturas distintas, mas ao se
instalarem em lugares como a Frana e a Inglaterra em geral se identificam como
uma mesma etnia, independentemente do pas de origem. Tal situao pode ser
percebida sobretudo com relao aos descendentes dos primeiros imigrantes, e a
construo de uma identidade comum "rabe" ou "muulmana" vem tanto do fato
de possurem uma mesma religio quanto do fato de a sociedade os tratar em geral
como um grupo homogneo.
     Alguns socilogos diferenciam etnia e grupo tnico, pois para eles um grupo
precisa de uma interao entre todos os seus membros, enquanto a etnia abrange
um nmero grande demais de pessoas para que haja relao direta entre todas
elas. O grupo tnico seria, ento, um conjunto de indivduos que apresenta uma
interao entre todos os seus membros, alm das caractersticas gerais da etnia. Por
essa distino, os membros de uma vizinhana judaica em uma cidade do Ocidente,
por exemplo, onde todos os indivduos frequentam a mesma sinagoga, constituem
um grupo tnico, ao passo que os judeus como um todo compem uma etnia.
     Atualmente, os debates em torno da ideia de etnia continuam acirrados.
Primeiro porque a Antropologia no considera mais raa um conceito determinado
biologicamente. Hoje, raa significa a percepo das diferenas fsicas pelos grupos
sociais, e como essa percepo afeta as relaes sociais, aproxima-se bastante da
prpria definio de etnia. Por outro lado, alguns antroplogos franceses, no fim
da dcada de 1980, afirmaram que o conceito de etnia estava sendo pregado para
as sociedades ditas primitivas com a inteno de apagar a historicidade delas. Para
Amselle, por exemplo, o conceito de etnia, bem como o de tribo, era usado em
substituio ao de Nao, para as "sociedades primitivas", passando a ideia de Nao
a pertencer exclusivamente aos "Estados civilizados". Dessa forma, o conceito de


                                                                                125
        etnia teria um sentido etnocntrico bastante acentuado. Mas, apesar dessas
Etnia



        controvrsias, a Antropologia trabalha tambm com a noo de etnicidade, que 
        um sentimento de pertencer exclusivamente a um determinado grupo tnico. Um
        conceito prximo ao de identidade.
             Podemos perceber, dessa forma, os intensos debates em torno do conceito
        de etnia, e o quanto esse conceito ainda precisa ser mais bem caracterizado. No
        obstante, os estudos etnolgicos tm crescido, principalmente porque, desde a
        dcada de 1960, muitas reivindicaes polticas no mundo se apresentam como
        tnicas, baseadas em crenas em uma identidade comum, contexto esse que motiva
        os cientistas sociais a continuarem refletindo sobre o conceito.
              preciso ressaltar que se, por um lado, muitas comunidades se auto-afirmam
        positivamente a partir de seus costumes, por outro, a identidade tnica (a
        etnicidade)  um elemento que contribui para a construo do etnocentrismo.
        Ao se identificarem como membros de uma cultura em comum, diferente dos que
        o cercam, um determinado grupo reage s culturas diferentes muitas vezes com
        repulsa. O sentimento de superioridade diante de diferentes culturas , assim, criado
        na identidade tnica. Dessa forma, os franceses se sentem superiores aos "rabes"
        (como classificam todos os que professam a f muulmana, sejam rabes ou no)
        por acreditarem possuir uma origem diferente e uma cultura que os outros no
        compartilham. Isso acontece com os norte-americanos diante dos hispnicos, e j
        aconteceu em outras pocas da histria, como entre os alemes e os judeus durante
        a Segunda Guerra Mundial.
             Em suma, a discusso sobre etnia nos leva a repensar o prprio conceito de
        etnocentrismo. Para o professor de Histria, conhecer o conceito de etnia  uma
        exigncia fundamental, pois os programas curriculares discutem cada vez mais as
        minorias no Brasil. Essas minorias so estudadas pela Antropologia como etnias,
        mas algumas delas ainda se identificam muitas vezes como raas.  o caso dos negros
        brasileiros. Enquanto os antroplogos discutem a validade de termos como raa e
        etnia, o que precisamos apreender de todo esse debate e discutir com os alunos 
        que, seja na raa ou na etnia, o fato de um indivduo pertencer a um desses grupos
         mais uma questo de sentimento, de identidade, do que de determinao fsica ou
        mesmo cultural. Vale lembrar ainda que tanto a concepo atual de raa quanto a de
        etnia so conceitos que buscam dar conta da multiplicidade de culturas, de hbitos
        e crenas que a humanidade apresenta, e das implicaes polticas dessas diferenas.

        Ver tAmbm
              Cultura; Etnocentrismo; Identidade; ndio; Interdisciplinaridade; Nao; Negro;
              Raa; Relativismo Cultural; Tradio; Tribo.



        126
sugestes de leiturA




                                                                                          Etnocentrismo
    bernardo, B. Introduo aos estudos etnoantropolgicos. Lisboa: Edies 70, 1974.
    demant, Peter. O mundo muulmano. So Paulo: Contexto, 2003.
    ______. Minorias: direitos para os excludos. In: pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla
      Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo: Contexto, 2003.
    Funari, Pedro Paulo. Arqueologia. So Paulo: Contexto, 2003.
    ______; noelli, Francisco Silva. Pr-histria do Brasil. So Paulo: Contexto, 2002.
    GomeS, Mrcio Pereira. ndios: o caminho brasileiro para a cidadania indgena.
     In: pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So
     Paulo: Contexto, 2003.
    meSGraviS, Laima; pinSKy, Carla Bassanezi. 2. ed. O Brasil que os europeus
     encontraram. So Paulo: Contexto, 2002.
    pinSKy, Jaime. As primeiras civilizaes. So Paulo: Contexto, 2001.
    pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Faces do fanatismo. So Paulo:
      Contexto, 2004.
    poutiGnat, Phillippe; StreiFF-Fenart, Jocelyne. Teorias da etnicidade: seguido de
      grupos tnicos e suas fronteiras de Fredrik Barth. So Paulo: Ed. Unesp, 1998.
    roGnon, Frdric. Os primitivos, nossos contemporneos. Campinas: Papirus, 1991.
    SHapiro, H. Homem, cultura e sociedade. So Paulo: Martins Fontes, 1982.




etnocentrismo
     Os estudiosos da cultura compreendem que os povos forjam vises de mundo
peculiares, que marcam a sua identidade de povo. Mas quando um determinado grupo,
com traos culturais caractersticos e uma viso de mundo prpria entra em contato
com outro grupo que apresenta prticas culturais distintas, o estranhamento e o medo
so as reaes mais comuns. O etnocentrismo nasce exatamente desse contato, quando
a diferena  compreendida em termos de ameaa  identidade cultural.
     De modo simples, o etnocentrismo pode ser definido como uma viso de mundo
fundamentada rigidamente nos valores e modelos de uma dada cultura; por ele, o
indivduo julga e atribui valor  cultura do outro a partir de sua prpria cultura. Tal
situao d margem a vrios equvocos, preconceitos e hierarquias, que levam o
indivduo a considerar sua cultura a melhor ou superior. Nesse sentido, a diferena
cultural percebida rapidamente se transforma em hierarquia. O outro, s compreendido



                                                                                  127
                de maneira superficial,  ento usualmente designado como "selvagem", "brbaro"
Etnocentrismo



                ou no humano. Em linhas gerais,  difcil para qualquer indivduo se despojar dos
                preconceitos arraigados em sua cultura e tentar compreender a cultura do outro
                em seus prprios termos. Essa seria uma atitude no etnocntrica, pois faria uso
                da relativizao, que  o oposto do etnocentrismo. No entanto, o mais comum  o
                indivduo tomar suas representaes, sua linguagem, seus valores, para falar sobre
                o que  esse "outro". No d a palavra para o outro, porque considera sua cultura a
                detentora da palavra.
                     Ao contrrio das teorias propriamente racistas, que surgiram h apenas trs
                sculos, o etnocentrismo  um comportamento universal e antiqussimo. Sociedades
                antigas como a romana, a grega, a chinesa, a sumria e a judaica, por exemplo,
                eram mais propensas a escravizarem os estrangeiros, os outros, cuja cultura era
                considerada inferior, do que membros de sua prpria sociedade. Na China Tang, os
                estrangeiros eram considerados menos que humanos, e por isso coreanos, turcos,
                persas e indonsios eram escravizados. Para gregos e romanos da Antiguidade, que
                se julgavam civilizados, os demais povos que os cercavam eram todos brbaros,
                palavra de carter etnocntrico que designa o estrangeiro como inferior e selvagem.
                     Entretanto, o pice do etnocentrismo talvez se situe entre os sculos xv e xix,
                quando os europeus entraram em contato com vrios povos na Amrica, sia e frica.
                Nesses processos de colonizao, incompreenses de ambos os lados foram dando
                lugar a guerras, genocdios e etnocdios. Essa  a face crua do etnocentrismo, quando
                um povo diz ao outro: se despoje de sua cultura ou morra fsica e culturalmente. A
                esse extermnio fsico se d o nome de genocdio; ao extermnio da cultura, etnocdio.
                Espanhis, portugueses, ingleses, entre outros, dizimaram populaes nativas dos
                territrios conquistados, impondo uma dominao cultural assentada em bases
                polticas e interesses econmicos. O outro, o indgena no caso da Amrica, era visto pelo
                colonizador como um antropfago preguioso, sem f, sem rei, sem lei, e exatamente
                por isso devia mudar seu comportamento e adotar o trabalho, a religiosidade e o
                sistema poltico vigentes na cultura do colonizador. Os europeus, durante esse processo
                de colonizao, no compreendiam as culturas dos outros como vises de mundo
                a serem levadas em considerao, no conseguiam assimilar a diferena cultural e
                usavam essas diferenas como pretexto para a dominao efetiva. O etnocentrismo,
                dessa forma, servia a interesses de ordem econmica.
                     Por mais que o etnocentrismo tenha se intensificado nas Naes europeias
                em suas ondas colonizadoras dos sculos xvi e xix, ele no  um fenmeno restrito
                apenas  cultura do colonizador branco europeu. Muitas sociedades indgenas
                americanas tambm eram etnocntricas, como percebeu Roque de Barros
                Laraia. De acordo com ele, os ndios cheyene, das plancies norte-americanas, se


                128
autodenominavam "os entes humanos", enquanto os akuwa, tupis do sul do Par e




                                                                                        Etnocentrismo
os esquims se denominam "os homens", expresses que negam, assim, aos demais
povos, a caracterstica (entendida como positiva) de pertencer  espcie humana.
Entretanto, como os europeus foram responsveis por diversas ondas conquistadoras,
impondo seus valores em diferentes lugares, a imagem do etnocentrismo quase
sempre est associada ao eurocentrismo, ou seja,  atitude das diversas Naes
europeias de impor seus valores e de se considerarem superiores aos povos autctones
da frica, da sia e da Amrica.
     Povos etnocntricos, em geral, apresentam um comportamento caracterizado
por formas extremas de xenofobia e de nacionalismo: o esforo de russificao
implementado pela dspota esclarecida Catarina ii, na Rssia de fins do sculo
xviii,  um exemplo de etnocentrismo, visto que tal processo exigiu que numerosas

nacionalidades perdessem sua identidade cultural para adotar a cultura e a lngua
russas; no mesmo caso, o genocdio de armnios, levado a cabo pelo governo
nacionalista turco em 1915, durante a Primeira Guerra Mundial, tambm foi
um ato etnocntrico; mas o caso mais famoso de etnocentrismo, no mundo
contemporneo, foi o protagonizado pelo regime nazi-fascista dos anos 1930 e 1940,
na Alemanha hitlerista, responsvel pelo extermnio em massa de judeus, ciganos,
alm do menosprezo  cultura dos eslavos. Os exemplos histricos, entretanto,
so incontveis, e os anos iniciais do sculo xxi ainda assistem a muitos conflitos
culturais, indicando que as prticas etnocntricas esto longe de desaparecer. Sob
o discurso de uma "aldeia global", onde a comunicao acabaria com as diferenas
culturais, a chamada civilizao ocidental capitalista vem, na verdade, acirrando
conflitos e radicalismos no mundo. Os valores da civilizao ocidental, ao se
pretenderem globais, desrespeitam identidades culturais tradicionais. Por sua vez,
entrincheirados na defesa de tradies, alguns grupos se tornam radicais e, por
sua vez, tambm etnocntricos, como forma de responder  imposio da cultura
ocidental globalizada.
     Nesse sentido, se nacionalismos e particularismos geram prticas etnocntricas,
o universalismo quando se prope a eliminar identidades tambm pode dar lugar
a comportamentos etnocntricos, pois, ao exigir a fervorosa adoo de princpios
que se pretendem universais, o efeito pode ser a resistncia cultural, os conflitos
tnicos e a morte das pessoas a quem se tenta impor tais princpios. Na verdade,
algumas das prticas etnocntricas mais dolorosas da humanidade surgiram no seio
de religies universalistas, como a judaica, a crist e a muulmana. O etnocentrismo,
dessa forma,  o resultado de uma mescla de elementos racionais e intelectuais com
elementos emocionais e afetivos, e por isso mesmo torna-se to difcil entender por
que as pessoas no toleram as diferenas.


                                                                                129
                      O discurso etnocntrico, exatamente por ser calcado em valores de nossa prpria
Etnocentrismo



                cultura, ganha aura de verdade absoluta, tendo tambm poder de convencimento
                entre os integrantes de um mesmo universo cultural. Lderes religiosos e polticos,
                quando defendem guerras contra outros povos, invases e alteraes na cultura do
                outro, contam exatamente com a concordncia de seu prprio povo para vencer o
                "infiel", o "pago", o "eixo do mal", o "brbaro", o "ocidental", entre outras expresses
                que essa liderana possa dispor em sua cultura. As atitudes fundamentalistas dos
                grupos de direita norte-americanos e de alguns grupos islmicos atuais so, em
                grande medida, baseadas no etnocentrismo. Lembremos ainda que entre membros
                de uma mesma sociedade, o estranhamento tambm pode ocorrer. Como nota
                Everardo Rocha, no Brasil, homossexuais, mulheres, negros, "parabas de obra",
                entre outros, so alvos de atitudes etnocntricas, que muitas vezes tomam a forma
                de piadas de mau gosto, aparentemente inofensivas.
                      Enfim, o etnocentrismo  uma expresso ao mesmo tempo racional e emocional
                pela qual um grupo, fechado em sua prpria viso de mundo, julga entender o outro por
                meio de seus prprios valores. Assim sendo, o etnocentrismo  a dificuldade  que fica
                patente no espanto diante do "estranho"  que as pessoas tm de compreender os outros
                e a irresistvel necessidade de transformar esses outros em algo que lhes seja conhecido.
                      Discutir o conceito de etnocentrismo , antes de tudo, uma forma de pensar sobre
                nossas prprias atitudes diante das demais pessoas e sobre as situaes concretas
                de vida em que prticas etnocntricas so ainda comuns. Por meio dessa discusso,
                podemos tambm questionar se o chamado mundo civilizado, na atualidade,
                realmente rompeu com as prticas etnocntricas.
                      O profissional do ensino pode propor diversas estratgias para estudar os
                conflitos culturais do mundo. Seria interessante, por exemplo, estimular a imaginao
                dos alunos, incentivando-os a escrever a histria do contato entre europeus e
                indgenas na conquista da Amrica, considerando as vises distintas dos povos
                envolvidos, enfatizando como as sociedades indgenas entenderam o processo de
                colonizao.  preciso cuidado, todavia, para no reduzir os conflitos humanos
                somente s diferenas culturais. O conceito de etnocentrismo deve ser associado ao
                estudo do contexto histrico mais amplo, o que permite que se compreenda por que
                o contato entre culturas distintas foi possvel. Em muitos casos, questes de ordem
                econmica e poltica favorecem o prprio contato entre culturas.

                Ver tAmbm
                      Aculturao; Civilizao; Cultura; Descobrimentos; Etnia; Fundamentalismo;
                      Gnero; Globalizao; Identidade; Imaginrio; ndio; Nao; Relativismo
                      Cultural; Violncia.



                130
sugestes de leiturA




                                                                                          Evoluo
    daviS, David Brion. O problema da escravido na cultura ocidental. Rio de Janeiro:
     Civilizao Brasileira, 2001.
    edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
      entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
    Funari, Pedro Paulo. Arqueologia. So Paulo: Contexto, 2003.
    Karnal, Leandro (org.). Histria na sala de aula: conceitos, prticas e propostas.
     So Paulo: Contexto, 2003.
    laraia, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropolgico. Rio de Janeiro:
      Jorge Zahar, 2003.
    meSGraviS, Laima; pinSKy, Carla Bassanezi. 2. ed. O Brasil que os europeus
     encontraram. So Paulo: Contexto, 2002.
    pinSKy, Jaime. A escravido no Brasil. So Paulo: Contexto, 1993.
    pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Faces do fanatismo. So Paulo:
      Contexto, 2004.
    rocHa, Everardo. O que  etnocentrismo. So Paulo: Brasiliense, 1994.
    roGnon, Frdric. Os primitivos, nossos contemporneos. Campinas: Papirus, 1991.




eVoluo
     Para definirmos evoluo, precisamos inevitavelmente definir tambm outro
conceito influente na Histria: progresso. Uma vez que evoluo significa mudana
ao longo do tempo, progresso  o direcionamento para essas mudanas, considerando
que elas so sempre qualitativas, ou seja, so sempre para melhor.
      muito comum associarmos os dois conceitos. Para o imaginrio ocidental,
herdeiro da influncia dupla do Iluminismo e da Revoluo Industrial, o tempo  linear,
e toda evoluo  necessariamente um progresso. Tal perspectiva, muitas vezes chamada
de "evolucionista", originou-se da viso de mundo judaico-crist, pela qual o mundo
foi criado em determinado momento da histria e dever chegar a um fim tambm
determinado no tempo. Tal processo considera que a histria se desenvolve visando
esse final, que seria a chegada da humanidade ao Paraso. O Iluminismo adaptou
esse imaginrio  cincia, tirando-lhe o carter religioso. Mas foi no sculo xix que a
abordagem evolucionista teve seu auge no pensamento cientfico, com o surgimento
do positivismo e do evolucionismo. E, ainda hoje, autores como Celso Piedemonte
defendem que o sentido mais amplo do termo evoluo  desenvolvimento e progresso.


                                                                                  131
                Os principais responsveis pela difuso inicial da noo de evoluo cultural
Evoluo



           associada ao conceito de progresso foram iluministas como Turgot e Condorcet,
           no sculo xvii. Para eles, a histria da humanidade poderia ser descrita em termos
           de melhoria contnua, desde o incio, entre os "primitivos", at nossa "civilizao
           complexa". Nesse sentido, a histria poderia ser classificada em estgios culturais
           pelos quais todas as sociedades deveriam passar, desde caadores-coletores at
           a civilizao moderna. Foi Condorcet quem levou a ideia de progresso a sua
           formulao final: o progresso seria o desenvolvimento contnuo e necessrio, que
           atingiria seu apogeu quando toda a espcie humana, dirigida pelas mesmas leis,
           alcanasse a felicidade. Nessa crena, o progresso social, responsvel por igualdade
           e liberdade, seria atingido somente com progresso no campo do conhecimento,
           da cincia e da Razo.
                Mas a palavra evoluo ganhou destaque ainda no sculo xviii, com o naturalista
           francs Lamarck, popularizando-se com Charles Darwin e sua teoria da seleo
           natural, na segunda metade do sculo xix. Nesse contexto, o conceito de evoluo
           esteve, desde sua origem, intrinsecamente associado s cincias biolgicas e  teoria
           evolucionista. Para essa teoria, toda a matria do Universo est ligada por uma
           origem comum e sofre mudanas ao longo do tempo. Desde o incio, a teoria da
           evoluo esteve em constante conflito com as interpretaes religiosas, sobretudo
           com a interpretao crist fundamentalista, defensora ferrenha do criacionismo, que
           explica o surgimento do mundo a partir de uma interpretao literal do livro do
           Gnesis. Apesar disso, a partir do sculo xvii, com a chamada Revoluo Cientfica,
           promovida por figuras como Newton e Descartes, os cientistas comearam a se
           preocupar com as origens fsicas do universo, ainda tentando conciliar explicaes
           cientficas e religiosas. No sculo xviii, surgiu a primeira verso da teoria da evoluo,
           elaborada por Lamarck, que teve o grande mrito de perceber que os organismos
           vivos mudam ao longo do tempo e se adaptam ao meio ambiente. Apesar disso, nem
           ele nem os outros naturalistas do sculo xviii entenderam quais eram os mecanismos
           dessas mudanas. Esse mrito coube a Charles Darwin, que, com sua obra A origem
           das espcies, deu forma final  teoria da evoluo, elaborando a teoria da seleo
           natural, na qual afirmou que o meio ambiente seleciona os indivduos mais aptos
           a sobreviver. Nessa teoria, a evoluo acontece quando uma mutao  que parece
           ser obra do puro acaso  torna um indivduo mais apto ao meio ambiente do que os
           outros. Essa mutao no apenas faz que ele sobreviva, como tambm  transmitida
           hereditariamente, o que termina por criar uma nova espcie ao longo do tempo.
           Mas essas mutaes so aleatrias, nem sempre so benficas e, alm de tudo, no
           podem ser controladas. Assim, a teoria da seleo natural de Darwin no se encaixa
           necessariamente  ideia de progresso.


           132
     Muitos, no entanto, foram os que associaram ambas as noes, interpretando




                                                                                        Evoluo
a teoria da evoluo de Darwin como progressista, dando surgimento assim ao
chamado evolucionismo cultural, que passou a dominar a Antropologia e as demais
cincias sociais de ento. Foi Herbert Spencer que, em 1857, criou o darwinismo
social, teoria progressista que pregava a superioridade de algumas raas humanas
sobre outras, que estariam fadadas a fracassar socialmente. Para essa abordagem
racista, a evoluo era um progresso tanto biolgico quanto social. A Antropologia,
no entanto, a partir de Franz Boas e da criao do relativismo cultural no sculo
xx, comeou a contestar essa teoria e o prprio conceito de progresso. Como a

ideia de evoluo estava ento associada a esse conceito, tambm comeou a cair
em descrdito.
     Hoje, o neodarwinista Robert Foley critica o fato de as cincias sociais terem
abandonado o conceito de evoluo, associado  definio de Spencer, e por
associarem tambm o darwinismo social  teoria da evoluo de Darwin. Para
ele, a teoria evolucionista atual tem muito pouco em comum com a de antes
de 1850, e hoje est muito mais envolvida com ecologia, desenvolvimento e
comportamento. Foley  o responsvel por nos trazer talvez o melhor e mais
simples conceito de evoluo aplicvel s cincias sociais: a ideia de que a
evoluo  a mudana no decorrer do tempo, rejeitando totalmente a noo de
progresso na evoluo. Tratando dos primeiros seres humanos, ele argumenta que
cada espcie de homindeos teve sua existncia prpria, que no pode ser reduzida
simplesmente a um degrau na escala evolutiva para o Homo sapiens atual. Alm
disso, o progresso  descartado pelo fato de que no existiu uma nica linhagem
de homindeos desde o Australopitecus at ns, mas vrias espcies surgiram,
coexistiram e muitas desapareceram sem levar a um progresso evolutivo. Os
homindeos se ramificaram e divergiram para numerosas espcies, no evoluindo
progressivamente em linha direta at o homem atual. Assim, no  porque uma
espcie substitui a outra no tempo, como os mamferos em relao aos dinossauros,
que uma  resultado do progresso da outra. Na verdade, o mais comum durante
o processo evolutivo  que muitas espcies apaream e desapaream sem deixar
descendentes aperfeioados.
     Se a biologia contempornea no aceita mais a ideia de progresso, tambm a
historiografia, que defendia essa ideia abertamente (caso de autores como Gordon
Childe), parece ter desaparecido. No entanto, muitos continuam a reproduzir
implicitamente essa noo, por exemplo, quando falam de superioridade de culturas,
de "altas culturas" e de culturas atrasadas. O fato de ainda reproduzirmos de maneira
implcita esse conceito, apesar das crticas constantes, se explica porque tal noo
est na base do pensamento ocidental.


                                                                                133
                A ideologia do progresso teve seu apogeu no sculo xix, em decorrncia da
Evoluo



           ascenso da economia industrial do Ocidente. Nesse perodo, o contexto social da
           Revoluo Industrial ajudou o desenvolvimento das ideias de progresso como algo
           necessrio, inevitvel e benfico para a sociedade, e da civilizao europeia como o
           auge da civilizao mundial. O progresso esteve, assim, associado  ideologia poltica
           do liberalismo e ao imperialismo, dando sustentao  poltica de "civilizar" as regies
           "atrasadas" do mundo levada a cabo por uma Europa que se autoproclamava "mais
           adiantada". A crise do liberalismo, primeiro com a quebra da bolsa de Nova York
           em 1929 e a seguir com a Segunda Guerra Mundial, levou a uma crise da noo de
           progresso. Esta, no entanto, renasceu na teoria desenvolvimentista, que defendia
           o pretenso crescimento econmico do Terceiro Mundo. Nessa teoria, a Europa
           (mas agora tambm os Estados Unidos) era o modelo a ser seguido, e os pases no
           industrializados deveriam se sentir "atrasados" diante do estgio alcanado pelo
           Capitalismo norte-americano e europeu.
                Aps a Segunda Guerra Mundial, com a chamada crise da modernidade,
           muitos pensadores comearam a questionar os valores advindos do Iluminismo
           e do cientificismo dos sculos xviii e xix. Termos como razo, progresso e evoluo
           passaram a ser discutidos amplamente. Mais recentemente, emergiram as teses
           ps-modernas tambm criticando esses conceitos, que, segundo Jacques Le Goff,
           so absolutamente ocidentais.
                Com base nessas observaes, podemos perceber que a principal crtica a
           ser dirigida no  contra a ideia de evoluo, mas contra a de progresso. Pois, se
           aceitarmos que a evoluo  a mudana no transcurso do tempo, no existe histria
           sem evoluo. Hoje, a crtica ao progresso est presente em todas as cincias sociais
           e humanas, apesar de, como j dissemos, muitas vezes no corresponder  prtica.
           Mas da mesma forma que Foley revitalizou a ideia de evoluo, o historiador francs
           Jacques Le Goff tenta revitalizar a de progresso. Para ele, o progresso pelos direitos
           humanos deveria ser uma ideia defendida por todos em nossos dias, entendendo essa
           forma de progresso como a melhoria das condies de vida da humanidade em todas
           as sociedades. Alm disso, ele lembra Lvi-Strauss, que acreditava que o progresso
           existe em uma diversidade de processos diferentes. Para Lvi-Strauss, a histria no 
           um processo linear de acumulao de conquistas, e nela diversas formas de civilizao
           podem coexistir, representando cada uma um processo diferente de progresso. Em
           sala de aula, evoluo e progresso so discusses importantes e cabem nos programas
           curriculares, principalmente no trabalho com a Pr-histria, a Revoluo Industrial
           e o Imperialismo. Alm disso, so temas que podem ser bastante enriquecidos se
           pensados em conjunto com os conceitos de etnocentrismo e civilizao.


           134
Ver tAmbm




                                                                                            Evoluo
   Cincia; Civilizao; Etnocentrismo; Histria; Iluminismo; Imperialismo;
   Interdisciplinaridade; Modernidade; Ps-modernidade; Pr-histria; Relativismo
   Cultural; Revoluo; Revoluo Industrial; Tecnologia; Tempo; Tribo.

sugestes de leiturA
   edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
     entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
   Foley, Robert. Humanos antes da humanidade. Lisboa: Teorema, 2001.
   Funari, Pedro Paulo. Arqueologia. So Paulo: Contexto, 2003.
   ______; noelli, Francisco Silva. Pr-histria do Brasil. So Paulo: Contexto, 2002.
   le GoFF, Jacques. Memria e histria. Campinas: Ed. Unicamp, 1994.
   lima, Celso Piedemonte. Evoluo biolgica: controvrsias. So Paulo: tica, 1988.
   pelto, Pertti. Iniciao ao estudo da antropologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1967.
   pinSKy, Jaime. As primeiras civilizaes. So Paulo: Contexto, 2001.




                                                                                    135
 f

FAmliA
         F
     O conceito de famlia,  primeira vista, parece dispensar qualquer comentrio. A
famlia  uma instituio que todos consideram bvia e ningum se pergunta o que .
Entretanto, definir famlia  mais complicado do que o senso comum faz acreditar. Essa
dificuldade tem muito a ver com seu carter dinmico e histrico e com a diversidade dos
padres familiares encontrados em diferentes sociedades e modelos culturais.  preciso
reconhecer, em primeiro lugar, que existem mltiplos modelos de famlia.
     Os estudiosos costumam discutir se a famlia  um fenmeno natural/biolgico
ou uma instituio cultural e social. Mas as cincias sociais preferem assumir a postura
que compreende a famlia como um fenmeno que ultrapassa a esfera biolgica e
ganha significados culturais, sociais e histricos. Alm disso, qualquer definio de
famlia deve se precaver para no tomar o modelo de famlia vigente na sua prpria
sociedade como o "normal" e considerar os outros tipos "patolgicos" ou de menor
importncia. Assim, na definio podem estar embutidas vises preconceituosas e
ideolgicas acerca do que "deve ser uma famlia". Por outro lado, no se pode estabelecer
dicotomia rgida entre a famlia  como campo supostamente isolado, "privado"  e
as questes macrossociais, como a interferncia do Estado, os processos migratrios,
a urbanizao e a industrializao. Hoje, as cincias sociais contestam essa dicotomia
pblico/privado ao perceberem, por exemplo, que o Estado, por meio de polticas
sociais e normatizaes, intervm na formao familiar e nos papis de seus membros.
Tambm em tempos de guerra o Estado interfere fortemente no cotidiano das famlias.
Assim, h uma interpenetrao to marcante entre a esfera dita pblica e a esfera dita
privada que se torna complicado separ-las na anlise. Por ltimo,  fundamental
compreender que uma mesma famlia pode tomar diversas formas ao longo de sua
existncia, dependendo de muitos fatores, como morte de seus membros, migraes,
novos matrimnios, separaes, filhos anteriores a um segundo casamento e uma
infinidade de situaes relativas  histria pessoal de seus membros.
     As cincias sociais reconhecem que, no obstante a variedade de tipos de
famlias, todas as sociedades construram alguma forma de famlia. Atualmente,
o conceito de famlia valorizado e difundido no mundo Ocidental  o de famlia



136
nuclear, composta por pai, me e filhos. Isso no implica afirmar que, mesmo nesse




                                                                                          Famlia
ambiente cultural amplo, o comportamento de todos os membros das sociedades
ditas modernas tenda para a composio de famlias nucleares. A famlia nuclear no 
a nica forma familiar na Amrica Latina, por exemplo. Elizabeth Jeln percebeu uma
diversidade de situaes familiares nos pases de colonizao espanhola: apesar de a
famlia nuclear ser a norma nesse continente  ensinada, inclusive, por instituies
educacionais e de sade , ela se encontra associada a uma forte ideologia familista na
qual a consanguinidade e o parentesco (que inclui diversos tipos de parentes, como
primos, cunhados etc., alm dos membros da famlia nuclear) surgem como critrios
essenciais para estabelecer responsabilidades e obrigaes entre os indivduos.
Assim, em situaes de crises, os grupos pobres latino-americanos recorrem a
redes de ajuda mtua baseadas no parentesco amplo, que atua na minorao
dos problemas. Eunice Ribeiro Durham tambm notou que, no Brasil, qualquer
recenseamento mostra excees numerosas diante do modelo de famlia nuclear.
     Aqui surge uma questo fundamental para o entendimento do assunto:
quais as caractersticas do conceito de famlia que o distinguem dos conceitos de
sistema de parentesco, grupo domstico e unidade residencial? Segundo Eunice
Ribeiro Durham, famlias so grupos sociais estruturados por meio de relaes
de afinidade, descendncia e consanguinidade e se constituem em unidades de
reproduo humana. J o parentesco, que determina as formas de sucesso e
herana,  definido como o modo mais amplo de ordenar as relaes de afinidade,
descendncia e consanguinidade, regulando as relaes entre famlias. Por sua vez,
os grupos domsticos e residenciais podem ou no agregar uma famlia. Na verdade,
esses grupos tanto podem constituir famlias, tornando-se unidades de reproduo,
como podem agregar membros no ligados por laos consanguneos:  o caso de
amigos e colegas que coabitam em um apartamento. Segundo essas diferenciaes,
as famlias, para sua existncia, mantm relaes de parentesco; e por outro lado,
existem nas sociedades de hoje cada vez mais unidades residenciais onde pessoas vivem
sozinhas ou com pessoas no aparentadas, no constituindo, segundo a legislao,
uma famlia.
     Os estudos relativos ao tema da famlia no perodo colonial do Brasil
enfatizaram a existncia do modelo de famlia patriarcal, que normalmente 
compreendido como sinnimo de famlia extensa. Gilberto Freyre foi quem
reconhecidamente melhor estudou e divulgou o conceito de famlia patriarcal,
erigida nas casas-grandes dos engenhos coloniais. No entanto, essa viso de famlia
patriarcal vem sofrendo vrias crticas desde a dcada de 1980. Por um lado, os
estudiosos compreendem que a sociedade colonial era bem mais complexa do que



                                                                                  137
          antes se imaginava, compondo-se de variados grupos sociais e raciais no diretamente
Famlia



          influenciados pela vida dos engenhos nordestinos. Tais grupos no seguiam
          necessariamente o modelo de famlia patriarcal dos senhores e senhoras de engenho,
          seja porque no tinham vnculos estreitos com o universo social das fazendas de
          cana, seja porque suas condies materiais de existncia no permitiam compor
          esse tipo de famlia. Alm disso, outras regies do Brasil colonial tinham outras
          formas de famlia, que no se encaixam no conceito de famlia patriarcal. A crtica
          que se fez a Freyre foi a de ele generalizou o modelo de famlia da casa-grande dos
          engenhos de acar para todo o Brasil colonial, algo que ele no fez. Sua anlise no
          nega outros tipos de organizao familiar; ele simplesmente escolheu um tipo entre
          outros que admite ter existido, por julgar esse modelo como o mais representativo
          da identidade brasileira.
               Mas a famlia patriarcal teve grande influncia no s na historiografia, como na
          formao da elite brasileira. Segundo Eni de Mesquita Samara, a famlia patriarcal
          era composta por uma estrutura dupla: o ncleo central, composto pelo casal, filhos
          legtimos (genros e noras) e descendentes; e uma camada perifrica composta por
          inmeros membros, como parentes mais distantes, agregados, afilhados, escravos,
          concubinas, filhos ilegtimos, amigos, alm de elementos indiretamente relacionados
           casa: trabalhadores livres e migrantes, vizinhos (roceiros, sitiantes e lavradores).
          Entendida dessa forma vasta, a famlia patriarcal inclua parentesco consanguneo
          e fictcio (apadrinhados, compadres, comadres) e alianas diversas. Uma questo
          problemtica nessa viso  que ela nega ou dilui a existncia de possveis ncleos
          familiares entre os grupos de livres pobres que viviam nos engenhos ou entre os
          escravos. Respondendo a esse problema, a historiografia da escravido vem mostrando
          a importncia, para escravos e escravas, da constituio de famlias estveis. Algo
          inovador, visto que, enquanto a historiografia anterior julgava ser impossvel ou, no
          mximo, bastante raro, a formao de famlia por parte dos escravizados hoje est
          demonstrando que, apesar da opresso do cativeiro, as resistncias e as negociaes
          dos escravos permitiram muitos casos de sobrevivncia de padres culturais e formas
          familiais das etnias africanas escravizadas, amenizando, assim, a vida de cativeiro.
               Os estudos sobre perodo colonial, no Brasil, mostram que o conceito de famlia
          tem muito a ver com a economia. Era no grupo familiar, sobretudo no meio agrrio,
          que muitas atividades produtivas de subsistncia eram desempenhadas. Nessa poca,
          mais do que hoje, o indivduo era reconhecido e identificado por sua ligao a uma
          famlia, o que lhe conferia status e estabilidade. Assim, observar a importncia
          (tanto econmica como de status) de vnculos familiares estveis, na Colnia,
          ajuda a entender por que os grupos familiais muitas vezes iam alm dos limites da
          consanguinidade, forjando parentescos fictcios, como o compadrio.


          138
     J com relao  diversidade da composio familiar no Brasil contemporneo,




                                                                                            Famlia
Danda Prado notou que, ao longo do tempo de vida, uma pessoa pode compor
diversos tipos de famlia: pode ter nascido numa famlia extensa (com mais de duas
geraes morando na mesma residncia); mas, por morte dos membros mais velhos,
ela pode voltar a compor uma famlia nuclear; ao contrair matrimnio, formar uma
famlia conjugal (somente um casal); aps ter filhos, pertencer a uma famlia nuclear,
que pode se tornar extensa novamente caso seus filhos tenham filhos residentes na
mesma habitao. A autora descreve ainda a existncia da famlia natural, composta
usualmente por mulheres solteiras com filhos. Desde o Brasil colonial at nossos
dias, inmeras mulheres cujos parceiros no reconhecem a paternidade formam
famlias naturais e so obrigadas a trabalhar para a manuteno dos filhos, alm de
conduzirem consigo o estigma de terem filhos no legitimados socialmente. Esse tipo
de famlia, formada por me e filhos unicamente, e cujo cnjuge-pai tem presena
instvel ou apenas temporria,  designada como famlia matrifocal, normalmente
caracterizada pela pobreza.
     A famlia, como toda instituio, tem aspectos conservadores, assim como
indicadores de mudana. Para Elizabeth Jeln, a famlia  uma instituio formadora
de futuras geraes e mediadora entre a estrutura social e o futuro dessa estrutura.
Nesse caso, sem interveno externa, a famlia termina por transmitir e reforar
padres de hierarquia e desigualdade j existentes na sociedade. Pela famlia, por
exemplo, podem passar preconceitos raciais, ideias arcaicas sobre o papel dos
gneros, entre outros valores. Assim, a famlia  um espao paradoxal, como pensa
Jeln: tanto pode ser o lugar do afeto e da intimidade, como o lugar da violncia
muda e silenciosa. No quadro familiar, a violncia de gnero ganha relevo, pois so
as mulheres as principais vtimas. Na classificao de Jeln, a violncia familiar atinge
sobretudo as mulheres, na relao conjugal, depois as meninas e, em menor escala,
os meninos, na relao filial. Os ancios tambm compem o nmero das vtimas.
     Essas consideraes nos levam a observar que o estudo da organizao familiar
deve, primeiro, respeitar a diversidade de padres familiares existentes, alm de
relacionar essa instituio a outros assuntos correlatos, como cotidiano, gnero,
violncia, o papel do Estado etc. Os educadores e educadoras podem utilizar vrias
abordagens para a compreenso do tema: questionar como a famlia organiza as
atividades domsticas, indispensveis  reproduo do grupo, e se ela usa critrios
de idade, sexo e graus de parentesco para dividir essas tarefas; perguntar se essa
organizao da economia domstica  a mesma no meio rural e no urbano; se existe
ou no desigualdade de gnero na famlia; investigar como se d a socializao dos
membros masculinos e femininos do grupo; discutir os conflitos de gerao etc.
Tal trabalho pode ser proposto como um projeto interdisciplinar, que no apenas


                                                                                    139
          envolva diferentes reas do conhecimento (Geografia, Biologia, Sociologia), mas que
Famlia



          aproxime tambm a escola de projetos de ajuda comunitria. Que tipo de ajuda?
          Sade reprodutiva, orientao sexual, combate  violncia domstica, entre outros.
          Por fim, o tema famlia est em evidncia nos noticirios, e  possvel discutir com
          os alunos o conceito de famlia relacionando-o, por exemplo, ao casamento entre
          pessoas do mesmo sexo. Famlia  apenas algo biolgico e, portanto, o resultado da
          unio entre um homem e uma mulher? Ou a famlia  uma unidade social, cujos
          laos de afinidade e afeto, construdos socialmente, podem ser fortes o suficiente
          para justificar o casamento homossexual? Trata-se de assunto instigante no qual o
          Direito, a afetividade, a cidadania e o respeito  diferena devem estar presentes.

          Ver tAmbm
                Cidadania; Cotidiano; Feminismo; Gnero; Interdisciplinaridade; Poltica;
                Sociedade; Tradio; Violncia.

          sugestes de leiturA
                del priore, Mary. Mulheres no Brasil colonial. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
                del priore, Mary (org.). Histria das mulheres no Brasil. 6. ed. So Paulo:
                 Contexto, 2002.
                ______. Histria das crianas no Brasil. 4. ed. So Paulo: Contexto, 2004.
                Faria, Sheila de Castro. A colnia em movimento: fortuna e famlia no cotidiano
                  colonial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.
                macedo, Jos Rivair. A mulher na Idade Mdia. 5. ed. So Paulo: Contexto, 2002.
                MoraeS, Maria Lygia Quartim de. Brasileiras: cidadania no feminismo. In:
                 pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So
                 Paulo: Contexto, 2003.
                pinSKy, Carla Bassanezi; pedro, Joana Maria. Mulheres: igualdade e especificidade.
                  In: pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So
                  Paulo: Contexto, 2003.
                prado, Danda. O que  famlia. So Paulo: Brasiliense, 1981.
                Samara, Eni Mesquita. A famlia brasileira. So Paulo: Brasiliense, 1998.
                Silvia, Maria Beatriz Nizza da. Histria da famlia no Brasil colonial. Rio de
                  Janeiro: Nova Fronteira, 1998.
                SleneS, Robert W. Na senzala, uma flor: esperanas e recordaes na formao
                  da famlia escrava, Brasil, Sudeste, sculo xix . Rio de Janeiro: Nova
                  Fronteira, 1999.



          140
FAscismo




                                                                                            Fascismo
     O fascismo, s vezes apresentado como nazi-fascismo,  objeto de estudo de
historiadores, socilogos, psiclogos e cientistas polticos desde o momento mesmo em
que os regimes nazi-fascistas comearam a ascender no mundo europeu. E, embora se
possa distinguir o nazismo do fascismo, a rigor, para efeitos de anlise, os dois regimes
costumam ser pensados juntos como integrantes de um mesmo processo de crtica
profunda ao liberalismo que havia, em todo o sculo xix, regido o mundo ocidental.
     D-se o nome de fascismo, ou nazi-fascismo, ao fenmeno histrico especfico
ocorrido no mundo europeu entre 1922 e 1945, o chamado perodo entre-guerras,
caracterizado pela ascenso de regimes polticos totalitrios que se opuseram, ao
mesmo tempo, s democracias liberais e ao regime comunista sovitico (tambm este
de carter totalitrio) e cuja repercusso atingiu numerosas Naes que adotaram
regimes semelhantes. H certo consenso entre os pesquisadores de que este fenmeno
tem muito a ver com a chamada sociedade de massas e de que ele deve ser situado
espacialmente na Alemanha e na Itlia. Essa definio espacial tem a vantagem de
evitar que regimes apenas autoritrios e ditatoriais situados em outras Naes sejam
nomeados erroneamente de fascistas. Assim, a Espanha franquista, o peronismo
argentino, a extrema-esquerda no contexto da Guerra Fria e regimes autoritrios da
Amrica Latina, da sia e da frica foram definidos erroneamente como fascistas por
seus opositores. E tais regimes no so fascistas porque apresentam caractersticas
especficas ligadas ao contexto histrico em que emergiram.
     Quem melhor reconheceu que o conceito de fascismo foi aos poucos sendo usado
politicamente como adjetivo para qualquer ditadura do sculo xx foi o pensador Juan
Linz, que, em 1975, elaborou uma classificao dos Estados propriamente fascistas,
distinguindo-os daqueles meramente autoritrios. Essa classificao, adotada por
Eric Hobsbawm no livro A era dos extremos, exclui todas as formas no europeias
do fenmeno, como o caudilhismo latino-americano. Mesmo na prpria Europa,
Linz e Hobsbawm identificaram trs tipos de autoritarismo de direita: primeiro,
os direitistas que seriam puramente autoritrios ou conservadores, mas sem um
programa ideolgico definido, a no ser o sentimento anticomunista e preconceitos
tradicionais de classe. Um segundo grupo, mais bem estruturado, que buscava
resistir ao individualismo liberal e  ameaa do trabalhismo e do Socialismo por
meio de diversas formas de corporativismo, visando superar a luta de classes e
gerar cooperao interclasses. Para Hobsbawm, a origem desse grupo era anterior
ao prprio fascismo, remontando ao primeiro Conclio Vaticano (1870), e tinha
como principal representante o regime de Salazar em Portugal (1927-74). No
terceiro grupo, finalmente, estariam os fascismos propriamente ditos, nas formas



                                                                                    141
           italiana e alem, cujas caractersticas essenciais seriam a mobilizao das
Fascismo



           massas de baixo para cima, sua utilizao como rastro de poder, seu papel de
           contrarrevolucionrios, a nfase em valores tradicionais em contraposio 
           modernidade e a recriao do passado e inveno de tradies.
                Uma das principais caractersticas do Estado fascista seria, assim, sua
           associao com a sociedade de massas. Essa sociedade, desencantada com o Estado
           e as instituies democrticas, que passavam no entre-guerras por sria depresso
           econmica, humilhada aps o desfecho da Primeira Guerra Mundial e carente de
           lideranas fortes, era o ambiente frtil para a ascenso de regimes salvacionistas que
           canalizassem as frustraes pessoais e coletivas por meio de uma propaganda bem
           elaborada. Nesse sentido, muitos estudiosos enfatizam tambm a importncia da
           propaganda como um dos aspectos fundamentais dos regimes fascistas.
                O autor Renzo de Felice considera a existncia de trs interpretaes clssicas
           sobre o fenmeno fascista, surgidas imediatamente aps a guerra: a abordagem
           liberal, que considerava o fascismo "doena moral da Europa"; a abordagem radical,
           que via o fascismo como "produto lgico e inevitvel" de certos pases; e, finalmente, o
           fascismo como "reao antiproletria", fruto da sociedade capitalista, em uma anlise
           marxista e materialista-histrica. Cronologicamente, a interpretao materialista-
           histrica antecede as duas primeiras, e foi Maurice Dobb seu principal representante.
           Para ele, o fascismo teve dupla funo histrica: destruir as organizaes livres da
           classe trabalhadora  tendo em vista o interesse da classe mdia  e organizar moral
           e materialmente a Nao, por meio da propaganda e da militarizao, visando 
           expanso territorial.
                J a interpretao liberal, que percebia o fascismo como "doena moral" da
           Europa, surgiu antes mesmo da Segunda Guerra Mundial terminar e influenciou
           os estudos do tema na dcada de 1960. Teve em Benedetto Croce seu principal
           representante, que interpretou o fascismo como perda de conscincia, embriaguez
           produzida pela guerra, conjuntura que irrompera quase do nada. Os argumentos
           de Croce, todavia, eram mais ideolgicos do que cientficos. Continuador dessa
           viso, Friederich Meinecke abordou o nazi-fascismo como um "desvio" no curso
           "normal" da vida poltica e institucional europeia. Para ele, o tecnicismo da sociedade
           moderna, com sua frieza e seu carter calculista, foi o que originou esse "desvio
           social". O problema desse argumento  que se o tecnicismo anda lado a lado com o
           Capitalismo (algo que a maioria dos estudiosos concorda), ento o Capitalismo j
           traz em si mesmo os germes do "desvio" (o individualismo, a luta de classes etc.),
           sendo um sistema sempre sujeito  ascenso de regimes totalitrios.


           142
     A terceira interpretao, que entendia o fascismo como um "produto lgico




                                                                                          Fascismo
e inevitvel", foi defendida por autores como William McGovern e Peter Vierek.
Para eles, o curso histrico da Alemanha e da Itlia j prenunciava a ascenso do
nazi-fascismo, pois o "atraso" dessas sociedades, a demora e a subsequente pressa de
sua unificao nacional, e os saltos de suas economias, no produziram sociedades
saudveis. Logo, o fascismo seria resultante de uma secular formao histrica
eivada de vcios e perversidades. No caso da Alemanha: autoritarismo, militarismo,
pan-germanismo, antissemitismo, tudo isso caracterizava a doena scio-histrica
do povo alemo que, naturalmente, teria de descambar no Nacional-Socialismo.
Essa interpretao, excessivamente determinista, no levou em considerao que,
se havia germes do nazi-fascismo j no sculo xix, eles s puderam se concretizar
aps problemas gerados pela conjuntura do entre-guerras. Esqueceu ainda que os
fenmenos histricos no so inevitveis, assim como houve opositores  ascenso
do fascismo dentro mesmo da Alemanha e da Itlia. De qualquer modo, essa ltima
interpretao tinha a vantagem de tentar explicar o fascismo historicamente,
buscando suas origens sociais e polticas.
     Outra abordagem do fenmeno, original e controversa, uniu Psicologia,
Sociologia e Antropologia. Seu precursor foi Wilhelm Reich, que em 1933 publicou
o seu A psicologia de massas do fascismo, uma abordagem freudiana que definia o
fascismo como uma psicologia poltica internacional das massas frustradas. Para
essa interpretao, o masoquismo e a milenar represso s leis naturais da vida e do
amor fizeram que as massas se submetessem a um regime assentado amplamente na
fora. O homem reprimido de modo autoritrio canalizava seu impulso de liberdade
para a imagem de um homem forte, de uma liderana. Desse modo, o regime fascista
no chegava ao poder por suas qualidades polticas, mas pelo apelo que fazia aos
instintos psicossociais das massas. A inovao do pensamento de Reich estava no
fato de ele no interpretar o fascismo unicamente por suas caractersticas especficas
ou por sua plataforma poltica reacionria. Ao contrrio, ele define o fascismo pela
importncia das massas, que, estimuladas por sentimentos profundos de rejeio
e neurose e com enorme desejo de revolta e libertao de uma sociedade que as
oprimia, ao mesmo tempo que ansiavam pela liberdade, procuraram por um lder
forte para realizar seu desejo.
     Um conjunto de intrpretes muito conceituados atualmente inclui estudiosos
que focalizaram o fascismo em sua associao estreita com o contexto mais amplo do
totalitarismo, o regime poltico vigente em algumas sociedades industriais modernas
que se opunha aos regimes democrticos ou pluralistas. Como as outras interpretaes,
esta tambm  alvo de crticas, mas seu rigor metodolgico  inegvel. Alm disso, tais
intrpretes assentaram alguns consensos fundamentais para o estudo do fascismo,


                                                                                  143
           como a preocupao em compreender essas manifestaes como produto de
Fascismo



           uma sociedade de massas e a distino dos regimes fascistas/totalitrios daqueles
           "simplesmente" autoritrios. O principal nome dessa abordagem  Hannah Arendt. Em
           seu esforo de encontrar a gnese do totalitarismo, a autora concebeu o imperialismo
           e o antissemitismo como a antessala da destruio totalitria do sculo xx. Para ela, o
           imperialismo corrompeu o Estado-nao europeu, que se enrijeceu politicamente,
           assumindo solues cada vez mais autoritrias. E, ao corroer as estruturas polticas
           europeias, o imperialismo terminou por engendrar o prprio totalitarismo. Mas,
           segundo Arendt, apenas a Alemanha hitlerista e a Unio Sovitica stalinista podiam
           ser considerados Estados totalitrios. Mesmo a Itlia de Mussolini foi excluda dessa
           designao, embora se saiba que o duce reivindicava com orgulho a alcunha de
           totalitrio para seu Estado fascista.
                Por ltimo, devemos mencionar a abordagem do psiclogo russo Serge
           Tchakhotine, que nas dcadas de 1940 e 1950 afirmou que, no interesse de legitimar
           sua posio, os ditadores sustentavam que ascendiam ao poder pacificamente, sem
           emprego de violncia fsica. Isso no  verdade, j que, para alm do emprego da
           violncia fsica, esses regimes souberam fazer uso da violncia psicolgica. E, com
           base nesse pressuposto, o autor procurou compreender as artimanhas e as estratgias
           de convencimento que os ditadores utilizaram para ganhar a mente de seu povo,
           considerando que uma propaganda benfeita seria a chave de todo sucesso fascista.
                Os trabalhos de Tchakhotine e de Hannah Arendt exercem hoje grande influncia
           sobre as novas interpretaes do fascismo, tanto considerando as razes histricas do
           imperialismo na formao desse fenmeno quanto o poder (assentando nas mquinas
           de propagada de massa) que os ditadores fascistas tinham de convencer as massas.
                Diante de tanta complexidade, no basta aos professores de Histria listar o
           conjunto de fatos que desembocaram no fascismo nas dcadas de 1920 e 1930 para
           compreender esse fenmeno. Por outro lado, como muitos temas contemporneos,
           o fascismo ainda desperta fortes sentimentos em vrios segmentos da populao
           no Ocidente, e no Brasil no  diferente. Assim,  preciso sensibilidade para discutir
           tal tema em sala de aula, sem que, no entanto, o educador se ache na obrigao de
           censurar o contedo. A relao do fascismo com o mundo atual  palpvel, pois muitos
           jovens em diversas partes do mundo se apresentam como neonazistas, na maioria
           das vezes sem conscincia do que foi realmente o nazismo. Assim, temos de trabalhar
           essa relao passado/presente em sala de aula e tentar despertar nos alunos opinies
           crticas sobre o tema. Pode-se comear definindo democracia e liberalismo, visto que
           foi contra as democracias liberais que os regimes autoritrios e totalitrios se ergueram.
           Outro caminho para a compreenso do tema  ter como ponto de partida o avano da
           propaganda no sculo xx e sua influncia poltica e ideolgica nas sociedades de massa.


           144
Ver tAmbm




                                                                                          Feminismo
    Capitalismo; Cidadania; Comunismo; Democracia; Ditadura; Estado; Golpe de
    Estado; Ideologia; Indstria Cultural; Imperialismo; Liberalismo; Massa/Multido/
    Povo; Militarismo; Violncia.

sugestes de leiturA
    arendt, Hannah. Origens do totalitarismo: antissemitismo, imperialismo,
     totalitarismo. So Paulo: Companhia das Letras, 1989.
    de Felice, Renzo. Explicar o fascismo. Lisboa: Edies 70, 1978.
    edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
      entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
    HobSbaWm, Eric J. A era dos extremos: o breve sculo xx (1914  1991). So Paulo:
     Companhia das Letras, 1995.
    marcuSe, Herbert. Tecnologia, guerra e fascismo. So Paulo: Fundao Ed.
     Unesp, 1999.
    marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria contempornea
     atravs de textos. 10. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Faces do fanatismo. So Paulo:
      Contexto, 2004.
    r eicH , Wilhelm. A psicologia de massas do fascismo. So Paulo: Martins
      Fontes, 1972.




Feminismo
     De maneira ampla, o feminismo pode ser definido como um longo processo no
terminado de transformao da relao entre os gneros. Um processo com razes
que se estendem desde o passado remoto at o presente. Por outro lado, o feminismo
tambm pode ser apresentado como o discurso de busca de igualdade entre os sexos,
e como tal j podia ser encontrado, por exemplo, na obra A cidade das mulheres, de
Christine de Pisan, escritora francesa do sculo xiv que apresentava um discurso
articulado e consciente em defesa dos direitos da mulher e da igualdade entre os sexos.
     Todavia, se queremos definir o feminismo como movimento de massas, ele  um
fenmeno bastante contemporneo, que pode ser datado em torno das dcadas de
1960-70, no mundo ocidental. Esse feminismo contemporneo surgiu em um contexto
no qual emergiram diversos movimentos de libertao denunciando a existncia de


                                                                                  145
            vrios tipos de opresso. Movimentos pelos Direitos Civis, pela igualdade racial,
Feminismo



            ecologistas, movimentos de homossexuais e de mulheres surgiram, ento, como
            forma de pensar a opresso de modo mais amplo do que a partir da ideia de luta de
            classes, at ento o fundamento das principais crticas  desigualdade social. Cada vez
            mais esses grupos foram percebendo que suas vidas estavam carregadas de estigmas e
            preconceitos, bem como que seus objetivos polticos nem sempre se confundiam com
            os objetivos do operariado, ento considerado a classe social que seria a vanguarda
            de uma nova forma de organizao social, o Socialismo. Foi nesse contexto que
            as mulheres comearam a perceber que o sexo  poltico, ou seja, que  permeado
            por relaes de poder e de hierarquia, e essa situao (marcada pela desigualdade)
            continuaria a existir mesmo em um regime no qual inexistisse a luta de classes. Com
            o afloramento dessa conscincia a partir dos anos 1960, nos Estados Unidos, surgiu
            o movimento feminista, que assumiu e criou uma identidade coletiva de mulheres
            como indivduos do sexo feminino, possuidoras de interesses compartilhados: o fim
            da subordinao aos homens, da invisibilidade e da impotncia, a defesa do direito
            de igualdade e de controle sobre seu corpo e sobre sua vida.
                 O principal objetivo das feministas era superar o autoritarismo e a desigualdade
            entre homens e mulheres nas relaes pessoais, mas se preocuparam tambm com
            o entrelaamento das relaes pessoais com a organizao poltica pblica. Ou
            seja, a opresso de poder que se dava no mbito privado no podia ser isolada de
            uma ao poltica pblica mais abrangente: a luta por direitos de cidadania para
            todos, por exemplo. Assim, foram sendo organizados grupos de reflexo nos quais
            as mulheres compartilhavam suas agruras, e o que antes parecia um problema
            individual tornava-se coletivo.
                 O fato  que, desde a Independncia dos eua e a Revoluo Francesa, no final
            do sculo xviii, as ideias de igualdade natural e de direitos inalienveis do homem
            e do cidado constituram o arcabouo dos Estados liberais modernos. Princpios
            supostamente universais e racionais deveriam reger a criao das leis, no sentido
            de se dividir o poder e evitar a tirania. Mas os cdigos de leis emanados desses dois
            movimentos revolucionrios, ao mencionarem a igualdade supostamente universal
            de "todos os homens", no incluram as mulheres, negando-lhes, assim, a cidadania
            poltica. A Frana e os Estados Unidos aps o sculo xviii, apesar de entrarem para
            a histria ocidental como baluartes da liberdade, mantiveram as mulheres distantes
            dos direitos que tanto orgulhavam seus lderes. No eram sequer cidads de segunda
            categoria, simplesmente no eram cidads. Vale lembrar que a Frana foi o ltimo pas
            da Europa a introduzir o voto feminino, e isso apenas em 1944. Essas contradies
            no passaram despercebidas pelas mulheres que viveram esses movimentos. Muitas
            delas, como Olympe de Gouges, exigiram, j na Revoluo Francesa, que os direitos
            "naturais" fossem estendidos  parte feminina da humanidade.



            146
     Assim, uma das principais demandas feministas foi o direito de votar e ser votada.




                                                                                           Feminismo
As mulheres pleiteavam, dessa forma, os direitos polticos e a cidadania. Por essa
razo, o movimento feminista, durante muito tempo, se confundiu com o movimento
sufragista, este um movimento de mulheres que reivindicava especificamente o direito
das mulheres ao voto. Como indicam Branca Moreira Alves e Jacqueline Pitanguy, o
sufragismo teve incio nos Estados Unidos por volta de 1848, logo se estabelecendo
tambm na Inglaterra. Tanto nos eua quanto na Inglaterra, o sufragismo foi um
movimento de massas. As chamadas suffragettes, feministas inglesas radicais, ficaram
famosas por fazerem uso da violncia como forma de alcanar seus objetivos,
tendo lutado por mais de seis dcadas at conseguirem, em 1928, o direito ao voto.
     Uma das principais marcas do feminismo era a resistncia ao ridculo com
que foi tratado. Muitas mulheres foram consideradas "masculinas demais" apenas
por defenderem igualdade de direitos e atuarem na esfera dita "masculina", ou seja,
a poltica. Outras, como Virginia Woolf, tiveram de defender vigorosamente o
status intelectual da mulher diante de homens que insistiam em reforar a tese da
inferioridade intelectual da mulher na dcada de 1920.
     No Brasil, somente no final do sculo xix, as pioneiras do feminismo pleitearam
o direito ao voto. As primeiras reivindicaes foram feitas por meio de jornais, entre
as dcadas de 1860-90; em linguagem moderada, exigiam educao de qualidade
para as mulheres, para que pudessem ser "boas mes" e "companheiras". No final
do sculo xix, entretanto, o voto j era uma demanda das brasileiras de classe alta e
mdia alta. Mas, no Brasil, o feminismo no chegou a ser um movimento de massas,
pelo menos at 1940, e nesse perodo no inclua mulheres pobres e trabalhadoras. O
movimento sufragista brasileiro teve, assim, um perfil elitista. Alm disso, seu carter
moderado contrastou com o ingls. Em geral de classe mdia alta, e com vnculos
com os grupos dominantes, as feministas brasileiras optaram por um feminismo
relativamente inexpressivo ideologicamente. Por outro lado, foi suficientemente
organizado para convencer os extratos dominantes. Nesse sentido, sobressaiu-se
Bertha Lutz, uma das fundadoras da Federao Brasileira pelo Progresso Feminino.
Em 1932, a Federao e outras organizaes feministas brasileiras alcanaram seu
objetivo, e a Constituio de 1934 referendou o direito da mulher ao voto.
     Atualmente, o feminismo no pode mais ser definido apenas pelo sufragismo,
pois o voto j configura uma conquista. Mas muitos outros problemas ainda precisam
ser discutidos, sobretudo os ligados aos hbitos arraigados na cultura machista:
sexualidade e violncia, sade e reproduo e diviso de papis no prprio lar
(responsabilidades domsticas), entre outros. Pesquisas recentes sobre o mercado
de trabalho no Brasil e sobre a violncia contra a mulher, por exemplo, indicam que,
apesar de algumas conquistas, velhas demandas ainda persistem. A sociloga Cristina


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            Bruschini demonstrou que, apesar do aumento da presena feminina no mercado
Feminismo



            de trabalho, as mulheres em geral ocupam empregos tradicionalmente "femininos"
            (setores de servios e setores informais), sofrem com a desigualdade salarial em
            relao aos homens, e precisam fazer grande esforo para articular os papis familiar
            e profissional, uma vez que sobre elas continuam a recair as responsabilidades
            domsticas. Do mesmo modo, apesar de muitas mulheres estarem inseridas no
            mercado de trabalho (uma conquista feminina), as relaes de gnero no mudaram
            muito, uma vez que homens (muitas vezes maridos desempregados) costumam usar da
            violncia contra suas mulheres, demonstrando assim sua frustrao por no exercer o
            antigo papel de provedor do lar. Ou seja, o feminismo ainda tem muito pelo que lutar,
            e isso fica mais evidente quando vemos muitos pases implantando aes afirmativas
            para garantir a presena feminina, seja em postos de trabalho bastante masculinizados,
            seja para garantir seu espao nos cargos do poder poltico formal.
                 Uma amostra de como o feminismo  um processo permanente de lutas e tenses 
            o fato de as mulheres, nas dcadas de 1960 e 1970, mesmo aps o reconhecimento legal
            de seu ingresso nas universidades, ainda terem de lutar por espaos nessas instituies
             espaos at ento masculinos por excelncia. Homens de mentalidade tradicional
            acusavam a produo intelectual feminina de ser "poltica" e no "profissional". Os
            historiadores norte-americanos, por exemplo, ressentidos por terem de dividir os
            espaos da academia com as mulheres, entrincheiravam-se na defesa de uma suposta
            neutralidade do saber histrico em oposio ao carter "ideolgico" da produo de
            historiadoras feministas. Durante muito tempo, mulheres, negros, judeus, catlicos e
            "no cavalheiros", como diz Joan Scott, foram sistematicamente sub-representados na
            Associao Histrica Americana (aHa). O mesmo aconteceu na Frana, como apontou
            a historiadora francesa Michelle Perrot, pas onde a Histria  uma disciplina muito
            prestigiada e, exatamente por isso, muito masculina.
                 Aqui entramos em outra discusso: a relao entre o feminismo e a Histria das
            mulheres. Em primeiro lugar, a Histria das mulheres emergiu atrelada  exploso do
            feminismo, como indica Mary Del Priore. Foram as feministas, antes dos historiadores,
            que perceberam o esquecimento que a Histria at ento produzida devotava s
            mulheres. Elas eram ideologicamente identificadas com o objeto de estudo. As
            feministas fizeram da produo histrica outra arena de luta para resgatar seu passado
            e identificar o porqu da dominao masculina. A memria coletiva havia "esquecido"
            as mulheres como agentes da histria, e era preciso, particularmente nos anos 1970,
            mostrar suas lutas, suas resistncias, vitrias desconhecidas, humilhaes. Esse resgate
            inspirou a prtica poltica. Mas, aos poucos, a Histria das mulheres foi se afastando
            da poltica, ampliando seus questionamentos, ganhando legitimidade e rigor terico.
            Finalmente, j na dcada de 1980, rompeu definitivamente com a poltica a partir da


            148
emergncia da categoria de anlise Gnero. Joan Scott descreve o percurso: do




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feminismo  Histria das mulheres, e desta para o gnero; ou da poltica para a Histria
especializada, e desta para a anlise. Mas, segundo Scott, o feminismo continua
presente at hoje, seja na academia, seja na sociedade, e muitas pessoas que usam o
termo gnero se definem como feministas. Alm disso, a Histria das mulheres carrega
de seu passado feminista a herana, positiva, em nosso entender, de ser um campo
inevitavelmente poltico. Joan Scott, por exemplo, uma das principais defensoras da
aplicao da categoria gnero, busca demonstrar que essa categoria guarda estreita
ligao com as relaes de poder entre os sexos.
     Na sala de aula, a relao entre os gneros  um tema pouco abordado.  preciso
sensibilidade e coragem para lidar com o feminismo com alunos e alunas cujas
famlias, muitas vezes, ainda adotam comportamentos tradicionais, sobretudo
no que se refere  diviso de tarefas no lar, como a responsabilidade com os filhos
e os servios domsticos. Alm disso, muitos livros didticos ainda abordam
superficialmente a Histria das mulheres e a relao entre os gneros na histria, e
 preciso que o profissional busque outros recursos para empreender uma discusso
satisfatria. Uma estratgia  fazermos a relao passado/presente. Mas precisamos
nos precaver ao estudarmos o feminismo e suas lutas, mostrando quais os direitos
hoje consolidados foram conquistas do movimento feminista. Por outro lado,
precisamos sempre tentar incluir as mulheres como objeto de estudo em todos os
perodos histricos trabalhados com os alunos: quais as condies das mulheres
no Egito Antigo? No Brasil Colonial? Na Idade Mdia? Essa abordagem evita que
releguemos s mulheres a uma Histria marginal, como se elas no fizessem parte
do processo histrico como um todo. Para tal abordagem, professores e professoras
podem encontrar uma diversidade de recursos, desde livros didticos at longas-
metragens e documentrios sobre as mulheres em diferentes perodos histricos.
Tais recursos podem incluir desde msicas at filmes. Mas  preciso tambm no
transmitir a sensao de "progresso" na condio feminina. Ou seja, no dar a
entender que estamos vivendo no melhor dos mundos e que, por isso, no precisamos
fazer nada mais para mudar a relao entre mulheres e homens em nosso cotidiano.

Ver tAmbm
    Cidadania; Cotidiano; Democracia; Famlia; Gnero; Historiografia; Liberdade;
    Liberalismo; Poltica.

sugestes de leiturA
    alveS, Branca Moreira; pitanGuy, Jacqueline. O que  feminismo. So Paulo:
      Brasiliense, 1991.


                                                                                   149
                   del priore, Mary (org.). Histria das mulheres no Brasil. 6. ed. So Paulo:
Feudalismo


                    Contexto, 2002.
                   EdGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
                     entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
                   HaHner, June E. Emancipao do sexo feminino: a luta pelos direitos da mulher
                    no Brasil, 1850-1940. Florianpolis/Santa Cruz do Sul: Editora Mulheres/
                    Edunisc, 2003.
                   HuGHeS-WarrinGton, Marnie. 50 grandes pensadores da Histria. So Paulo:
                    Contexto, 2002.
                   MarqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria do tempo presente.
                    So Paulo: Contexto, 2000.
                   moraeS, Maria Lygia Quartim de. Brasileiras: cidadania no feminismo. In:
                    PinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So
                    Paulo: Contexto, 2003.
                   pinSKy, Carla Bassanezi; Pedro, Joana Maria. Mulheres: igualdade e especificidade.
                     In: pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So
                     Paulo: Contexto, 2003.
                   Perrot, Michelle. Os excludos da Histria: operrios, mulheres, prisioneiros.
                     So Paulo: Paz e Terra. 1988.
                   WoolF, Virginia. Kew gardens: O status intelectual da mulher; Um toque
                    feminino na fico; Profisses para mulheres. So Paulo: Paz e Terra, 1997.




             FeudAlismo
                  Feudalismo  um conceito histrico construdo com o intuito de servir de
             ferramenta terica para o estudo de determinado perodo na formao do Ocidente.
             Ou seja, refere-se especificamente ao sistema poltico, econmico e social da Europa
             medieval. Mas esse conceito pode se tornar tambm uma categoria de anlise ao ser
             aplicado a realidades to diversas como o Japo medieval e o Isl. No entanto, o modelo
             de Feudalismo clssico foi construdo a partir da Europa ocidental, principalmente
             da Frana. O termo em si no  contemporneo ao perodo que representa, pois s foi
             elaborado no sculo xvii. Mas o mundo medieval conhecia a palavra feudo, usada para
             nomear a posse e usufruto de uma parcela do patrimnio fundirio do rei.
                  Escrita nas proximidades da Segunda Guerra Mundial, a obra A sociedade feudal,
             de Marc Bloch,  um dos maiores clssicos sobre o assunto. Nela, Bloch criticou a
             viso generalizante que considerava todas estruturas feudais de diferentes lugares


             150
uma nica "civilizao feudal". Para ele, as diferenas regionais e as mudanas




                                                                                         Feudalismo
temporais criaram Feudalismos diferentes. Mas apesar disso, o modelo clssico
normalmente se limita ao conjunto de estruturas sociopolticas e econmicas
vigentes no norte da Frana entre os sculos xi e xiii. Todavia, tanto a Inglaterra,
a Alemanha, a Itlia quanto a pennsula Ibrica, apresentaram estruturas feudais
prprias, que no eram apenas "variantes" do modelo francs.
     O Feudalismo tem sido bastante discutido pela historiografia, alimentando
controvrsias. Entre essas, est a polmica em torno da existncia de um modo
de produo feudal. A tese que defende a existncia de um modo de produo
feudal afirma que esse perodo possua uma "economia natural", ou seja, agrcola, e
desconhecia a utilizao de moedas. Tal tese foi elaborada pelo materialista histrico
Perry Anderson, que discordou dos estudos socioeconmicos de Marc Bloch.
Bloch, por sua vez, negou a existncia de uma economia natural, afirmando que
no Feudalismo a economia nunca se tornou totalmente agrcola nem abandonou
transaes monetrias ou comrcio. Havia apenas escassez de moeda.
     De forma geral, as estruturas feudais nasceram da runa do Imprio Romano, e
suas principais caractersticas estruturais j existiam no seio da economia romana
do Baixo Imprio. As estruturas socioeconmicas romanas entraram em decadncia
devido  sua prpria expanso imperial, pois uma vez que a economia escravista
necessitava de contnuas importaes de mo de obra servil para funcionar, e para
que a produo dos latifndios se mantivesse estvel, as fontes de trabalho escravo
deveriam ser inesgotveis. Como a principal fonte de trabalho escravo era a guerra
de conquista, o Imprio precisaria estar em contnua expanso para abastecer
os latifndios. No entanto, no sculo iii d.C., ele chegou a seus limites mximos.
Com a escassez cada vez maior de mo de obra escrava, os latifndios puseram-se
a pensar em maneiras de garantir a reproduo da mo de obra e o aumento da
produtividade, em face do menor nmero de trabalhadores. Assim, passaram a
distribuir lotes de terras aos escravos, onde estes deveriam se assentar e constituir
famlia, responsabilizando-se por uma produo da qual apenas pequena parcela
ficaria para sua manuteno, revertendo o restante em benefcio do senhor. Estava
iniciado assim o regime de colonato.
     Tambm as invases germnicas s fronteiras do Imprio, a partir do sculo
v, contriburam para a decadncia poltica romana e para a consolidao do
status dependente do campons, na medida em que a destruio das cidades e das
propriedades agrcolas levava cada vez mais agricultores livres a se estabelecerem
sob a "proteo" de um senhor. Assim, surgiu um dos aspectos principais da relao
feudal, a servido, por meio da qual o campons se torna dependente e preso s
terras de um senhor por obrigaes jurdicas. Porm, a chegada dos germnicos


                                                                                 151
             contribuiu para a formao das elites feudais, quando a elite de guerreiros germnicos
Feudalismo



             se sobreps ao restante da sociedade. Foi essa fuso gradual de instituies germnicas
             e romanas que deu origem  sociedade feudal. O Feudalismo se caracterizou, assim,
             por ser uma rede de relaes de dependncia jurdica, da servido  vassalagem, que
             se entrelaavam com a estrutura econmica fundiria.
                  Por sua vez, a mais marcante de suas caractersticas polticas era a decadncia
             da autoridade real. Com a queda do Imprio, formaram-se, nas antigas provncias,
             diversos reinos de origem germnica. E apesar da grande absoro da cultura romana,
             essas monarquias foram constitudas com base na antiga organizao tribal: ao lado
             do rei  posio inicialmente eletiva, mas que logo adquiriu carter hereditrio 
             estavam os guerreiros, que logo se tornaram nobres, pois a funo militar passou
             a definir a nobreza. Com a fragmentao do antigo poder central romano e com a
             influncia crescente dos nobres guerreiros (que tinham, inclusive, o poder de eleger
             reis), gradativamente os potentados locais foram assumindo as funes da realeza.
                  Ao mesmo tempo, a Igreja Catlica em franca expanso comeou a se inserir na
             cena poltica. Com as invases e a ausncia de autoridades estatais nas provncias,
             foram os bispos que primeiro assumiram as funes administrativas. Um exemplo
             desse poder estava na Pennsula Ibrica, onde os bispos controlaram as cidades no
             lugar dos governadores romanos ausentes, e depois passaram a influir e definir a eleio
             dos reis visigodos. O espanhol Isidoro de Sevilha foi um dos bispos mais poderosos
             da Alta Idade Mdia, pois, alm de exercer um poder poltico de governador, tambm
             controlou a educao na provncia, monopolizando a transmisso da cultura erudita.
                  J do ponto de vista social, o Feudalismo se caracterizou pelas relaes de
             vassalagem e servido. Ou seja, independentemente de sua condio jurdica, o
             homem medieval, cavaleiro ou campons, estava submetido  dependncia pessoal, 
             subordinao a outro indivduo. A vassalagem era o lao de dependncia que ligava
             todo nobre a seu senhor, e a servido o lao de dependncia do campons, o servo,
             para com o nobre. A vassalagem funcionava como a prestao de homenagem que
             um nobre fazia a outro mais poderoso, passando este a ser seu suserano. O vassalo
             devia a seu senhor lealdade e servios, em geral militares. Em troca o suserano
             fornecia proteo e meios materiais para sua manuteno. Meios que poderiam ou
             no ser um feudo.
                  No caso da servido, eram duas as principais formas de sujeio: a sujeio do
             indivduo e a sujeio da terra. Na primeira forma, o servo pertencia ao senhor,
             que em geral se apropriava apenas de seu trabalho, apesar de ter direitos sobre
             seu corpo. Na segunda forma, os senhores arrendavam parcelas de sua terra a
             camponeses livres em troca de porcentagem na produo e pagamentos de servios,
             as chamadas corveias.


             152
     Nesse contexto, em que a dependncia dos indivduos era a regra, a propriedade




                                                                                        Feudalismo
fundiria possuiu diferentes definies e configuraes jurdicas. Ela era em si o
senhorio, e no o feudo. E nem todo senhorio era feudo. De incio, o feudo era
a terra doada como remunerao por algum servio, inclusive o de arteso. Mas
gradativamente, o termo foi se tornando algo a ser aplicado somente s doaes
mais importantes, para designar o senhorio dado como benefcio  vassalagem,
ou seja, uma doao do suserano para seu vassalo. Nesse sentido, feudo era uma
propriedade fundiria dependente de laos polticos, enquanto senhorio poderia
ser qualquer forma de propriedade da terra.
     Podemos, com base nessas consideraes, observar que no Feudalismo existiram
diferentes formas de relaes sociais, de relaes de trabalho e de economia, todas
em geral baseadas na terra. A condio jurdica e os laos polticos dos indivduos
eram fatores que entrelaavam as relaes econmicas nessa sociedade, mas nem
os camponeses livres, nem a escravido desapareceram totalmente do Ocidente
durante a Idade Mdia. No caso da Pennsula Ibrica, por exemplo, a estrutura
feudal comportava alguma mobilidade social, o que significava a possibilidade de
um indivduo poder mudar de estamento, deixando de ser um servo ou um homem
livre peo e passando a ser um fidalgo, um nobre. Tal situao  uma particularidade
ibrica, que influenciou inclusive a sociedade colonial da Amrica, sculos mais
tarde. A especificidade dessa estrutura levou historiadores como Raymundo Faoro
a afirmarem que o Feudalismo nunca existiu na Pennsula. Essa tese, entretanto, 
hoje contestada, pois os historiadores acreditam atualmente que o fato de haver
diferenas nas estruturas sociais, polticas e econmicas entre a sociedade ibrica e
a francesa no determinava que o Feudalismo fosse uma exclusividade da ltima.
     A influncia medieval sobre a colonizao do Brasil foi principalmente ibrica,
razo pela qual cabe a ns, professores, procurar trabalhar mais a Idade Mdia sob a
tica de portugueses e espanhis. Perspectiva que nos ajuda a abandonar aos poucos
a excessiva dependncia que temos da histria francesa e inglesa. O Feudalismo 
tema que suscita questes bastante atuais, que podem ser levadas para o cotidiano
da sala de aula: a existncia de latifndios e de pessoas sem terra, a permanncia
de relaes servis no campo, a intolerncia religiosa etc. Podemos relacionar essas
questes contemporneas com as estruturas feudais que as precederam. Tal tema,
assim, pode ganhar muito se trabalhado a partir de uma relao com o presente. Um
estudo atento do Feudalismo e da Idade Mdia como um todo no deve tambm cair
na viso preconceituosa de que estamos lidando com uma "Idade das Trevas", com
um momento de obscurantismo na Histria. No seio da sociedade feudal surgiram
muitos elementos que a Idade Moderna adotou.


                                                                                 153
           Ver tAmbm
Folclore



                 Escravido; Latifndio/Propriedade; Massa/Multido/Povo; Modo de Produo;
                 Oligarquia; Revoluo Francesa; Servido.

           sugestes de leiturA
                 a n d e r S o n , Perry. Passagens da Antiguidade ao Feudalismo. Porto:
                    Afrontamento, 1989.
                 blocH, Marc. A sociedade feudal. Lisboa: Edies 70, s. d.
                 duby, Georges. Guerreiros e camponeses. Lisboa: Estampa, 1980.
                 Faoro, Raymundo. Os donos do poder: formao do patronato poltico brasileiro.
                   Porto Alegre: Globo, 1996, v. 1.
                 Karnal, Leandro (org.). Histria na sala de aula: conceitos, prticas e propostas.
                  So Paulo: Contexto, 2003.
                 macedo, Jos Rivair. A mulher na Idade Mdia. 5. ed. So Paulo: Contexto, 2002
                 r ucquoi , Adeline. Histria medieval da Pennsula Ibrica. Lisboa:
                   Estampa, 1998.
                 SantiaGo, Theo (org.). Do feudalismo ao capitalismo: uma discusso histrica.
                   9. ed. So Paulo: Contexto, 2003.




           Folclore
                 amplamente conhecida no Brasil a origem da palavra folclore: termo cunhado
           em ingls a partir das palavras folk, povo, e lore, saber. Uma rea do conhecimento
           muito prezada pelo turismo cultural e pela Antropologia. Definido inicialmente
           no sculo xix, pelo arquelogo ingls William Thorns, o folclore designava ento
           uma cincia cujo objeto de estudo eram as antiguidades literrias, as cerimnias,
           as crenas, as supersties e as manifestaes do saber popular de sociedades com
           escrita, mais especificamente as europeias. J no sculo xx, os estudiosos procuraram
           estabelecer melhor o termo e sua rea de estudos.
                No Brasil, em 1951, foi realizado o I Congresso Brasileiro de Folclore, que
           elaborou a Carta do Folclore Brasileiro, documento que definiu folclore como
           o conjunto de maneiras de pensar, sentir e agir de um povo, preservadas pela
           tradio popular e pela imitao. Hoje os estudos de folclore foram assimilados
           pela Antropologia, que o redefiniu como o campo de investigao da cultura
           espontnea, rural ou urbana. Ou seja, da cultura material e imaterial, que se origina
           espontaneamente no seio do povo.


           154
     O conceito de folclore est intimamente ligado s noes de povo, de tradio




                                                                                           Folclore
e, como no podia ser diferente, de cultura, pois de forma simples, folclore  a
cultura popular tradicional. Diferentes regies, diferentes grupos sociais e tnicos
possuem tradies folclricas diversas, e o estudo dessas tradies diz muito sobre
como vive e pensa o povo, sobre sua histria e a histria do pas e regio que o
abriga. Assim, o folclore significa o conjunto de todas as tradies, costumes, lendas
e crenas populares de uma regio. Para alguns autores, folclore  o estudo da cultura
espontnea coletiva de um povo "civilizado", ou seja, de uma sociedade com escrita.
Essa  a perspectiva defendida, entre outros, por Rossini Tavares. Nesse sentido,
os estudos que seguem essa perspectiva podem ser bastante etnocntricos, por
considerar o folclore a manifestao "menor" de um povo "avanado", desprezando
ao mesmo tempo as sociedades grafas e o prprio povo analfabeto das sociedades
com escrita, e apresentando o folclore como uma elaborao rstica e primitiva de
cultura, inferior  cultura erudita,  cultura das elites.
     Mas o folclore pode tambm remeter  perspectiva contrria, ou seja, 
valorizao do saber popular, do conhecimento daquelas camadas sociais que,
mesmo em uma sociedade que mantm o conhecimento erudito restrito s elites e
sendo excludas deste conhecimento, elaboram sua prpria forma de conhecimento,
democrtica, criativa e dinmica.
     A cultura popular  composta pelas mais diversas manifestaes folclricas, desde
danas e brincadeiras,  literatura oral constituda por provrbios, contos, cordis,
canes e  cultura material, com seus utenslios artesanais de utilidade cotidiana, e
com a alimentao. Inclui ainda a chamada sabedoria popular, ou seja, conhecimentos
comunais sobre o universo, aplicveis  vida cotidiana, como a medicina popular.
      comum que algumas abordagens ressaltem apenas a caracterstica da
superstio nas narrativas folclricas. Mas  preciso observar, como fez Robert
Darnton para o folclore francs do sculo xviii, que os contos populares e as narrativas
supersticiosas muitas vezes tm carter pedaggico e moralista, pois almejam
transmitir lies para o cotidiano. Alm disso, ao observarmos as lendas folclricas
brasileiras, percebemos que esses relatos populares tm tambm acentuado carter
ldico. Tambm  comum considerar manifestao ou fato folclrico apenas aquelas
manifestaes transmitidas oralmente (o que lhe conferia um carter popular em
uma sociedade onde as elites dominavam a escrita) e fossem coletivas, annimas
(sem autor conhecido) e espontneas. Mas essa definio de fato folclrico como
fenmeno cultural antigo, oral e annimo , em si mesma, bastante etnocntrica,
e no Brasil j foi criticada inclusive os trabalhos de Lus da Cmara Cascudo, na
dcada de 1940. Assim, atualmente os estudiosos preferem conceituar folclore como a


                                                                                   155
           tradio constantemente readaptada, que tem como caractersticas a funcionalidade,
Folclore



           o dinamismo, a aceitao coletiva, a espontaneidade. Por outro lado, hoje, com a
           valorizao da cultura popular por amplos setores letrados,  cada vez mais frequente
           o registro de manifestaes consideradas folclricas, no apenas em texto escrito,
           mas em vdeos e msicas. No Nordeste, por exemplo, gneros musicais tradicionais,
           como o coco e a ciranda de roda, tm ganhado, a partir das ltimas dcadas do sculo
           xx, espao nas gravadoras e lojas de msicas, alcanando um pblico diferenciado

           e se readaptando a um novo contexto.
                O antroplogo Renato Almeida, em obra clssica escrita na dcada de 1950, estudou
           o folclore a partir de uma viso funcionalista. Para ele, todo fato folclrico tinha uma
           funo na cultura popular, e nela nada era gratuito ou arbitrrio. O folclore, assim,
           estaria ligado ao passado, mas sempre readaptando-o para as necessidades do presente
           por meio da religio, das artes, das atividades ldicas. Tambm pesquisas atuais na rea
           de Etnomusicologia afirmam o carter dinmico da cultura popular. Etnomusiclogos
           contemporneos tm dado continuidade ao trabalho de registro de tradies musicais
           populares, iniciado por Mrio de Andrade, em 1938, com a Misso de Pesquisas
           Folclricas.Andrade tambm procurou registrar manifestaes folclricas consideradas
           inacessveis, por se desenvolverem em lugares distantes dos grandes centros urbanos.
           Considerando, ento, que uma das caractersticas do folclore era a oralidade, a Misso
           de 1938 procurou registrar o maior nmero de manifestaes culturais populares
           possveis, com o intuito de preserv-las para as geraes futuras. Assim, percorreram
           diversas cidades em cinco estados brasileiros (Pernambuco, Paraba, Cear, Par e
           Maranho), registrando em fotos, filmes e gravaes diversas manifestaes da cultura
           popular, como o bumba meu boi, os reisados, os caboclinhos e o tambor de mina.
                A verso atual da Misso, por sua vez, realizada por etnomusiclogos de
           universidades da Paraba e de Pernambuco, segue novas perspectivas: considera que a
           cultura popular  dinmica e vive em constante reelaborao, e no que vai desaparecer.
           Percebeu, por exemplo, que as manifestaes gravadas pela Misso em 1938 continuam
           a existir, mas produzindo novas msicas com novas roupagens, como  o caso dos
           cocos e do carimb. Esses pesquisadores preferem falar de msica tradicional, e
           no de msica folclrica, j indicando a existncia de uma crtica a esse termo. Se o
           termo folclore est aos poucos sendo rejeitado por artistas e estudiosos, isso se deve
           ao sentido "pitoresco" com que a cultura popular era encarada. O adjetivo folclrico,
           dessa forma, expressaria certo desprezo por manifestaes que, na verdade, no eram
           bem compreendidas, e s eram vistas pelo aspecto de "extico" e de "pitoresco".
                No podemos abordar folclore no Brasil sem mencionar a obra daquele que
           se tornou referncia fundamental sobre o tema, Lus da Cmara Cascudo, autor de
           mais de uma centena de trabalhos sobre cultura popular. Sua obra abrange desde os


           156
jangadeiros, vaqueiros, cantadores at a alimentao e as heranas judaica e moura




                                                                                           Folclore
no serto. Cascudo pesquisou principalmente o Nordeste, mas em diversas obras
foi alm do regional. A riqueza de informaes recolhidas faz dele um autor
indispensvel para o conhecimento da cultura popular brasileira.
      importante que professores tenham acesso a essa riqueza de dados sobre as
tradies populares no Brasil, pois o estudo das manifestaes culturais populares nos
permite entrar em contato com a diversidade cultural em nossa prpria sociedade e
observar que o povo cria arte e cultura de forma to ou mais dinmica que as elites
intelectuais e a cultura erudita. No podemos esquecer tambm que as trocas entre
a cultura popular e a cultura erudita so constantes e ativas. No apenas a literatura
brasileira sempre se alimentou de temas populares  desde Iracema, de Jos de
Alencar, passando pelo Macunama, de Mrio de Andrade, at a obra de Guimares
Rosa e Ariano Suassuna , como a msica pop brasileira tem sido um dos principais
divulgadores da msica popular: desde Alceu Valena, passando por Chico Science e
grupos atuais como o Cordel do Fogo Encantado. Mas tambm o contrrio acontece:
a cultura popular se alimenta da erudita. O cordel  um dos mais fortes exemplos
dessa corrente em que o popular adaptou e reconstruiu um veculo erudito  a
literatura escrita , alm de temas como a obra de Cames e a histria de Carlos Magno.
     Ainda, o folclore (termo hoje que est sendo substitudo por cultura popular)
est presente em todo o nosso cotidiano, e no apenas em manifestaes culturais
distantes. O carnaval, as festas juninas, o forr, as comidas tpicas, so elementos que
existem nas grandes cidades brasileiras. Alm disso, muito do saber popular, antes
desprezado pela cincia, tem sido visto com maior interesse por pesquisadores de
diversas reas. Exemplo disso  a medicina popular, que emprega ervas e remdios
homeopticos hoje valorizados pela cincia mdica como um todo. Podemos,
dessa forma, trabalhar nossa proximidade com a cultura popular, relacionando
tambm folclore e identidade, estimulando o contato entre o universo escolar e a
comunidade local onde ele est inserido, procurando observar quais manifestaes
e saberes so desenvolvidos por essa comunidade. A escola pode implantar projetos
inter-disciplinares sobre cultura popular, envolvendo disciplinas como Msica,
Histria, Cincias (medicina popular), Sociologia etc., e mostrar como a cultura
popular e a educao formal no so incompatveis e podem caminhar juntas na
formao dos educandos.

Ver tAmbm
    Arte; Cotidiano; Cultura; Fonte Histrica; Histria Oral; Identidade;
    Imaginrio; Interdisciplinaridade; Massa/Multido/Povo; Memria;
    Patrimnio Histrico; Tradio.


                                                                                   157
                  sugestes de leiturA
Fonte Histrica




                        andrade, Mrio de. Msica do Brasil. Curitiba: Guair. 1941.
                        araJo, Alceu Maynard. Folclore nacional i. So Paulo: Martins Fontes, 2004.
                        caScudo, Lus da Cmara. Mouros, franceses e judeus: trs presenas no Brasil.
                         So Paulo: Global, 2001.
                        ______. Dicionrio do folclore brasileiro. So Paulo: Global, 2001.
                        Silva, Alberto da Costa e (org.). Lendas do ndio brasileiro. Rio de Janeiro:
                          Ediouro, 2001.
                        Soler, Luis. Origens do folclore rabe no serto nordestino. Florianpolis:
                          Ed. uFSc, 1995.




                  Fonte HistricA
                       Fonte histrica, documento, registro, vestgio so todos termos correlatos para
                  definir tudo aquilo produzido pela humanidade no tempo e no espao; a herana
                  material e imaterial deixada pelos antepassados que serve de base para a construo
                  do conhecimento histrico. O termo mais clssico para conceituar a fonte histrica
                   documento. Palavra, no entanto, que, devido s concepes da escola metdica,
                  ou positivista, est atrelada a uma gama de ideias preconcebidas, significando no
                  apenas o registro escrito, mas principalmente o registro oficial. Vestgio  a palavra
                  atualmente preferida pelos historiadores que defendem que a fonte histrica  mais
                  do que o documento oficial: que os mitos, a fala, o cinema, a literatura, tudo isso,
                  como produtos humanos, torna-se fonte para o conhecimento da histria.
                       No mundo ocidental, as primeiras ideias sistematizadas acerca da natureza das
                  fontes histricas surgiram entre o sculo xviii e o incio do xix, com os eruditos franceses
                  que comearam a sistematizar a Histria escrita e, logo, a valorizar o documento. Foi
                  sobre essa herana que se apoiaram os historiadores da escola metdica no sculo xix,
                  para construir sua concepo de fonte histrica em que o documento era considerado
                  prova na qual reside a verdade. Tal premissa fundamentou todas as posteriores
                  correntes histricas do Ocidente. Para os metdicos  ou positivistas, como hoje
                  so mais conhecidos  a Histria era feita de documentos escritos, sendo a principal
                  tarefa do historiador recolh-los e submet-los  crtica externa e  crtica interna
                  para comprovar sua autenticidade. Nessa concepo, os documentos transmitiam o
                  conhecimento histrico por si, e ao historiador s cabia colet-los e agrup-los, no
                  question-los. Assim, segundo essa corrente terica, o documento era a prova concreta
                  e verdica de um passado imutvel que no precisava ser interpretado.


                  158
     Mas, a partir da dcada de 1930, um grupo de historiadores franceses associados




                                                                                             Fonte Histrica
 revista francesa Anais de Histria Econmica e Social (ou simplesmente Annales,
como ficaram conhecidos no Brasil), impulsionaram a crtica a essa concepo de
documento, influenciados por Karl Marx, um dos precursores da contestao 
pretensa objetividade imparcial na Histria, ainda no sculo xix. Para Marx, todo
historiador estava ligado a sua classe social, no podendo ser imparcial, premissa
que guiou a pesquisa dos materialistas histricos e dos Annales para o campo da
interpretao e da anlise, mudando o conceito de documento.
     Os Annales e os materialistas histricos abriram possibilidades para renovaes
no pensamento e na pesquisa histrica. A partir de ento, o fato histrico deixou de
ser entendido como dado de forma verdica e real pelo documento; ele precisaria ser
construdo pelo historiador a partir de uma conjuno de fatores presentes e passados.
Ou seja, o documento no era mais o portador da verdade irrefutvel sobre o passado.
Nesse sentido, tambm a ideia do que era fonte histrica se ampliou e o documento
deixou de ser apenas o registro poltico e administrativo, uma exclusividade de povos
com escrita. Para a histria interpretativa no importava a veracidade do documento,
mas as questes que o historiador lhe remetia. Desde ento, a fonte histrica passou a ser
construo do historiador e de suas perguntas, sem deixar de lado a crtica documental,
pois questionar o documento no era apenas construir interpretaes sobre ele, mas
tambm conhecer sua origem, sua ligao com a sociedade que o produziu.
     Depois dos Annales, principalmente com seus seguidores da "Nova Histria"
na segunda metade do sculo xx, o conceito de documento foi modificado
qualitativamente abarcando a imagem, a literatura e a cultura material. Os termos
registro e vestgio passaram, nas ltimas dcadas do sculo, a ser mais e mais
adotados, demonstrando a nova concepo histrica dominante em pesquisa sobre
a cultura e o cotidiano, a alimentao e a sade, as mentalidades coletivas. Mltiplas
pesquisas, que utilizavam como fontes receitas culinrias, relicrios e ex-votos,
cordis e vestimentas, todo tipo de registro de imagens, alm da literatura em suas
vrias formas, comearam a ter grande desenvolvimento. Entretanto, o documento
escrito no perdeu seu valor, mas passou a ser reinterpretado a partir de tcnicas
interdisciplinares emprestadas da Lingustica e da Psicologia.
     Ao mesmo tempo, uma emergente metodologia histrica, a Histria Oral,
trouxe ideias inovadoras para a noo de fonte histrica, principalmente por
criar seus prprios documentos: as entrevistas. O registro oral  o documento
construdo pelo pesquisador, tomando como base a memria do entrevistado.
Visto que essas fontes, mais visivelmente do que ocorre em outras metodologias
histricas, so contemporneas do pesquisador, elas so intensamente
influenciadas pelos dilemas do historiador, tanto como indivduo quanto como
membro de determinado grupo social.



                                                                                     159
                       Na mesma perspectiva se insere a corrente de estudo do filme como documento
Fonte Histrica



                  histrico. Baseados na obra pioneira de Marc Ferro, os historiadores que trabalham
                  com cinema definiram dois campos de abordagem: o filme como documento do
                  presente em que foi construdo e o filme como representao do passado, como
                  "bibliografia" e documento secundrio. Toda uma concepo, tanto de pesquisa
                  quanto de ensino, se constri, ento, a partir dessas perspectivas.
                       Essa crescente diversidade de fontes histricas motiva atualmente uma
                  preocupao com o empobrecimento nas abordagens dos documentos escritos.
                  Preocupao que foi vivenciada, por exemplo, na recente abertura dos arquivos
                  do governo e da polcia secreta da antiga Alemanha Oriental, pois muitas questes
                  feitas a esses registros pelos pesquisadores no foram respondidas satisfatoriamente
                  porque muitos dos historiadores contemporneos (por modismo e por outras
                  razes) demonstram desconhecer os mtodos bsicos de tratamento das fontes. Por
                  outro lado, a crescente proximidade da Histria com cincias como a Psicanlise
                  e a Antropologia tem trazido novos documentos como smbolos, sonhos, medos
                  e mitos, utilizados como fontes particularmente por historiadores que lidam com
                  Histria das Mentalidades e do Imaginrio. O mesmo ocorre entre a Histria e a
                  Literatura: desde a dcada de 1950 que os romances e os discursos literrios em
                  geral passaram ao status de fonte histrica, embora nem todos os historiadores se
                  sintam confortveis na leitura e na interpretao dessas fontes. Aqui, tambm quem
                  se interessa pela Histria Social, pelos costumes, pode obter na Literatura excelentes
                  registros. Ao lado do "surgimento" de novas fontes est sempre a necessidade de uma
                  formao mais ampla do historiador, que lhe permita abord-las com habilidade.
                       Outro ponto que deve ser considerado tanto na escolha quanto no tratamento
                  das fontes histricas  a questo regional. A frica Negra, por exemplo, atualmente
                  constri sua histria baseada em fontes arqueolgicas e na elaborao de registros
                  de Histria Oral das tribos. A histria da Amrica Latina, por sua vez, embora
                  tambm tenha se voltado para a Histria Oral, caminha pela valorizao de seu
                  passado colonial e, portanto, preocupa-se mais detidamente com o tratamento
                  e o questionamento de fontes coloniais, como processos inquisitoriais, registros
                  religiosos e documentos administrativos. Ou seja, diferentes preocupaes regionais
                  geram diferentes formas de perceber e trabalhar as fontes histricas.
                       A preocupao com o documento  uma das primeiras e principais questes postas
                  ao historiador, e trabalh-lo em sala de aula ajuda a formar novas geraes capacitadas
                  a pensar, refletir e construir novas fontes para a interpretao das sociedades. Cabe
                  a professores e professoras conhecerem a diversidade de fontes histricas, e suas
                  linguagens, e traduzi-las em recursos para o trabalho com os alunos. Trabalhar
                  diretamente com o documento permite que o estudante possa se sentir mais prximo


                  160
do passado, e, se bem orientado, criar suas prprias interpretaes acerca do fato ou do




                                                                                           Fonte Histrica
contexto estudados. Por outro lado,  necessrio cuidado com os perigos do trabalho
direto com o registro histrico: todo documento  uma verso de determinado fato
ou momento, dependente da viso de seu autor. Para realizar um bom trabalho com o
documento,  preciso conhecer o contexto no qual ele foi produzido, quem foi seu autor
e quais suas aspiraes e vises de mundo. Um trabalho que leva o aluno no apenas
a elaborar conhecimento como a adquirir contedo. Os documentos (manuscritos,
jornais, msicas, filmes, artefatos, texto literrio etc.), em virtude mesmo de sua
especificidade e de seu contexto histrico, podem parecer confusos a uma primeira
leitura, e o professor deve aos poucos treinar o grupo a fazer perguntas. Pois so as
perguntas que fazem os documentos falarem, e ento as interpretaes so criadas.

Ver tAmbm
    Arte; Arqueologia; Cotidiano; Histria; Histria Oral; Historiografia; Iconografia;
    Interdisciplinaridade; Memria; Mito; Tecnologia.

sugestes de leiturA

    bourd, Guy; Martin, Herv. As escolas histricas. Lisboa: Europa-Amrica, 1990.
    boutier, Jean; Julia, Dominique (orgs.). Passados recompostos: campos e canteiros
      da Histria. Rio de Janeiro: Editora uFrJ/Ed. FGv, 1998.
    cardoSo, Ciro Flamarion; vainFaS, Ronaldo. Domnios da histria: ensaios sobre
     teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997.
    FreitaS, Marcos Cezar (org.). Historiografia brasileira em perspectiva. 5. ed. So
      Paulo: Contexto, 2003.
    Funari, Pedro Paulo. Arqueologia. So Paulo: Contexto, 2003.
    HuGHeS-WarrinGton, Marnie. 50 grandes pensadores da Histria. So Paulo:
     Contexto, 2002.
    monteneGro, Antonio Torres. Histria oral e memria: a cultura popular
     revisitada. So Paulo: Contexto, 2001.
    pinSKy, Jaime (org.). O ensino de Histria e a criao do fato. 11. ed. So Paulo:
      Contexto, 2004.
    pinSKy, Carla Bassanezi (org.). Fontes histricas. So Paulo: Contexto, 2005.
    vieira, Maria do Pilar de Arajo; peixoto, Maria do Rosrio da Cunha; KHoury,
      Yara Maria Aun. A pesquisa em Histria. So Paulo: tica, 1989.



                                                                                   161
                  FundAmentAlismo
Fundamentalismo




                       Desde o fim da Unio Sovitica, no ltimo quartel do sculo xx, e o consequente
                  desmantelo da diviso ideolgica que repartia o mundo em duas esferas, o
                  fundamentalismo religioso tem sido apontado como o principal perigo  nova
                  ordem mundial. Trata-se de tema que vem suscitando intensos debates e, por isso
                  mesmo, no possui um quadro interpretativo nico. O termo fundamentalismo se
                  refere a um determinado tipo de interpretao religiosa que procura seguir  risca os
                  preceitos fundamentais e mais tradicionais de dada religio. H trs tipos de bsicos
                  de fundamentalismos, todos ligados s grandes religies monotestas e imbricados
                  entre si: o fundamentalismo islmico, o cristo e o judaico. Em que esses tipos de
                  fundamentalismos se aproximam ou se afastam  uma questo interessantssima,
                  que ajuda a elucidar o prprio conceito.
                       O conjunto poltico-ideolgico do pensamento fundamentalista  bem mais
                  complexo do que a simplificao que se v na mdia atualmente. Mas, em geral, todas
                  as formas de fundamentalismo contm um carter profundamente reacionrio, que se
                  apresenta como a busca por um retorno s origens primitivas e puras de um tempo no
                  corrompido e uma rejeio a inmeros aspectos da modernidade. Algo, por exemplo,
                  como o que os Talibs fizeram no Afeganisto, que a famlia real saudita tenta manter na
                  Arbia, ou que diversos grupos cristos mantm nos Estados Unidos e na Europa.
                       Cronologicamente, o primeiro fundamentalismo a surgir foi o cristo, que
                  inclusive deu nome a esse tipo de pensamento e ao. Segundo Sergio Paulo Rouanet,
                  o fundamentalismo cristo tem uma vertente catlica, chamada de integrismo,
                  caracterizada pelo contedo antiliberal e antimoderno do Syllabus, do papa Pio ix,
                  encclica datada de 1864. Mas foi no protestantismo americano que o fundamentalismo
                  cristo floresceu. A origem do termo fundamentalista est na publicao nos eua dos
                  doze fascculos da obra The Fundamentals (1909-1915), que postulava a virgindade
                  de Maria, a infalibilidade da Bblia e cujo texto afirmava a literal verdade divina, a
                  divindade de Cristo, sua morte e ressurreio e a salvao da alma pela f. O movimento,
                  de carter eminentemente conservador, ainda  bastante atuante e se ope ao
                  intelectualismo, chegando at mesmo a proibir, em certos Estados americanos, o ensino
                  da teoria cientfica da evoluo. De modo aparentemente contraditrio, o movimento
                  se expandiu com o auxlio de avanados meios tecnolgicos de comunicao de
                  massa, aumentando sua influncia poltica. Alm disso, durante a Guerra Fria,
                  por exemplo, sobretudo a partir de 1960, esse movimento protestante combateu o
                  Comunismo, e hoje combate o aborto e o homossexualismo. De grande fora eleitoral
                  nos eua, compe as foras de direita que defendem um patriotismo messinico,
                  acreditando que a "Amrica" (como os norte-americanos denominam os eua)


                  162
 a nao eleita, e influenciando enormemente o presidente George W. Bush, que




                                                                                          Fundamentalismo
transmitiu aos seus discursos e atos contra o terrorismo um sentido cruzadstico de
uma "guerra monumental do bem contra o mal", alm de internamente defender
valores tradicionais quanto  sexualidade e  famlia.
     O fundamentalismo islmico, por sua vez, surgiu em oposio  influncia
modernizante e ocidentalizante implementada a partir do imperialismo europeu
do sculo xix, tomando, assim, a forma de resistncia cultural. Atualmente h
vrias tendncias desse fundamentalismo, e entre elas h algumas mais radicais que
pregam a luta armada para atingir seus objetivos. Mas, em geral, o fundamentalismo
islmico postula um retorno pacfico s origens religiosas do Isl e uma reforma dos
costumes e da sociedade a partir da "sharia", da lei do Coro. Foi no contato com
o Ocidente que se originou a opo islmica pelo retorno mtico ao passado, pela
opo antimoderna e tradicional, que prega o retorno s glrias passadas de sua
sofisticada civilizao. Assim, o pensamento fundamentalista ganhou apoio entre
vastas camadas populares, em diferentes pases onde o Isl  a religio predominante,
por prometer para o futuro a mesma glria do passado, por meio do reavivamento
da turath  termo traduzido livremente como tradio. Esse reavivamento, no
entanto, chocou-se primeiro contra o prprio pensamento rabe modernizante, que
via a Europa como um desafio, e arquitetava maneiras de, sem abandonar a cultura
islmica, vencer no jogo dos europeus, desenvolvendo um processo de modernizao
das sociedades muulmanas. Em seu incio, o fundamentalismo islmico teve, em
sua vertente mais radical, um carter nacionalista, como o movimento Al-Jihad,
que assassinou o presidente egpcio Anwar Sadat em 1981, e o Gia (Grupo Islmico
Armado, atuante na Arglia na dcada de 1990). Mas, em um segundo momento,
o fundamentalismo extremista tomou um carter internacional, com ramificaes
em diferentes Naes, como ocorre atualmente com o grupo terrorista Al Qaeda.
     J o fundamentalismo judaico configura uma ultraortodoxia que se ope aos
demais judeus liberais. Para os ultraortodoxos judeus, a lei de Deus tem valor absoluto
e deve ser seguida tanto na vida pblica quanto na vida privada. Eles pregam tambm
uma viso arcaizante, que defende o retorno s glrias do passado judeu, pleiteando
inclusive que o moderno Estado de Israel adote as caractersticas dos reinos hebreus da
poca do Antigo Testamento. O filsofo brasileiro Sergio Paulo Rouanet afirma que
a tendncia ao isolamento  to forte entre os judeus ultraortodoxos que isso separa
o grupo at de outras tendncias do prprio Judasmo. Essa tendncia defende que se
devem evitar contatos com pessoas de outras comunidades.
     No Oriente Mdio da segunda metade do sculo xx e incio do xxi, os
fundamentalistas judeus e muulmanos entraram em conflito aberto, dificultando
enormemente qualquer processo de paz na regio, que vive assolada por disputas
polticas e territoriais. Como os partidos ultraortodoxos tm peso eleitoral, as foras



                                                                                  163
                  de direita tendem a imperar em Israel, que luta pela restaurao das fronteiras
Fundamentalismo



                  bblicas de um Estado que existiu apenas na Antiguidade, em detrimento do povo
                  palestino, de religio muulmana. Por outro lado, os fundamentalistas islmicos, que
                  tm enorme influncia em pases como a Arbia Saudita, fazem tambm ferrenha
                  oposio a quaisquer dilogos com o Estado de Israel. Tudo isso contribui para que
                  uma disputa, que em sua origem nada tinha de religiosa, hoje gere inimizades entre
                  duas das mais significativas religies do mundo, que no passado j vivenciaram, em
                  diferentes momentos, relaes pacficas e de cooperao.
                       Entre os trs fundamentalismos, h um conjunto de semelhanas. Apesar da
                  pregao antimoderna em seus discursos, os fundamentalistas no abrem mo dos
                  recursos da cincia moderna quando lhes convm: h dcadas que os aiatols do Ir,
                  por exemplo, mantm programas atmicos, tanto energticos quanto militares; nos
                  anos 1980, o exrcito iraniano, em guerra contra o Iraque, mostrou-se muito bem
                  armado. O fundamentalismo cristo nos eua, por sua vez, faz uso de numerosos canais
                  de tv e emissoras de rdio para expor suas ideias contrrias  teoria da evoluo
                  e em defesa de uma leitura literal do livro bblico do Gnesis na discusso sobre
                  a origem do homem e do universo. Sem falar na influncia que a direita religiosa
                  exerce na vida poltica norte-americana e no uso do monumental aparato militar
                  do Estado norte-americano para atender  defesa da chamada "nao eleita". A
                  tendncia fundamentalista judaica, por outro lado, entende muito bem dos circuitos
                  financeiros do Capitalismo moderno. Logo, como argumenta Rouanet, todos os
                  fundamentalismos aceitam a modernidade tcnico-cientfica. Outra semelhana
                  profunda entre eles  a rejeio da modernidade poltica e cultural, chocando-se
                  com o pluralismo poltico e o respeito aos direitos humanos. Do ponto de vista
                  cultural, repudiam a viso secular do mundo  fruto do avano da modernidade ,
                  e buscam uma ressacralizao da sociedade a partir de um sentido teocrtico. Em
                  comum, os trs fundamentalismos defendem tambm pontos de vista tradicionais
                  em questes morais e uma posio misgina em relao  mulher.
                       H algumas divergncias entre os estudiosos do tema quanto ao carter e ao
                  sentido histrico do fundamentalismo. Para alguns autores, como Michael Hardt e
                  Antonio Negri, as diferentes correntes fundamentalistas esto ligadas pelo fato de serem
                  vistas interna e externamente como movimentos antimodernos, como ressurreies
                  de identidades e valores primordiais que antecedem e se opem  modernidade e 
                  modernizao. Para esses autores, o fundamentalismo  um tipo paradoxal de teoria ps-
                  moderna, tendo surgido cronologicamente aps a modernidade. J Rouanet considera
                  que apenas alguns aspectos da modernidade so repudiados pelos fundamentalismos,
                  enquanto a modernidade tcnico-cientfica  utilizada por eles para fins antimodernos.
                  Robert Kurz, por sua vez, apresenta uma viso semelhante  de Rouanet ao afirmar que
                  tanto os grupos terroristas quanto a sociedade ocidental e seu totalitarismo econmico



                  164
so adeptos da chamada "razo instrumental", tpica da modernidade tcnica e




                                                                                             Fundamentalismo
cientfica. Para Rouanet e Kurz, ao que parece, o fundamentalismo  um sintoma da
prpria modernidade, no um fenmeno constitutivo da ps-modernidade, e muito
menos (como querem os fundamentalistas) uma volta ao passado.
     Tema bastante polmico, o fundamentalismo religioso deve ser objeto de pesquisas
entre estudantes dos nveis Fundamental e Mdio. O material a ser analisado 
frtil: jornais, revistas, programas de televiso, sites etc. Incentiva-se, assim, que, no
cotidiano, eles passem a ver com um olhar mais crtico as informaes que a mdia
transmite. Alm disso,  preciso abordar os efeitos polticos, sociais e culturais que o
radicalismo e o irracionalismo cego, inerentes aos fundamentalismos, exercem sobre
o mundo atual, escapando de generalizaes enganosas do tipo "todo fundamentalista
 muulmano e terrorista". Essa afirmao  um preconceito etnocntrico, repassado
pela mdia ocidental, baseada na atual poltica norte-americana. Atentando para esses
cuidados, o fundamentalismo  um tema que traz grandes contribuies para uma
compreenso mais ampla de assuntos como tica, liberdade, resistncia cultural,
respeito  diversidade cultural e globalizao.

Ver tAmbm
    Cristianismo; Etnocentrismo; Evoluo; Globalizao; Imperialismo; Isl; Judasmo;
    Liberdade; Mito; Modernidade; Monotesmo; Ps-modernidade; Orientalismo;
    Religio; Terrorismo; Tradio.

sugestes de leiturA
    al-Jabri, Mohammed Abed. Introduo  crtica da razo rabe. So Paulo: Ed.
      Unesp, 1999.
    berlin, Isaiah. O sentido de realidade: estudo das ideias e de sua histria. Rio de
      Janeiro: Civilizao Brasileira, 1999.
    demant, Peter. O mundo muulmano. So Paulo: Contexto, 2003.
    Hardt, Michael; neGri, Antonio. Imprio. Rio de Janeiro: Record, 2001.
    Hourani, Albert. Uma histria dos povos rabes. So Paulo: Companhia das
     Letras, 1994.
    marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria do tempo presente.
     So Paulo: Contexto, 2000.
    pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Faces do fanatismo. So Paulo:
      Contexto, 2004.
    Silva, Francisco Carlos Teixeira da; medeiroS, Sabrina Evangelista; vianna,
      Alexander Martins (orgs.). Dicionrio crtico do pensamento da direita:
      instituies e personagens. Rio de Janeiro: Faperj/Mauad, 2000.



                                                                                     165
 g

gnero
          G
      Conceituar gnero  caminhar por uma trilha que ainda se est construindo e
tem muito a ver com poltica e teoria. Nesse sentido, o prprio conceito de gnero
foi fruto tanto de discusses polticas quanto tericas. Normalmente associado ao
estudo das relaes entre homens e mulheres pelas cincias humanas, ele ajudou
a despertar o interesse da historiografia em compreender a multiplicidade de
identidades femininas ao longo da histria.
      A definio mais corrente de gnero  a que o considera uma categoria relacional,
ou seja, gnero  entendido como o estudo das relaes sociais entre homens e mulheres,
e como essas relaes so organizadas em diferentes sociedades, pocas e culturas.
Os pesquisadores que utilizam essa categoria de anlise fazem questo de frisar que
no campo das relaes entre homens e mulheres h uma distino entre a esfera
biolgica, que  o sexo propriamente dito e suas caractersticas fsicas, e a esfera social e
cultural, que  a identidade de gnero. Assim, no h uma essncia masculina ou uma
essncia feminina imutveis e determinadas por caractersticas biolgicas. O que h
so construes sociais e culturais que fazem que homens e mulheres sejam educados
e socializados para ocupar posies polticas e sociais distintas, normalmente cabendo
aos homens as posies hierrquicas mais elevadas, enquanto s mulheres so reservadas
as posies menos privilegiadas. Desse modo, o conceito de gnero tem muito a ver com
a forma como so percebidas as relaes de poder entre homens e mulheres. Segundo
ele, as identidades masculina e feminina so construes sociais e culturais que impem
aos sexos condutas, prticas, espaos de poder e anseios diferentes. Tudo isso baseado
nas distines que a prpria sociedade constri para o feminino e o masculino, e no
em diferenas naturalmente predeterminadas entre homens e mulheres.
      Historicamente, o conceito de gnero surgiu para se contrapor a uma viso que
enfatizava as diferenas biolgicas, ou sexuais, entre homens e mulheres, que acabava
naturalizando a dominao masculina. A nova categoria veio enfatizar que a natureza
no explica, e muito menos determina, a relao entre os sexos. So os componentes
sociais e culturais que interferem mais decisivamente na maneira pela qual os gneros se
relacionam, no havendo papis fixos para homens e mulheres em nenhuma esfera social.


166
     A categoria de gnero tem uma histria que se inicia com o movimento




                                                                                        Gnero
feminista, nas dcadas de 1960 e 1970. Este, em sua luta poltica, percebeu
que tinha de construir uma Histria das mulheres, pois s assim explicaria a
subordinao feminina e seus mecanismos e divulgaria a resistncia e a luta de
muitas mulheres no decorrer da histria. Construir esse passado era, assim, um
ato poltico fundamental para a afirmao do movimento no presente. Logo,
foram as prprias mulheres que levantaram o vu do silncio na histria, pois, at
ento, o preconceito da historiografia produzida por homens no reconhecia que
elas faziam parte da histria. Havia, nesse perodo, uma conexo estreita entre o
fazer poltico e o fazer intelectual. Assim, at os anos 1970, Histria das mulheres
foi um campo majoritariamente feminino, j que os homens marginalizavam seus
escritos. Dessa forma, as historiadoras e demais estudiosas, ligadas ao movimento
feminista, construram uma "histria feminina" paralela  "histria dos homens".
No entanto, com as mudanas que ocorreram no prprio movimento feminista e
na concepo de Histria a partir dos ltimos anos da dcada de 1970, a produo
historiogrfica ocidental se afastou da poltica. Esse rompimento conferiu maior
legitimidade acadmica ao saber histrico produzido pelas (e sobre) as mulheres,
e agora tambm por homens. Foi nesse momento que surgiu, na dcada de 1980, a
categoria gnero, elaborada como um termo aparentemente neutro e desvinculado
da ideologia feminista que usava a "perigosa" ideia de Histria das mulheres.
     A polmica, no entanto, continua: fazer uma Histria das mulheres ou uma
Histria de gnero? Historiadores e historiadoras que defendem o uso da categoria
gnero afirmam que no h uma identidade nica para o que se chama genericamente
mulheres, por isso a ideia de gnero auxilia na compreenso da diversidade das
condies femininas ao longo da histria, sobretudo quando relacionadas aos
homens. Ou seja, h muitos tipos de mulheres diferentes ao longo da histria,
que possuem condies sociais distintas dependendo de numerosos fatores, como
a cor da pele, a etnia, a classe, a idade etc., e elas devem ser estudadas em relao
aos homens, e no de forma isolada. Os defensores de uma Histria das mulheres
ressaltam, por seu turno, que gnero no explica tudo e no se pode ir logo fazendo
uma histria das relaes sociais entre homens e mulheres quando ainda se ignora
muito da histria das prprias mulheres. H, contudo, posies menos ortodoxas
que fazem uso da categoria gnero associada a outras categorias, como raa e classe,
pois a desigualdade no se d apenas entre homens e mulheres, como um bloco
homogneo. Entre as mulheres, h negras, brancas, ndias, judias, rabes, mulatas,
ricas e pobres, entre muitas outras diferenciaes que precisam ser pensadas.
     O termo gnero no deve ser entendido como sinnimo de mulher/mulheres
ou de sexo, uma vez que essa categoria de anlise no combina com determinaes


                                                                                167
         biolgicas. Mas isso no quer dizer que, na prtica, as pessoas no acreditem em
Gnero



         determinaes biolgicas. Para essas pessoas, a prpria diferenciao fsica entre
         homem e mulher j justifica a dominao masculina ou as diferenas sociais entre
         homens e mulheres. Uma coisa  o conceito, que visa  superao de vises estreitas e
         estereotipadas em relao s condutas das pessoas, e outra  a forma como, no cotidiano,
         essas pessoas percebem o corpo. No cotidiano, o comum  as pessoas tomarem as
         diferenas biolgicas como justificativa das diferenas sociais. Ou seja, elas naturalizam
         as prticas de dominao que sequer so percebidas, exatamente porque aparecem como
         "evidentes" demais. No entanto, a Histria no deve ficar restrita aos papis de gnero,
          diferenciao entre a identidade masculina e a feminina, mas perceber que a opresso
         de gnero pode estar associada a outros tipos de opresso social. Por ltimo,  preciso
         lembrar que os papis sociais de gnero so mutveis, e homens e mulheres podem, ao
         longo do tempo e dependendo da sociedade em que esto inseridos, apresentar prticas
         e comportamentos diferenciados.
              Enfatizando ou no a categoria gnero, atualmente dispomos de vasta produo
         historiogrfica relativa  Histria das mulheres no Brasil. Marco na ampliao das
         publicaes sobre o tema foi a coletnea organizada em 1997 por Mary Del Priore,
         intitulada Histria das mulheres no Brasil. Sexualidade, honra feminina, prostituio,
         famlia, trabalho e cotidiano so apenas algumas das faces de instigantes estudos
         realizados por especialistas nessa rea, que compem a coletnea. Escravas, ndias,
         senhoras, mulheres forras, imigrantes, operrias, escritoras, entre tantas outras,
         tiveram suas histrias contadas por historiadoras e historiadores que ousaram
         levantar a poeira dos documentos para abordar essa temtica que ajuda a compor
         um quadro bem mais completo e rico da histria do Brasil.
              Na sala de aula, devemos estar sempre atentos para mostrar que a dominao
         masculina e a violncia de gnero esto baseadas em percepes de gnero
         desenvolvidas e alimentadas por diversos mecanismos do meio social: pela
         escola, pela prpria famlia, na vida profissional e assim por diante. Em suma, a
         dominao de gnero (que pode ter uma face bem sutil e invisvel), quase sempre, 
         incorporada pelas mulheres dominadas, devido  forma como as instituies sociais
         so constitudas e as imagens que elas transmitem. No meio escolar, devemos nos
         acautelar para no reproduzirmos preconceitos arraigados em livros didticos, filmes,
         msicas e em outras linguagens.  fundamental estimular nas alunas e nos alunos
         uma conduta de suspeita perante os discursos produzidos nos mais diversos meios
         de comunicao, analisando, por exemplo, como os filmes e as novelas apresentam
         as ideias de feminilidade e masculinidade.



         168
Ver tAmbm




                                                                                           Globalizao
    Cidadania; Classe Social; Cotidiano; Discurso; Famlia; Feminismo; Identidade;
    Ideologia; Imaginrio; Poltica; Raa; Teoria; Violncia.

sugestes de leiturA
    bourdieu, Pierre. A dominao masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.
    caulField, Sueann. Em defesa da honra: moralidade, modernidade e nao no
     Rio de Janeiro (1918-1940). Campinas: Ed. Unicamp/Centro de Pesquisa em
     Histria Social da Cultura, 2000.
    del priore, Mary (org.). Histria das mulheres no Brasil. So Paulo: Contexto, 1997.
    edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
      entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
    FreitaS, Marcos Cezar (org.). Historiografia brasileira em perspectiva. 5. ed. So
      Paulo: Contexto, 2003.
    HuGHeS-WarrinGton, Marnie. 50 grandes pensadores da Histria. So Paulo:
     Contexto, 2002.
    pinSKy, Carla Bassanezi; pedro, Joana Maria. Mulheres: igualdade e especificidade.
      In: pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So
      Paulo: Contexto, 2003.
    Samara, Eni de Mesquita; SoiHet, Rachel; matoS, Maria Izilda S. de (orgs.).
      Gnero em debate: trajetrias e perspectivas na historiografia contempornea.
      So Paulo: Educ, 1997.




globAlizAo
     O termo globalizao surgiu na dcada de 1980, nas escolas de administrao
dos eua, para designar a expanso transnacional de diversas empresas. O conceito
logo se ampliou para definir o que para Manuel Castells  um momento histrico
do porte da Revoluo Industrial.
     A globalizao  principalmente um processo de integrao global, definindo-se
como a expanso, em escala internacional, da informao, das transaes econmicas
e de determinados valores polticos e morais. Em geral, valores do Ocidente. Herdeira
do imperialismo financeiro dos sculos xix e xx, a globalizao ultrapassa as fases
anteriores de internacionalizao da economia para abranger praticamente todos os
pases do mundo.  uma nova fase do Capitalismo, surgida com o fim do bloco socialista


                                                                                   169
               e a queda do muro de Berlim em 1989; eventos que levaram  grande expanso de
Globalizao



               mercados, alcanando reas antes vetadas ao Capitalismo.
                    Apesar da globalizao atingir a cultura e as mentalidades, seu principal fator  a
               economia, criando mercados e integrando regies, a partir de uma nova distribuio
               internacional de trabalho entre os pases globalizadores e globalizados. Ou seja,
               entre aqueles Estados que controlam a dinmica produtiva e comercial e aqueles
               que precisam se submeter a essa dinmica.
                    Essa nova distribuio internacional de trabalho  mais complexa que a tradicional
               por duas razes: primeira, um pas pode ao mesmo tempo globalizar e ser globalizado,
               como  o caso da Espanha  globalizada pela Europa e globalizadora da Amrica do
               Sul. Segunda, os pases perifricos passam a produzir peas e componentes de produtos
               montados nos pases centrais do Capitalismo, criando, assim, uma desigualdade de
               tarefas e lucros em um mesmo sistema de produo.
                    Cientistas polticos e economistas que defendem a globalizao como um processo
               benfico para a humanidade, afirmam que ela gera riqueza e desenvolvimento para
               as Naes envolvidas. No entanto, apesar do crescimento da globalizao econmica,
               por um lado, levar ao enriquecimento de determinados setores capitalistas, como
               as multinacionais e os investidores nacionais em cada pas, por outro, gera camadas
               cada vez maiores de marginalizados, desempregados e subempregados, estando assim
               longe de integrar toda a populao mundial nas benesses da sociedade de consumo.
                    Apesar de ter surgido como um fenmeno da economia, no incio do sculo xxi
               a globalizao se apresenta tambm como um processo de transformaes sociais
               e culturais.  a chamada nova ordem mundial, que aparece tanto na globalizao
               econmica e cultural quanto no neoliberalismo poltico e em certas vertentes da
               ps-modernidade intelectual.
                    Existe um conjunto de teorias econmicas, sociais e culturais que visa legitimar
               a globalizao. Do ponto de vista cultural, a hegemonia de setores que dominam as
               comunicaes no mundo globalizado produz um discurso que defende a globalizao
               das informaes, mediante, por exemplo, a internet, no apenas democratizando
               o conhecimento, como aproximando pessoas de diferentes culturas. No entanto,
               longe de integrar totalmente a humanidade, a globalizao da informao  de fato
               monopolizada por pequenos grupos  deixa de lado amplos setores sociais em todos
               os pases, setores sem educao formal ou acesso aos meios para participar desse
               intercmbio. A prpria natureza desigual e excludente da globalizao no permite,
               assim, que sua vertente cultural v muito mais longe. Por outro lado, a indstria
               cultural funciona como um mecanismo de imposio de valores de determinadas



               170
regies a todo o mundo sob a mesma justificativa da integrao total da humanidade.




                                                                                         Globalizao
Desse modo, longe de haver um intercmbio cultural, a globalizao em geral
promove os valores do Ocidente.
     A poltica neoliberal tambm se apresenta como um aspecto da nova ordem
mundial, caracterizando-se como a prpria ideologia da globalizao. Nascido na
dcada de 1980 com os governos de Ronald Reagan nos eua e de Margaret Thatcher
na Inglaterra, o neoliberalismo se baseia na abertura de mercados, no fim do
incentivo  indstria nacional, na reduo do papel do Estado e nas privatizaes.
Justificando a expanso do mercado globalizado, a poltica neoliberal tem crescido
em todo o mundo, sendo barrada apenas no leste pelos chamados tigres asiticos,
como Cingapura, que no abrem mo de um Estado forte.
     O neoliberalismo  a retomada do liberalismo do sculo xix, que defende
sobretudo a tese do Estado mnimo, ou seja, a menor intromisso do Estado no
mercado e na economia. Os neoliberais acreditam na hegemonia do setor privado
e na desigualdade social como algo positivo para desenvolver a concorrncia,
selecionando os competitivamente mais aptos. Dessa forma, o neoliberalismo prega o
darwinismo social, ou seja, a lei do mais forte, como na poltica de governo inspirada
na filosofia de Frederick von Hayek, em obra de 1944, The Road to Serfdom, que
pregava a excluso de amplos setores da populao das decises polticas.
     Tanto a globalizao quanto o neoliberalismo encontraram importante campo
de atuao na Amrica Latina. Mas a insero dessa regio na globalizao no se d
de forma homognea e varia desde os pases exportadores de produtos tradicionais,
como a Bolvia, a Colmbia e a Venezuela, at aqueles com setores industriais
importantes, como o Brasil e o Mxico.
     Apesar de o neoliberalismo ter sido projetado internacionalmente com os
governos de Reagan e Thatcher na dcada de 1980, na Amrica Latina a reestruturao
econmica teve seu incio j na dcada de 1970 com a chegada ao poder dos governos
militares. O Chile foi o precursor do neoliberalismo latino-americano com a ditadura
de Pinochet, que aliava autoritarismo, represso e livre mercado. No fim dos anos
de 1980, com a redemocratizao, o movimento de capital na Amrica Latina
cresceu vertiginosamente devido  expanso capitalista com o fim do Socialismo.
A transnacionalizao da economia e a internacionalizao do capital engoliram a
Amrica Latina, que passou a ser pressionada para implementar a liberalizao do
comrcio e a reduo do Estado, aderindo, assim, ao neoliberalismo. Ao mesmo tempo,
a importncia dos blocos regionais cresceu no cenrio internacional, tornando a
regionalizao uma tendncia da globalizao. Tambm a Amrica Latina aderiu a essa
tendncia, sendo o Mercosul o mais importante de seus blocos. Tendo como pases-
membros o Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Paraguai, seu objetivo  criar um mercado


                                                                                 171
               comum que integre essas Naes. No entanto, a integrao regional depara com dois
Globalizao



               grandes obstculos, a disparidade econmica entre os associados e a dependncia
               externa. Apesar disso, o Mercosul tem sido bem-sucedido em promover o comrcio
               regional e realizar acordos de livre-comrcio com a Unio Europeia.
                    No entanto, ainda que a globalizao traga sucessos limitados para a Amrica
               Latina, expressos sobretudo no comrcio, suas caractersticas intrnsecas promovem
               a desigualdade social, devido  poltica neoliberal. Assim, tm aumentado
               consideravelmente os abismos de pobreza no continente. Uma das razes para isso
               est no fato de que, ao contrrio do neoliberalismo europeu, que mantm as funes
               sociais do Estado, a Amrica Latina adotou a ideia do Estado mnimo, privatizando
               setores bsicos para o bem-estar social, como a sade, a educao e a previdncia social.
               Alm disso, o livre mercado amplia o nmero de desempregados, de trabalhadores
               informais e de subempregados sem garantias sociais. Soma-se a isso o fato de que
               uma das principais propostas sociais do neoliberalismo  a desregulamentao do
               trabalho, implantada com modificaes na legislao trabalhista de cada pas. Se
               tomarmos o Mxico como exemplo dessa situao, que se generaliza no continente,
               observaremos que desde a implantao da abertura comercial, da venda de setores
               estatais e do incentivo ao capital privado, as relaes de trabalho passaram a girar
               em torno de conceitos como produtividade e flexibilidade, criando novas formas de
               contratao: mo de obra temporria, salrio por produo que no cobre as horas
               de descanso e salrio diferenciado para as mesmas funes. Os resultados sociais
               dessas novas relaes de trabalho podem ser vistos tanto no Mxico como em outros
               pases de mesmo direcionamento poltico, como a Argentina e o Brasil: a anulao de
               benefcios salariais, a instabilidade salarial, os empregos temporrios e a deteriorao
               generalizada da qualidade de vida.
                    Tal situao leva a uma crescente crtica  globalizao e a suas contrapartes,
               o neoliberalismo e a ps-modernidade, acusada esta ltima de irracionalista e
               excessivamente relativista. Seja como for, a sociedade brasileira est intensamente
               envolvida nesse processo cada vez mais rpido de mundializao. Se, de um lado,
               cresce a influncia poltica e econmica do Brasil sobre os pases da Amrica do Sul
               e perante toda a Amrica Latina, por outro, a enorme discrepncia na distribuio
               de renda nacional tambm cresce. O empresariado  beneficiado, enquanto os
               trabalhadores tornam-se cada vez mais pobres. Mais grave, talvez,  a contnua perda
               de direitos salariais, como o 13 salrio, a licena maternidade, frias, situao cada
               vez mais visvel no mercado de trabalho brasileiro.
                    Essa  uma realidade vivenciada hoje tanto por estudantes como por professores,
               e aliada a ela est a convivncia cotidiana com o crescimento da marginalizao dos
               jovens de baixa renda, pois, enquanto adolescentes e crianas de classe mdia alta tm


               172
acesso  internet e  cultura globalizada, crianas e adolescentes de baixa renda esto




                                                                                            Golpe de Estado
excludos desse meio. Por outro lado, o acesso cotidiano que os jovens de classe
mdia e alta tm  cultura mundial traz outros problemas, como a generalizao da
sociedade de consumo. Em ambos os casos, os profissionais em sala de aula precisam
se adaptar ao tipo de realidade que encontram e procurar contornar uma excluso
social crescente, tentando evitar o preconceito social que se desenvolve no Brasil e gira
em torno da posse ou no do acesso aos bens econmicos e culturais da globalizao.

Ver tAmbm
    Capitalismo; Cidadania; Imperialismo; Indstria Cultural; Liberalismo; Ps-
    modernidade; Trabalho.

sugestes de leiturA
    barboSa, Alexandre de Freitas. O mundo globalizado: poltica, sociedade e
      economia. So Paulo: Contexto, 2001.
    caStellS, Manuel. A era da informao. So Paulo: Paz e Terra, 1999, 3v.
    Faria, Ricardo Moura; liz, Mnica Miranda. Da Guerra Fria  nova ordem
      mundial. So Paulo: Contexto, 2003.
    HobSbaWm, Eric. O novo sculo. So Paulo: Companhia das Letras, 2000.
    lima, Marcos Costa (org.). O lugar da Amrica do Sul na nova ordem mundial.
      So Paulo: Cortez, 2001.
    marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria do tempo presente.
     So Paulo: Contexto, 2000.
    pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
      Contexto, 2003.
    SantoS, Milton. Por uma outra globalizao: do pensamento nico  conscincia
      universal. Rio de Janeiro: Record, 2003.
    SinGer, Paul. O Brasil na crise: perigos e oportunidades. So Paulo: Contexto, 1999.




golpe de estAdo
     Na histria da Amrica Latina, o cenrio poltico desde a independncia sempre
foi tumultuado por insurreies e movimentos armados. Durante os sculos xix e xx,
tornou-se comum uma forma especfica de insurreio poltica, o golpe de Estado. A
expresso golpe de Estado vem do francs coup d'Etat, frmula empregada para designar


                                                                                    173
                  a tomada de poder por Napoleo no 18 Brumrio, quando este, em 1799, assumiu o
Golpe de Estado



                  poder da Frana ps-Revoluo Francesa, substituindo o governo do Diretrio por
                  um consulado com trs nomes, o seu includo, e logo pelo seu governo individual e
                  ditatorial. Golpe de Estado passou ento a denominar todo movimento de subverso da
                  ordem constitucional, toda derrubada de um regime poltico, em geral por elementos
                  de dentro do Estado, principalmente as Foras Armadas. Nesse sentido, golpe de Estado
                   um movimento realizado contra uma Constituio, e como tal est bastante atrelado
                  ao Ocidente contemporneo, visto ser nesse contexto histrico que predominam os
                  regimes constitucionais. De forma geral, o golpe de Estado  um fenmeno poltico
                  quase sempre de carter violento, uma ao radical contra a ordem vigente.
                       No caso do golpe de Napoleo, alm de inaugurar o golpe de Estado como conceito,
                  iniciou tambm a tradio da ditadura de tipo bonapartista, na qual um governante
                  assume carter supremo, enfraquecendo todas as formas de organizao poltica de
                  sua sociedade e governando em relao direta com o povo. Esse caso define ainda uma
                  outra importante caracterstica do golpe de Estado, o fato de que ele est frequen-
                  temente associado ao estabelecimento de uma ditadura. O objetivo de todo golpe de
                  Estado  tomar o poder, derrubando o governo em exerccio. Mas o golpe no  um
                  regime de governo, no  governo. Ele  um movimento poltico de contestao da
                  ordem que prepara o caminho para outra forma de governo, em geral uma ditadura.
                       Existem vrias expresses utilizadas como sinnimos de golpe de Estado na
                  Histria: na Amrica Latina e Espanha  o "pronunciamiento" ou quartelada, o golpe
                  militar clssico. Na Alemanha,  o putsch. Termos correlatos para o golpe de Estado
                  de tipo militar, com finalidades polticas. E, no entanto, no devemos generalizar,
                  pois nem todos os golpes de Estado so militares.
                       Apesar do pronunciamiento ou quartelada ser o mais conhecido e o mais
                  difundido no  de forma nenhuma o nico tipo de golpe de Estado. Primeiro,
                  na prpria classificao de golpe militar, temos de diferenciar o golpe de Estado
                  bem-sucedido, o pronunciamiento, das outras formas: as intentonas, por exemplo,
                  so revoltas militares tambm com fins polticos, mas que ao fracassarem so
                  consideradas golpes insensatos, sendo este o significado da palavra intentona. Os
                  motins, por sua vez, so revoltas militares contra a hierarquia, normalmente sem
                  objetivos polticos, nem finalidade de derrubar a ordem vigente. Temos ainda as
                  insurreies, levantes muitas vezes populares e civis. Lembrando que a maioria das
                  intentonas, insurreies e motins no chega a abalar gravemente a ordem social a
                  que pertencem. Os golpes de Estado, pelo contrrio, por sua organizao, mesmo
                  que no sejam bem-sucedidos, causam graves abalos  ordem poltica.
                       Por outro lado, existem os golpes no militares. Por exemplo, o chamado golpe
                  branco, que acontece quando grupos polticos e sociais usam de presso  e no de


                  174
fora  para forar uma deciso governamental ou impor um governante. Um caso de




                                                                                           Golpe de Estado
golpe branco aconteceu aps a renncia do presidente brasileiro Jnio Quadros, em
1961, quando os militares e as elites se recusaram a aceitar a posse do vice-presidente,
o esquerdista Joo Goulart, e pressionaram politicamente, conseguindo transformar
o regime de governo de presidencialismo em parlamentarismo. No entanto, a crise
gerada pelo governo de Joo Goulart, que conseguiu a volta do presidencialismo
um ano depois, terminou por levar ao golpe de 1964, desfechado por militares de
direita. Enquanto o golpe do parlamentarismo foi um golpe branco, realizado pelo
Congresso, o movimento de 1964, por sua vez, foi um pronunciamiento tpico, ou
seja, um exemplo de golpe de Estado militar clssico.
     Um terceiro modelo de golpe de Estado  o autogolpe, em que um governante
legtimo, eleito, cancela os direitos constitucionais, revoga ilegalmente o poder do
Legislativo e do Judicirio, impondo-se de forma autoritria sobre a sociedade e
se configurando como uma ditadura. Exemplo desse tipo de golpe tambm pode
ser encontrado na Amrica Latina, como  o caso do governo de Fujimori no Peru,
que, apesar de eleito democraticamente em 1992, apoiou-se nas Foras Armadas
para empreender um governo autoritrio, fechando o Congresso e suspendendo a
Constituio.
     O golpe de Estado como conceito se aproxima de outros, como revoluo: em
comum, ambos se apresentam como rupturas bruscas da ordem institucional. Alm
disso, o objetivo dos dois  derrubar um governo e instituir outro, mas enquanto a
revoluo  uma modificao radical das estruturas econmicas e sociais, o golpe,
em geral,  apenas a substituio pura e simples das elites no poder, quase sempre
levado a cabo pelas chamadas elites orgnicas, ou seja, as elites inseridas no prprio
Estado, como os burocratas e os militares. Normalmente  comum o golpe de Estado
ser apresentado como movimento conservador e a revoluo, como progressista.
Mas isso no pode ser um critrio definidor, pois, por um lado, existem revolues
consideradas conservadoras, como a iraniana de 1979, e, por outro, o prprio
conceito de progresso e conservadorismo  relativo.
     Para alguns autores, o golpe de Estado  uma caracterstica de sociedades
politicamente instveis e subdesenvolvidas, sobretudo no sculo xx, rarssimas vezes
sendo visvel na Europa e na Amrica do Norte anglo-sax. Nessa abordagem, a maior
ou menor ocorrncia de golpes de Estado est atrelada  existncia ou ausncia de
uma cultura poltica democrtica instituda na sociedade. Assim, pases com slidas
instituies democrticas e representativas em geral tm pequena ou nenhuma
incidncia de golpes de Estado. No entanto, se tais instituies so mais comuns na
Europa ocidental, no podemos esquecer exemplos como o da ndia, que durante
o sculo xx no conheceu golpes militares, sendo sua nica experincia golpista um


                                                                                   175
                  golpe branco proferido por Indira Ghandi em 1970, que desmantelou a oposio
Golpe de Estado



                  no Congresso. Isso se explica porque a ndia, apesar de ser Terceiro Mundo, possui
                  slida tradio de representatividade legislativa, com uma cultura popular muito
                  voltada para a discusso poltica.
                       Quanto  historicidade do golpe de Estado, ou seja, sua delimitao temporal,
                  alguns pensadores defendem que esse movimento poltico  uma caracterstica
                  especfica do Estado nacional com Constituio, e logo existe apenas na Idade
                  Contempornea. Outros afirmam que o golpe de Estado pode ser definido, de forma
                  mais ampla, como um meio poltico para derrotar inimigos dentro do Estado, pela
                  utilizao da fora, e nesse caso pode ser visto desde as mais antigas civilizaes.
                       De qualquer forma, um golpe de Estado  por natureza subversivo, construdo
                  na clandestinidade, preparado com considervel antecedncia e planejamento. No
                  podemos, assim, estudar o golpe simplesmente a partir da tomada do poder. Sua
                  preparao talvez diga mais sobre seus objetivos e componentes do que o golpe em
                  si. Alm disso,  comum que antes mesmo da tomada de poder, os golpistas iniciem
                  um processo de destruio da legitimidade do governo junto ao povo, atacando
                  politicamente e por meio da mdia. Esse foi o caso, por exemplo, do golpe conservador
                  contra o presidente socialista eleito democraticamente no Chile, Salvador Allende,
                  em 1970-73. Antes mesmo da quartelada ser desfechada, a oposio conservadora
                  tentou um golpe branco no Congresso, sem sucesso, e iniciou um intenso processo de
                  sabotagem do governo, por meio de boicotes e campanhas negativas. No  incomum
                  tambm que no perodo de preparao os golpistas invistam na cooptao de aliados, de
                  lideranas polticas e sociais. O golpe de 1964, no Brasil, pode ser tomado como exemplo
                  em que os militares golpistas se preocuparam de antemo em constituir alianas e
                  conseguir apoio social antes do golpe, nesse caso, o apoio da Igreja e do empresariado.
                       Durante o sculo xx, uma importante caracterstica do golpe de Estado foi a
                  ligao entre os golpistas e uma ideologia internacional. Caso dos golpes do Terceiro
                  Mundo durante a Guerra Fria, quando tanto os eua quanto a Unio Sovitica foram
                  grandes incentivadores de golpes de direita e de esquerda, respectivamente.
                       Se definirmos o golpe de Estado como um fenmeno da Histria contempornea,
                  ligado  existncia do Estado nacional constitucional, podemos entender melhor a
                  razo da grande incidncia de golpes na Amrica Latina entre os sculos xix e xx, pois
                  nessa regio e nesse momento o prprio Estado nacional era no s recente como
                  importado de modelos externos europeus, e como tal tinha pouca ou nenhuma base
                  na sociedade. Alm disso, tambm as Constituies, elaboradas por elites dominantes,
                  no tinham sido construdas em cooperao com a sociedade. Logo, a mudana
                  brusca de elites governantes pouco interessava s massas, que, de qualquer forma,
                  no participavam nem do processo de construo do Estado nem de seu governo.


                  176
     Seja como for, o golpe de Estado  uma realidade na Amrica Latina at hoje,




                                                                                           Golpe de Estado
como bem demonstra o golpe branco de Fujimori no Peru da dcada de 1990.
O Brasil, a exemplo de muitos outros pases na regio, teve sua vida poltica e
social no sculo xx grandemente influenciada por diversos golpes de Estado, o
ltimo dos quais, em 1964, levou um governo militar ao poder por vinte anos,
com consequncias visveis at hoje na vida do pas. Nessa perspectiva, o tema
tem grande importncia para o ensino da Histria. Estudar os golpes de Estado
ao longo da histria  uma importante ferramenta para a compreenso do mundo
contemporneo e da Amrica Latina, alm de possibilitar diversas discusses em sala
de aula, como a falta de conscincia social, de cidadania e de participao poltica
no Brasil e na Amrica Latina. Uma carncia que permite a existncia de golpes de
Estado e de outras mazelas polticas da regio.

Ver tAmbm
    Cidadania; Democracia; Ditadura; Estado; Fascismo; Liberdade; Massa/Multido/
    Povo; Militarismo; Nao; Poltica; Revoluo; Terrorismo; Violncia.

sugestes de leiturA
    caSaleccHi, Jos nio. O Brasil de 1945 ao golpe militar. So Paulo: Contexto, 2002.
    coGGiola, Osvaldo. Governos militares na Amrica Latina. So Paulo: Contexto,
     2001.
    Ferreira, Mrio; numeriano, Roberto. O que  golpe de Estado. So Paulo:
      Brasiliense, 1993.
    GoodSpeed, Donald. Conspirao e golpes de Estado. Rio de Janeiro: Saga, 1966.
    luttWaK, Edward. Golpe de Estado: um manual prtico. Rio de Janeiro: Paz e
      Terra, 1991.
    malaparte, Curzio. Tcnica do golpe de Estado. Lisboa: Europa-Amrica, 1983.
    p inSKy , Jaime (org.). Histria da Amrica atravs de textos. So Paulo:
       Contexto, 1994.




                                                                                   177
 h

Helenismo
         H
     Ao falarmos de helenismo, estamos normalmente nos referindo  civilizao
desenvolvida na Antiguidade a partir da Grcia Clssica e de sua cultura. Tal perodo,
iniciado, para alguns autores, com o Imprio de Alexandre Magno no sculo iv
a.C., marcou a transio da civilizao grega para a romana. Nesse sentido, o
helenismo foi a expanso da cultura grega a partir do intercmbio que o Imprio
de Alexandre Magno promoveu entre essa cultura e diversas civilizaes orientais,
como os egpcios e os persas. No entanto, autores como Arnold Toynbee designam
como helenismo toda a civilizao grega antiga, desde o segundo milnio a.C. Tal
perspectiva se baseia na etimologia da palavra helenismo, derivada de Hlade, termo
que os prprios gregos utilizavam para designar sua terra. Toynbee acrescenta que
a palavra helenismo  a mais correta para designar a civilizao da Grcia Antiga,
pois grego e Grcia so termos anacrnicos que ultrapassam o perodo estudado. A
maioria dos historiadores, todavia, delimita o helenismo apenas a partir da expanso
da cultura grega com o Imprio de Alexandre Magno. Esse  o caso de Rostovtzeff, que
considera helensticos os reinos criados aps a dissoluo do Imprio de Alexandre
e o perodo entre a morte deste e a conquista do Oriente por Roma.
     Foi nesse contexto que, admirador da cultura das polis e discpulo de Aristteles,
Alexandre procurou levar a cultura grega para a sia  medida que seu Imprio
se expandia. Com sua morte, o Imprio foi dividido em trs unidades, cada uma
governada por um general heleno, que constituiu dinastia na regio: no Egito, o
general Ptolomeu fundou um reino e a dinastia Lgida; Seleuco fundou a dinastia
Selucida na Sria; e Antgono dominou a Macednia. Mas o helenismo ultrapassou
essas fronteiras, chegando at a ndia. A expanso da cultura grega realizada ainda
em vida de Alexandre incentivou a helenizao do Imprio, e o processo de fuso
cultural das matrizes helnicas, egpcias, persas e mesopotmicas continuou nos
grandes centros urbanos, aps a fragmentao do Imprio.
     Nesse sentido, podemos considerar o helenismo um conjunto cultural de base
grega, mas com influncias asiticas diversas. Uma das principais marcas desse
conjunto foi seu forte carter urbano, oriundo da interao da poltica de Alexandre,



178
que privilegiava as cidades como ponto estratgico defensivo, com as sociedades




                                                                                        Helenismo
conquistadas, muitas das quais tambm eram marcadamente citadinas.
     Nesse contexto, um dos mais importantes centros do helenismo foi Alexandria,
no Egito. Fundada por Alexandre, Alexandria se transformou na capital do Egito
ptolomaico, sendo considerada pela maioria dos estudiosos a principal metrpole
do helenismo com seus 500 mil habitantes. O que fez de Alexandria a cidade por
excelncia do helenismo foi principalmente seu carter cosmopolita: governada por
uma dinastia grega  da qual Clepatra foi a ltima representante  e fundada na
interseo entre o Egito e o Mediterrneo, Alexandria abrigou instituies culturais
cujo objetivo era reunir o conhecimento produzido no mundo conhecido, ou seja,
no mundo helnico. A mais famosa de suas instituies foi a Biblioteca, paradigma
para todas as bibliotecas posteriores, que chegou a ter 200 mil volumes. Mas a cidade
abrigava ainda museu, zoolgico, jardim botnico e observatrio, alm de ser o lar
de uma multiplicidade de estudiosos.
     Outro grande centro urbano do helenismo foi Antioquia, capital do reino
da Sria. E mesmo depois de incorporada ao Imprio Romano no sculo i d.C.,
continuou a ser um importante centro cultural, exercendo grande influncia no
Imprio, at mesmo depois da ascenso do Cristianismo.
     A importncia do urbanismo para o helenismo pode ser vista no prprio
Alexandre, um fundador de cidades por excelncia: s sob a designao de
Alexandria, fundou setenta cidades entre o Nilo e o Indo. A polis grega clssica foi
o modelo seguido, passando a ser considerada paradigma de civilizao, e mesmo
a conservadora elite judaica de Jerusalm foi influenciada por essa expanso da
cidade grega, sendo que uma das caractersticas mais marcantes da polis instituda
por Alexandre foi a democracia. Para uma cidade ser definida como polis precisava
ter organismos polticos sociais herdados dos modelos jnicos, drios e atenienses,
entre os quais estava a democracia e os costumes, as tradies e os princpios
educacionais, como a Paideia. Mas as cidades helensticas, mesmo as da Hlade, ainda
que possussem essas instituies, estavam inseridas em reinos e imprios de tradio
desptica e no eram independentes. Logo, a democracia da polis helenstica foi
desde seu incio equilibrada com a permanncia de guarnies militares nas cidades.
     Um dos principais veculos de transmisso do modo de vida grego nessas
cidades foi a lngua, o grego "comum", ou koin, imposto sobre os diversos dialetos
gregos depois da conquista de Alexandre. Essa lngua, que rapidamente incorporou
elementos de outras culturas, foi indispensvel  formao do helenismo, pois
possibilitou a comunicao na diversidade tnica de cada reino. S o reino da Sria,
por exemplo, chegou a abranger todo o antigo Imprio persa, que ocupava a maior
parte da sia Menor at a ndia, com uma multiplicidade de grupos tnicos.


                                                                                 179
                  A lngua grega, koin, difundiu-se assim por meio da assimilao dos costumes
Helenismo



            gregos por diferentes povos dentro do helenismo: com os jogos de tipo olmpico,
            patrocinados por diversas cidades e santurios por toda a parte, que atraam
            peregrinos; com a implantao da Paideia, a tradio educacional clssica, que inclua
            a construo de ginsios, o culto aos esportes, a filosofia e a efebia, instituio que
            misturava o servio militar obrigatrio com a iniciao dos jovens nos costumes
            gregos, em geral patrocinada por um tutor mais velho. De Atenas, a efebia e a Paideia
            se espalharam pelo mundo helnico, onde as elites de diversas origens tnicas
            iniciavam seus filhos nas tradies gregas, helenizando-os para inseri-los no que era
            considerado, por aqueles que viviam nas antigas fronteiras de Alexandre, o nico
            modo de vida civilizado.
                  Hoje, a cultura helenstica nos parece distante, apenas um tpico a mais no
            currculo de Histria do ensino Fundamental e Mdio. Encarada dessa forma,
            realmente ela pouco tem a contribuir para nosso cotidiano. Mas cada gerao
            rel a Histria a partir de suas prprias vivncias e problemas. E ns tambm
            precisamos rever esse perodo  luz de nossa perspectiva atual: o helenismo
            representa um momento de intensa fuso cultural entre o clssico grego, a cultura
            egpcia, a mesopotmica, a persa e mesmo a hindu. A prpria Roma imperial foi
            um centro helenstico onde, ao lado dos deuses romanos e dos imperadores, a Isis
            egpcia e o Mitra persa eram amplamente cultuados. Sem esquecer que a difuso
            do Cristianismo em Roma  religio do mundo helnico, difundida por um judeu
            helenizado, o apstolo Paulo  foi s o ltimo movimento helenstico do Imprio.
                  Assim, o helenismo, mais do que o triunfo da cultura grega no mundo, foi um
            momento de fuso de muitas matrizes culturais advindas daquelas regies que seriam
            bem mais tarde identificadas como Ocidente e Oriente. A expanso de Alexandre gerou
            um intercmbio cultural e comercial pela transplantao de soldados, administradores
            e comerciantes, mesclando culturas e gerando cosmopolitanismo. A fundao de
            cidades levou o modelo grego para todo o Imprio, junto com os homens de negcio
            e letrados que usavam o koin, lngua na qual, inclusive, o Novo Testamento foi escrito.
            J da sia Menor vinham as religies dos mistrios e o culto a Mitra, que assim como
            o culto egpcio a Isis e a Osris se propagaram na Grcia e em Roma.
                  Se considerarmos que toda experincia humana ao longo do tempo e em
            qualquer lugar  nossa herana comum, podemos entender melhor a relao entre
            ns e o helenismo. Alm disso, ao observ-lo, logo percebemos a fragilidade dos
            conceitos de Ocidente e Oriente: pois a mais famosa das rainhas egpcias era grega,
            Clepatra; e a Roma imperial, bero do Ocidente, era o palco de intensa mistura
            de culturas e religies asiticas, das quais o Cristianismo foi o exemplo vencedor.



            180
Por outro lado, como quer a historiografia tradicional, temos muito a dever ao mundo




                                                                                         Helenismo
grego  o que no queremos contestar , o helenismo, no entanto, pode hoje se
aproximar mais de nossa realidade: o cosmopolitanismo, a miscigenao, tudo isso
j podia ser visto no helenismo. Alm disso, temos de analisar os perodos "clssicos"
da Histria com cuidado redobrado, pois toda escolha de mitos esconde um interesse
ideolgico: nesse caso, a Grcia Antiga foi escolhida pela historiografia tradicional
como gnese da civilizao, pois muitas de suas instituies foram herdadas pela
Europa ocidental, regio responsvel pela definio de quem  ou no civilizado
na Histria. J o helenismo, uma vez que orientalizava os gregos, no sobressaindo
os modelos civilizacionais que o Ocidente escolheu para definir uma cultura como
superior, logo foi considerado um perodo histrico menor.
     Essas consideraes nos levam a perceber que cabe a ns, professores de Histria,
fazer a necessria crtica no apenas ao contedo de nossos programas e livros
didticos, mas tambm s razes que levam determinados temas a terem mais espao
que outros em nossos currculos. Pois essas escolhas no correspondem a um consenso
absoluto sobre quais as sociedades mais importantes da histria, mas simplesmente
a uma escolha poltica sobre o passado que nossa sociedade acha por bem lembrar.

Ver tAmbm
    Antiguidade; Cidade; Civilizao; Colonizao; Cristianismo; Democracia;
    Miscigenao; Mito; Orientalismo.

sugestes de leiturA
    Funari, Pedro Paulo. Grcia e Roma. So Paulo: Contexto, 2001.
    Guarinello, Norberto Luiz. Grcia: cidades-estados na Antiguidade Clssica.
     In: pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So
     Paulo: Contexto, 2003.
    lvque, P. O mundo helenstico. Lisboa: Edies 70, 1987.
    momiGliano, Arnaldo. Os limites da helenizao: a interao cultural das
     civilizaes grega, romana, cltica, judaica e persa. Rio de Janeiro: Jorge
     Zahar, 1991.
    pereira, Maria Helena R. Estudos de Histria da cultura clssica. Lisboa: Calouste
      Gulbenkian, 1993, v. i  Cultura grega.
    roStovtzeFF, M. Histria da Grcia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.
    toynbee, Arnold. Helenismo: histria de uma civilizao. Rio de Janeiro: Jorge
     Zahar, 1975.


                                                                                  181
           HistriA
Histria




                Qual a validade de tratarmos aqui do conceito de Histria quando aparentemente
           essa  a primeira coisa que o professor aprende durante seus anos na universidade?
           Na verdade, os significados da Histria esto em constante mutao e  preciso
           que o professor leve a reflexo em torno dessa constante mudana para a sala de
           aula, fornecendo instrumentos para que seus estudantes possam compreender
           a complexidade da Histria e a dificuldade de se responder  pergunta "O que 
           Histria?". Essa pergunta no  nova, e cada corrente de pensamento procura dar
           sua prpria resposta. Por isso, no  possvel oferecer uma definio fechada para
           esse conceito. O mais importante  estabelecer as linhas gerais do debate em torno
           da natureza da Histria.
                Desde os iluministas, com sua viso da Histria como progresso da humanidade,
           passando pelos "positivistas", ou historiadores da escola metdica, que viam a Histria
           como a traduo objetiva da verdade, do fato, at a Nova Histria, que prefere no
           oferecer uma explicao nica para a questo, todo historiador se defronta com o
           problema inicial de definir seu prprio ofcio. Essa questo passa muitas vezes pela
           definio ou no da Histria como cincia, o que oferece dificuldades, pois desde
           o sculo xix, at hoje, a prpria definio de cincia est em constante mutao.
                Nesse debate, existem aqueles, como o historiador brasileiro Ciro Flamarion
           Cardoso, que defendem a cientificidade da Histria. Segundo ele, os principais
           argumentos contra essa cientificidade vm da crena de que a Histria se ocupa de
           acontecimentos nicos, que no so passveis de lei, ao contrrio da cincia. Mas
           para Flamarion, desde o materialismo histrico e Annales, a Histria deixou de
           estar voltada para fatos singulares e passou a abranger estruturas globais sujeitas a
           regularidades, como a vida econmica e as estruturas sociais e culturais.
                Por outro lado, historiadores adeptos da Nova Histria Cultural, abordagem
           criada no final do sculo xx a partir da perspectiva cultural da Nova Histria francesa,
           defendem a proximidade da Histria com a Arte, com a fico, e no com a cincia.
           Entre esses, talvez o mais polmico seja Hayden White. Para ele, a Histria  um
           gnero da literatura. Ele valoriza a escrita e a narrativa historiogrfica e deita por
           terra a cientificidade da Histria.
                No entanto, no basta discutirmos o carter cientfico da Histria para
           construirmos nossa concepo da disciplina. Um dos trabalhos clssicos sobre a
           questo  o do historiador ingls E. H. Carr, Que  Histria?. Carr no oferece uma
           resposta absoluta, pois para ele a definio da Histria depende da viso que cada
           um tem de sua prpria sociedade e do tempo em que vive. Uma de suas maiores
           preocupaes gira em torno do fato histrico, inclusive diferenciando fato e fato



           182
histrico: para ele, o que separa um acontecimento qualquer (qualquer pessoa




                                                                                             Histria
atravessando o riacho italiano Rubico) de um fato histrico (Jlio Csar
atravessando o riacho Rubico)  a importncia que o historiador d a um fato e
no a outro. Ou seja, um fato s se torna fato histrico mediante a interpretao
do historiador. Assim, o ditado de que o fato fala por si, para Carr  incorreto: os
fatos s falam quando questionados pelo historiador. Nesse sentido, o sangue vivo
da Histria seria a interpretao e no o fato. E a interpretao, por sua vez, seria
oriunda da relao entre o historiador e os fatos. Apesar de ter escrito sua obra em
1961, as concepes de Carr sobre a Histria so ainda bastante atuais.
     Tambm Paul Veyne, em sua obra Como se escreve a Histria, escrita na dcada
de 1970 e de grande circularidade no Brasil, se coloca a mesma pergunta: O que 
Histria?. No chega tambm a oferecer uma definio para a Histria, mas afirma
o que, para ele, ela no : a Histria no  uma cincia, no tem mtodo e no
explica. Para Veyne, Histria  narrativa, s que com personagens reais. E mesmo
que baseada em fatos e documentos, no pode alcanar o realmente acontecido
devido  natureza parcial dos documentos e dos fatos.
     Mas Veyne no chega a dizer que Histria e fico so a mesma coisa. Para
ele, a diferena  que a Histria se preocupa com a verdade, enquanto o romance
se preocupa com a beleza. Nesse sentido, a Histria teria como assunto s o que
realmente aconteceu. Mas, com exceo desse ponto, a viso de Veyne da Histria 
bastante relativista: tudo  histria, ento, para definir os fatos a serem trabalhados, a
escolha e o critrio do historiador so indispensveis. A Histria  subjetiva porque,
como tudo  histria, a Histria termina sendo o que foi escolhido pelo historiador.
     Alm de procurarem definir Histria, os historiadores se preocupam tambm
com conceitos atrelados a ela, como fato histrico, tempo e historicidade. Podemos
observar algumas dessas preocupaes presentes na Nova Histria, em pensadores
como Jacques Le Goff. Ele questiona, por exemplo, a historicidade, termo que diz
respeito a uma qualidade que os homens de determinado perodo compartilham
uns com os outros, uma funo comum a todos que pertencem ao mesmo tempo.
O conceito de historicidade indica o prprio pertencer de cada indivduo a seu
tempo, e existe para toda a espcie humana. Logo, no h sociedades sem histria e
a prpria histria tem uma Histria, visto que o ato de contar, descrever e analisar
o passado depende da sociedade e do perodo de cada contador. Tudo na Histria
deve ser pensado em seu tempo, isto , a historicidade. O que nos leva  questo
do tempo na Histria. Antes de tudo, concordarmos com Vavy Pacheco quando
ela afirma que a funo da Histria  fornecer explicaes para as sociedades
humanas, sobre suas origens e as transformaes pelas quais estas passam. Essas
explicaes, por mais diversas que sejam, so feitas sempre sobre uma base comum,


                                                                                     183
           o tempo, a temporalidade. Essa definio est atrelada ao pensamento de Marc
Histria



           Bloch, para quem a Histria  a cincia dos Homens no tempo. E se tal definio
           de Marc Bloch no  consenso (visto que muitos discordam da cientificidade da
           Histria), pelo menos tem o mrito de incluir o tempo, esse sim, indispensvel a
           qualquer definio de Histria.
                 A concepo de Histria de Marc Bloch  uma das mais influentes do sculo xx. Ele
           foi fundador da Escola de Annales e valorizava intensamente a interdisciplinaridade e a
           aproximao da Histria das outras cincias humanas, como a Economia e a Sociologia.
           Acreditava que a Histria no era uma cincia qualquer, pois tratava de narrao e
           descrio, enquanto a maioria das cincias tratava de classificao e anlise. Mas isso
           no o impediu de defender a validade cientfica da Histria e de defini-la como a
           cincia do Homem no tempo. Para ele, a verdade era um dos princpios fundamentais
           da Histria, algo que o historiador deveria sempre procurar identificar. Caberia, assim,
           ao historiador a tarefa de julgar os fatos, tentando alcanar a verdade. Fica mais fcil
           compreendermos sua postura quando observamos um exemplo famoso dado por ele:
           se o vizinho da esquerda afirma que duas vezes dois so quatro e o vizinho da direita
           afirma que duas vezes dois so cinco, no podemos concluir que so quatro e meio. Em
           outras palavras, no devemos buscar meio-termo com a verdade.
                Peguemos tambm a viso daquele que  considerado hoje um dos maiores
           historiadores vivos, Eric Hobsbawm. Materialista histrico em um momento em
           que as tendncias da Histria parecem se voltar cada vez mais para a Lingustica e a
           Teoria Literria, a importncia de Hobsbawm no cenrio historiogrfico mundial
           demonstra o alcance de sua viso, por meio da qual a Histria tem sentido e funo
           polticas. Para ele, o passado e a Histria podem e so usados para legitimar aes do
           presente, aes polticas de diferentes cunhos, nacionalistas, tnicos etc. E nesse caso
           o historiador no pode se furtar a criticar seus maus usos. Para isso,  fundamental
           a percepo da diferena entre fato e fico.
                De Ranke, com sua Histria objetiva, at Hayden White, que considera a Histria
           um gnero literrio, vai uma grande distncia: a distncia histrica propriamente dita,
           visto que Ranke escreveu sua obra no final do sculo xix e White, no final do sculo
           xx. Assim, o prprio conceito de Histria  histrico, algo que muda com o passar do

           tempo, e como tal precisa ser constantemente revisto. Isso no quer dizer que temos
           necessariamente de concordar com White porque somos seus contemporneos. A
           obra de Hobsbawm nos mostra isso, que h algo talvez de mais imutvel na natureza
           da Histria, ainda que as interpretaes mudem constantemente.
                Para a pergunta "o que  Histria?" no existe uma resposta fechada ou simples,
           e muitos so os historiadores que tm contribuies a dar. E todos os professores e
           historiadores devem procurar responder a essa pergunta. Se concordarmos com Bloch


           184
sobre o fato de que a Histria situa a Humanidade no tempo, dando referncias




                                                                                              Histria
s aes dos indivduos, e com Hobsbawm, que defende o papel poltico do
historiador, iremos entender que o professor de Histria tem papel poltico dos
mais importantes em nossa sociedade, papel ao qual no pode se furtar, mas que
muitas vezes no percebe, o de formador de conscincias. Segundo Jaime Pinsky e
Carla Bassanezi Pinsky, em Histria na sala de aula, um dos papis do professor 
servir de intermedirio entre o patrimnio histrico da humanidade e o universo
cultural do aluno, que integra esse patrimnio. Tal percepo corrobora a afirmao
de Leandro Karnal, na mesma obra, acerca dos mtodos didticos em uma sala de
aula de Histria: uma aula pode ser ultrapassada mesmo contando com os mais
modernos recursos didticos. Mas tambm pode ser inovadora s com professor, giz
e quadro negro. Pois o que conta  a concepo de Histria possuda pelo professor.
Assim, o primeiro passo para a reciclagem, a capacitao, a renovao do profissional
de Histria  a definio por ele de sua concepo da histria.

Ver tAmbm
    Arqueologia; Cincia; Discurso; Fonte Histrica; Histria Oral; Historiografia;
    Iconografia; Iluminismo; Interdisciplinaridade; Memria; Mentalidades; Ps-
    modernidade; Pr-histria; Relativismo Cultural; Tempo.

sugestes de leiturA
    bittencourt, Circe. O saber histrico na sala de aula. 6. ed.So Paulo: Contexto, 2004.
    borGeS, Vavy Pacheco. O que  Histria. So Paulo: Brasiliense. 1981.
    cardoSo, Ciro Flamarion. Uma introduo  Histria. So Paulo: Brasiliense, 1992.
    carr, E. H. Que  Histria? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
    FreitaS, Marcos Cezar (org.). Historiografia brasileira em perspectiva. 5. ed. So
      Paulo: Contexto, 2003.
    HobSbaWm, Eric. Sobre Histria. So Paulo: Companhia das Letras, 1998.
    HuGHeS-WarrinGton, Marnie. 50 grandes pensadores da Histria. So Paulo:
     Contexto, 2002.
    Karnal, Leandro (org.). Histria na sala de aula: conceitos, prticas e propostas.
     So Paulo: Contexto, 2003.
    le GoFF, Jacques. Histria e memria. Campinas: Ed. Unicamp, 1994.
    pinSKy, Jaime (org.). O ensino de Histria e a criao do fato. 11. ed. So Paulo:
      Contexto, 2004.
    veyne, Paul. Como se escreve a Histria e Foucault revoluciona a Histria. Braslia:
     Ed. UnB, 1998.


                                                                                      185
                HistriA orAl
Histria Oral




                     O sculo xx viu florescer um perodo de grandes e rpidas mudanas mundiais.
                O desenvolvimento da tecnologia transformou a Histria, acelerando os eventos. Da
                mesma forma, a tecnologia modificou a prpria produo historiogrfica, trazendo 
                cena o gravador como instrumento e produzindo a Histria Oral, uma metodologia
                histrica que trabalha com depoimentos orais, realizando entrevistas a partir das
                quais o historiador constri suas anlises.
                     Estabelecer o exato momento do nascimento de uma disciplina traz suas
                dificuldades, mas alguns segmentos da Histria Oral localizam sua gnese na
                Universidade de Columbia, eua, em fins da dcada de 1940, com um projeto para
                registro da memria de pessoas consideradas importantes na histria dos Estados
                Unidos. Mas o desenvolvimento dessa metodologia, a despeito desse nascimento
                como instrumento de registro de memria de personagens "importantes", voltou-se
                cada vez mais para a Histria Social, buscando recuperar a memria e a experincia
                de grupos  margem da histria escrita. Exemplo dessa mudana, ainda nos anos
                1960 na Gr-Bretanha, foi o desenvolvimento de uma vertente da Histria Oral que
                buscava registrar recordaes de idosos, contribuindo tanto para novas perspectivas
                historiogrficas quanto para a elaborao de trabalhos de assistncia social.
                     Assim, desde seus princpios, a Histria Oral esteve marcadamente envolvida com
                as questes da memria humana, tanto coletiva quanto individual. E, nesse sentido,
                passou a ser um relevante meio de valorizao das identidades de grupos sem escrita,
                por meio da coleta de seus depoimentos e da anlise de sua memria, de sua verso
                do mundo e dos acontecimentos. Nos anos 1970, trabalhos de pesquisadores, como
                Alessandro Portelli e Michael Frisch, passaram a valorizar a memria como principal
                objeto de estudo da Histria Oral. At ento, essa disciplina era criticada por se basear
                em algo to pouco confivel como a memria. Mas com esses pesquisadores, a aparente
                pouca confiabilidade da memria tambm passou a ser fonte de questionamentos
                sociais. Para eles, os prprios lapsos de memria so importantes para a compreenso
                dos significados que determinado evento assume para o indivduo e seu grupo social.
                A memria se transformou, ento, para muitos, no verdadeiro objeto da Histria
                Oral. E os historiadores comearam a considerar que, a partir do entendimento
                do processo de formao da memria histrica, poderiam compreender como os
                indivduos vinculam passado e presente.
                     Essa abordagem da memria como chave da Histria se difundiu na comunidade
                cientfica, tornando-se hegemnica e levando a que as dcadas de 1980 e 1990
                desenvolvessem suas pesquisas sobretudo seguindo o modelo de entrevista a partir da
                histria de vida do depoente. At ento, a entrevista preferia se ater a um tema especfico,



                186
procurando ser o mais linear possvel e buscando descartar divagaes e fugas do




                                                                                           Histria Oral
tema feitas pelo depoente. Acreditava-se que assim o depoimento seria fidedigno, ou
seja, confivel. Mas as pesquisas da memria no apenas indicaram que a abordagem
completa e pouco direcionada do depoimento oral criava a possibilidade de utilizar a
psicologia da memria como recurso da anlise histrica, como tambm questionava
a confiabilidade de qualquer documento, principalmente o escrito. No entanto, o
desenvolvimento dessas teorias em torno da memria comeou a suscitar crticas de
que a Histria Oral estava se afastando de seu objetivo inicial, ou seja, do registro de
experincias no documentadas de grupos ocultos pela Histria.
     Assim, as tendncias historiogrficas mais recentes tm buscado a interligao da
Histria Oral com projetos sociais, em especial no Terceiro Mundo. Desde o Projeto
Santurio nos anos 1980, no qual refugiados polticos da Amrica Central registraram
seus depoimentos, trazendo-os a pblico no intuito de conseguir apoio poltico nos
eua, at projetos indianos que utilizam depoimentos orais contra a proliferao da

lepra, a Histria Oral tem sado do meio acadmico para alcanar a comunidade.
     A Histria Oral no Brasil, apesar do pioneirismo da Fundao Getlio Vargas  rJ,
que j realizava projetos na rea na dcada de 1970, apenas com o fim do governo
militar comeou a se desenvolver livremente. O interesse que o mtodo oral tinha
at ento, como registro de evidncia, comeou a dar lugar  pesquisa com histrias
de vida de pessoas comuns. Por isso, devemos atentar para as diferenas existentes
entre a Histria Oral e o mtodo de registro oral. Este ltimo  mais antigo, est na
base do surgimento da disciplina, mas restringe-se a gravar, registrar e reproduzir
depoimentos sobre determinado tema, em geral com finalidade poltica. A Histria
Oral, por outro lado,  uma disciplina que ultrapassa o registro de depoimentos e se
volta para a reflexo terica e metodolgica em torno da construo do conhecimento.
     Apesar do tratamento isolado que muitas vezes recebe, a Histria Oral no  uma
disciplina autnoma, constituindo-se em um conjunto de tcnicas, um mtodo, para
a pesquisa histrica e o tratamento documental. E como conjunto de tcnicas, ela
pode ser adotada por diferentes abordagens histricas. Pelo seu interesse no resgate
da memria de grupos  margem da Histria escrita, por exemplo, tem grandes
afinidades com a Histria Social. No Brasil, importantes trabalhos de Histria Oral
foram construdos em torno de temticas como cultura popular e crianas de rua,
seringueiros, pescadores e sem-tetos. Tambm o registro da memria de grupos
intermedirios da elite constitui campo relevante, como os registros de memrias
militares, realizados pela Fundao Getlio Vargas.
     Por outro lado, nas ltimas dcadas do sculo xx, a Histria Oral comeou
a estreitar laos com a Literatura. Da em diante, a abordagem interdisciplinar tem
se constitudo em um dos principais caminhos para a Histria Oral, no apenas


                                                                                   187
                no dilogo Histria/Literatura, mas tambm no dilogo entre Histria e iconografia.
Histria Oral



                Desde a formao de um acervo misto de documentos orais, escritos e imagticos
                no Museu da Imagem e do Som  Sp, at pesquisas desenvolvidas sobre literatura
                de cordel no Nordeste, que analisam depoimentos, documentos escritos e imagens,
                passando por estudos que utilizam a msica como fonte documental, a Histria
                Oral tem se desenvolvido no Brasil em consonncia com a Histria Cultural e com
                a interdisciplinaridade.
                     Apesar desses novos encaminhamentos, a memria no saiu de cena, assim como
                tambm no morreu o interesse pela chamada Histria dos esquecidos. Trabalhos
                desenvolvidos na dcada de 1990 trouxeram novos elementos para a discusso da
                memria.  o caso de pesquisas realizadas sobre biografias de sobreviventes judeus
                do holocausto nazista, que trouxeram de volta a preocupao com a confiabilidade
                da memria como fonte histrica. Nesses trabalhos, a confiabilidade da memria
                est entre as mais importantes questes para o entendimento da construo das
                identidades. Discute-se que, aceitar que a memria no  confivel seria o primeiro
                passo para entender as causas dos esquecimentos, das diferenas nas narrativas e
                das modificaes que os episdios sofrem quando contados. As diferenas em cada
                histria narrada podem sugerir, assim, os traumas sofridos pelos indivduos, que
                preferem inconscientemente transformar os acontecimentos ao cont-los.
                     Sintetizando esses diferentes direcionamentos, percebemos que a Histria Oral
                aparece hoje como um campo de grandes possibilidades para o professor de Histria.
                Primeiro, do ponto de vista metodolgico, ao trabalhar com diferentes tipos de fontes
                e ao levantar novas questes sobre a memria e a produo de fontes tradicionais. E,
                segundo, pelo seu contedo, to voltado para o social e para os grupos marginalizados
                que, por no terem escrita, tendem a ser considerados sem histria. As perspectivas
                da Histria Oral permitem ainda melhor compreenso das sociedades sem escrita,
                como os indgenas brasileiros. Ela incentiva que pensemos a oralidade em toda a
                sua funcionalidade como ferramenta de transmisso de valores, sentimentos, vises
                de mundo. Enfim, como instrumento de transmisso de cultura.
                     A partir da Histria Oral, os profissionais em sala de aula podem construir com
                os alunos novas percepes da Histria, em que a escrita deixe de ser um requisito
                fundamental para o reconhecimento das experincias de vida de um povo ou de
                um grupo social. Alm disso, em uma sociedade como a nossa, em que o hbito
                de ler  considerado cultura erudita, o analfabetismo domina extensas regies e os
                jovens constroem suas formas de expresso cada vez mais na oralidade e na imagem,
                desconhecendo a linguagem escrita. Assim, os mtodos e as reflexes da Histria
                Oral permitem que o professor possa se aproximar mais de seus alunos, incitando
                dilogos por meio de linguagens mais familiares a eles.


                188
Ver tAmbm




                                                                                         Historiografia
    Fonte Histrica; Histria; Historiografia; Iconografia; Identidade; Interdisci-
    plinaridade; Memria; Teoria.

sugestes de leiturA
    boutier, Jean; Julia, Dominique (orgs.). Passados recompostos: campos e canteiros
      da Histria. Rio de Janeiro: Ed. uFrJ/Ed. FGv, 1998.
    de decca, Edgar Salvadori; lemaire, Ria (orgs.). Pelas margens: outros caminhos da
     Histria e da Literatura. Campinas/Porto Alegre: Ed. Unicamp/Ed. uFrGS, 2000.
    Ferreira, Marieta de Moraes; FernandeS, Tnia Maria; alberti, Verena (orgs.).
      Histria oral: desafios para o sculo xxi. Rio de Janeiro: Fiocruz/Casa de
      Oswaldo Cruz/cpdoc Fundao Getlio Vargas, 2000.
    meiHy, Jos Carlos Sebe. Canto de morte kaiowa: Histria oral de vida. So
     Paulo: Loyola, 1991.
    monteneGro, Antonio Torres. Histria oral e memria: a cultura popular
     revisitada. So Paulo: Contexto, 2001.




HistoriogrAFiA
     A historiografia  um campo de estudo ao qual nenhum historiador pode se
furtar.  a reflexo sobre a produo e a escrita da Histria. Para Guy Bourd e Herv
Martin,  o exame dos discursos de diferentes historiadores, tambm de como estes
pensam o mtodo histrico. Segundo esses autores, a perspectiva historiogrfica
 uma ferramenta para o ofcio do historiador, ao descrever "escolas" histricas,
e como produziram conhecimento ao longo do tempo. Uma "escola" histrica,
por sua vez,  uma corrente historiogrfica que agrega diversos historiadores com
perspectivas em comum. Por outro lado, a historiografia tambm nos permite, por
meio do estudo daqueles que escreveram a Histria antes de ns e do processo de
como escreveram essas histrias, entender os elementos comuns aos intelectuais de
um mesmo perodo. E, nesse sentido, a historiografia  uma forma de se estudar a
Histria das ideias. Mas para Bourd e Martin, a maior utilidade dessa disciplina 
demonstrar, pela observao dos historiadores passados, que todo historiador sofre
presses ideolgicas, polticas e institucionais, comete erros e tem preconceitos.
Alm disso, a nica forma de um historiador ser objetivo e isento  conhecendo
o trabalho e os erros dos que vieram antes. A historiografia seria assim a melhor
vacina contra a ingenuidade.


                                                                                  189
                      Nesse contexto, a historiografia, mais do que a descrio da sucesso das escolas
Historiografia



                 histricas,  uma forma de analisar os mecanismos que envolvem a produo do
                 discurso dos historiadores, percebendo esses discursos em relao ao tempo e 
                 sociedade em que cada historiador est inserido.
                      A documentao bsica da historiografia so os livros de Histria, razo pela qual
                 todo professor de Histria  um produtor de historiografia em potencial. Para Rogrio
                 Forastieri da Silva, um estudo historiogrfico  uma reflexo sobre os historiadores e
                 suas obras. A preocupao historiogrfica j pode ser percebida na produo clssica
                 greco-romana, pois desde a Antiguidade, e durante a Idade Mdia, diversos cronistas,
                 historiadores e escritores de Histria em geral tinham a preocupao de situar sua
                 obra entre outras produes do gnero e compar-la com a produo de seu tempo.
                 Ou seja, j possuam uma preocupao de cunho historiogrfico. Entretanto, se os
                 estudos historiogrficos so o estudo dos escritos, dos mtodos e das interpretaes
                 produzidas pela Histria, ento tal disciplina s existe mesmo a partir do sculo xx. O
                 pioneiro nesses estudos foi o historiador suo Eduard Fueter em 1911. Desde ento a
                 disciplina tem evoludo bastante, deixando de ser simplesmente uma lista bibliogrfica
                 e incorporando anlises e interpretaes prprias.
                      Nesse campo de estudos, deparamos com a enorme importncia da
                 historiografia francesa, cuja Histria, como sugere Forastiere, se confunde com
                 a prpria Histria da historiografia ocidental. Tambm Peter Burke, em seu
                 estudo sobre a escola dos Annales, define essa corrente como a revoluo francesa
                 da historiografia. Tal "revoluo", no incio do sculo xx, transformou a forma
                 de se escrever Histria no Ocidente, sendo sua principal crtica voltada para a
                 historiografia chamada positivista.  muito comum, inclusive, confundirmos
                 o positivismo, a escola histrica seguidora de Auguste Comte, com a escola
                 metdica: o que se convencionou chamar de positivismo , na realidade, a escola
                 metdica, influenciada pelo pensamento do filsofo alemo Leopold von Ranke,
                 que supervalorizava o documento e defendia a objetividade na Histria. A escola
                 metdica teve seu auge no final do sculo xix, defendida sobretudo pelos historiadores
                 franceses Langlois e Seignobos, que pregavam uma Histria narrativa, poltica,
                 com forte carter nacionalista. O positivismo propriamente dito, por outro lado,
                 buscava estudar a Histria a partir do estabelecimento de leis que regulassem o
                 desenvolvimento humano, seguindo assim a proposta de Comte para a elaborao
                 de leis nas cincias sociais. A influncia da escola metdica foi bastante relevante,
                 inclusive no pensamento poltico de sua poca, mas seu domnio nunca foi absoluto.
                 No sculo xix, historiadores como Michelet e Burkhardt j se preocupavam
                 sobretudo com a cultura, sem falar da enorme contestao instituda por Marx e
                 pelo materialismo histrico.


                 190
     E foi a partir da influncia da Sociologia e do materialismo histrico que Annales




                                                                                           Historiografia
pde se firmar como a perspectiva dominante na historiografia francesa, ampliando
logo sua influncia para fora da Frana e praticamente dominando a produo
historiogrfica do Ocidente no sculo xx. Talvez a nica outra grande perspectiva
terico-metodolgica de sucesso a concorrer com os Annales tenha sido o materialismo
histrico que, principalmente na figura de autores ingleses como Eric Hobsbawm,
E. P. Thompson e Christopher Hill, continuou a produzir durante o sculo xx, a se
renovar e, no raro, a se mesclar com Annales e seus continuadores da Nova Histria.
     A razo para a grande influncia francesa na historiografia ocidental talvez esteja
na importncia que ela tem na sua prpria sociedade. Extremamente valorizada no
s pelos especialistas, mas tambm pelo grande pblico, essa produo intelectual
tem importante papel social e poltico na Frana, constituindo um campo de
estudos bastante respeitado. Situao que, agregada a outros fatores, pode explicar o
surgimento de tantos autores relevantes. Atualmente as novas linhas da historiografia
ocidental vm, em especial da Antropologia, da Lingustica e da Teoria Literria, que
exercem sua influncia sobre a Histria Cultural, hoje um dos campos de trabalho
mais prolficos. Nessa nova perspectiva, est havendo uma descentralizao das
influncias, e a Frana no domina mais o campo terico. Pensadores de lngua
inglesa, como o antroplogo Marshall Sahlins e o terico da literatura Hayden White,
tm tido cada vez mais espao no cenrio historiogrfico mundial. Mas os pensadores
franceses continuam a se renovar, como Roger Chartier, uma das principais
influncias da nova Histria Cultural. Os caminhos da produo historiogrfica no
incio do sculo xxi, no entanto, no parecem se restringir a uma nica linha terica.
Muitos pesquisadores hoje se preocupam em retomar a busca por uma Histria que
no seja totalmente fruto de discursos e de subjetividade. Criticam, assim, o excessivo
relativismo cultural da ps-modernidade e voltam a algumas questes de tratamento
da documentao e a busca da objetividade, revisitando a escola metdica.
     A historiografia brasileira, por sua vez, est inserida nesse contexto da produo
ocidental, sendo, inclusive, sua vertente acadmica, baseada no modelo francs,
constituindo-se a partir da misso de Fernand Braudel  uSp em meados do sculo xx. A
preocupao historiogrfica brasileira, todavia,  consideravelmente mais antiga. Jos
Honrio Rodrigues, em sua obra clssica Histria da Histria do Brasil, apontou que
havia uma preocupao com a produo dessa Histria desde os cronistas coloniais,
que ainda no faziam pesquisa histrica, e da primeira Histria do Brasil, escrita por
Frei Vicente de Salvador, ainda no sculo xvi. J no sculo xix, muitos pesquisadores
comearam a se interessar pela Histria do Brasil. Ligados aos Institutos Histricos
e Geogrficos fundados em diferentes provncias e patrocinados pelo Segundo
Imprio, autores como Varnhagen e Capistrano de Abreu desenvolveram intensivo
trabalho nos arquivos nacionais.



                                                                                   191
                       A maioria dos estudiosos concorda que a historiografia  uma disciplina
Historiografia



                 imprescindvel para o historiador. Sem ela, sem conhecer o que j se produziu em
                 sua rea de estudos, dificilmente ele poder elaborar uma reflexo crtica. Alm disso,
                 a maior parte dos historiadores inicia seu trabalho por uma bibliografia especfica,
                 ou seja, fazendo uma seleo historiogrfica, ainda que no esteja preocupado em
                 determinar os fundamentos filosficos e polticos que impulsionaram aquelas obras.
                 Assim, todo historiador trabalha necessariamente com a reflexo historiogrfica,
                 mesmo que seja apenas para situar seu prprio trabalho no contexto geral da
                 produo sobre o tema estudado. Mas, alm disso, o pesquisador precisa interrogar
                 as obras que consulta no apenas do ponto de vista do contedo, sobre o que elas
                 dizem, mas tambm sobre quem as escreveu e por que foram escritas. Para aprender
                 como pesquisar, a melhor forma  se perguntar como os outros pesquisaram, o que
                 constitui uma preocupao historiogrfica.
                       O professor tambm no pode evitar trabalhar com historiografia em seu dia a dia:
                 o ato de escolher livros de apoio  em si uma tarefa da historiografia. Mas esta no deve
                 ser apenas o listar de bibliografia, ela precisa ser a reflexo sobre as "escolas" histricas
                 e o fazer histrico ao longo do tempo. Afinal, historiografia significa escrita da Histria,
                 e a compreenso da disciplina no pode ser feita sem o acesso a esse campo de estudos.
                       A historiografia, na verdade,  uma ferramenta de aperfeioamento do professor.
                 Trabalhar com a historiografia brasileira, a historiografia cultural, ou a historiografia
                 sobre o ensino da Histria, por exemplo, pode auxiliar o profissional a desenvolver
                 seus conhecimentos sobre determinado campo de estudos que ele considere til.
                 Lembremos sempre que o historiador precisa ter, alm de conscincia crtica,
                 contedo. Esse ltimo item, inclusive,  a chave da profisso.

                 Ver tAmbm
                       Fonte Histrica; Histria; Histria Oral; Iconografia; Interdisciplinaridade;
                       Mito; Teoria.

                 sugestes de leiturA
                       bittencourt, Circe. O saber histrico na sala de aula. 6. ed. So Paulo: Contexto, 2004.
                       bourd, Guy; martin, Herv. As escolas histricas. Lisboa: Publicaes Europa-
                         Amrica, 1990.
                       boutier, Jean; Julia, Dominique (orgs). Passados recompostos: campos e canteiros
                         da Histria. Rio de Janeiro: Ed. uFrJ/Ed. FGv, 1998.
                       burKe, Peter. A Escola dos Annales  1929-1989: a Revoluo Francesa na
                        historiografia. So Paulo: Ed. Unesp, 1991.
                       FreitaS, Marcos Cezar (org.). Historiografia brasileira em perspectiva. So Paulo:
                         Contexto, 1998.


                 192
    HuGHeS-WarrinGton, Marnie. 50 grandes pensadores da Histria. So Paulo:




                                                                                          Humanismo
     Contexto, 2002.
    JenKinS, Keith. A histria repensada. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2004.
    Karnal, Leandro (org.). Histria na sala de aula: conceitos, prticas e propostas.
     So Paulo: Contexto, 2003.
    pinSKy, Jaime (org.). O ensino de Histria e a criao do fato. 11. ed. So Paulo:
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    rodriGueS, Jos Honrio. Histria da Histria do Brasil. So Paulo: Companhia
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    Silva, Rogrio Forastieri da. Histria da historiografia. Bauru: Edusc, 2001.




HumAnismo
    O termo Humanismo surgiu no sculo xvi para designar as atitudes renascentistas
que enfatizavam o homem e sua posio privilegiada na Terra. O prprio conceito
de Renascimento tambm s comeou a ser empregado a partir do sculo xvi, para
designar a retomada do pensamento e das formas de expresso da Antiguidade
Clssica. O Humanismo  comumente definido como um empreendimento moral
e intelectual que colocava o homem no centro dos estudos e das preocupaes
espirituais, buscando construir o mais alto tipo de humanidade possvel.  preciso
ressaltar, no entanto, que os humanistas no seguiam uma nica filosofia, ou seja,
no formavam um grupo homogneo. Em comum, compartilhavam apenas o
entusiasmo pelo estudo dos clssicos gregos e latinos.
    Esse movimento intelectual se desenvolveu na Europa Ocidental a partir da Itlia,
entre os sculos xv e xvi, sendo seu precursor o poeta Petrarca, ainda no sculo xiv,
que iniciou o trabalho de busca a antigos manuscritos romanos  depois seguido
por outros latinistas. Gerado no contexto das grandes transformaes culturais do
fim da Idade Mdia, o Humanismo possuiu estreitos laos com o Renascimento.
    Alguns autores consideram o Humanismo um fenmeno dialtico, pois, de um
lado, valorizava o humano, contrariando a mentalidade teocntrica da Filosofia
medieval, mas, ao mesmo tempo, possua fortes preocupaes religiosas, sendo
o movimento incompreensvel sem suas preocupaes espirituais e o anseio por
uma reforma da Igreja Catlica. Ou seja, o contexto humanista apesar de seu
antropocentrismo, foi intensamente influenciado pelo Cristianismo e pelos dilemas
da Igreja Catlica no incio da Idade Moderna.


                                                                                    193
                 O estudo do Humanismo em geral faz parte da Histria das ideias e no da
Humanismo



            Histria das Mentalidades, devido ao fato de ser um movimento de elite, que pouco
            influenciou o cotidiano das massas de seu tempo. Entre os mais importantes trabalhos
            sobre o tema est o de Agnes Heller, O homem do Renascimento, que apresenta o
            Humanismo como uma corrente de pensamento renascentista, principalmente
            tica e acadmica. J Paul Kristeller rejeita o Humanismo como sistema filosfico,
            defendendo seu carter de programa cultural e educativo que priorizava o campo
            literrio; enquanto Jean Delumeau defende, por outro lado, que o Humanismo surgiu
            como uma nova filosofia oposta  escolstica. Mas alguns historiadores revisitaram
            o Humanismo por meio de uma perspectiva mais abrangente, inserindo-o no
            contexto das transformaes sociais, econmicas e culturais da Idade Moderna.
            Lucien Febvre, por exemplo, abordou as ideias humanistas a partir da relao com
            os grandes movimentos polticos e culturais modernos, na obra Martinho Lutero: um
            destino, na qual fez uma genealogia da reforma protestante, chegando aos confrontos
            de Lutero com os humanistas.
                 Existe, assim, discordncia entre os historiadores acerca da natureza do
            movimento humanista, se filosfica ou acadmica, se uma filosofia coesa ou um
            movimento sem direcionamento homogneo. Mas quase todos concordam com
            suas caractersticas principais e seu surgimento. A razo para que o Humanismo
            tenha surgido primeiro na Itlia est na urbanizao intensa dessa regio, no
            desenvolvimento da burguesia e de sua riqueza. As mudanas aconteceram, ento,
            primeiro na vida material dessa classe: as casas tornavam-se mais confortveis,
            desenvolveu-se o gosto pelo cio e pela ornamentao. Como a burguesia atingiu
            esses patamares inicialmente na Itlia, foi l que primeiro ela foi buscar legitimidade
            cultural com novas formas de expresso, como o Renascimento e o Humanismo.
                 Esse Humanismo italiano, iniciado com Petrarca, foi sobretudo um Humanismo
            lingustico, em que o mais importante era a crtica interna e externa dos textos
            antigos da Grcia Clssica e do Imprio Romano. Incentivados pelos mecenas, os
            humanistas italianos proliferaram, como Lorenza Valla, "pai" da Lingustica. Mas
            a difuso do Humanismo no Ocidente esteve associada a dois fatores principais: a
            decadncia da escolstica e a inveno do livro impresso.
                 A escolstica foi a filosofia na qual se baseou todo o pensamento erudito
            medieval, ditado pela Igreja Catlica. Fundamentada sobre as proposies de
            Aristteles, buscava principalmente estudar a revelao divina. No entanto,
            desde o sculo xiv essa filosofia vinha sofrendo crticas devido ao fato de ter se
            tornado um fim em si mesmo. E um dos elementos da escolstica que ento eram
            mais passveis de crtica era a Hermenutica, a leitura e a interpretao dos textos
            sagrados. Inicialmente, para melhor interpretao da Bblia, os pensadores liam


            194
tambm os comentrios j elaborados sobre as Escrituras crists. No entanto, aps a




                                                                                          Humanismo
instituio das universidades no sculo xii, o nmero de comentrios aumentou a tal
ponto que complicou a interpretao das Escrituras. O resultado foi que a escolstica
do sculo xiv se transformou em um exerccio de lgica quase totalmente afastado
dos textos originais, em que seus praticantes apenas liam e filosofavam sobre os
comentrios j produzidos.
     Dessa forma, a escolstica paralisou a si prpria ao se tornar inacessvel para
todos que no se dedicavam exclusivamente  Teologia. O Humanismo surgiu
dessa paralisao, pois a "classe mdia" gerada pelo fortalecimento do Estado e do
Capitalismo, que cada vez mais tinha acesso  educao, ficava excluda dos debates
hermenuticos, procurando, assim, novos campos de estudo. Os letrados oriundos
desse grupo social dedicavam-se, ento, aos estudos das humanidades, refutando a
Teologia escolstica e passando a ser chamados de humanistas.
     O impulso a esses estudos foi dado por Lorenzo Valla, pensador italiano que,
do interesse pelos manuscritos antigos despertado por Petrarca, desenvolveu a
Lingustica e a crtica histrica, abandonando a at ento muito valorizada metafsica
e aplicando seus conhecimentos lingusticos  Histria e  Poltica. O trabalho de
Valla influenciou muitos pensadores fora da Itlia, em particular nos Pases Baixos.
Mas o que conferiu maior desenvolvimento ao Humanismo foi mesmo a massificao
do livro impresso, mais barato que o manuscrito, permitindo a difuso de autores
antigos e dos modernos humanistas para um pblico maior de leitores.
     Enquanto no sculo xv o Humanismo esteve principalmente na Itlia, o incio
do sculo xvi viu a difuso do Humanismo crtico de Lorenzo Valla na Alemanha,
na Inglaterra, na Frana e nos Pases Baixos. Mas, ao contrrio dos italianos, mais
preocupados com a forma e a expresso (questes tpicas do Renascimento artstico),
os humanistas ocidentais debruavam-se sobre questes polticas e religiosas, vindo
a ter intensa participao nas reformas religiosas que estavam acontecendo por toda
a Europa. O despreparo religioso e cultural do clero, as disputas entre o Papado e
os Estados, o formalismo supersticioso da religiosidade popular, todos esses fatores
se juntaram para criar, no sculo xv, uma insatisfao crescente do povo e dos
intelectuais com a Igreja Catlica. Os humanistas franceses e germnicos dedicaram,
dessa forma, suas reflexes sobretudo a propor a reforma dessa Igreja.
     Nos Pases Baixos, no sculo xiv, j se manifestava essa crtica, que daria origem
a um Renascimento cristo chamado de "devotio moderna". A principal filosofia da
devotio moderna era a comunho entre a doutrina crist, em seu estado puro, e a
erudio. Os adeptos da devotio fundaram escolas para formar pensadores segundo
seus princpios. Entre seus alunos estava Erasmo de Rotterdam, considerado a figura
mxima do Humanismo. Holands de nascimento, em sua formao de estudante


                                                                                  195
            perambulou por diversas universidades europeias, o que lhe deu oportunidade de
Humanismo



            contatar diferentes formas de pensar. Foi intensamente influenciado pelos estudos
            lingusticos de Lorenzo Valla e pela devotio. Foi graas a essa formao, apesar das
            pesadas crticas feitas ao clero em sua obra mxima, O elogio da loucura, que Erasmo
            permaneceu catlico, pois a devotio no pregava o rompimento com a Igreja.
                 Erasmo foi um ardoroso defensor do ideal do cavaleiro cristo, que pretendia unir
            o Cristianismo puro, a erudio e o Humanismo para melhorar a Igreja e a religio.
            Para ele, a bondade, a caridade e a f deveriam vir do estudo criterioso da Bblia, e no
            dos comentrios dos telogos. Alm disso, a verdadeira f precisava ser acompanhada
            de erudio, de cultura, o que possibilitaria melhor interpretao pessoal dos textos
            sagrados. Erasmo, dessa forma, pregava um Humanismo pedaggico, no qual o
            ensino era fator fundamental para a transformao do conhecimento e da religio.
            Sua obra teve grande difuso na Europa, principalmente por seu carter universalista,
            que ultrapassava as pregaes de carter apenas nacional, muito comuns na poca.
            Ele influenciou desde a reforma catlica e as reformas protestantes, como a realizada
            por Lutero, at a instituio das universidades espanholas.
                 Em resumo, dependendo do historiador que o defina, o Humanismo foi uma
            filosofia ou uma reforma acadmica, que consolidou novas ideias acerca do homem e
            do conhecimento. Apesar de seu carter religioso inserir esse movimento no contexto
            das reformas religiosas da Idade Moderna, a preocupao com a erudio levou os
            humanistas a desenvolverem um cuidado tanto com a crtica histrica e lingustica
            de documentos quanto com a expanso da educao. Essa talvez seja uma de suas
            maiores contribuies: a sugesto de que o pensamento crtico pode ser alcanado
            pela instruo.
                 Para professores e professoras brasileiros de hoje, o Humanismo muitas vezes se
            apresenta apenas como um ponto a mais no programa de Histria Moderna. S mais
            uma lista de nomes, hoje quase totalmente desconhecidos. No entanto, a valorizao
            que os humanistas propunham do pensamento crtico a partir do conhecimento e
            do ensino, aliado a uma religiosidade militante, encaixa-se bem em muitas das atuais
            propostas pedaggicas e ps-modernas que defendem uma cincia que no seja ctica
            e respeite tambm o desenvolvimento pessoal e religioso de cada indivduo. Estudar o
            Humanismo e suas propostas pode ser uma ferramenta interessante, por exemplo, para
            aqueles profissionais que precisam lidar em sala de aula com o questionamento religioso
            que muitos alunos fazem do conhecimento histrico.

            Ver tAmbm
                  Absolutismo; Burguesia; Capitalismo; Cristianismo; Iluminismo; Renascimento.



            196
sugestes de leiturA




                                                                                       Humanismo
   cHaunnu, Pierre. O tempo das reformas (1250-1550). Lisboa: Edies 70, s. d., 2v.
   collinSon, Dian. 50 grandes filsofos: da Grcia antiga ao sculo xx. 2. ed. So
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   delumeau, Jean. A civilizao do Renascimento. Lisboa: Estampa, 1984, 2v.
   Febvre, Lucien. Martinho Lutero: um destino. Lisboa: Bertrand, 1976.
   Heller, Agnes. O homem do Renascimento. Lisboa: Presena, 1982.
   marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria moderna atravs
    de textos. 10. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
   rotterdam, Erasmo de. O elogio da loucura. Rio de Janeiro: Ediouro, s. d.




                                                                                197
 i
         I
iconogrAFiA
     A palavra iconografia define qualquer imagem registrada e as representaes
por trs da imagem. Como conceito, abarca desde desenhos, pinturas e esculturas,
at fotografias, cinema, propaganda, outdoors; tanto a imagem fixa quanto a
imagem em movimento. Para pensadores como Carlo Ginzburg, h uma diferena
entre iconografia e iconologia, sendo a primeira o conjunto de aspectos formais e
estticos de uma obra de arte e a iconologia a srie de significados sociais e mentais
apresentados por toda obra. No entanto, atualmente o significado historiogrfico
mais comum de iconografia abarca todos os aspectos envolvidos no apenas em
uma obra de arte, mas em qualquer tipo de imagem ou material visual. Aspectos
que incluem as questes puramente artsticas e o imaginrio por trs de cada obra.
     As imagens so representaes de ideais, sonhos, medos e crenas de uma poca.
Logo, so elas prprias fontes histricas e, sendo assim, material para a anlise e
a interpretao histrica. Durante muito tempo, serviram apenas de ilustrao,
tornando os textos historiogrficos atraentes. Mas com o desenvolvimento da ideia
de imagem como documento, essa percepo foi transformada e a iconografia se
tornou importante fonte para o estudo das mentalidades e das relaes sociais.
     Desde que a Escola historiogrfica dos Annales props a ampliao do campo
de trabalho do historiador, a concepo de documento se ampliou para abarcar
materiais antes impensados como fontes documentais. Mas Annales trabalhou
principalmente a Sociologia e a Economia e, desse ponto de vista, as fontes estavam
ainda bem longe da iconografia. S no decorrer dos anos 1960 e 1970, a chamada
"terceira gerao de Annales", tambm conhecida como Nova Histria, comeou a
transformar seus objetos de pesquisa, voltando-se para a cultura. Um dos precursores
dessa Histria Cultural, Philippe Aris, apontou a direo que seria seguida por essa
abordagem: em seu estudo sobre a infncia na Idade Mdia, Aris utilizou tanto
cartas e dirios quanto a iconografia, em particular as artes plsticas. Assim foi o
desenvolvimento da Histria das Mentalidades e da Antropologia histrica, em sua
busca pela descrio e anlise de gestos, crenas, ideias, que trouxe de forma mais
sistemtica a noo da imagem como documento.



198
     A Histria Cultural passou, desde ento, a englobar no conceito de imagem tanto




                                                                                           Iconografia
a Arte, definida a partir de padres estticos, quanto utenslios domsticos, e todo
um conjunto iconogrfico que as artes plsticas costumavam classificar de "popular",
como cones religiosos e xilogravuras, alm da imagem fotogrfica e cinematogrfica,
definindo metodologias prprias para cada um desses objetos.
     Entre esses novos objetos, as artes plsticas so o mais "tradicional". Na verdade,
no exatamente um objeto novo, visto que a Histria da Arte j era uma disciplina
independente no sculo xix. Mas esse campo do conhecimento estava mais preocupado
com a definio das normas estticas e o estudo das biografias dos grandes artistas,
pouco se envolvendo com a compreenso da sociedade ou mesmo da cultura. No
entanto, desde os caminhos abertos pela Nova Histria, a Arte passou a ser entendida
sob novo ngulo, como fonte histrica. As peas deixaram de ser vistas apenas como
obras de arte e ganharam status de documentos representativos dos contextos
histricos de seus autores. O uso da obra de arte sob esse prisma permitiu a comparao
com outros tipos de documentos, diversificando suas possibilidades de anlise. A
iconografia, dessa forma, tornou-se fonte privilegiada para o estudo das mentalidades e
dos costumes. No apenas as artes plsticas, mas as vestimentas, o mobilirio, os cones
populares, a arquitetura e toda a gama de imagens concretas ou abstratas produzidas
pela humanidade. Toda sorte de imagens manualmente elaboradas se tornou fonte
para a compreenso das sociedades pr-Revoluo Industrial, enquanto a fotografia e
o cinema se transformaram em importantes registros das sociedades contemporneas.
     A utilizao da fotografia como fonte primria tem despertado bastante interesse
entre os historiadores nas ltimas dcadas. E por ser uma linguagem histrica nova,
tambm tem suscitado discusses sobre a melhor forma de interpretao. E talvez
nenhuma outra forma de documento tenha uma aura de verdade maior do que a
fotografia. A linguagem fotogrfica assume a aparncia de verdade: a foto "mostra"
a realidade. Essa concepo, que faz parte do senso comum contemporneo, tem
preocupado os historiadores que se debruam sobre a fotografia como fonte,
levando-os a teorizar sobre a relao imagem e interpretao. Alguns, como Boris
Kossoy, defendem uma concepo da imagem fotogrfica muito prxima daquela
que a Escola Metdica construiu sobre o documento escrito: que a autenticidade da
fotografia deve ser testada por uma crtica interna e externa desta; a melhor forma
de analis-la  descrever seus elementos e contedos; e quanto maior o nmero de
fotografias analisadas, maior a possibilidade de comprovar os dados escritos.
     Essa abordagem "positivista", no entanto, no  hegemnica, pois muitos outros
historiadores discordam dela.  o caso de Ana Maria Mauad, que considera a fotografia
uma construo que remete s formas de ser e de agir de determinado contexto


                                                                                   199
              social. Ela afirma que, para que o pesquisador possa alcanar o que no foi revelado
Iconografia



              pela imagem, a fotografia deve ser inserida em seu contexto social e analisada em
              um estudo comparativo com outros tipos de registro, como o documento escrito.
               ainda essa historiadora que, com Ciro Flamarion Cardoso, defende a tese de que
              toda fotografia revela uma imagem-monumento, em que a imagem fotografada no 
              exatamente a representao de uma realidade, mas a representao do que a sociedade
              que a elaborou queria preservar como sua identidade.
                   J no caso da imagem cinematogrfica, a utilizao do filme como linguagem
              da Histria  extremamente recente. O nascimento de sua definio como fonte e
              representao do passado remonta a Marc Ferro, na dcada de 1970.
                   A base da teoria da relao cinemahistria est na concepo de que todo
              filme histrico  um discurso sobre o passado, no qual o cineasta assume o papel
              de historiador. Esses filmes so, ao mesmo tempo, tanto documentos primrios
              pertencentes e referentes ao perodo de sua produo quanto "bibliografia" sobre o
              tema de seu enredo. O filme, no entanto, no pode ser tratado da mesma forma que
              a documentao escrita. E, ao contrrio de outros tipos de fonte, a autenticidade
               uma questo pouco debatida no que se refere  imagem cinematogrfica, pois
              domina a concepo de que todo filme  presentista, ou seja, de que todo filme
              retoma o passado apenas para questionar o presente. Essa questo e o prprio fato
              de que, sendo obra de arte, o filme pe o emocional antes do racional, faz que este
              tenha suas limitaes de discurso sobre o passado. Apesar disso, sua relevncia como
              documento do perodo em que foi produzido no diminui.
                   Seja como for, o potencial do cinema na renovao do ensino da Histria  uma das
              caractersticas mais exploradas e mais valorizadas dessa nova linguagem. Por ser uma
              linguagem bastante familiar a jovens e adolescentes do meio urbano contemporneo
              (muito mais familiar, s vezes, do que a linguagem escrita), os educadores tm cada vez
              mais se voltado para o cinema como recurso de comunicao com seus alunos. J no caso
              da fotografia, um dos maiores problemas de sua utilizao em trabalhos historiogrficos
               a falta de abordagens metodolgicas bem realizadas. Pois, da mesma forma como
              ocorre com a pintura, a fotografia ainda  amplamente usada apenas como ilustrao
              do texto, sem nenhuma referncia maior a seu contedo.
                   A renovao histrica que traz a imagem, em todos os seus aspectos, como fonte
              privilegiada  importante ferramenta para a prpria renovao do ensino. Primeiro,
              devido ao apelo que a imagem exerce sobre o ser humano, mais profundo e mais
              antigo que o texto escrito. Segundo, por revalorizar culturas e sociedades sem escrita,
              permitindo que o professor possa construir, com as novas geraes, uma viso sem
              preconceitos acerca da histria, em que povos sem escrita no sejam considerados


              200
sem cultura. E por ltimo porque no sculo xxi, nas sociedades cada vez mais




                                                                                         Iconografia
globalizadas, em que as mdias tm importante influncia sobre a formao cultural
das crianas e em que a linguagem de crianas e adolescentes  muito mais imagtica
que escrita, o trabalho com a iconografia em sala de aula, com a imagem em suas
diversas formas, inclusive animada, permite que o professor possa traduzir para a
realidade dos jovens o contedo histrico.
     A grande versatilidade das fontes iconogrficas esconde, porm, um grande
perigo: muitas vezes so interpretadas como representaes fiis da realidade. E visto
que, como toda fonte histrica, a imagem precisa passar por uma crtica interna
e externa que estabelea seu contexto de produo, cabe aos professores procurar
aprofundar o conhecimento sobre o meio social gerador das imagens trabalhadas,
para que a iconografia no se transforme, em sala de aula, em mais uma forma de
ilustrao sem contedo.

Ver tAmbm
    Arqueologia; Arte; Fonte Histrica; Histria; Histria Oral; Imaginrio; Indstria
    Cultural; Interdisciplinaridade; Mentalidades; Patrimnio Histrico.

sugestes de leiturA
    cardoSo, Ciro Flamarion; vainFaS, Ronaldo. Domnios da Histria: ensaios sobre
     teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997.
    edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
      entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
    Ferro, Marc. Cinema e Histria. So Paulo: Paz e Terra, 1992.
    FreitaS, Marcos Cezar de (org.). Historiografia brasileira em perspectiva. So
      Paulo: Contexto, 1998.
    KoSSoy, Boris. A fotografia como fonte histrica: uma introduo  pesquisa
     e interpretao das imagens do passado. So Paulo: Museu da Indstria,
     Comrcio e Tecnologia de So Paulo, 1980.
    napolitano, Marcos. Como usar televiso na sala de aula. 5. ed. So Paulo:
     Contexto, 2003.
    ______. Como usar o cinema na sala de aula. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2004.
    paiva, Eduardo Frana. Histria & imagem. Belo Horizonte: Autntica, 2002.
    rama, Angela; verGueiro, Waldomiro. Como usar as histrias em quadrinhos na
      sala de aula. So Paulo: Contexto, 2004.




                                                                                  201
             identidAde
Identidade




                  Com o surgimento dos debates em torno da ps-modernidade e do
             multiculturalismo, no final do sculo xx, o tema das identidades veio  tona na
             Histria. Na verdade, a noo de identidade no  nova nas cincias humanas, j
             sendo bem conhecida da Psicologia e da Antropologia, mas  uma preocupao
             recente para os historiadores, desenvolvida principalmente por aqueles que
             trabalham com a interdisciplinaridade. Esse conceito tem atingido relevncia tal
             para a compreenso do mundo de hoje que alcanou j as salas de aula, o que 
             visvel, por exemplo, na inquietao dos educadores em promover a conscientizao
             sobre a diversidade cultural brasileira: o conhecimento dessa diversidade passa pela
             definio das identidades tnicas, regionais, entre outras. A noo de identidade
             tornou-se, assim, um dos conceitos mais importantes de nossa poca.
                  O conceito de identidade vem levantando muitas questes em diversos campos
             das cincias humanas. Sua origem remete  Filosofia e  Psicologia, mas hoje a
             Antropologia tem sido uma das cincias mais prolficas em seu estudo. Alm disso,
             a rea interdisciplinar conhecida como Estudos Culturais  um dos principais frutos
             da ps-modernidade nas cincias humanas e sociais  tambm tem questionado a
             construo de identidades sob os prismas mais diversos: sociolgicos, lingusticos
             e por meio da teoria da comunicao. Nesse contexto, a noo de identidade gerou
             muitos conceitos diferentes: identidade nacional, identidade tnica, identidade
             social, cada um deles com uma gama de significados e mtodos de anlise prprios.
                  Partindo de uma definio filosfica, a qual agrega conceituaes antropolgicas
             e psicolgicas, Dominique Wolton define identidade como o carter do que
             permanece idntico a si prprio; como uma caracterstica de continuidade que o Ser
             mantm consigo mesmo. Partindo dessa ideia, podemos compreender a identidade
             pessoal como a caracterstica de um indivduo de se perceber como o mesmo ao
             longo do tempo. Tanto para a Antropologia quanto para a Psicologia, a identidade 
             um sistema de representaes que permite a construo do "eu", ou seja, que permite
             que o indivduo se torne semelhante a si mesmo e diferente dos outros. Tal sistema
             possui representaes do passado, de condutas atuais e de projetos para o futuro.
             Da identidade pessoal, passamos para a identidade cultural, que seria a partilha de
             uma mesma essncia entre diferentes indivduos.
                  Todos temos identidade, a palavra inclusive est em nosso dia a dia: no Brasil,
             somos registrados em um documento, a carteira de identidade. Tal documento  a
             representao oficial do indivduo como cidado. Ele  uma representao, entre
             vrias, de nossa identidade social. Para a Psicologia Social, a identidade social  o
             que caracteriza cada indivduo como pessoa e define o comportamento humano



             202
influenciado socialmente. Nesse sentido, a identidade social  o conjunto de papis




                                                                                                Identidade
desempenhados pelo sujeito per si. Papis que, alm de atenderem a determinadas
funes e relaes sociais, tm profunda representao psicolgica por se referirem
sempre s expectativas da sociedade. A Psicologia Social assume, assim, que a
personalidade, a histria de vida de cada um,  bastante influenciada pelo meio so-
cial, pelos papis que o indivduo assume socialmente. Nesse sentido, a identidade social
 construda para permitir a manuteno das relaes sociais de dominao. Alm
disso, tomar conscincia da prpria identidade, tomar conscincia de si  um
primeiro passo para alterar, se necessrio, a identidade social, como dominado.
      J na Antropologia, o conceito de identidade serve para uma infinidade de
abordagens diferentes. O antroplogo social Roberto DaMatta, por exemplo, usa a
noo de identidade social para discutir a construo de uma identidade nacional
brasileira. Em sua obra O que faz o Brasil Brasil, DaMatta se preocupa em responder
como se constri uma identidade social e, mais especificamente, como um povo se
transforma em Brasil. Para ele, a construo da identidade social  feita de afirmativas
e negativas, a partir dos posicionamentos dos indivduos diante das situaes do
cotidiano. De acordo com DaMatta, uma pessoa cria sua identidade ao se posicionar
diante das instituies, ao responder s situaes sociais mais importantes da
sociedade: como um indivduo entende o casamento, a Igreja, a moralidade, a Arte, as
leis etc.,  o que define sua identidade social. Esses perfis seriam construdos a partir das
frmulas dadas pela sociedade, e no criados simplesmente pela escolha individual.
      Um ponto de vista muito controverso no trabalho de DaMatta, entretanto,
 sua definio de uma identidade brasileira nica. Para ele, o Brasil se define
qualitativamente a partir do futebol, do carnaval, do sincretismo, da sensualidade
etc. E muitos so os pensadores que criticam essa viso, considerando-a muito
simplista, por escamotear todas as diferenas regionais, tnicas e sociais existentes
no Brasil e considerar apenas os esteretipos criados sobre o Brasil.
      A questo das identidades tem gerado, ainda na Antropologia, muitas outras
vertentes de trabalho. Na Amrica Latina, diversos tm sido os autores preocupados
com a ligao entre identidade, nao e etnia, que refletem sobre a construo das
identidades tnicas, regionais e nacionais, conceitos muitas vezes interligados.
Para autores como George Zarur e Parry Scott, o conceito de identidade  muito
importante para a compreenso do mundo globalizado, em que o enfraquecimento
dos Estados nacionais tem gerado a fragmentao das identidades nacionais
e o ressurgimento de outras identidades, de gnero, tnicas, justamente dessa
fragmentao. Nesse sentido,  possvel estudarmos as identidades com base
em muitas premissas, como, a partir do hibridismo, ou seja, da sobreposio de
identidades diferentes, o que  cada vez mais comum nos pases que recebem grandes


                                                                                        203
             levas de imigrao. Nesses lugares, os imigrantes de diferentes origens se mesclam,
Identidade



             assim como suas culturas, criando culturas hbridas. Essa Antropologia estuda a
             identidade em seu carter relacional, ou seja, uma identidade se constri a partir
             do encontro com os outros.
                  Recentemente, a Histria, dentro dos novos interesses gerados pela interdisci-
             plinaridade e pela ps-modernidade, tem tentado trabalhar com o conceito de
             identidade. Talvez um dos principais campos da historiografia a refletir sobre essa
             noo seja o dos estudos da memria. Para David Lowenthal, identidade e memria
             esto indissociavelmente ligadas, pois sem recordar o passado no  possvel saber
             quem somos. E nossa identidade surge quando evocamos uma srie de lembranas.
             Isso serve tanto para o indivduo quanto para os grupos sociais.
                  Mas, talvez o campo de estudos que mais tem-se preocupado com a questo
             da identidade seja o dos Estudos Culturais. Tal campo, surgido na Inglaterra no
             final do sculo xx com autores como Stuart Hall, tem como objetivo criticar o
             estabelecimento de hierarquias culturais, nas quais algumas culturas so consideradas
             superiores a outras. Esses estudos tm grande interesse em discutir conceitos como
             raa, etnia e nao do ponto de vista da produo cultural, trabalhando com temas
             como indstria cultural, cultura popular, colonialismo e ps-colonialismo. Temas
             para os quais a compreenso da construo das identidades  fundamental.  dessa
             perspectiva que Tomaz Silva afirma que a compreenso da identidade deve levar em
             considerao sua relao intrnseca com a diferena, pois a identidade no existe
             sem a diferena: ao dizer que somos brasileiros, estamos automaticamente dizendo
             que no somos alemes, nem chineses, por exemplo. Kathryn Woodward concorda
             com essa perspectiva, determinando a identidade como uma construo relacional,
             ou seja, para existir ela depende de algo fora dela, que  outra identidade. Alm
             disso, precisamos considerar que toda identidade  uma construo histrica: ela
             no existe sozinha, nem de forma absoluta, e  sempre construda em comparao
             com outras identidades, pois sempre nos identificamos como o que somos para nos
             distinguir de outras pessoas. A identidade feminina, por exemplo, se constri ante
             a identidade masculina, a identidade dos negros ante a identidade dos brancos etc.
                  Para Ana Carolina Escosteguy, a construo das identidades culturais no novo
             milnio  a temtica central dos Estudos Culturais. Vemos, assim, que os interesses se
             aproximam muito dos da Antropologia, e no   toa, pois os Estudos Culturais so um
             campo de estudos nitidamente interdisciplinar, ou transdisciplinar como querem alguns.
                  Mas por que o conceito de identidade  algo to frisado pelas cincias humanas
             do sculo xxi? Antroplogos e culturalistas acreditam que a globalizao aproximou
             culturas e costumes e, logo, identidades diferentes. Assim, a convivncia com o
             diferente faz com que as identidades aflorem. Por outro lado, a crise do Estado nacional
             e dos valores institudos pelo Iluminismo e pela Revoluo Industrial tem trazido a



             204
necessidade de construo de novos valores, buscados sobretudo nas identidades




                                                                                        Ideologia
de grupos, de gnero, tnicas, regionais. Vemos, assim, a complexidade da noo de
identidade e sua enorme importncia para a construo da cidadania. Ao levantarmos
em sala de aula a bandeira do respeito  diversidade cultural, s minorias, estamos
nos inserindo na discusso sobre a identidade. Nesse sentido, no podemos apenas
receber as concluses oferecidas pelos livros didticos,  preciso aprofundamento nos
debates sobre as vrias faces da construo das identidades no mundo globalizado.

Ver tAmbm
    Cidadania; Etnia; Etnocentrismo; Gnero; Globalizao; ndio; Indstria Cultural;
    Interdisciplinaridade; Memria; Miscigenao; Negro; Ps-modernidade.

sugestes de leiturA
    barboSa, Alexandre de Freitas. O mundo globalizado: poltica, sociedade e
      economia. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
      entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
    eScoSteGuy, Ana Carolina. Cartografias dos estudos culturais: uma verso latino-
      americana. Belo Horizonte: Autntica, 2001.
    lane, Silvia T. Maurer. O que  psicologia social. So Paulo: Brasiliense, 1991.
    napolitano, Marcos. Cultura brasileira: utopia e massificao. 2. ed. So Paulo:
     Contexto, 2004.
    pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
      Contexto, 2003.
    Scott, Parry; zarur, George (orgs.). Identidade, fragmentao e diversidade na
      Amrica Latina. Recife: Ed. Universitria  uFpe, 2003.
    Silva, Tomaz Tadeu; Hall, Stuart; WoodWard, Kathryn. Identidade e diferena:
      a perspectiva dos estudos culturais. Petrpolis: Vozes, 2004.




ideologiA
    H vrios significados para o termo. Um dos mais abrangentes apresenta a
ideologia como um sistema de "ideias" ou, mais exatamente, de crenas mais ou menos
coerente. Considera ainda que as ideologias so formas de se entender o mundo e de
se posicionar nele. Essa definio, porm, no  a nica. Para muitos intrpretes, a
ideologia, ao invs de esclarecer a realidade concreta, prejudica o seu entendimento.


                                                                                  205
            De qualquer modo, existe o consenso de que nenhuma sociedade  desprovida de
Ideologia



            crenas ou valores e a ideologia  parte desse sistema de valores mais amplos.
                 Em uma dada sociedade, no h uma "verdadeira" ideologia, mas vrias.
            Os estudos culturais consideram que, mesmo na indstria cultural, os meios de
            comunicao de massa no expressam um nico universo ideolgico, mas sim uma
            pluralidade de ideologias e discursos. Muitos estudiosos defendem que no apenas
            classes sociais diferentes possuem ideologias especficas, mas que tambm fraes
            de classe, etnias, grupos profissionais so portadores de ideologias particulares.
            No negam a existncia de uma ideologia dominante ou hegemnica, mas cada vez
            acreditam que, se no h ideologias que se opem  ideologia hegemnica, existem
            pelo menos formas adaptativas e criativas elaboradas pelos diferentes grupos sociais
            para interpretar e se relacionar com tal ideologia dominante.
                 A noo de ideologia surgiu no final do sculo xviii, mas foi s no sculo xix
            que se desenvolveu em um nmero enorme de doutrinas sociais. Nesse momento
            comearam a se definir o liberalismo, o anarquismo, o Socialismo, o marxismo, o
            libertarianismo, o igualitarismo, entre outras ideologias que orientaram atitudes
            individuais e coletivas de explicao e interveno na realidade. Ao longo do sculo
            xix, entretanto, o termo ideologia ganhou conotaes pejorativas, em particular

            na viso marxista. Para Marx, a classe social economicamente dominante em uma
            poca  tambm dominante em termos de ideologia, ou seja, domina a produo
            de ideias que permeiam o tecido social, justificando sua dominao. Assim sendo,
            na poca de predomnio da nobreza dominava a ideologia aristocrtica, e na poca
            do domnio da burguesia capitalista, a ideologia dominante era a burguesa. Como
            resultado do domnio econmico da burguesia, e ajudando a consolid-lo, surgiram
            novas formas de se pensar o Estado, a famlia, o trabalho, a liberdade, a democracia,
            a cincia, a tcnica, a histria etc. Marx, e muitos de seus seguidores, defendiam que
            o discurso burgus era ideolgico, apenas aparentemente verdadeiro, mas que de
            fato ocultava a real explorao e os reais interesses dos grupos dominantes. Nesse
            sentido, o conceito marxista de ideologia tende a v-la como forma de ocultamento
            da realidade, como algo que permite a explorao de classe e facilita a alienao das
            classes exploradas. E para escapar da ideologia dominante, seria necessrio um uso
            combinado e revolucionrio de teoria e prtica. Sintetizando, Marx compreendeu
            a ideologia no como um conjunto solto de ideias, resultante unicamente do
            pensamento abstrato, mas como um instrumento da dominao de classe e como
            uma forma de luta de classes, que s poderia ser compreendida e criticada a partir
            do terreno histrico e econmico que lhe d origem.
                 Adotando o conceito marxista de ideologia, Marilena Chaui apresenta pontos
            fundamentais dessa definio: a ideologia  um sistema ordenado de ideias ou



            206
representaes, normas e regras, que aparece como algo separado e independente das




                                                                                         Ideologia
condies materiais. Mas a est o engano promovido pela ideologia, pois nenhuma
ideia existe de fato sem relao com as condies materiais de existncia. Ou seja, as
ideias de algum so ideias localizadas em determinada classe social, em determinada
condio econmica e social. Assim, a ideologia aparece intimamente relacionada 
alienao, no sentido de que os homens, iludidos pelas ideias dominantes, deixam de
se reconhecer como agentes histricos. Chaui acredita, como Engels e Marx, que no
basta to s que haja uma mudana subjetiva na conscincia dos homens para que se
mude a realidade objetiva, a mudana deve partir da realidade objetiva, da ao no
alienada que transforme as relaes sociais reais. E nessa ao, a crtica  ideologia
deve ter lugar, sendo relacionada com a prtica poltica.
     A autora demonstra assim a necessidade de "desmascarar" a ideologia burguesa,
pois primeiro tal ideologia afirma que a educao  um direito de todos, mas, na
realidade, as contradies do Capitalismo no permitem a realizao dessa "ideia"
ao separar o trabalho intelectual do manual. Segundo, a ideia burguesa afirma que
o Estado  um consenso da comunidade, da sociedade civil para garantir unidade
e harmonia entre as classes sociais, enquanto se oculta que ele  um instrumento
de uma classe em particular (a dominante), uma forma de manuteno da diviso
e das contradies de classe. A terceira ideia burguesa de trabalho afirma que este
dignifica o homem, escondendo que as condies reais de trabalho, na sociedade
capitalista, desumanizam, brutalizam, entorpecem o homem. Alm disso, a ideia
de que os homens so livres por natureza para escolher entre coisas ou situaes
dadas tambm  um engodo, pois as "condies dadas" no permitem que as pessoas
escolham livremente, mas sob presso da pobreza e misria em que vivem. Por ltimo,
faz parte da ideologia burguesa a apologia do progresso, do avano tcnico e da
"evoluo" histrica que ele traz de modo contnuo, ocultando-se que progresso 
apenas a realizao do burgus enriquecido e nem sempre  "positivo" por si mesmo.
Haveria ainda numerosas outras "mscaras" (a democracia, por exemplo) a encobrir
a realidade, e seria necessrio desmantelar a ideologia por uma prtica poltica
nascida dos prprios explorados. E em uma prtica desse tipo seria fundamental a
crtica da ideologia, preenchendo os silncios e as lacunas do discurso ideolgico.
     No sculo xix, quando o sentido pejorativo do termo predominou, a ideologia
era tida como uma forma de enganar, e muitas vezes uma ideologia atribua a uma
outra a alcunha de "ideolgica", esquecendo-se do paradoxo de que essa afirmao
tambm  ideolgica. Ao longo do sculo xx, entretanto, alguns pontos positivos
tambm foram percebidos no conceito. A concepo marxista de ideologia foi
cedendo lugar a outras concepes, mas o pressuposto marxista bsico, de que se
deve tomar cuidado com as aparncias de uma ideia, e sempre perguntar quais so
as "foras" que esto por trs dela, no foi abandonado. O que se questionou em



                                                                                 207
            Marx foi a separao que ele fez, excessivamente esquemtica, entre o plano
Ideologia



            econmico/material (a base ou estrutura) e o plano das ideias polticas, jurdicas etc.
            (a superestrutura), considerando esta ltima determinada pela primeira.
                 Os estudos culturais, a partir da dcada de 1970, tm mostrado que uma mesma
            sociedade possui numerosos discursos e ideologias que se embatem, embora os meios
            de comunicao tendam a reproduzir a ideologia hegemnica. Esses mesmos estudos
            consideram ainda que a emisso de mensagens com contedos ideolgicos pela mdia
            no garante uma nica interpretao, podendo haver uma "autonomia relativa" por
            parte dos consumidores. Inspirados em autores como Antonio Gramsci, estudiosos
            esto definindo o sujeito no como alienado, mas como portador de experincias que
            lhe permitem, seno adotar uma ideologia prpria, ao menos interpretar a seu modo
            a ideologia hegemnica. Dessa forma, rejeitando o marxismo, quando este afirma que
            as estruturas econmicas determinam a forma de pensar de uma dada sociedade, os
            autores culturalistas afirmam que na sociedade existem vrias foras determinantes
            (inclusive a cultura) bem como que o ideolgico no  mero reflexo das condies
            econmicas. Buscam demonstrar ainda os aspectos "positivos" da ideologia, como o
            fato de que ela assegura a coeso entre os membros de uma classe ou de uma Nao.
            Esclarecem tambm que a maioria dos textos de Marx trata das ideologias das classes
            dominantes, sem enveredar pelas ideologias dos grupos populares.
                  relevante lembrar que foram autores de tradio marxista como Gramsci e
            Althusser que contriburam para muitas das concepes dos estudos culturais, 
            medida que valorizaram mais os aspectos culturais e ideolgicos das sociedades. Para
            Gramsci, alm da dominao e reproduo social, a ideologia  um campo tambm
            de resistncias, em que no necessariamente os dominados aderem  ideologia
            hegemnica, pois tambm entram no jogo do dominador a partir de seus prprios
            interesses. J Althusser, compreendeu a cultura na sua "autonomia relativa" diante
            dos demais aspectos da sociedade, dando a entender que no havia uma nica e
            decisiva "fora determinante" na sociedade. Tanto no marxismo quanto nos Estudos
            Culturais h uma relao inevitvel entre ideologia e poder.
                 A acusao de ser ideolgico, frequente no sculo xix e sculo xx, d a entender
            que certos movimentos sociais e polticos no tm uma fundamentao real e
            teoricamente slida. Acusar o feminismo, por exemplo, de ser ideolgico foi uma forma
            comum de diminuir sua influncia na emancipao das mulheres, desacreditando,
            inclusive, os estudos e as pesquisas que muitas mulheres desenvolveram para mostrar
            a opresso feminina e as formas de superao. Durante muito tempo, as instituies
            universitrias opuseram rigidamente a "sua cincia" ao universo "ideolgico" (portanto,
            poltico) do feminismo, fechando as portas s obras produzidas pelo feminismo.


            208
A oposio entre cincia e ideologia, entretanto,  s aparente: uma feminista da dcada




                                                                                           Ideologia
de 1960 tambm poderia, com razo, acusar as universidades de serem um instrumento
ideolgico da dominao masculina, uma vez que o adjetivo ideolgico se presta a
muitos usos. Podemos nos questionar se a Histria, a Sociologia, a Antropologia
e demais cincias sociais so formas neutras de compreenso da realidade e se os
pesquisadores tambm no so ideolgicos mesmo que digam que no o so. O prprio
marxismo se tornou mais do que uma teoria explicativa da realidade, transformando-
se em uma ideologia em vrios sentidos.
     Quando o papa faz um discurso fundamentado na religio condenando o
aborto, e uma pesquisadora de formao feminista afirma que o aborto deve ser
um direito de todas as mulheres, quem est sendo ideolgico e quem no est? Esse
 s um exemplo de como  difcil no ser ideolgico quando os temas discutidos
dizem respeito  poltica,  religio,  sexualidade,  economia etc. Falar em fim
das ideologias, desse modo, soa tambm como ideolgico. O professor de Histria
deve compreender os sentidos do termo na cultura, por meio dos discursos e das
representaes sociais em quadros, fotografias, textos jornalsticos, programas de tv,
propagandas etc. Tendo a ideologia sentidos positivos e negativos, podemos discutir
frases cotidianas como "aquele poltico no tem ideologia" ou "esta  uma greve
poltica", usando esses elementos como ponto de partida simples para a compreenso
de um conceito difcil como  o caso de ideologia.

Ver tAmbm
    Discurso; Feminismo; Imaginrio; Marxismo; Mentalidades; Poltica; Teoria.

sugestes de leiturA
    bottomore, Tom; outHWaite, William (eds.). Dicionrio do pensamento social
      do sculo xx. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.
    boudon, Raymond; bourricaud, Franois. Dicionrio crtico de Sociologia. So
      Paulo: tica, 1993.
    cHaui, Marilena. O que  ideologia?. So Paulo: Brasiliense, 2001.
    collinSon, Dian. 50 grandes filsofos: da Grcia antiga ao sculo xx. 2. ed. So
     Paulo: Contexto, 2004.
    edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
      entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
    eScoSteGuy, Ana Carolina D. Cartografia dos estudos culturais: uma verso latino-
      americana. Belo Horizonte: Autntica, 2001.
    HuGHeS-WarrinGton, Marnie. 50 grandes pensadores da Histria. So Paulo:
     Contexto, 2002.


                                                                                   209
             iluminismo
Iluminismo




                  O Iluminismo  um dos temas mais importantes na Histria das ideias,
             influenciando toda a estrutura mental do Ocidente contemporneo. Como conceito,
             foi criado pelo filsofo alemo Imannuel Kant, em 1784, para definir a filosofia
             dominante na Europa ocidental no sculo xviii. A palavra Iluminismo vem de
             Esclarecimento (Aufklrung no original alemo), usada para designar a condio
             para que o homem, a humanidade, fosse autnomo. Isso s seria possvel, afirmava
             o Iluminismo, se cada indivduo pensasse por si prprio, utilizando a razo.
                  O Iluminismo abarcou tanto a Filosofia quanto as cincias sociais e naturais, a
             educao e a tecnologia, desde a Frana at a Itlia, a Esccia e mesmo a Polnia e a
             Amrica do Norte. Os pensadores e escritores de diversas reas que aderiram a esse
             movimento de crtica s ideias estabelecidas pelo Antigo Regime eram chamados
             comumente de philosophes, filsofos em francs, mas entre eles havia tambm
             economistas, como Adam Smith, e historiadores, como Vico e Gibbons.
                  Esses filsofos do sculo xviii, que chamados hoje de iluministas, definiam a
             si mesmos como homens do "sculo das luzes". Para eles o sculo xviii foi o pice
             da maturidade intelectual e racional do homem. Mas tais filsofos no seguiam
             uma nica e coerente corrente de pensamento, pelo contrrio, possuam mltiplos
             discursos, no tinham nenhum manifesto ou programa de ideias, e muitos,
             inclusive, se contestavam mutuamente. Essas divergncias dificultam a definio
             do Iluminismo como um movimento, pois no havia coerncia de pensamento.
             Todavia, a maioria desses pensadores compartilhava algumas ideias em comum: a
             defesa do pensamento racional, a crtica  autoridade religiosa e ao autoritarismo
             de qualquer tipo e a oposio ao fanatismo. Influenciados pela revoluo cientfica
             do sculo xvii, principalmente pelo racionalismo e pelo cientificismo de Descartes, a
             maioria dos iluministas pregava o papel crtico da razo, considerando essa a nica
             ferramenta capaz de esclarecer a humanidade. Em geral, combatiam a Igreja Catlica
             e sua enorme influncia social e poltica na Europa do Antigo Regime.
                  Entre os principais filsofos do Iluminismo esto pensadores como
             Diderot, Montesquieu, Voltaire e Rousseau. Cada um deles abordando a razo
             de uma perspectiva particular. Diderot, por exemplo, foi um dos responsveis
             pela elaborao da Enciclopdia, primeira obra a reunir diversos ramos de
             conhecimento cientfico para tentar explicar o mundo. Sua obra foi precursora das
             atuais enciclopdias, que tm a mesma inteno, sem, no entanto, enveredarem
             por discusses ticas e morais como as promovidas por Diderot. Rousseau, por
             sua vez, discordou da maioria dos iluministas, pois era contrrio ao progresso e
             pregava a volta  liberdade primitiva, construindo, assim, o mito do "bom selvagem".



             210
Defendia tambm que todo governo deveria emanar da soberania popular e ser




                                                                                           Iluminismo
constitudo a partir de um pacto social entre povo e governantes. Rousseau foi um
pessimista, pois acreditava que o progresso no traria benefcios para todos assim
como que a civilizao degradava o homem, mas sua filosofia poltica influenciou
sobremaneira a elite da Amrica Hispnica no incio do sculo xix, dando o
direcionamento republicano das independncias latino-americanas.
     J Voltaire, alm de filsofo, foi um importante escritor. Satrico e moderado,
apesar de se opor ao Absolutismo, defendia uma monarquia "esclarecida". Chegou
mesmo a inspirar os dspotas esclarecidos de seu tempo, como o rei Frederico ii, da
Prssia, cuja corte integrou. A obra de Voltaire prima pela stira  sociedade da poca,
em que as crenas religiosas e o fanatismo tinham importante papel. Teve uma longa
carreira como escritor, dedicando seus trabalhos a "esclarecer" a humanidade, ou seja,
a combater o fanatismo e a ignorncia. Voltaire foi um intelectualista que, ao contrrio
de Rousseau, defendeu o progresso como impulsionador da civilizao.
     Em linhas gerais, o pensamento iluminista foi elitista e intensamente progressista.
No primeiro caso, voltados para um pblico instrudo, os filsofos queriam educar os
"bons burgueses" e pouco tinham a dizer ao povo e aos trabalhadores. No segundo, a
maioria dos iluministas acreditava que a histria em sua constante mudana estaria
sempre tendendo a mudar para melhor. Essa viso otimista da histria foi mais bem
esboada por Condorcet, um dos ltimos iluministas. Para ele, o homem tinha uma
capacidade infinita de se aperfeioar, o que permitia s sociedades se tornarem cada
vez mais avanadas, sempre baseadas na razo.
     A razo e o progresso, dessa forma, foram elementos bsicos do pensamento
iluminista e influenciaram as transformaes polticas e sociais entre o fim do sculo
xviii e o incio do sculo xix. Tal pensamento, em sua crtica ao Absolutismo,  Igreja

Catlica e  estrutura do Antigo Regime como um todo, encaixava-se nas aspiraes
e desiluses da burguesia em ascenso na Europa do sculo xviii. Essa classe social
se inspirou no iluminismo para construir a retrica e as bandeiras de suas revoltas
naquele momento. Foi o caso da independncia dos Estados Unidos, planejada e
realizada por seguidores do Iluminismo, como Thomas Jefferson, assim como da
Revoluo Francesa e da independncia da Amrica Latina. O resultado foi que, com
essas revoltas tornando-se vitoriosas, o Iluminismo se transformou na base dos novos
Estados e da mentalidade emergida desses movimentos.
     A presena do pensamento iluminista nesses movimentos de definio do mundo
contemporneo fundamentou as sociedades ocidentais nas aspiraes e nos projetos
da burguesia, que tinham a razo e o progresso como pensamento bsico. Para isso
contribuiu tambm a Revoluo Industrial, que teve como lema o progresso. A juno
desses elementos impulsionou o crescimento do cientificismo e do desejo da ordem


                                                                                   211
             como aspirao fundamental para a civilizao. As sociedades ocidentais dos sculos
Iluminismo



             xix e xx constituram-se, dessa forma, sobre esse fundamento iluminista, defendendo

             como naturais conceitos elaborados pelo Esclarecimento: a razo acima da f, o
             progresso, o governo representativo da vontade popular, as liberdades individuais,
             o culto  cincia. Desse contexto, iluminista e industrial, nasceu o pensamento
             moderno das sociedades contemporneas.
                  O Iluminismo, dessa forma,  entendido como um momento fundador da
             modernidade e do mundo contemporneo, em que predominam os valores
             burgueses. E como tal, passou, desde meados do sculo xx, a sofrer diversas crticas
             dos opositores da modernidade e do imperialismo.
                  As primeiras crticas vieram da Escola de Frankfurt. O filsofo alemo Theodor
             Adorno, com sua gerao de exilados pela Segunda Guerra Mundial, comeou a
             indagar, em meados do sculo xx, sobre a validade do progresso e da tcnica para
             a histria da humanidade. Ao lado de Horkheimer, Adorno afirmou o fracasso do
             Iluminismo, pois, para os frankfurtianos, o Iluminismo no libertou o homem do
             medo e do mito, nem o tornou autnomo, por meio do domnio da cincia e da
             tcnica. Em vez disso, uma vez derrotado o fanatismo religioso, o homem passou a
             ser vtima de um novo fanatismo, criando outro dogma, o da cincia e da tecnologia,
             para a sociedade contempornea.
                  Nas ltimas dcadas do sculo xx surgiu outra corrente filosfica contrria ao
             Iluminismo, a ps-modernidade. Criticando o predomnio das sociedades ocidentais
             sobre o mundo e a imposio de seus valores a todas as culturas em contato com
             os ocidentais, os ps-modernos passaram a criticar a supremacia do cientificismo
             e do progresso. O culto ao progresso entrou em decadncia nos meios intelectuais
             e os limites entre razo, senso comum e religiosidade comearam a ser repensados.
             Apesar disso, a estrutura de pensamento predominante no Ocidente continua a ser
             a derivada do Iluminismo, e alguns autores atuais, inclusive, pregam a revalorizao
             dos princpios iluministas. Entre eles est o filsofo brasileiro Sergio Paulo Rouanet,
             que critica o excessivo relativismo de algumas vises ps-modernas e defende a volta
             da razo como parmetro para o pensamento cientfico.
                  Para o professor e a professora de Histria, conhecer o sentido do Iluminismo 
             um desafio atual. Uma proposta que pode dar bons frutos em sala de aula  comear
             trabalhando com o Iluminismo a partir da atualidade, observando como algumas
             variantes sobrevivem e ainda atuam na sociedade brasileira presente. Por exemplo,
             refletindo sobre a extrema importncia dada  cincia, sobre a crena de que o
             pensamento cientfico  superior ao religiosos, sobre o pensamento progressista etc.
             Contemporaneizar o tema, fazendo a ligao entre passado e presente torna mais
             interessante buscar suas razes histricas, retornando, assim, para o sculo xviii.


             212
Devemos evitar abordar o Iluminismo to somente como a filosofia de uma elite




                                                                                             Imaginrio
intelectual morta h trezentos anos, pois ao fazermos isso perdemos o sentido de
por que realmente estamos estudando o tema, o sentido de sua grande influncia
na formao das sociedades contemporneas.

Ver tAmbm
    Absolutismo; Burguesia; Liberdade; Modernidade; Nao; Ps-modernidade;
    Relativismo Cultural; Revoluo Francesa; Revoluo Industrial.

sugestes de leiturA
    adorno, Theodor. Textos escolhidos. So Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleo
     Os Pensadores).
    edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
      entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
    ForteS, L. R. Salinas. O Iluminismo e os reis filsofos. So Paulo: Brasiliense, 1981.
    Gray, John. Voltaire: Voltaire e o Iluminismo. So Paulo: Ed. Unesp, 1999.
    GreSpan, Jorge. Revoluo Francesa e Iluminismo. So Paulo: Contexto, 2003.
    HuGHeS-WarrinGton, Marnie. 50 grandes pensadores da Histria. So Paulo:
     Contexto, 2002.
    rouanet, Sergio Paulo. As razes do Iluminismo. So Paulo: Companhia das
     Letras, 1987.
    StratHern, Paul. Rousseau em 90 minutos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
    venturi, Franco. Utopia e Reforma no Iluminismo. Bauru: Edusc, 2003.
    voltaire. Dicionrio filosfico. So Paulo: Martin Claret, 2003.




imAginrio
     Imaginrio  uma palavra que desde as ltimas dcadas do sculo xx invadiu
a produo da Histria no mundo ocidental. Intrinsecamente envolvido com a
chamada Nova Histria francesa e com a produo de uma Histria das Mentalidades,
seu estudo, no entanto, ultrapassa as fronteiras da Histria, atingindo a Antropologia
e a Filosofia. Imaginrio significa o conjunto de imagens guardadas no inconsciente
coletivo de uma sociedade ou de um grupo social;  o depsito de imagens de
memria e imaginao. Ele abarca todas as representaes de uma sociedade, toda a
experincia humana, coletiva ou individual: as ideias sobre a morte, sobre o futuro,


                                                                                     213
             sobre o corpo. Para Gilbert Durant,  um museu mental no qual esto todas as
Imaginrio



             imagens passadas, presentes e as que ainda sero produzidas por dada sociedade.
             O imaginrio  parte do mundo real, do cotidiano, no  algo independente. Na
             verdade, ele diz respeito diretamente s formas de viver e de pensar de uma sociedade.
             As imagens que o constituem no so iconogrficas, ou seja, no so fotos, filmes,
             imagens concretas, mas sim figuras de memria, imagens mentais que representam
             as coisas que temos em nosso cotidiano.
                  Cada imaginrio possui uma ou mais imagens ideais de mulher, possui uma
             ou vrias imagens da morte, da vida, de Deus, do governo, da Nao, do trabalho
             etc. Essas imagens so construdas na memria coletiva a partir da forma como as
             pessoas, em seus grupos sociais, entendem o cotidiano ao seu redor, ou seja, da noo
             de representao. O conceito de representao, por sua vez, est em ntima conexo
             com o de imaginrio e diz respeito  forma pela qual um indivduo ou um grupo
             v determinada imagem, determinado elemento de sua cultura ou sociedade. Por
             exemplo, a elite aucareira na sociedade escravista via as mulheres negras de forma
             bem especfica: como pessoas libidinosas, que no gostavam de trabalhar, precisavam
             de disciplina. Assim, essa elite representava as mulheres negras de uma maneira que
             tinha tudo a ver com sua posio na estrutura social. Nesse sentido, a representao
              a forma como um grupo social v e explica um elemento de sua sociedade. E no
             caso da representao que a elite construiu sobre as mulheres negras, ela logo passou
             a constituir o imaginrio da sociedade escravista, criando uma imagem da mulher
             negra, estereotipada e indiferente s singularidades de cada indivduo. Por outro lado,
             a forma como lemos uma imagem muda constantemente e depende de nossa posio
             na estrutura social. Desse modo,  possvel estudarmos a evoluo das representaes
             de uma imagem ao longo do tempo. Foi isso, por exemplo, que fez Maurice Agulhon
             com a imagem da Repblica na Frana, entre a Revoluo e o fim do sculo xix,
             acompanhando as mudanas na forma pela qual a sociedade francesa representou a
             Repblica ao longo desse perodo e percebendo que com as mudanas polticas e sociais
             mudavam tambm as representaes da Repblica. Assim, podemos perceber que as
             imagens no so fixas nem imveis, bem como que as representaes que constituem
             o imaginrio mudam tambm de acordo com o perodo.
                  O estudo das representaes e do imaginrio pode ser feito tanto sobre imagens
             iconogrficas quanto sobre discursos, pois ambos reproduzem figuras de memria,
             e cada imagem  um trao da mentalidade coletiva de sua poca. Nesse sentido,
             uma obra de arte est repleta de imagens da memria e da imaginao, e nunca
             expressa somente as ideias de seu autor, mas remete sempre ao contexto histrico
             que o envolve. Assim, um autor, por mais que tente ser original, no pode fugir ao
             imaginrio ao qual pertence e compartilha com muitos outros.


             214
     O estudo do imaginrio chegou  Histria com a Psicologia e a Antropologia,




                                                                                             Imaginrio
aparecendo de forma sistemtica pela primeira vez nos trabalhos dos fundadores
de Annales, Marc Bloch e Lucien Febvre. Mas foi a terceira gerao de Annales,
a Nova Histria, que deu nfase especial ao imaginrio, com seus estudos sobre
mentalidades e cultura, derrubando a ideia de que o que era concreto era mais
importante do que o que era invisvel. Para historiadores como Georges Duby, o
mundo invisvel, imaginado,  to importante para a vivncia cotidiana quanto o
mundo visvel. O mundo imaginado, de sonhos, angstias, inquietaes, se projeta
no mundo "real", na sociedade. E isso pode ser visto, por exemplo, na Arte. Duby,
como outros historiadores do imaginrio, foi bastante influenciado pelo trabalho
do holands Johannes Huizinga, que j em 1919 afirmava que o sentido de uma
sociedade estava em seu sistema de representaes, seu imaginrio e na forma como
ele se relacionava com as estruturas sociais, com a "realidade".
     Mas no  fcil estudar o imaginrio, pois este no  independente. Para
conhecermos as representaes de um grupo ou de uma sociedade temos de conhecer
todo seu sistema social, a religio, as relaes de classe, as formas de comunicao etc.,
pois o imaginrio perpassa todos esses elementos e s pode ser estudado em interao
com a observao da totalidade da estrutura social.  por isso que um dos mtodos
mais bem-sucedidos para o estudo do imaginrio  a Etno-histria, conjunto de
tcnicas baseado na Etnografia, a descrio de sociedades ditas primitivas. Na Etno-
histria, a comunidade que se quer estudar  isolada, e todos os seus elementos
sociais, econmicos e culturais so observados e descritos sem que o pesquisador
se preocupe com a origem dessa sociedade, com suas ramificaes futuras, nem
com suas ligaes com outras comunidades. Assim,  possvel estudar a totalidade
da sociedade, conhecendo-a a fundo e chegando at seu imaginrio. Obra clssica
que exemplifica o emprego da Etno-histria  Montaillou, de Le Roy Ladurie, que
por meio de processos inquisitoriais reconstitui o cotidiano e o imaginrio de uma
vila francesa medieval.
     Mas o imaginrio no  estudado apenas na Histria, e um dos maiores
especialistas  o filsofo francs Gilbert Durant. Para ele, enquanto as civilizaes
no ocidentais, asiticas, pr-colombianas ou africanas nunca separaram as verdades
fornecidas pelas imagens das fornecidas pela escrita, o Ocidente foi criando, ao
longo do tempo, uma antipatia pela imagem e uma supervalorizao da escrita, que
o empobreceu. Esse desprezo pela imagem teve um de seus mais fortes precursores
no Antigo Testamento, que proibia a adorao de imagens, proibio herdada pelo
Cristianismo e pelo Isl. Essa imagem contestada era a iconografia dos dolos, cones,
imagens concretas. Mas o pensamento clssico grego tambm contribuiu para a
queda do valor das imagens no Ocidente, pois Scrates, Plato e Aristteles, por


                                                                                     215
             exemplo, acreditavam que a nica forma de acesso  verdade era por meio do
Imaginrio



             raciocnio promovido pela experincia dos fatos, e as imagens, consideradas
             figuras da imaginao, no se encaixavam nessa definio. Na Idade Moderna,
             com a Revoluo Cientfica de Descartes e Newton, a imagem foi mais uma vez
             desvalorizada. A imaginao, os questionamentos metafsicos, a potica, tudo isso
             caiu em descrdito perante o pensamento racional, cientfico, dedutivo, que teve
             seu auge no cientificismo do sculo xix. Dessa forma, tornou-se dominante no
             Ocidente o pensamento sem imagens. Mas Durant ressalva que em todos os tempos
             sempre existiu resistncia a essa tendncia no prprio Ocidente, comeando pelo
             prprio Plato e seu mundo das ideias, passando por So Francisco e Santo Incio
             de Loyola, com seus exerccios espirituais, e muitos outros. Apesar disso, o discurso
             dominante ocidental tornou-se aquele em que a experincia racional supera a
             experincia espiritual ou sensitiva. Assim  que, para Durant, a atual supremacia
             da imagem e da mdia no Ocidente  um paradoxo, pois essa imagem  fruto do
             prprio cientificismo, do progresso, e por ser "enlatada" tem o efeito inverso que
             as imagens normalmente tm: diminuem a capacidade imaginativa, impondo uma
             ditadura da propaganda e da imagem sem sentido.
                  Mas a ps-modernidade trouxe grandes crticas a esse pensamento sem imagem.
             A partir dela, na Histria e nas cincias humanas, o imaginrio ganhou seu lugar
             como realidade concreta. A obra de Cornelius Castoriadis  um exemplo dessa
             revalorizao da imagem promovida pela ps-modernidade. Para ele, o que mantm
             uma sociedade unida  seu complexo de normas, valores, linguagem, costumes
             etc., complexo unificado por uma instituio maior, a instituio imaginria da
             sociedade. Para ele, toda sociedade cria seu prprio mundo, definindo o que  real
             e o que no . A sociedade, nesse sentido,  apenas um sistema de interpretao do
             mundo, criado por ela mesma.
                  No entanto, os crticos da ps-modernidade censuram essa importncia
             excessiva dada ao imaginrio. Para Michel Zaidan, por exemplo, a afirmao de
             que a sociedade  construda pelo seu prprio imaginrio deixa de lado a realidade
             objetiva, as estruturas econmicas, sociais, a poltica. De acordo com ele, essa
             supervalorizao da representao, do discurso,  feita em detrimento da realidade
             e leva  crena de que a Histria  apenas uma experincia pessoal do historiador e
             no pode nunca chegar  verdade.
                  Mas nem todos os trabalhos sobre imaginrio descreem totalmente do real.
             Roger Chartier, por exemplo, afirma que toda representao do mundo social 
             construda pelos interesses do grupo que a elaborou, sendo necessrio observar as
             representaes e discursos a partir da posio social de quem os utiliza, segundo ele,
             assim como existe luta econmica pela hegemonia da sociedade, tambm existe luta de


             216
representaes, cada grupo tentando impor seus prprios valores aos outros. Alm




                                                                                         Imaginrio
disso, Chartier acredita que no existe distino entre a objetividade das estruturas
e a subjetividade das representaes.
     De todas essas consideraes, vemos que o imaginrio  um campo frtil para
debates nas cincias humanas.  igualmente um campo de estudos em constante
crescimento, interligado  Histria das Mentalidades e  Histria cultural. Para o
professor de Histria,  tambm um conceito com grandes possibilidades didticas:
trabalhar com o imaginrio de sociedades passadas  se aproximar mais do cotidiano
das pessoas em outros tempos,  torn-las mais reais, mais prximas de ns, ao
percebermos, por exemplo, que eram indivduos com medos, angstias, anseios,
desejos, sonhos etc. Cabe ao professor dosar o estudo do imaginrio em sala de
aula, trabalhando com o cotidiano, os mitos, a imaginao em perodos diversos,
assim como com a abordagem da sociedade, da economia, do contexto histrico em
questo. No devemos cair na superficialidade de trabalhar apenas os aspectos mais
pitorescos, esquecendo as estruturas econmicas ou as mudanas polticas. Esse  o
perigo das abordagens culturais: a perda de profundidade. Para fugir dele, podemos
mesclar textos culturais, sobre o imaginrio e as mentalidades, com trabalhos sobre a
estrutura econmica e social. As experincias didticas podem tambm ser mescladas:
para trabalhar a totalidade de uma sociedade, podemos empregar ao mesmo tempo
aulas expositivas, pesquisas, seminrios, excurses; cada prtica abordando um
aspecto diferente da sociedade em foco.

Ver tAmbm
    Arte; Cotidiano; Discurso; Historiografia; Iconografia; Ideologia; Indstria
    Cultural; Memria; Mentalidades; Ps-modernidade; Sociedade; Teoria.

sugestes de leiturA
    caStoriadiS, Cornelius. As encruzilhadas do labirinto: os domnios do homem.
     Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
    cHartier, Roger. A histria cultural: entre prticas e representaes. Rio de
     Janeiro: Difel/Bertrand Brasil, 1988.
    durant, Gilbert. O imaginrio: ensaio acerca das cincias e da filosofia da
     imagem. Rio de Janeiro: Difel, 2001.
    FreitaS, Marcos Cezar (org.). Historiografia brasileira em perspectiva. 5. ed. So
      Paulo: Contexto, 2003.
    HuGHeS-WarrinGton, Marnie. 50 grandes pensadores da Histria. So Paulo:
     Contexto, 2002.


                                                                                  217
                     l aplantine , Franois; trindade, Liana. O que  imaginrio. So Paulo:
Imperialismo


                        Brasiliense, 2003.
                     le GoFF, Jacques (org.). A histria nova. So Paulo; Martins Fontes, 2001.
                     zaidan FilHo, Michel. A crise da razo histrica. Campinas: Papirus, 1989.




               imperiAlismo
                   Uma primeira questo na definio de imperialismo  seu carter mltiplo: No
               h um imperialismo, mas imperialismos. Cada um com suas prticas e estratgias
               de controle especficas, possuindo tambm diferentes definies. A ideia de imprio
               surgiu j na Antiguidade. Para Roma, imprio era a extenso do prprio Estado,
               construdo com base na colonizao. Mas a palavra "imperialismo" apareceu apenas
               em 1870, sendo bastante utilizada entre 1890 e 1914, e servindo ainda hoje para
               designar prticas militares e culturais desenvolvidas por potncias para exercer
               domnio sobre outros Estados, politicamente independentes.
                   As mltiplas definies de imperialismo podem ser buscadas em uma
               historiografia to vasta quanto heterognea: de Lenin, que primeiro sistematizou
               o imperialismo como objeto das cincias sociais, at Edward Said, que no fim do
               sculo xx estudou o imperialismo na literatura ocidental. Desse amplo debate, o
               imperialismo se define como um perodo histrico especfico, que abrange de 1875 a
               1914, quando a Europa Ocidental passou a exercer intensa influncia sobre o restante
               do mundo. O conceito designa tambm o conjunto de prticas e teorias que um
               centro metropolitano elabora para controlar um territrio distante.
                   O conjunto de prticas que constitui o imperialismo comeou a ganhar coerncia
               a partir do fim do sculo xix na Europa ocidental, com a concorrncia entre as
               economias capitalistas, o abandono da poltica liberal, o nascimento dos oligoplios
               e a participao dos Estados na economia. Foi o momento do surgimento do
               Capitalismo monopolista, em que a livre concorrncia entre diferentes empresas gerou
               concentrao da produo nas mos das mais bem-sucedidas, levando  formao
               de monoplio. Rapidamente, os bancos passaram a dominar o mercado financeiro,
               exportando capital, influenciando as decises de seus Estados e impelindo-os para a
               busca de novos mercados.
                   Nascido, assim, da formao dos monoplios, o imperialismo promoveu
               disputas por fontes de matrias-primas entre trustes e cartis que, j tendo dominado
               o mercado interno em seus pases de origem, precisavam se expandir para alm de
               suas fronteiras, defrontando-se com cartis e trustes de pases concorrentes. Nesse


               218
momento, a classe detentora da produo capitalista passou a rejeitar as fronteiras




                                                                                              Imperialismo
nacionais como barreira  expanso econmica, transformando o crescimento
econmico em expanso territorial.
     O perodo entre 1870 e 1914 esteve, dessa forma, associado  expanso do
Capitalismo monopolista,  conquista poltica e militar de territrios e ao auge do
imperialismo sobre o mundo, com a partilha da frica. Quase todo o mundo, com
exceo da Europa e da Amrica, foi dividido em territrios dominados por potncias
como a Gr-Bretanha, a Frana e a Alemanha e, mais tarde, os eua e o Japo. Essa diviso
respondeu  busca por novos mercados empreendida simultaneamente pelo capital
monopolista de diferentes economias, que se confundiam com os prprios governos
nacionais, gerando assim rivalidade entre as potncias. O prprio status de potncia
estava associado  posse do maior nmero possvel de territrios dominados e se tornou
por si s razo poltica para a expanso. Porm, apesar de ter como pano de fundo a
expanso mundial das relaes capitalistas de produo, o imperialismo teve tambm
razes polticas e culturais, entre as quais se sobressaa a crena na superioridade
cultural e racial dos europeus. Alm disso, gerou diversos discursos cujo objetivo
era o controle do proletariado nas prprias metrpoles. Um dos discursos de maior
influncia defendia que a migrao do excedente populacional da metrpole para as
colnias serviria como vlvula de escape para pases superpovoados, melhorando as
condies dos trabalhadores metropolitanos e diminuindo a tenso social. Assim, a
colonizao de territrios conquistados geraria mais empregos e mais riqueza para
a sociedade conquistadora. Esse discurso permitiu que a burguesia dominante  a
nica classe a realmente lucrar com a colonizao  convencesse toda a sociedade
metropolitana dos benefcios da expanso colonial. Esse processo, segundo Hannah
Arendt, deu origem  transformao do imperialismo em nacionalismo (j que todas
as classes se identificavam com os interesses do Estado-nao que, por sua vez, se
identificava com os interesses do capital monopolista), e  posterior transformao
do nacionalismo em fascismo. Assim, o imperialismo seria a origem do fascismo
europeu ps-Primeira Guerra Mundial.
     Tambm teorias racistas, como o darwinismo social, tiveram importante papel
na justificao da dominao imperialista, ao defenderem a superioridade dos povos
brancos sobre os povos de cor. A "raa branca", que se atribuiu o status de raa superior,
assumiu, a partir dessas teorias, a misso civilizadora de levar progresso, desenvolvimento
e civilizao queles povos que considerava incivilizados e racialmente inferiores.
     Essas justificativas ideolgicas tiveram a funo principal de convencer as massas
das metrpoles de seu papel civilizador no mundo, mas tambm atingiram as elites de
regies dominadas, sobretudo na Amrica Latina, que por sua situao de territrio
construdo a partir da Europa tinha muito mais pontos em comum com os imperialistas


                                                                                      219
               do que o restante do mundo. Para entendermos a situao diferenciada da Amrica
Imperialismo



               Latina diante do imperialismo, precisamos retroceder para a prpria constituio
               histrica desse territrio. Segundo Marc Ferro, de todas as independncias do mundo,
               apenas as realizadas na Amrica Latina no foram levadas a cabo pelos nativos, mas
               pelos prprios conquistadores. E como foram os descendentes desses conquistadores
               que dominaram os Estados nacionais latino-americanos no sculo xix, as afinidades
               com as ideologias europeias, inclusive imperialistas, no so assim de espantar.
                    Na Amrica Latina, o imperialismo do fim dos sculos xix e xx foi principalmente
               financeiro e comercial, ou seja, em geral no houve dominao poltica, mas sim
               dependncia econmica. Em sua primeira fase, esse imperialismo foi em especial
               ingls, sendo a Inglaterra a principal potncia a emprestar dinheiro aos Estados
               americanos e controlar seus investimentos. Mas no sculo xx, esse imperialismo
               britnico foi gradativamente substitudo pelo imperialismo norte-americano, bem
               mais intervencionista. O controle dos investimentos e dvidas dos Estados americanos
               passou ento a ser feito pelos eua, que tambm realizavam invases e intervenes
               militares diretas, sobretudo sobre o Caribe e a Amrica Central. Tal domnio criou,
               alm disso, durante o decorrer do sculo xx, um crescente imperialismo cultural
               norte-americano sobre a Amrica Latina.
                    J o imperialismo ingls, durante o final dos sculos xix e xx, tornou-se
               intervencionista na frica e na sia, dividindo essas regies com outras Naes
               europeias, como a Frana e a Alemanha. Nesse caso, a dominao foi tambm poltica,
               com a transformao dos territrios e povos dominados em colnias.
                    Visto que o imperialismo tambm teve seu momento de colonialismo, qual a
               diferena entre o imperialismo dos sculos xix e xx e a expanso colonial europeia
               dos sculos xvi e xvii? As diferenas esto nas ligaes do imperialismo com o capital
               financeiro e no fato de a conquista poltica no ter sido sua nica forma de expresso,
               podendo a dominao imperialista tambm se acomodar  independncia poltica dos
               povos submetidos. O colonialismo da Idade Moderna, por sua vez, era nitidamente
               mercantil e baseado no controle total, poltico, cultural e social da regio dominada.
                    Hoje, no incio do sculo xxi, assistimos, em plena era da globalizao, a uma
               nova fase do imperialismo, visvel na interveno militar norte-americana sobre
               o Iraque. Nesse caso, tanto o termo imperialismo quanto colnia foram deixados
               de lado por terem se tornado sinnimos de dominao, e os dominadores falam
               agora em protetorado, termo que designa um pas submetido a uma potncia
               intervencionista que se define como democrtica e pacfica e tem suas intenes
               de dominao disfaradas sob um discurso de defesa dos direitos humanos e dos
               interesses internos da populao submetida.


               220
     O imperialismo, dessa forma, est vivo e  um dos mais importantes aspectos das




                                                                                              ndio
relaes internacionais atuais. Mas  um tema de anlise difcil, pois se trata da Histria
do tempo presente, da qual ns, seus participantes, estamos incapacitados de ver o
todo. Apesar disso, podemos fazer uma leitura crtica do tema, trabalhando com as
notcias que todo dia nos bombardeiam, relacionando-as com o processo histrico
que gerou o imperialismo. Dessa forma, conhecendo as causas e os fatores histricos
que criaram esses cenrios, o professor se capacita a destrinchar seus significados
atuais, utilizando a mdia como fonte e analisando suas informaes criticamente.

Ver tAmbm
    Capitalismo; Colonizao; Etnocentrismo; Fascismo; Globalizao; Ideologia;
    Industrializao; Liberalismo; Nao; Raa.

sugestes de leiturA
    andrade, Manuel Correia. Imperialismo e fragmentao do espao. 6. ed. So
     Paulo: Contexto, 2002.
    arendt, Hannah. Origens do totalitarismo: imperialismo, a expanso do poder.
     Rio de Janeiro: Documentrio, 1976.
    catani, Afrnio Mendes. O que  imperialismo. So Paulo: Brasiliense, 1981.
    Ferro, Marc. Histria das colonizaes: das conquistas s independncias, sculos
      xiii a xx. So Paulo: Companhia das Letras, 1996.

    HobSbaWm, Eric. A era dos imprios: 1875-1914. So Paulo: Paz e Terra, 1988.
    marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria contempornea
     atravs de textos. 10. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    peStana, Fbio. No tempo das especiarias. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2004.
    pinSKy, Jaime (org.). Histria da Amrica atravs de textos. So Paulo: Contexto, 1994.
    prado, Maria Lgia. Formao das naes latino-americanas. So Paulo: Atual, 1994.
    Said, Edward. Cultura e imperialismo. So Paulo: Companhia das Letras, 1995.




ndio
    O termo ndio  uma construo conceitual histrica, datada dos primeiros
contatos entre europeus e americanos. O nascimento desse termo, aplicado s
populaes americanas, originou-se em um erro do navegador Cristvo Colombo.
Projetando chegar  ndia navegando pelo Atlntico em direo  oeste, ao desembarcar
na Amrica, Colombo acreditou ter alcanado sua meta inicial e chegado  sia. Passou


                                                                                      221
        ento a chamar todos os habitantes das ilhas caribenhas nas quais aportou de ndios.
ndio



        Apesar desse equvoco ter sido logo percebido pelos europeus, o termo continuou a
        ser utilizado indiscriminadamente em referncia a todos os povos americanos.
             Nesse sentido, ndio  um conceito construdo no processo de conquista da Amrica
        pelos europeus. Desinteressados pela diversidade cultural, imbudos de forte preconceito
        para com o outro, o indivduo de outras culturas, espanhis, portugueses, franceses e
        anglo-saxes terminaram por denominar da mesma forma povos to dspares quanto
        os tupinambs e os astecas. Atualmente, todavia, a palavra ndio assumiu um significado
        mais complexo, pois os prprios povos que antes eram discriminados por esse termo
        hoje se identificam como tal, construindo sua identidade cultural a partir dele.
             Voltando ao perodo pr-colonial, observamos que a vasta parcela terrestre que
        hoje chamamos de Amrica no possua ento nenhuma homogeneidade, fosse
        geogrfica, cultural, lingustica ou tnica. Fora o fato de que toda a populao do vasto
        continente descendia das mesmas levas de migraes asiticas e polinsias, acontecidas
        em vrios momentos entre 70 mil e 5 mil anos atrs, esses diversos povos no possuam
        mais nada em comum, nem mesmo o tipo fsico. A viso preconceituosa e simplista
        dos conquistadores europeus reduziu, assim, todo um mundo em sua multiplicidade
        ao termo ndio. A palavra continuou vigorando nas sociedades contemporneas e,
        se antes da conquista no havia homogeneidade entre as populaes americanas, tal
        homogeneidade tambm no passou a existir depois da colonizao.
             A historiografia brasileira, condizente com essas preocupaes, tentou e vem
        tentando desconstruir o preconceito em torno das populaes americanas nativas,
        principalmente procurando substituir o termo ndio por expresses como populaes
        autctones, por exemplo. No entanto, essas expresses tambm no escapam de uma
        generalizao, apesar de evitarem a carga principal de preconceito existente na palavra
        ndio. Assim, falando em populaes autctones, nativos americanos, sociedades
        indgenas, ou mesmo de ndios,  preciso definir exatamente de quem se fala.
             Ao longo do tempo, diferentes critrios foram utilizados para estabelecer quem
        era ndio e quem no era. O mais antigo desses critrios foi o racial, construdo com base
        nas teorias racialistas predominantes desde o fim do sculo xix, que se baseavam
        nas diferenas fsicas percebidas entre ndios, negros e brancos. Esse critrio, no
        entanto,  passvel hoje de muitas crticas, primeiro pela prpria problemtica em
        torno do conceito de raa, segundo pelo fato de que as populaes americanas
        possuem profundas diferenas quanto  cor e  estatura. Alm disso, atualmente as
        populaes indgenas so alvo de grande miscigenao, o que desqualifica o critrio
        racial como definidor da identidade indgena.



        222
     Um segundo critrio era o cultural, sendo o ndio caracterizado a partir de




                                                                                            ndio
um conjunto de elementos, como lngua, costumes, crenas e hbitos. Apesar desse
critrio parecer menos etnocntrico que o racial, hoje tambm  alvo das crticas
de especialistas como o antroplogo Jlio Csar Melatti. Para esse autor, o critrio
cultural no  muito til porque exige que o pesquisador, antes de tudo, estabelea
um conjunto de elementos culturais prprio dos ndios e, como j vimos, a grande
diversidade de sociedades ao longo da histria impede tal fato. Alm disso, esse critrio
 problemtico se utilizado com as populaes indgenas atuais, pois no Nordeste,
por exemplo, essas populaes adotaram em grande parte a cultura brasileira.
     Apesar dessa aculturao, todavia, as populaes indgenas do Nordeste brasileiro
no sculo xxi, das quais os xucuru so exemplo, continuam a se identificar como
ndios, ao mesmo tempo que a sociedade nacional (o conjunto de aspectos culturais
que formam a cultura oficial do Brasil, que Darcy Ribeiro chamou de "civilizao
nacional") tambm no os reconhece como seus membros. Dessas consideraes
foi estabelecido o critrio atualmente mais aceito de definio do ndio, o critrio
de autodefinio tnica, elaborado pelo ii Congresso Indigenista Interamericano,
realizado em Cuzco em 1949. Segundo esse critrio, ndio  todo descendente dos
povos pr-colombianos, consciente de seus costumes, lngua e tradies, mesmo
que modificados ao longo do processo de contato, que seja considerado a partir
dessa condio por si prprio e por outros. Essa definio tambm leva em conta a
identificao do ndio com seu sistema de trabalho e com sua economia tradicional.
     Darcy Ribeiro, antroplogo brasileiro autor de estudos clssicos acerca da
identidade indgena, desde a dcada de 1950 usou o Congresso Indigenista como base
para sua definio de ndio brasileiro. Para ele, ndio  o integrante de uma parcela
da populao inadaptada  sociedade brasileira, devido  conservao de costumes
oriundos de uma tradio pr-colombiana. Por outro lado, ndio  tambm todo o
indivduo reconhecido como membro por uma comunidade pr-colombiana que
se identifica e  identificado diversamente da populao nacional a partir de sua
etnia. Assim sendo, desde o Congresso Interamericano e a obra de Darcy Ribeiro, o
critrio de autodefinio tnica passou a ser adotado para designar as populaes
indgenas no Brasil, inclusive pelo Estado, que elaborou o Estatuto do ndio (Lei de
19/12/1973), norteando as relaes entre Estado brasileiro e populaes indgenas
at a promulgao da Constituio da Repblica Federativa do Brasil, em 1988.
     Dessa forma, o termo ndio pode ser definido como um conceito tnico, j que para
ser ndio  preciso tanto se reconhecer quanto ser reconhecido como tal. Todavia, esse
conceito s foi construdo na segunda metade do sculoxx para a realidade contempornea
da Amrica Latina e, portanto, no pode ser aplicado indiscriminadamente a outros


                                                                                    223
        perodos como o pr-colombiano. Se hoje o conceito de ndio  usado pelas prprias
ndio



        populaes indgenas como forma de manter sua identidade,de se distinguir da civilizao
        nacional e de continuar a empreender a luta por seus direitos, unindo-se a outras
        populaes indgenas e promovendo reivindicaes ao Estado,tal termo no tem a mesma
        funo quando aplicada a outros perodos histricos, servindo apenas para confundir.
              Nessa perspectiva, a melhor forma de denominarmos um povo indgena ao longo
        da histria  utilizando o prprio nome pelo qual eles se identificavam: chamando os
        tupinamb de tupinamb, os funi de funi, os aymar de aymar, os maias de maias
        etc., estamos quebrando o crculo vicioso de generalizaes e estabelecendo as ntidas
        caractersticas, assim como a identidade de cada povo. Mas ainda hoje as imagens acerca
        dos ndios veiculadas pelos livros didticos brasileiros esto carregadas de etnocentrismo.
        Quando abordam o perodo colonial, particularmente o descobrimento, apresentam o
        ndio como "selvagem","primitivo","antropfago"; tratando do processo de catequese,
        o ndio recebe uma imagem no menos etnocntrica: ele  "criana","inocente","alma
        virgem", enfim, algum que precisa da mo protetora da Igreja. J com relao ao
        sculo xix, de outra forma, no processo de construo da nacionalidade, o ndio 
        considerado "altivo" e "corajoso", amante da "liberdade", pois no fazia sentido dizer
        que a ptria era formada por brancos, negros e "selvagens". Todos esses discursos devem
        ser tomados de forma crtica, entendidos como construes carregadas de interesses
        ideolgicos. Mas, comum tambm  a omisso. Muitos so os livros didticos que
        simplesmente omitem os povos indgenas na Histria, falando da colonizao como
        povoamento sem conflito.
              Outra questo problemtica diz respeito s relaes entre os grupos tribais e o
        Estado brasileiro, em que este considera o ndio algum a ser tutorado, e no um
        indivduo plenamente capaz de gerir sua prpria sociedade.
              Para professores de Histria, a histria indgena  um tema emergente e
        premente, devido no s  importncia da contribuio de diferentes povos para a
        construo do que hoje chamamos de cultura brasileira, mas tambm  situao atual
        de crescentes conflitos com garimpeiros, madeireiros e latifundirios.  preciso, no
        entanto, sempre particularizar cada grupo tribal, suas histrias e sua relao com a
        sociedade brasileira. Uma boa ferramenta para que possamos combater o preconceito
        contra os ndios  observar em sala de aula o processo de conquista da Amrica pela
        viso indgena, sempre pensando as populaes indgenas a partir de suas prprias
        denominaes tnicas. Precisamos tambm trabalhar mais com a Histria das
        sociedades pr-colombinas  este um termo tambm preconceituoso  para trazer
        para os alunos a prpria dinmica histrica desses povos. Pensar e trabalhar em
        torno da Histria tupinamb, mundurucu, xucuru, yanomami, asteca e guarani 


        224
mais estimulante e cria uma empatia e um entendimento muito maior entre alunos,




                                                                                       Indstria Cultural
professores e o tema, do que simplesmente fazer uma referncia geral a todos como
ndios. O que, alm disso, incorre no erro do anacronismo, por considerar que os
ndios so todos iguais hoje e no passado.

Ver tAmbm
    Aculturao; Cidadania; Colonizao; Etnia; Etnocentrismo; Identidade;
    Interdisciplinaridade; Latifndio/Propriedade; Memria; Miscigenao; Raa;
    Tradio; Tribo.

sugestes de leiturA
    cunHa, Manuela Carneiro da (org.). Histria dos ndios no Brasil. So Paulo:
     Companhia das Letras, 2003.
    Funari, Pedro Paulo; noelli, Francisco Silva. Pr-histria do Brasil. So Paulo:
      Contexto, 2002.
    len-portilla, Miguel. A conquista da Amrica vista pelos ndios. Petrpolis:
      Vozes, 1987.
    melatti, Julio Cezar. ndios do Brasil. So Paulo: Hucitec, 1993.
    meSGraviS, Laima; pinSKy, Carla Bassanezi. 2. ed. O Brasil que os europeus
     encontraram. So Paulo: Contexto, 2002.
    munduruKu, Daniel. As serpentes que roubaram a noite e outros mitos. So Paulo:
     Peirpolis, 2003.
    ______. Coisas de ndios. So Paulo: Callis, 2003.
    raminelli, Ronald. Eva Tupinamb. In: del priore, Mary (org.). Histria das
      mulheres no Brasil. 6. ed. So Paulo: Contexto, 2002.
    ribeiro, Darcy. Os ndios e a civilizao: a integrao das populaes indgenas
      no Brasil moderno. So Paulo: Companhia das Letras, 1996.




indstriA culturAl
     Indstria cultural  a produo e disseminao de produtos culturais para
o consumo em massa, ou seja, o consumo de um grande nmero de pessoas em
diferentes lugares, independentemente das particularidades culturais. Tal produo
 realizada em geral pelos meios de comunicao e est interligada  atividade
industrial propriamente dita. Jornais, revistas peridicas, programas de tv, livros,


                                                                                225
                     revistas em quadrinhos, msicas, filmes so exemplos de produtos culturais que
Indstria Cultural



                     passaram a fazer parte da sociedade de consumo, surgida nas primeiras dcadas do
                     sculo. Nesse momento, os Estados Unidos apareceram como principal produtor
                     e divulgador do que ficou conhecido como cultura de massa. A cultura de massa,
                     por sua vez,  o produto da indstria cultural, e no pode existir sem os meios de
                     comunicao de massa. De incio essa cultura era constituda por produtos feitos
                     especificamente pelos meios de comunicao para o grande pblico, como o romance
                     de folhetim, o teatro de revista, a opereta, o cartaz. A indstria cultural surgiu com a
                     industrializao, com os primeiros jornais de grande tiragem, e logo gerou a cultura
                     de massa, que se instalou apenas quando j existia a sociedade de consumo.
                           Foi na segunda metade do sculo xix, com o avano do Capitalismo liberal,
                     que se consolidaram as duas condies fundamentais para a existncia da indstria
                     cultural: a economia de mercado e a sociedade de consumo. Os bens culturais, que
                     antes tinham apenas valor de uso, passaram a ser produzidos para uma sociedade de
                     mercado, adquirindo um novo carter, o valor de troca, como qualquer outro objeto.
                     Essa nova concepo de cultura como coisa a ser trocada no mercado denomina-se
                     reificao (coisificao). Mas foi s no sculo xx que se consolidou a cultura de massa,
                     a produo de bens culturais para consumo de um grande pblico.
                           Segundo Teixeira Coelho, a "fabricao" do novo produto cultural adquiriu
                     caractersticas similares  atividade econmica industrial: diviso do trabalho, uso
                     de maquinaria moderna, explorao do trabalhador e submisso deste ao ritmo
                     da mquina. Bens culturais passaram a ser produzidos em larga escala, visando a
                     atender virtualmente a todas as pessoas que compunham a sociedade. A pretenso
                     da indstria cultural, desde seu incio, foi a universalizao do consumo. Mas isso
                     implicou um rebaixamento da qualidade dos bens culturais para atender ao "gosto
                     mdio" das pessoas. Se antes a cultura era vista como instrumento de livre expresso,
                     crtica e conhecimento (embora restrita a determinados grupos), da em diante ela
                     passou a ser um produto a ser vendido (que deveria ser revertido em lucro para
                     o produtor), tornando-se barata o suficiente para ser consumida por um pblico
                     mais amplo. O barateamento e a democratizao do acesso a certos bens culturais
                     resultou na fabricao de produtos elaborados sob normas padronizadas, adaptadas
                     ao mercado. Criaram-se ento bens culturais simplificados, de consumo rpido, para
                     um pblico que no tem tempo para "pensar" sobre tais produtos ou se debruar
                     lentamente sobre outros bens culturais. Da surgiu a briga, ainda intensa, entre os
                     intelectuais que criticam a massificao da cultura (considerando-a cultura inferior,
                     alienante e de pouco ou nenhum valor cultural, subprodutos) e aqueles que defendem
                     a democratizao da cultura pelos meios de comunicao de massa.


                     226
     Entre os primeiros crticos da cultura de massa esto os tericos da Escola




                                                                                               Indstria Cultural
de Frankfurt. Adorno e Horkheimer foram os primeiros a utilizar a expresso
indstria cultural, na dcada de 1940. Para alguns intrpretes, a obra desses autores
tem unicamente o lado condenatrio da indstria cultural, afirmando que, para
Adorno e Horkheimer, a indstria cultural desempenhava as mesmas funes de
um Estado fascista, uma vez que promovia a alienao do homem. Essa alienao
seria o processo no qual o indivduo no pensa sobre si mesmo ou sobre a sociedade
como um todo, tornando-se mero joguete do sistema, consumindo acriticamente
o que a propaganda pede. Por outro lado, intrpretes como Andrew Edgar pensam
a Escola de Frankfurt de outro modo. Para ele, Adorno e Horkheimer perceberam
que o consumo dos produtos da indstria cultural era diversificado, assim como os
prprios produtos dessa indstria. Desse modo, haveria margem para autonomia
e individualismo tanto na produo como no consumo desses bens. Apesar dessa
divergncia, a primeira interpretao tende a ser mais difundida.
     Edgar Morin, por sua vez, no incio da dcada de 1960, criticou a postura dos
intelectuais que atiravam a cultura de massa nos "infernos infraculturais". Para ele,
esses intelectuais mantinham trs atitudes com relao  cultura de massa: a atitude
"humanista", que deplora a invaso dos subprodutos culturais da indstria moderna;
a atitude de direita, que a entende como um divertimento brbaro e plebeu; e a
atitude de "esquerda", que percebe a cultura de massa como o pio do povo ou como
mistificao deliberada. Todas essas atitudes consideram a mercadoria cultural
ordinria, feia, kitsch. Morin no exalta a cultura de massa, mas critica abertamente os
intelectuais que a condenam em defesa da chamada "cultura cultivada". Ele percebeu
os problemas da cultura de massa, como a padronizao, a alienao do autor (que
vende a sua criao, e esta se torna um produto que no  mais seu) e a exaltao de
valores individuais transitrios. Todavia, identificou tambm vantagens na cultura de
massa: certa zona marginal que favorece a criao de um "terreno de comunicao
entre as classes sociais", na medida em que as diversas classes teriam consumido bens
culturais comuns; a tendncia  homogeneizao dos costumes das classes sociais e
mesmo das Naes. Esse ltimo ponto seria o cosmopolitismo da cultura de massa.
Para ele, o principal problema da cultura de massa no  a falta de valor artstico ou
a alienao, mas o fato de prometer mais do que pode cumprir, criando mitos que
s confirmam o vazio que  a vida real dos prprios consumidores.
     Teixeira Coelho  outro autor que sintetiza os argumentos pr e contra a indstria
cultural: a favor, esto os que acreditam que a indstria cultural no  fator de alienao,
pois, em seu dinamismo, propicia produes que beneficiam o desenvolvimento do
homem; tende a unificar as nacionalidades e as prprias classes sociais; que em vez
de ocupar o lugar das culturas erudita ou popular, apenas cria uma terceira faixa


                                                                                       227
                     complementar. Os argumentos contrrios tambm so fortes: a indstria cultural
Indstria Cultural



                     inibe o pensamento, gerando alienao, por meio da nfase no entretenimento;
                     promove o conformismo social; degrada e deturpa o gosto popular. Para Teixeira
                     Coelho, por sua vez, a indstria cultural contm tanto um potencial de alienao
                     quanto de revelao.
                          Nessa discusso, quais seriam os produtos tpicos da cultura superior, da cultura
                     mdia (midcult) e da cultura de massa (masscult)? A rigor, as fronteiras entre esses
                     produtos terminam por se diluir devido ao dinamismo da prpria cultura de
                     massa, havendo um intercmbio entre essas categorias. Por exemplo, o jazz saiu
                     dos bordis e favelas negras dos eua no incio do sculo xx para atingir as plateias
                     brancas; Mozart e Vivaldi, ambos da "cultura superior", tornaram-se midcult e, depois
                     de vulgarizados pela tv, tambm masscult. A prpria Histria do cinema serve de
                     exemplo: no incio olhado pejorativamente pelas elites letradas, aos poucos ganhou
                     status prprio entre as produes culturais da Era moderna. O mesmo processo
                     aconteceu com as histrias em quadrinhos, desvalorizadas nos anos 1920 e 1930,
                     ento consideradas masscult, e hoje, dado o nvel de sofisticao a que chegaram,
                     passaram a ser cultura mdia. Existe, alm disso, uma dificuldade na classificao
                     rgida dos produtos culturais. Vale a pena lembrar a polmica recente desencadeada
                     pela compra, por uma corporao do bilionrio norte-americano Bill Gates, dos
                     direitos de reproduo fotogrfica da Monalisa, de Da Vinci, levando, assim, a
                     Monalisa a se tornar um produto da cultura de massa. Por um lado, as pessoas tero
                     acesso a uma reproduo fotogrfica de excelente qualidade, disponvel na internet,
                     sem precisar visitar o Louvre, algo impossvel para milhes de pessoas. Por outro, de
                     obra de arte considerada patrimnio da cultura mundial e, portanto, sem preo, a
                     Monalisa se torna vulgarizada como qualquer outro produto trocado por moeda, a
                     enriquecer o produtor da imagem fotogrfica, e no o criador da pintura.
                          Essa discusso nos mostra que, para muitos, a indstria cultural imbeciliza as
                     massas, corrompe os costumes. Para outros, como Edgar Morin, ela contribui para a
                     evoluo do mundo. Alguns acreditam que ela tem um poder mgico de manipulao
                     das massas, a ponto de levar os indivduos a se submeterem s situaes mais absurdas,
                     se ordenados por um programa de tv. Outros defendem que o consumidor no  um
                     joguete nas mos da mdia, mas um indivduo capaz de dar significados muito diferentes
                     daqueles imaginados pelos produtores dos programas televisivos, por exemplo.  assim
                     que pensa Michel de Certeau, que acredita na capacidade intelectual dos consumidores.
                          A indstria cultural  uma realidade presente em nossas vidas: em maior ou menor
                     grau, consumimos numerosos bens da chamada cultura de massa. Negar todos os seus
                     produtos no parece ser uma sada vivel. Forma e contedo devem ser avaliados e
                     criticados. A tv, um dos principais smbolos da cultura de massa,  fonte de debates


                     228
interminveis: deveramos aboli-la? Ela seria s um meio de transmisso alienante,




                                                                                          Indstria Cultural
em que o telespectador no "cria" nada com as "informaes" fragmentadas que lhe
so fornecidas? Ou reformar seu contedo j basta? Jogos de futebol, telenovelas,
"programas de auditrio"deviam ser extintos ou ainda tm lugar como entretenimento?
Pensar a indstria cultural  pensar no s o contedo dos produtos culturais, mas a
forma de transmisso da mensagem e o prprio modelo de sociedade vigente, uma vez
que  inegvel que a cultura de massa se desenvolve particularmente nas sociedades
capitalistas ocidentais. O que no significa que chineses e soviticos no tenham feito
uso da indstria cultural e da cultura de massa para controlar os indivduos.
     O tema da indstria cultural tem um inevitvel carter ideolgico e  ponto
de partida interessante para se discutir a sociedade brasileira e a globalizao. O
consumidor, muitas vezes sem perceber, "pensa" e age conforme os modelos culturais
propostos pela mdia. Na impossibilidade, e talvez mesmo na falta de necessidade de
se acabar com a indstria cultural, cabe a professores de Histria usar os elementos
positivos dessa indstria: uma banal e fragmentada informao do Jornal Nacional
pode ser interpretada a partir dos contedos ideolgicos que possa conter. Uma
msica produzida pela indstria cultural, mesmo que fora dos padres estticos
eruditos, pode contribuir enormemente para a compreenso da cultura brasileira. A
indstria cultural, a partir de filmes, documentrios, msicas e outros produtos, j
adentrou a sala de aula h muito tempo. Mas ainda falta a viso crtica do professor.
No podemos nos prender a interpretaes dogmticas e preconceituosas a respeito
da cultura de massa, aceitando facilmente a interpretao dessa cultura como inferior
e alienante. Pois, enquanto fazemos isso, continuamos a consumir os produtos
dessa indstria sem perceber nossa incongruncia. No precisamos escolher entre
cultura de massa e cultura superior, ou popular e erudito, como se esses polos fossem
totalmente antagnicos. O que precisamos, na verdade,  aguar nosso senso crtico,
para ver alm das mensagens fceis da mdia e das informaes pr-construdas.

Ver tAmbm
    Classe Social; Cultura; Democracia; Discurso; Globalizao; Ideologia; Imaginrio;
    Industrializao; Marxismo.

sugestes de leiturA
    andreW, Edgar; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
     entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
    certeau, Michel de. A inveno do cotidiano. Petrpolis: Vozes, 2002, v. 1 
     Artes de Fazer.
    coelHo, Teixeira. O que  indstria cultural. So Paulo: Brasiliense, 2003.



                                                                                  229
                         morin, Edgar. Cultura de massas no sculo xx: neurose. Rio de Janeiro: Forense
Industrializao


                          Universitria, 2002.
                         napolitano, Marcos. Histria contempornea: pensando a estranha histria sem
                          fim. In: Karnal, Leandro (org.). Histria na sala de aula: conceitos, prticas
                          e propostas. So Paulo: Contexto, 2003.
                         ______. Como usar a televiso na sala de aula. 5. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
                         ______. Como usar o cinema na sala de aula. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2004.
                         ______. Cultura brasileira: utopia e massificao. 2. ed. So Paulo: Contex-
                           to, 2004.
                         rama, Angela; verGueiro, Waldomiro. Como usar as histrias em quadrinhos na
                           sala de aula. So Paulo: Contexto, 2004.




                   industriAlizAo
                        Ao longo da histria brasileira, a palavra indstria foi muitas vezes usada para
                   se referir ao trabalho em geral. Ter uma indstria significava possuir uma ocupao
                   til; as lavouras de caf e de cana-de-acar, por exemplo, eram consideradas
                   indstrias importantes do pas. Ou seja, a agricultura era designada como a indstria
                   na colnia e Imprio.
                        Mas a industrializao, no sentido construdo a partir da segunda metade do
                   sculo xviii, significa a produo em larga escala, localizada em estabelecimentos
                   fabris, com uso de maquinaria e grande quantidade de mo de obra, com o objetivo
                   de atingir um mercado consumidor. Em todas as etapas desse processo, que envolve
                   no apenas a produo, mas tambm o comrcio, o princpio da racionalidade deve
                   estar presente. Para alguns autores, a industrializao se confunde com o prprio
                   Capitalismo. Para outros,  preciso separar a forma capitalista de industrializao
                   de formas no capitalistas.
                        O conceito de industrializao est intimamente relacionado  noo de sociedade
                   industrial. Ambos os conceitos apresentam, muitas vezes, um sentido evolucionista,
                   sendo interpretados como estgios da capacidade humana de produzir, de transformar
                   a natureza. Uma das abordagens mais difundidas sobre esse tema  a classificao,
                   organizada pelo materialismo histrico, das sociedades em pr-industriais, industriais
                   e ps-industriais. Nesse sentido, a industrializao estaria ligada s etapas anteriores,
                   o artesanato e a manufatura. Em linhas gerais, no artesanato, o produtor (arteso ou
                   corporao), produz, com ferramentas simples, peas e objetos com os quais se iden-
                   tifica, sendo na maioria dos casos o proprietrio dos meios de produo, inclusive da


                   230
matria-prima. A manufatura, por sua vez,  o estgio em que a tcnica ainda 




                                                                                          Industrializao
artesanal, mas no qual a organizao e diviso do trabalho se tornaram mais complexas.
Em geral, se considera que ela prepara o advento da produo industrial propriamente
dita. J era possvel notar, nas manufaturas dos sculos xv, xvi e xvii, algumas das
caractersticas das fbricas da Revoluo Industrial, como o tamanho da unidade
produtiva e a diviso do trabalho em etapas, por exemplo. A indstria moderna surgiu
nas dcadas finais do sculo xviii, no princpio da Revoluo Industrial.
     Essa classificao, apesar do teor evolucionista, tem a vantagem de tornar
mais fcil o entendimento das atividades produtivas na histria, na medida em
que sugere que as diversas sociedades, ao longo do tempo, apresentam diferentes
capacidades tcnicas e produtivas. Por essa classificao, podemos identificar as
Naes pioneiras no processo de industrializao, aquelas que instalaram seus
parques industriais modernos j nos sculos xviii e xix, assim como aquelas que
tiveram um desenvolvimento industrial "atrasado". Desde o sculo xix, e sobretudo
nas primeiras dcadas do sculo xx, consolidou-se a crena de que industrializao
era sinnimo de modernizao. Assim, sociedades ditas tradicionais, por exemplo,
as da Amrica Latina das primeiras dcadas do sculo xx, comearam a se esforar
por assentar suas economias em bases industriais slidas.
     Apesar da polmica, parece haver consenso que tais sociedades (no caso da
Amrica Latina) no podiam seguir os mesmos passos que as potncias capitalistas
plenamente industrializadas, devido a seu contexto histrico, em que a economia se
encontrava dependente do capital monopolista j estabelecido nos pases avanados.
Mas mesmo as Naes que desenvolveram suas capacidades industriais aps a
Inglaterra, tiveram de atuar diferentemente dessa ltima Nao. Pases como os
Estados Unidos, o Japo e a Alemanha, entre outros, no adotaram o liberalismo
econmico de modo to pleno quanto a Inglaterra pelo simples fato de que, se
abrissem seus mercados totalmente, s a Inglaterra se beneficiaria. Em grande
medida, esses Estados tiveram de adotar medidas protecionistas, intervindo para
consolidar suas indstrias nacionais. No caso latino-americano, os chamados pases
de industrializao retardatria ou de Capitalismo tardio tiveram de enfrentar entraves
internos e externos ao processo de industrializao. Externamente, sua dependncia
com relao s economias de Capitalismo avanado dificultou o estabelecimento
de uma indstria competitiva, pois as Naes j industrializadas detinham o
monoplio do capital e da tecnologia e produziam artigos industriais com menor
custo. Internamente, havia setores da elite, ligados  economia de exportao de bens
primrios, que propagavam a ideia de que seus pases tinham uma natural vocao
agrcola, justificando, assim, uma diviso de trabalho internacional em que cabia a


                                                                                  231
                   algumas Naes a produo de bens industriais, e a outras, a produo de matrias-
Industrializao



                   primas. Outro problema enfrentado pelas Naes latino-americanas foi, dada a
                   pouca capitalizao de suas economias, criar um mercado consumidor interno para
                   bens industriais. Particularmente em pases como o Brasil, as aes econmicas
                   em prol da industrializao dependeram de medidas polticas advindas do Estado
                   para organizar a produo, favorecer os industriais privados, criar empresas
                   estatais, "harmonizar" as classes sociais (impedindo os conflitos), disciplinar a
                   fora de trabalho pela violncia e/ou persuaso de sindicatos controlados pelo
                   Estado etc. Seja como for, a especificidade histrica da Amrica Latina dificultou
                   o processo de "transio" de suas economias. E nesse processo o nacionalismo e
                   o populismo caminharam junto s polticas de industrializao e consolidao
                   do mercado interno. A pouca acumulao de capitais tambm constituiu um dos
                   entraves, e a industrializao terminou vindo acompanhada de dvidas externas
                   gigantescas. A presena do Estado e dos investimentos externos so caractersticas
                   da industrializao de pases latino-americanos.
                       A industrializao  fenmeno to marcante da histria mundial a partir do
                   sculo xviii que muitos estudiosos confundem industrializao com modernizao.
                   Sem dvida, o Ocidente  responsvel por essa relao entre industrializao
                   e modernizao. Entretanto, esta  um conjunto mais amplo e complexo de
                   modificaes de uma sociedade, no necessariamente restrito ao aspecto tcnico e
                   econmico, que permite a um pas industrializado como o Japo manter aspectos
                   tradicionais de sua cultura. Porm, se o conceito de indstria for amplo o suficiente
                   para englobar qualquer processo de transformao dos elementos naturais e
                   minerais em artefatos, em produtos consumidos por determinado grupo (mesmo
                   produtos alimentares), ento at mesmo comunidades tradicionais possuem algo
                   de industrializao, dessa capacidade humana de usar a tcnica para fabricar e
                   produzir. No entanto, o conceito de industrializao cunhado a partir da Revoluo
                   Industrial  mais restrito e implica uma srie de elementos especficos: o emprego
                   de certo nmero de descobertas cientficas nas atividades produtivas, afetando a
                   produtividade do trabalho; uma combinao entre as atividades de produo e de
                   consumo (o que acarreta a ideia de mercado consumidor, de reduo de custos de
                   produo etc.); o mercado, o contrato, a moeda como instituies que norteiam a
                   troca entre produtores e consumidores (isso na industrializao de tipo capitalista).
                       H ainda outras questes relacionadas ao conceito de industrializao: s existe
                   um tipo de sociedade industrial, a capitalista? Ou pode-se falar de duas variantes da
                   industrializao, uma capitalista e outra socialista? Entendendo o industrialismo como
                   um projeto de expanso da atividade industrial, percebemos que ele existiu tanto nas
                   sociedades capitalistas como nas socialistas. O Socialismo no era anti-industrialista.


                   232
Ao contrrio, segundo Marx e Engels, para a gestao do Comunismo, as foras




                                                                                            Industrializao
industriais e capitalistas deveriam continuar a crescer, exacerbando a contradio
entre industriais e operrios. Alm disso, o Comunismo no seria o fim da atividade
industrial, mas o fim da sociedade de classes. Entretanto, a industrializao de tipo
planificado, no modelo stalinista iniciado na dcada de 1930 na urSS, no foi idntica ao
modelo capitalista. Para o Capitalismo, a interveno estatal em um ramo especfico da
indstria pode at ser uma boa estratgia para alavancar o setor, mas a interveno em
todos os ramos industriais  encarada como ineficaz. Apesar disso, o dirigismo estatal
stalinista fez uso de tcnicas e da racionalidade ocidental em sua industrializao,
acreditando que se poderia ultrapassar o Ocidente em poucos anos. De qualquer
forma, os processos de industrializao apresentam tonalidades distintas mesmo
no interior de economias ditas capitalistas, pois nenhuma Nao  industrializada
do mesmo modo.
     Hoje, pode-se afirmar que o Brasil tem economia bastante industrializada.
Entretanto, como mostram os noticirios econmicos, os ndices de supervit na
balana comercial dependem sobretudo de produtos da agroindstria, devido ao
peso ainda muito grande da produo agrcola nas exportaes. Alm disso, as
atividades artesanais no desapareceram totalmente e, com incentivos ao turismo
cultural, o artesanato se tornou mesmo uma atividade produtiva vinculada
ao mercado externo. A industrializao  tema de grande importncia para a
compreenso do mundo atual, desde a economia e a poltica at a sociedade de
consumo. E para estud-lo muitas estratgias podem ser levadas adiante pelos
professores de Histria: visitas a museus, mercados de artesanato, fbricas, indstrias
domsticas; elaborao de projetos interdisciplinares com a Geografia e a Biologia,
a fim de compreender a relao entre industrializao, paisagem e meio ambiente,
so algumas propostas.

Ver tAmbm
    Capitalismo; Comunismo; Imperialismo; Indstria Cultural; Liberalismo; Marxismo;
    Modo de Produo; Oligarquia; Revoluo Industrial; Tecnologia; Trabalho.

sugestes de leiturA
    barboSa, Alexandre de Freitas. O mundo globalizado: poltica, sociedade e
      economia. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    boudon, Raymond; bourricaud, Franois. Dicionrio crtico de sociologia. So
      Paulo: tica, 1993.
    catani, Afrnio Mendes. O que  capitalismo. So Paulo: Brasiliense, 1999.


                                                                                    233
                   dean, Warren; caJado, Octvio. A industrializao de So Paulo: 18801945. Rio
Inquisio


                    de Janeiro: Bertrand Brasil, 1991.
                   iGleSiaS, Francisco. A industrializao brasileira. So Paulo: Brasiliense, 1994.
                   luca, Tania Regina de. Indstria e trabalho na Histria do Brasil. So Paulo:
                     Contexto, 2001.
                   marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria contempornea
                    atravs de textos. 10. ed. So Paulo: Contexto, 2003.




             inquisio
                  O Brasil tem conhecido um grande desenvolvimento em sua produo histo-
             riogrfica, como o crescimento do nmero de autores que publicam trabalhos
             especializados em Histria e do interesse de um pblico mais amplo pela produo
             historiogrfica. Essa popularidade nasceu com a influncia da Nova Histria francesa,
             interessada, sobretudo, na cultura e no cotidiano, e cujas abordagens se aproximam
             bastante da fico. Foram essas abordagens mais culturais que geraram no Brasil um
             mercado editorial para publicaes de Histria, tendo alguns temas um importante
             papel nesse processo. Um desses  a Inquisio.
                  A Inquisio  menos um conceito que uma instituio. Inquisio  o termo
             pelo qual  mais comumente conhecido o Tribunal do Santo Ofcio, rgo de
             investigao e represso institudo pela Igreja Catlica na Idade Mdia que teve seu
             apogeu depois da Reforma Catlica, a partir do sculo xvi. Os estudiosos dividem
             sua histria normalmente em dois grandes perodos quase independentes, a Idade
             Mdia e a Idade Moderna. Na Idade Mdia, o Tribunal do Santo Ofcio foi criado
             pelo Vaticano para investigar a existncia de heresias em qualquer bispado, e era
             subordinando diretamente ao Papado. No tinha, assim, ligao poltica com as
             regies que investigava, obedecendo diretamente ao Vaticano. Nesse perodo, a
             preocupao maior da Igreja era com os hereges, pessoas ou grupos de catlicos que
             se desviavam da conduta regulamentada pelo Papado e criavam novos dogmas. A
             Inquisio medieval agiu em diversas partes da Europa ocidental, mas teve sua maior
             atuao repressiva na Frana, perseguindo dissidentes religiosos, como os ctaros.
                  J na Idade Moderna, a Inquisio se desligou do Vaticano e se submeteu aos
             Estados nacionais em ascenso. Nesse caso, os interesses mudaram. O Tribunal agora
             tinha muito mais objetivos em comum com as monarquias s quais estava ligado do
             que com o Vaticano, e as perseguies variaram suas vtimas por toda a Europa. A
             mais famosa das inquisies modernas foi a espanhola, devido a sua grande influncia


             234
social e poltica e sua massiva perseguio aos judeus e cristos novos, ou seja, judeus




                                                                                             Inquisio
convertidos ao Cristianismo na Pennsula Ibrica e nas Amricas.
     O carter repressivo da Inquisio esteve presente, desde seus primrdios, atrelado
a seu carter investigativo. Na Idade Mdia seu objetivo era extirpar toda heresia da
Igreja, ou seja, toda crena que discordasse dos dogmas do catolicismo. Nesse sentido,
a Inquisio s poderia perseguir e "investigar" catlicos, pois era fundamentalmente
uma instituio de controle das dissidncias internas. Perseguiu os hereges  os
discordantes  na Frana, na Itlia e as bruxas por toda a Europa. A Inquisio
espanhola, todavia, durante a Idade Moderna, mudou seu alvo consideravelmente.
Na Pennsula Ibrica, a Inquisio virou uma instituio de proteo tanto da Igreja
quanto do Estado centralizado. O Estado espanhol se unificou com base em alguns
princpios, dos quais o Catolicismo e a unidade da f eram os mais fortes. Nesse caso,
a manuteno da unidade religiosa deveria ser feita a todo custo, pois o Catolicismo
era um dos alicerces sobre o qual estava fundamentado o novo Estado unificado. E
o Tribunal do Santo Ofcio foi institudo com esse intuito. As principais "ameaas"
a essa unidade nacional eram os judeus e os mouros, que habitavam a Pennsula h
sculos. Foi contra eles que se voltou o Tribunal do Santo Ofcio espanhol, e depois
o portugus, sobretudo contra os judeus e seus descendentes catlicos convertidos,
pela influncia econmica que possuam em suas sociedades.
     A Inquisio na Pennsula Ibrica se tornou uma das mais importantes instituies
de apoio ao estabelecimento e ao fortalecimento do Estado nacional e da monarquia
centralizada. O controle exercido sobre a sociedade era imenso, censurando livros e
pensamentos. O controle do Tribunal no se resumia aos cristos-novos, mas abarcava
a todos, impondo formas de comportamento, principalmente sexual. A misoginia
era uma das caractersticas mais fortes dessa instituio, que desde a Idade Mdia
alimentava discursos de medo e desconfiana contra as mulheres.
     O Tribunal do Santo Ofcio, como j diz o nome, era um rgo judicirio, e a
Espanha estabeleceu diversos tribunais em seu Imprio, inclusive trs na Amrica.
Portugal, por sua vez, no tinha os mesmos interesses religiosos e nacionalistas que a
Espanha. A direo poltica de Portugal na Idade Moderna era muito mais comercial
e menos preocupada com a conquista de territrios que a Espanha. Sua Inquisio,
por exemplo, no foi estabelecida na Amrica portuguesa. Aqui, a Coroa portuguesa
se limitou a enviar visitaes, ou seja, inquisidores de tempos em tempos para realizar
vistorias gerais na colnia. Temos notcia de trs visitaes: uma no sculo xvi, dirigida
para a Bahia e Pernambuco, outra no xvii, restrita  Bahia, e uma terceira no sculo
xviii, ao Gro-Par. Comparada  Inquisio espanhola, que funcionava diariamente

no Mxico, em Lima e em Cartagena de Las ndias, na Colmbia, a represso
inquisitorial no Brasil foi muito pequena. No entanto, existiu e, enquanto os visitadores


                                                                                     235
             realizavam suas investigaes nas cidades coloniais, desencadeavam uma srie de
Inquisio



             conflitos sociais, em que vizinhos denunciavam vizinhos, por exemplo.
                  No devemos esquecer o carter de extrema violncia desse tribunal. Para
             alcanar confisses de hereges, judeus, feiticeiras, entre outros indivduos tidos
             como perigosos para a Igreja, a tortura era considerada um instrumento apropriado
             de investigao. Acreditavam ento que uma confisso obtida sob tortura era uma
             confisso legtima. E, assim, o Tribunal se especializou em tcnicas de tortura,
             inclusive elaborando manuais at hoje famosos, como o Martelo das feiticeiras. Sob
             tortura, a maioria dos rus, pessoas denunciadas muitas vezes pela inveja ou paranoia
             de seus conhecidos, confessava todos os "crimes" que os inquisidores lhes imputavam.
             A grande violncia da ao do Tribunal, no entanto, no deve obscurecer outros
             caracteres importantes desse rgo, como a grande influncia poltica e econmica
             que exerceu na Pennsula Ibrica.
                  No Brasil, a Inquisio se tornou um importante tema de pesquisa,
             principalmente pelo fato de que so os registros de suas investigaes minuciosas,
             das perseguies que imps s minorias, que nos permitem hoje conhecer tanto
             essas minorias quanto o cotidiano da sociedade colonial. A Inquisio perseguiu,
             no mundo ibrico, cristos-novos, feiticeiras, formas de sincretismo religioso,
             homossexuais, entre outros. Assim, a documentao inquisitorial, os chamados
             autos, so importantes registros da vida desses personagens. Alm disso, os estudos
             sobre cultura e cotidiano na colnia se desenvolveram em grande parte sobre
             a documentao da Inquisio: desde as pesquisas de Ronaldo Vainfas e Luis
             Mott sobre a sexualidade na sociedade colonial at recentes abordagens sobre os
             degredados, passando por um importante setor de estudos dedicado  Histria dos
             cristos-novos e judeus na Amrica portuguesa.
                  A documentao das visitaes do Santo Ofcio se encontra hoje impressa e de
             fcil acesso para qualquer interessado. Constitui rica fonte de informaes sobre o
             cotidiano colonial e, utilizada com uma boa bibliografia de apoio, pode fornecer aos
             professores de Histria um inesgotvel material de pesquisa e trabalho em sala de
             aula. O educador estar assim incitando os alunos a produzir conhecimento. Mas 
             preciso cuidado com essa documentao, devido  diferena lingustica trazida pelos
             documentos, pois a lngua portuguesa mudou desde os sculos xvi e xvii at hoje.
             O professor precisa dedicar certo tempo  leitura de uma bibliografia que analise
             tal documentao,  leitura da prpria documentao e  preparao do material
             adequado a ser apresentado a sua sala de aula. Vai ser de enorme ajuda o grande nmero
             de textos de divulgao cientfica publicados sobre a Inquisio e suas vtimas em
             peridicos especializados, assim como o grande nmero de ttulos que os profissionais
             de ensino encontraro nas livrarias. Alm disso, muitos so os filmes que abordam


             236
temticas diversas associadas  Inquisio medieval e  Inquisio moderna. Esse




                                                                                             Interdisciplinaridade
tema riqussimo est aberto  criatividade do professor e atende, como poucos, s
exigncias das novas abordagens da histria, que pregam o trabalho com a Histria
das minorias e com a construo das identidades.

Ver tAmbm
    Absolutismo; Colonizao; Cristianismo; Historiografia; Judasmo; Religio; Violncia.

sugestes de leiturA
    betHencourt, Francisco. Histria das inquisies. So Paulo: Companhia das
      Letras, 2000.
    del priore, Mary (org.). Histria das mulheres no Brasil. 6. ed. So Paulo:
     Contexto, 2002.
    marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria moderna atravs
     de textos. 10. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    mello, Jos Antnio Gonalves de. Gente da nao: cristos novos e judeus em
     Pernambuco, 1542-1654. Recife: Massangana, 1990.
    mott, Luis. O sexo proibido: virgens, gays e lsbicas nas garras da Inquisio.
     Campinas: Papirus, 1988.
    pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Faces do fanatismo. So Paulo:
      Contexto, 2004.
    ricHardS, Jeffrey. Sexo, desvio e danao: as minorias na Idade Mdia. Rio de
      Janeiro: Jorge Zahar, 1993.
    vainFaS, Ronaldo (org.). Confisses da Bahia: Santo Ofcio da Inquisio de
     Lisboa. So Paulo: Companhia das Letras, 1997.
    ______. O trpico dos pecados: moral, sexualidade e inquisio no Brasil colonial.
      Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.




interdisciplinAridAde
     Os mtodos e as tcnicas da pesquisa cientfica se renovam constantemente. As
mudanas sociais e culturais trazem consigo novos interesses historiogrficos e, logo,
 preciso criar novas tcnicas para responder aos questionamentos que esses interesses
trazem. Assim, com a ps-modernidade, diversas abordagens tomaram flego nas
cincias humanas. Entre elas, a interdisciplinaridade, geralmente entendida como


                                                                                     237
                        troca de contedos e mtodos entre diferentes disciplinas, ultrapassando a
Interdisciplinaridade



                        segmentao do conhecimento promovida pela multidisciplinaridade tradicional.
                             Atualmente, a interdisciplinaridade  uma proposta defendida por vrios
                        campos do conhecimento. Mas no Brasil, a Educao e a Pedagogia tm dado
                        nfase especial a esse mtodo. Os educadores definem a interdisciplinaridade
                        como a sntese de duas ou mais disciplinas. Segundo Maria Cndida Moraes,
                        uma atividade  interdisciplinar quando os contedos e os mtodos de diferentes
                        disciplinas so associados para produzir um novo saber. A interdisciplinaridade
                        pode ser confundida com a transdisciplinaridade e com a multidisciplinaridade. A
                        transdisciplinaridade  a consequncia de uma sntese interdisciplinar,  um saber
                        novo que se origina da interdependncia de vrios aspectos da realidade. Ou seja,  o
                        resultado da interdisciplinaridade. J a multidisciplinaridade, tambm chamada de
                        pluridisciplinaridade,  a diviso do conhecimento em diferentes reas, em diferentes
                        disciplinas que apenas se sobrepem.  o saber em seu estado tradicional.
                             Para autores como Maria Cndida de Moraes, essas definies fazem parte de
                        uma abordagem ps-moderna do saber, uma abordagem definida como holstica.
                        Ou seja, uma viso de mundo em que todas as reas de conhecimento estejam
                        conectadas, e o conhecimento seja entendido como um nico conjunto de saberes.
                        Essa concepo foi difundida no ltimo quartel do sculo xx pela obra de Fritjof
                        Capra, Ponto de mutao, de grande influncia sobre o pensamento ps-moderno,
                        que defende que o universo deve ser visto em sua totalidade, e o prprio sujeito
                        deve ser percebido como parte do universo. Sobre o saber cientfico, a viso holstica
                        afirma que no h hierarquias entre as disciplinas, bem como que a prpria separao
                        do conhecimento em diferentes disciplinas cientficas  falsa, sendo tarefa da
                        interdisciplinaridade conect-las para produzir um saber transdisciplinar, ou seja,
                        um conhecimento que ultrapasse todas as barreiras entre as cincias, e mesmo entre
                        a cincia e outras formas de saber, como a Religio e o senso comum.
                             A viso holstica apresenta-se como derivada do desenvolvimento da fsica
                        quntica e da teoria da relatividade.  uma abordagem relativista, que se insere na
                        viso ps-moderna da cincia, rejeitando os paradigmas cientficos da modernidade.
                        Para ela, seria tarefa da cincia promover a integrao do conhecimento,
                        reconhecendo a interdependncia entre os problemas, os contedos disciplinares e as
                        relaes culturais, o que possibilitaria aplicar a interdisciplinaridade aos currculos.
                             Ivani Fazenda, por outro lado, afirma que apesar de pedagogos e educadores
                        falarem bastante de interdisciplinaridade, ainda no sabem como aplic-la nos
                        nveis Fundamental e Mdio. Na obra coletiva Prticas interdisciplinares na escola,
                        Fazenda apresenta a interdisciplinaridade como um retorno  viso grega clssica do
                        conhecimento, pois para os filsofos gregos do sculo vi a.C. o conhecimento, definido


                        238
ento apenas como "Filosofia", abrangia a totalidade da investigao do mundo,




                                                                                            Interdisciplinaridade
integrando os aspectos que hoje consideramos cincia, religio, arte, sem fazer
distino ou hierarquizar essas diferentes reas. Essa forma de pensar o conhecimento
como nico teria originado a viso holstica de mundo, que, por sua vez, gerou a
interdisciplinaridade.
     Para os pedagogos que defendem a interdisciplinaridade, a diviso tradicional de
disciplinas apenas favorece o acmulo de informaes no ensino, e os currculos assim
montados no auxiliam a vida profissional futura dos estudantes. A interdisciplinaridade,
por outro lado, estimularia a competncia do educador, apresentando possibilidades de
reorganizao da produo de conhecimento. Para Ivani Fazenda, uma forma prtica de
aplicar essa proposta  desenvolver uma pesquisa coletiva, que abarque vrias disciplinas
e ao mesmo tempo tente superar a dicotomia ensino/pesquisa.
     Outras reas de conhecimento tambm tm trabalhado bastante com a
interdisciplinaridade. Algumas delas, como os Estudos Culturais, na verdade
se construram em torno da noo de interdisciplinaridade. Nascidos na ps-
modernidade, com a crise dos paradigmas e conceitos da modernidade, os Estudos
Culturais tm como objetivo questionar a hierarquia entre culturas, apresentando-
se como um campo de conhecimento fragmentado e amplo, mas cuja base  uma
abordagem interdisciplinar de temas, como migraes, colonialismo, meios de
comunicao, com mtodos oriundos de disciplinas como a Lingustica, a Sociologia,
a Teoria da Comunicao.
     Na Histria, por sua vez, a interdisciplinaridade no  nova, mas data da prpria
renovao do incio do sculo xx, e no do nascimento da ps-modernidade, como
os projetos interdisciplinares holsticos ou os Estudos Culturais. Desde as dcadas
de 1910 e 1920 que os fundadores da escola historiogrfica dos Annales, Marc Bloch
e Lucien Febvre, j incentivavam o desenvolvimento de pesquisas interdisciplinares.
Tentavam, ento, fazer uma Histria totalizante, que abrangesse o homem em
sua complexidade de pensar, agir e sentir. Para tanto, utilizaram instrumentos
de disciplinas como a Economia, a Sociologia e a Psicologia. A fundao dos
Annales, uma revista interdisciplinar por excelncia, em 1929, teve como objetivo
promover a aproximao da Histria com as demais cincias sociais. Desde ento,
a Escola de Annales e sua sucessora, a Nova Histria, tm realizado intenso trabalho
interdisciplinar, gerando inclusive novas abordagens histricas, como a Histria
Social, a Histria do Imaginrio, das Mentalidades, a Geo-histria. Todas elas
promovendo uma sntese entre disciplinas e um saber que, apesar de histrico,
tambm no deixa de ser sociolgico, ou psicolgico, ou geogrfico. A Histria do
Imaginrio e das Mentalidades trabalha com a Psicologia Social e a Antropologia; a
Histria Social, com a Economia, a Demografia, a Sociologia, entre outras; a Anlise


                                                                                    239
                        do Discurso traz a Lingustica e a Semitica para a Histria. No Brasil, os professores
Interdisciplinaridade



                        de Histria podem dispor de diversas obras que trazem os resultados de pesquisas
                        histricas baseadas na interdisciplinaridade. Um timo exemplo da aplicao dessa
                        abordagem  o trabalho de Lilia Moritz Schwarcz, As barbas do imperador, livro que
                        une Antropologia e Histria para desenvolver uma sntese das mentalidades e dos
                        projetos polticos no Brasil do Segundo Reinado.
                             Os professores dos nveis Fundamental e Mdio tambm podem entrar
                        em contato com a interdisciplinaridade por meio dos Parmetros Curriculares
                        Nacionais, os pcns, a partir da proposta de temas transversais. Para trabalhar com
                        os temas transversais (tica, Pluralidade Cultural, Sade, Orientao Sexual e Meio
                        Ambiente), os professores devem realizar um trabalho interdisciplinar, unindo
                        algumas disciplinas afins para a realizao de determinado projeto. No entanto,
                        Jos Alves de Freitas Neto, em artigo sobre a transversalidade na obra Histria
                        em sala de aula, adverte sobre o perigo de se trabalhar os temas transversais sem
                        que haja real interdisciplinaridade, mas apenas sobreposio e colagem de dados
                        de diferentes disciplinas. Esse, na verdade,  o grande risco de qualquer trabalho
                        interdisciplinar, seja em sala de aula ou no meio acadmico, em sua ambio de
                        construir um conhecimento transdisciplinar, uma verdadeira sntese. Mas a sntese
                         possvel. Podemos, com os professores de Literatura, por exemplo, elaborar uma
                        pesquisa sobre a construo da nao brasileira no sculo xix, por meio da obra de
                        Jos de Alencar e Machado de Assis, entre outros escritores; ou trabalhar com os
                        professores de Geografia e Sociologia a questo da terra hoje, observando as formas
                        de ocupao da terra no Brasil e suas origens coloniais. Muitas outras propostas
                        podem surgir da prpria conversa com os profissionais de ensino de outras reas.
                             Para uma aplicao efetiva de um trabalho interdisciplinar, numerosas barreiras
                        precisam ser transpostas: a inexistncia de um projeto poltico pedaggico em vrias
                        escolas; a pouca comunicao entre os professores (que, em geral, se comportam
                        como ilhas em suas especialidades); as dificuldades de interao escola/comunidade,
                        que gera um saber desvinculado dos interesses locais etc. As escolas precisam
                        perceber que os melhores trabalhos apresentados por alunos e alunas em Feiras de
                        Conhecimentos e Feiras de Cincias so os que aplicam a interdisciplinaridade com
                        competncia, o que depende de uma efetiva participao da instituio e de seu
                        quadro docente.

                        Ver tAmbm
                              Arqueologia; Arte; Cincia; Cultura; Discurso; tica; Etnia; Evoluo; Folclore;
                              Histria Oral; Historiografia; Iconografia; Imaginrio; Indstria Cultural;
                              Mentalidades; Ps-modernidade; Teoria.



                        240
sugestes de leiturA




                                                                                              Isl
    bittencourt, Circe. O saber histrico na sala de aula. 6. ed.So Paulo: Contexto, 2004.
    eScoSteGuy, Ana Carolina. Cartografias dos estudos culturais: uma verso latino-
      americana. Belo Horizonte: Autntica, 2001.
    Fazenda, Ivani (org.). Prticas interdisciplinares na escola. So Paulo: Cortez, 2001.
    Funari, Pedro Paulo. Arqueologia. So Paulo: Contexto, 2003.
    Karnal, Leandro (org.). Histria na sala de aula: conceitos, prticas e propostas.
     So Paulo: Contexto, 2003.
    moraeS, Maria Cndida. O paradigma educacional emergente. Campinas:
     Papirus, 1997.
    ScHWarcz, Lilia Moritz. As barbas do imperador: D. Pedro ii, um monarca nos
      trpicos. So Paulo: Companhia das Letras, 1999.




isl
     Religio que mais cresce no mundo, o Isl foi durante sculos o contraponto do
Ocidente, considerado desde muito cedo o "outro" por excelncia. Oposio antiga
que voltou a ter destaque no incio do sculo xxi.
     A principal definio do Isl  religiosa: o Islamismo  uma religio monotesta
surgida na Idade Mdia na Pennsula Arbica. Dessa definio surgiu outra, ligada
a sua expanso histrica, que teria transformado a religio no que muitos autores
consideram civilizao. Nascido das tribos da Pennsula Arbica, o Isl foi sempre
associado pelo Ocidente aos rabes. Apesar disso, no pode ser entendido apenas
como a religio desse povo. O termo rabe  uma construo tnica, e nem todos os
rabes so muulmanos, devotos do Isl, caso dos grupos cristos do Lbano. Porm,
a devoo ao Isl ultrapassa as barreiras tnicas, e nem todo muulmano  rabe,
como prova o mais populoso pas muulmano do mundo, a Indonsia.
     Outra frmula muita associada ao Isl  a expresso cultura islmica. Desde
o incio de sua expanso na Idade Mdia e do surgimento do Imprio Islmico
como unidade poltica a partir da Pennsula Arbica no sculo vi d. C., diversos
povos foram alcanados e influenciados pelo Isl como religio e pelos rabes
como povo, desde os persas e os visigodos, aos berberes e chineses. Em algumas das
regies conquistadas, as culturas nativas foram influenciadas pela lngua rabe (a
lngua sagrada do Isl, na qual o Coro, o livro sagrado, foi escrito), pelos costumes
e tradies, sem necessariamente serem convertidas  religio islmica. Foi o que


                                                                                      241
       aconteceu com a regio conhecida como Al Andaluz, a Espanha islmica, que do
Isl



       sculo viii ao xv possuiu uma estrutura social e cultural intensamente influenciada
       por rabes e outros povos muulmanos, como os berberes, mas tambm por judeus
       e cristos arabizados. Nesse contexto, a expanso islmica teve diversas vezes um
       significado muito mais cultural que religioso.
            Apesar da distino entre rabes e muulmanos, o Ocidente continua a criar
       generalizaes. O Ir, por exemplo, que nas ltimas dcadas do sculo xx foi associado
       a um pretenso extremismo poltico rabe muulmano, apesar de muulmano, no 
       rabe, mas persa, e nega qualquer "arabidade". Falar tambm em um "mundo rabe",
       supostamente restrito s regies em torno do Mediterrneo, no norte da frica e
       no Oriente Mdio, onde vivem importantes populaes de etnia ou lngua rabe, 
       problemtico. Nessa regio, a Arbia, o Egito, o Marrocos, o Iraque, a Sria, o Lbano
       e a Palestina seriam exemplos de Estados rabes. No entanto, desde a dcada de 1970,
       povos de lngua rabe passaram a se identificar etnicamente por uma identidade
       prpria, como o Egito, que negou origens rabes, apesar de reafirmar sua cultura
       islmica. Hoje, o termo rabe no pode mais ser utilizado para definir povos de
       lngua rabe, como o Egito, mas apenas para os grupos tnicos que se identificam
       como rabes.
            A definio do Isl como religio, dessa forma, abarca grande diversidade
       tnica. Alm disso, em uma religio que se expandiu tanto ao longo da histria, as
       divises internas seriam inevitveis. A mais importante delas  a distino entre
       sunitas e xiitas, diferentes concepes teolgicas do Isl. Os sunitas, ou "tradicionais",
       compem a linha de interpretao religiosa predominante. Alm do Coro, seguem
       tambm a compilao de leis escritas pela tradio ao longo do tempo, as Sunas. Os
       xiitas, por sua vez, reconhecem apenas os descendentes do Califa Ali, genro do Profeta
       Maom, como Ims, ou seja, lderes religiosos e, diferentemente dos sunitas, pregam
       a obedincia somente ao Coro, deixando de lado as Sunas. Alm disso, enquanto
       no pensamento sunita predomina o racionalismo, entre os xiitas o misticismo, ou
       sufismo, tem grande prestgio. Apesar de minoria, os xiitas assumiram algumas
       importantes posies no sculo xx, principalmente com sua vitria na Revoluo
       Iraniana, na dcada de 1970. Lembremos, todavia, que nenhuma dessas concepes
       chegou a criar igrejas separadas no Isl, ao contrrio do Cristianismo.
            Nessa grande diversidade, a afirmao de estudiosos ocidentais acerca da
       existncia de uma civilizao islmica  motivo de controvrsias entre os pensadores
       no prprio Isl. Primeiro, no se pode caracterizar tal civilizao, se  que ela existe
       e tem alguma coeso, como rabe, pois a maioria de sua populao no  rabe,
       como mostra o caso do Egito e do Ir, sem falar dos pases muulmanos orientais,
       com a Indonsia, dos muulmanos hindus e chineses e dos pases muulmanos da


       242
frica negra, como o Senegal e o Mali. Segundo, tambm no se pode definir a




                                                                                           Isl
civilizao islmica a partir de um sentido apenas religioso, pois isso seria obliterar
as minorias crists, judaicas e zoroastrianas em seu seio. Por ltimo, para definirmos
o Isl como civilizao, teramos de remontar sua histria desde a Idade Mdia, e
no reduzi-la a sua configurao atual.
     Autores "arabistas" como Bernard Lewis, baseados nas concepes do lder
poltico cristo srio Michel Aflaq, que na dcada de 1960 procurou incluir seu
movimento no mundo rabe-muulmano, definem a civilizao islmica como
o conjunto que integra todos os indivduos, muulmanos ou no, inseridos na
experincia histrica iniciada pelo Profeta Mohammed, ou Maom, fundador do
Isl. Para Miguel Attie Filho, por sua vez, o termo islmico tem significao mais
ampla, que faz referncia s ideias e aos ideais do Isl, ao passo que muulmano seria
aplicado apenas ao fiel seguidor dos preceitos do Isl. Assim, para esses autores, a
expresso civilizao islmica, ainda que seja uma generalizao nem sempre aceita
pelos prprios islmicos,  o conceito que melhor se adapta para abranger toda a
diversidade de povos e culturas que o Ocidente considera rival desde a Idade Mdia.
     A partir dessa premissa, podemos definir o Isl como o conjunto de ideias,
atitudes, costumes, pensamentos e tradies que compem a experincia histrica
iniciada por Maom no sculo vii d.C., ou seja, a partir da Hgira, e ao qual o Ocidente
se refere comumente como uma civilizao. Assim, alm de designar a religio, o
termo Isl tambm define um complexo cultural nascido da expanso da religio,
mas no restrito a ela, e muito menos ao grupo tnico rabe.
     Historicamente, a data inicial do calendrio islmico, correspondente ao ano 622
no calendrio ocidental, simboliza a Hgira, a fuga do Profeta Maom de Meca para
Medina. Segundo os preceitos do Isl, Maom (Mohammed) teve sua revelao na
cidade de Meca, no incio do sculo vii. Cidade comercial da Pennsula Arbica, Meca
era dominada por uma elite politesta que vivia das peregrinaes para a cidade e
logo se mostrou um local de resistncia  pregao de Maom. Pressionado, Maom
fugiu para a cidade de Yatrib, em 622, que logo passou a ser chamada de Madinat
al-Rasul, a "cidade do Profeta", Medina. Dividida em diversas tribos, a Pennsula
Arbica no formava at ento uma unidade poltica. Sob Maom foi unificada, e
seus sucessores, os califas, ou seja, os "delegados do Profeta", expandiram essa unidade
transformando-a em um imprio, que no sculo viii dominava a maior parte do
Mediterrneo, da Espanha  Prsia, pelo norte da frica, e chegava at mesmo ao
Himalaia. A rpida expanso imperial conquistou no poucos territrios na Europa,
incluindo a Espanha, mas levou o Imprio  ciso interna, criando vrias unidades
polticas diferentes, vrios califados.


                                                                                   243
            A rpida expanso do Isl nas proximidades do mundo cristo criou conflitos
Isl



       territoriais inevitveis, como na Espanha e no Imprio Bizantino, e gerou um discurso
       por parte do Cristianismo medieval de medo e dio contra o islamismo. Esse Cris-
       tianismo medieval, intolerante com outras crenas, via o Isl como um rival e uma
       ameaa devido a seu preceito bsico de expanso da f. Do lado do Isl medieval,
       todavia, apesar dos choques ocasionais, cristos e judeus foram em geral bem acolhidos.
       A prpria Al Andaluz, a Espanha islmica,  at hoje referncia de convivncia pacfica
       e tolerncia religiosa. Nela, judeus e cristos assumiam importantes cargos e tinham
       suas religies respeitadas desde que no atacassem o Isl. Eventuais grupos cristos
       radicais, ao denegrirem a imagem do Profeta foram perseguidos e mortos. No entanto,
       tal processo foi espordico e nem de longe se aproximou das perseguies que os
       cristos realizaram na Europa no mesmo perodo contra judeus, bruxas e hereges.
            O grande choque entre cristos e muulmanos comeou principalmente com
       as Cruzadas. At ento as relaes diplomticas entre os Estados islmicos e cristos
       podiam ser consideradas pacficas. A partir dos sculos xi e xii, no entanto, os reinos
       cristos europeus comearam um movimento de expanso e conquista de novos
       territrios que inevitavelmente se chocou com o Isl, seu vizinho. Desde ento o
       Ocidente comeou a construir uma imagem que perdura at hoje, na qual o Isl  o
       outro, considerado um Cristianismo fracassado e primitivo e, alm disso, violento.
       A ignorncia da histria e dos costumes, assim como da diversidade cultural, levou a
       esses esteretipos. At o fim da Idade Mdia, o Isl, visto sempre de forma genrica, era
       o lugar dos hereges, dos "infiis". Na Idade Moderna, mesmo com o crescente respeito a
       figuras de filsofos como Averrois e Avicena, o desconhecimento e o preconceito contra
       os "infiis" continuou, ainda mais porque, no sculo xvi, o grande rival poltico dos
       Estados ocidentais voltou a ser um Estado islmico. Dessa vez o imprio turco-otomano.
            Mas foi no sculo xix, com a expanso territorial e poltica da Europa ocidental
       sobre o restante do mundo, com o imperialismo britnico e francs principalmente,
       que a viso atual de Isl se consolidou. Os conquistadores imperialistas, ao se
       apropriarem das terras do Oriente Mdio, retrataram os "rabes" como uma
       populao grotesca, primitiva, atrasada, que s tinha a ganhar com a conquista de
       suas terras pela "civilizao". Por outro lado, criou-se tambm o mito do Oriente
       extico, dos harns, do mistrio, do misticismo, das histrias fantsticas das Mil e
       uma noites. E assim o Ocidente construiu o Oriente, assunto amplamente abordado
       por um dos principais pensadores palestinos do sculo xx, Edward Said.
            A crise do imperialismo, a partir de meados do sculo xx, que levou 
       independncia das antigas colnias da sia, da frica e do Oriente Mdio, e
       contribuiu para a formao dos Estados nacionais islmicos, no apagou a antiga
       imagem de Oriente extico e atrasado que o Ocidente construiu. Mas foi com a


       244
ascenso do fundamentalismo islmico e dos grupos radicais terroristas, no incio do




                                                                                           Isl
sculo xxi, que a velha dicotomia medieval e blica entre Isl e Ocidente foi retomada.
A "cruzada" contra o "mal"  representado pelo Isl como um todo, e no s pelos
grupos terroristas minoritrios  empreendida pelos eua da era Bush retomou o
conflito medieval, iniciando uma nova era de intolerncia e incompreenso mtua.
     Lembremos que o Isl  uma civilizao de 1.400 anos, cuja diversidade tnica,
cultural e social, alm de histrica, no pode ser limitada a Estados especficos, muito
menos a grupos polticos como os terroristas. Alm disso, o Isl no  o outro, o oposto
do Ocidente. Pelo contrrio, na Idade Mdia mesmo, monges cristos buscavam as
grandes mesquitas do Isl para estudar. A Espanha se construiu sobre o fundamento
do Isl, cuja influncia se estendeu at a prpria Amrica Latina. Pensadores, poetas,
artistas e filsofos islmicos influenciaram o Renascimento europeu e escritores,
como Dante e Voltaire. Os princpios religiosos do Isl reverenciam Abrao, Davi,
Salomo, Maria e inclusive Jesus Cristo. A lista de proximidades e influncias poderia
se estender indefinidamente. Mas ela s serve para nos lembrar que o Isl no  o
outro estranho,  um antepassado e um parente, pois a influncia do Ocidente sobre
ele  igualmente grande.
     A ns, historiadores e educadores, cabe o papel social e poltico de incentivar o
fim dos preconceitos e pregar a tolerncia e o entendimento. E no h preconceito
mais antigo no Ocidente do que aquele esboado contra o Isl. A crescente intolerncia
promovida pela poltica norte-americana fez retomar dios seculares. Mas se
pretendemos enfrentar a intolerncia e pregar o respeito mtuo, precisamos antes
conhecer as culturas que pretendemos respeitar. Sem conhecimento no h respeito,
no h tolerncia. Trabalhar com a rica diversidade islmica em sala de aula  uma
ferramenta perfeita para esse fim. Mas no devemos nos prender apenas s glrias
passadas de Al Andaluz ou de Bagd, no sculo x. Esse  o erro de alguns historiadores
ocidentais que glorificam o passado do Isl e desprezam seu presente. Pois ao
trabalharmos com a cultura islmica hoje estaremos comeando a compreend-la
em sua dinmica histrica, com incongruncias e belezas como qualquer outra. Do
ponto de vista prtico, uma sugesto: alm de trabalhar com a arte e a literatura
islmica medievais, conhecer e analisar em sala obras atuais produzidas dentro das
fronteiras do Isl: literatura, arte e, talvez sobretudo, o cinema, uma das formas de
expresso que mais eloquentemente traz os dilemas e as diversidades do Isl em sua
vastido para o Ocidente.

Ver tAmbm
    Civilizao; Cristianismo; Etnia; Etnocentrismo; Fundamentalismo; Identidade;
    Imperialismo; Judasmo; Monotesmo; Orientalismo; Relativismo Cultural;
    Religio; Terrorismo.



                                                                                   245
       sugestes de leiturA
Isl




             armStronG, Karen. Maom: uma biografia do profeta. So Paulo: Companhia
              das Letras, 2002.
             attie FilHo, Miguel. Falsafa: a filosofia entre os rabes. So Paulo: Palas Athena,
              2002.
             demant, Peter. O mundo muulmano. So Paulo: Contexto, 2003.
             Galland, Antoine (verso). As mil e uma noites. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001, 2v.
             Hourani, Albert. Uma histria dos povos rabes. So Paulo: Companhia das
              Letras, 1994.
             pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Faces do fanatismo. So Paulo:
               Contexto, 2004.
             raSHid, Ahmed. Jihad: a ascenso do islamismo militante na sia Central. So
               Paulo: Cosac & Naify, 2003.




       246
 j

JudAsmo
           J
     O Judasmo, tal qual o Isl e o Cristianismo,  uma religio assentada no monotesmo.
As origens dessas religies esto entrelaadas e sua convivncia ao longo da histria foi
marcada ora por conflitos e intolerncia, ora por momentos de maior integrao  ou ao
menos tolerncia recproca. Mas o que  o Judasmo e quem so os judeus?
     Os judeus so os seguidores do Judasmo, que se declaram semitas, ou seja,
descendentes de Sem, um dos filhos de No, o patriarca que protagonizou o
dilvio, conforme o relato bblico. So considerados um dos primeiros povos
declaradamente monotestas da histria. Em um ambiente cultural como o da sia
Menor na Antiguidade, marcado pelo politesmo, os judeus definiram sua identidade
cultural, em oposio aos povos da regio, como seguidores de Jav (Yahweh, em
hebraico). Consideravam-se o povo eleito e adquiriam foras para manter sua unidade
cultural e suportar o peso dos poderosos imprios que lutavam ento pelo domnio
da Mesopotmia.
     Os praticantes do Judasmo se definem como o povo dos livros, uma vez que
sua f se assenta em trs grupos de textos cannicos bsicos: a Bblia judaica, ou lei
escrita, cujo nome  Tor, tambm conhecida entre os catlicos pelo nome grego
Pentateuco; a chamada lei oral, os Midrashim, e, por fim, o Talmude, escritos de
interpretao do texto bblico. O Judasmo desconsidera a parte da Bblia nomeada
Novo Testamento, tal como no considera Cristo o Messias anunciado pelos seus
profetas. Apenas o Antigo Testamento  o cerne da religio judaica, originalmente
escrito em hebraico e aramaico.
     A Bblia hebraica foi organizada em 90 d.C. por um snodo de rabinos que
selecionou 24 livros organizados em trs grupos: a Tor, ou Lei, os Profetas e os
Escritos. O primeiro  o momento de fundao do Judasmo, quando a aliana foi
selada entre Deus e seu povo escolhido. O segundo relata a histria do povo judeu
desde a conquista de Cana at o Exlio em Babilnia. Finalmente, os Escritos so
livros de orao e sabedoria. Alm da Bblia, outros escritos foram surgindo a partir
de comentrios e interpretaes do texto bblico, indo constituir o Talmude, que se
divide em duas principais escolas de interpretao da lei bblica: a escola talmdica


                                                                                     247
           de Jerusalm e a da Babilnia. Destacam-se ainda os Midrashim, que, por meio de
Judasmo



           sermes e parfrases, tambm pretendem interpretar a Lei bblica. Juntos, Tor,
           Talmude e Midrash so o cdigo principal da vida judaica.
                Mas o Judasmo, no que se refere  religio,  mais que um conjunto de escritos
           e sua interpretao. Trata-se, antes de tudo, de um conjunto de valores que influem
           diretamente na vida cotidiana de seus membros: cerimnia de circunciso dos
           meninos aos oito dias de nascido; o ritual que inicia os meninos na leitura da Tor,
           conhecido como Bar Mitzv e, ainda, em comunidades mais modernas, uma cerimnia
           equivalente para as meninas, a Bat Mitzv; outra cerimnia para nomear as meninas,
           chamada Zved habat, ou "a ddiva da filha"; o uso pelos crentes judaicos de smbolos
           como o solidu, chamado Kipp, que cobre a cabea em reconhecimento da presena
           divina. Alm dessas manifestaes concretas da cultura judaica, existe ainda um
           conjunto rgido de regras alimentares, muitas delas baseadas na anlise bblica do
           livro Levtico. Por fim, os judeus costumam relembrar os marcos de sua histria com
           celebrao de festas que envolvem oraes, interdies de certos alimentos, purificao
           e outros rituais que ajudam a manter a memria e a tradio cultural.
                Por outro lado, o Judasmo tem ultrapassado a definio religiosa, tomando
           conotao tnica ao longo do tempo. Nesse sentido, os judeus se identificam
           como grupo a partir de sua origem comum, baseada na religio e na histria, sem
           necessariamente a prtica dos princpios religiosos. Nesse contexto, so dois os
           momentos que definem a identidade judaica: o exlio e a dispora. Fenmenos
           histricos concretos, o exlio e a dispora so elementos constitutivos do prprio
           modo de vida judeu. Historicamente, o exlio dos hebreus na Babilnia, depois de
           conquistados por Nabucodonosor e desterrados da Judeia, influenciou muito o modo
           de vida judaico. A convivncia com os babilnicos trouxe frutos para os judeus, e
           muitos deles preferiram no voltar para a Palestina, mantendo casas comerciais
           abertas em Babilnia.
                J a dispora hebraica se deu em 70 d.C., aps a destruio do Templo de
           Jerusalm pelos romanos. Tal acontecimento esteve relacionado  resistncia cultural
           dos judeus, que dificultava o domnio romano e promovia rebelies. Em 135 d.C.
           explodiu mais uma revolta em Jerusalm, sufocada pelo imperador Adriano. Para
           reprimir essa revolta, os romanos desterraram os judeus, espalhando-os pelo Imprio.
           Da em diante, os judeus se disseminaram por todo o mundo mediterrnico, para
           as terras da antiga Mesopotmia, para a Prsia e para a Pennsula rabe, criando
           importantes comunidades judaicas por todo o mundo antigo.
                Durante a Idade Mdia, habitando reas sob domnio cristo, como o Imprio
           Bizantino e o Reino Visigodo da Espanha, os judeus sofreram frequentes perseguies
           e, por isso, de maneira geral, receberam com satisfao a invaso muulmana do


           248
sculo vii. Chegaram inclusive a ajudar os conquistadores na Pennsula Ibrica e em




                                                                                       Judasmo
Alexandria, no Egito. A partir da, iniciou-se uma convivncia cultural, na maioria
das vezes pacfica, entre muulmanos e judeus, muito celebrada pelos historiadores.
Certamente as relaes entre as duas comunidades eram muito melhores que aquelas
experimentadas com os cristos, mas isso no significa que no houve conflitos. No
culto islmico, os judeus so reprovados por terem rechaado Cristo, um profeta
mandado por Al para guiar os homens, e por terem denegrido Maria, negando
a imaculada concepo, um dogma islmico. Tais sentimentos causaram algumas
perseguies localizadas aos judeus, como se verificou durante o reinado do califa
Al Hakim, no Egito do sculo xi. Por outro lado, nada disso nega o fato de que as
comunidades judaicas prosperaram no Imprio Islmico, dominando, inclusive,
algumas profisses de destaque nos Estados islmicos medievais, como as de mdico
e tradutor. Alm disso, o tratamento que os judeus recebiam no Imprio Islmico
era geralmente melhor que aquele recebido dos governos cristos.
     Ao longo do tempo, com as invases constantes  Mesopotmia, aos poucos
a comunidade judaica babilnica foi decaindo. O mesmo se deu com a Pennsula
Arbica, a partir do domnio muulmano. Assim, a Europa veio a se tornar o
principal reduto dos judeus, ento divididos em duas populaes, os sefaradins e os
ashkenazims. Sefarad  o nome hebraico da Espanha, e o termo sefardim representa
os judeus mediterrnicos, do sul da Europa e do Norte da frica, que se expressavam
em uma lngua que misturava o hebraico ao latim, chamada ladino. Durante a
Idade Moderna, a comunidade sefardita sofreu grandes baixas, em particular com
as numerosas expulses da Espanha e da Siclia, em 1492. Nesse momento, cerca de
80 mil refugiados seguiram tanto para o Marrocos, onde j residiam comunidades
judaicas fortes entre os muulmanos, quanto para os pases do norte, Inglaterra e
Holanda. Os ashkenazims, por sua vez, so originrios dos judeus que, por volta
do sculo viii, seguiram pela Itlia em direo ao norte,  Aschkenaz, na Alemanha.
Essa comunidade falante da lngua idiche, mistura de hebraico com alemo, passou
a ser uma presena constante nas cidades do norte europeu, desde a Idade Mdia.
     Os judeus na Europa, de ambas as comunidades, foram vtimas de intensas
perseguies das sociedades crists ao longo da histria. Seguidamente impedidos
de possuir terras, exercer prticas artesanais ou educacionais, foram obrigados a
restringir sua atuao ao comrcio,  medicina e ao mercado financeiro, em que o
emprstimo a juros tinha destaque. Tal fato causou debates no seio da comunidade
judaica, j que a cobrana de juros era um pecado previsto na Bblia. Como resultado
da discusso, os estudiosos da Lei e da tradio decidiram que tal cobrana s seria
pecado quando realizada na comunidade; para os goyin, ou seja, os no judeus, essa
prtica seria liberada.


                                                                                249
                As perseguies durante a Idade Mdia chegaram ao ponto de criar estigmas
Judasmo



           que assinalavam e distinguiam os judeus das comunidades crists. Alm de marcas
           nas roupas, os judeus eram tambm obrigados a habitar reas especficas das
           cidades, separadas dos cristos. Surgiu, assim, a noo de gueto, os bairros habitados
           unicamente por judeus submetidos a toque de recolher, sem contato com os cristos,
           noo que na atualidade se ampliou para qualquer minoria marginalizada e obrigada
           a habitar reas separadas nos centros urbanos.
                Mas qual a razo das intensas perseguies que os cristos moviam aos judeus?
           Na origem, o Cristianismo foi, inclusive, considerado uma subdiviso do Judasmo.
           O prprio Jesus Cristo e seus apstolos eram todos judeus. Mas com a ascenso do
           Cristianismo ao poder no Ocidente, com a identificao da Igreja Catlica com o
           Imprio Romano, gradativamente o Cristianismo foi se afastando do Judasmo. A
           identificao com o poder levou a Igreja a se tornar cada vez mais intransigente com a
           diversidade, a no tolerar discordncias nem de outras formas de pensamento cristo,
           nem dos "infiis", ou seja, os muulmanos, e os judeus. Somou-se a isso o fato de que
           alguns tericos mais extremistas do Cristianismo criaram a tese de que os judeus seriam
           os responsveis pela condenao de Jesus Cristo ao Calvrio e, logo, os "assassinos"
           de Deus, visto Cristo e Deus formarem uma unidade. Tal tese, que considerava os
           judeus deicidas (assassinos de Deus), teve especial repercusso na Espanha visigoda.
           Com o passar do tempo, o medievo cristo, assolado por pestes e fomes espordicas,
           transformou os judeus em bodes expiatrios para tudo que no se podia explicar ou
           controlar, e os massacres s comunidades judaicas se tornaram frequentes em pocas
           de secas ou epidemias. Alm disso, muitos soberanos, interessados no confisco dos
           bens das comunidades judaicas, incentivavam as perseguies, situao que tomou
           vulto com a Inquisio espanhola na Idade Moderna, que tinha como alvo principal
           os cristos-novos, os judeus convertidos  fora ao catolicismo.
                Aos poucos, devido  prpria necessidade financeira dos Estados nacionais
           europeus, estes foram concedendo aos judeus igualdade de direitos, abolindo
           legalmente as diferenas entre judeus e no judeus. Segundo a filsofa alem Hannah
           Arendt, esse apoio do Estado-nao aos judeus deveu-se tambm ao fato de que,
           sendo absolutamente no territoriais e encontrando-se em todo continente, os
           judeus passaram a agir como coringas diplomticos da Europa, chegando a exercer
           importante papel na diplomacia europeia at a Primeira Guerra Mundial: como
           no possuam pas, exerciam funes de consultores financeiros e assistentes em
           tratados de paz, mensageiros e intermedirios.
                Todavia, apesar da igualdade jurdica entre judeus e no judeus, diversas
           Naes europeias desencadearam crescente movimento antissemita no sculo xix,
           que se estendeu at o sculo xx. Transformaram, assim, um preconceito tnico em
           poltica de Estado. Foi nesse momento, no final do sculo xix, que, como reao s



           250
perseguies nasceu o Movimento Sionista (de Sion, nome de um dos montes de




                                                                                           Judasmo
Jerusalm), que reivindicava a fundao de um Estado prprio para o povo judeu.
Enquanto isso, o antissemitismo chegou ao auge com o regime nazi-fascista alemo
das dcadas de 1930 e 1940, que desencadeou uma poltica de eliminao em massa,
ceifando a vida de um tero da populao judia mundial, algo em torno de 6 milhes
de pessoas. A tragdia do holocausto, shoah em hebraico, como ficou conhecido
pela Histria tal genocdio, foi uma industrializao da morte. Os prisioneiros dos
campos de concentrao deixaram de ser humanos para se tornarem elementos de
contagem: o regime nazista contabilizava quantas pessoas entravam nas cmaras de
gs, quanto gs seria necessrio para a execuo, quantas mulheres teriam seus cabelos
cortados para se fazerem sandlias, quantos dentes de ouro seriam arrancados etc.
     Com o holocausto, a luta judaica por um Estado se fortaleceu. E j desde o
fim do sculo xix, grupos judeus migravam para se instalarem na Palestina, onde
compravam terras e erigiam fazendas comunais chamadas kibbutz. A Palestina, no
entanto, j era habitada por uma populao rabe, e quando o Estado de Israel foi
fundado, em 1948, a reao do mundo rabe foi de oposio. A partir de ento,
conflitos interminveis vem marcando a histria recente da regio, o que no
impediu o Estado de Israel de se desenvolver, tornando-se prspero e independente.
     No entanto, a poltica do Estado de Israel com relao aos palestinos, desde o
final do sculo xx, tem sido muito criticada pela comunidade internacional, que,
apesar disso, pouco tem feito para ajudar a sanar os problemas da regio. O professor
de Histria tem em mos um tema delicado: por um lado, percebemos que as aes
militares de um Estado insensvel ao dilogo e  negociao causam milhares de mortes
de palestinos armados muitas vezes apenas com pedras. Por outro, devemos nos
precaver para no transferir para todas as pessoas judias a responsabilidade pelas aes
de um governo autoritrio e expansionista. Tal generalizao apenas incentiva a volta
ao antissemitismo de pocas anteriores. Devemos separar o que  responsabilidade
de um governo, respeitando as pessoas que compem a sociedade civil, uma vez que
muitos israelitas no compactuam com as aes do governo institudo. Mas o Judasmo
no pode ser limitado apenas ao Estado de Israel. A influncia da cultura judaica
na histria do Ocidente  imensa, desde sua presena na instalao dos engenhos
canavieiros no Brasil colonial at os numerosos pensadores judeus dos sculos xix e
xx, que em muitos pontos definiram a forma de pensar na modernidade. Entre esses
esto nomes como Marx, Freud, Einstein, entre outros.

Ver tAmbm
    Cidadania; Cristianismo; Etnia; Etnocentrismo; Fascismo; Fundamentalismo; Isl;
    Memria; Monotesmo; Nao; Religio; Terrorismo.



                                                                                   251
           sugestes de leiturA
Judasmo




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           252
 l
         L
lAtiFndio/propriedAde
     A formao histrica e econmica do Brasil, assim como a realidade social atual
de crescentes contingentes de sem-terras e desempregados, remetem o professor de
Histria  reflexo sobre o latifndio e a propriedade privada da terra.
     Latifndio  uma palavra de origem latina que designa um grande domnio
agrcola explorado extensivamente, sem aprimoramento tcnico ou racionalidade.
Ao longo da histria, esse tipo de propriedade existiu em diversas partes do mundo.
Como exemplos podemos observar as vilas romanas, imensas propriedades de
produo de alimentos da Roma Imperial, cultivadas com trabalho escravo; e as
plantations e haciendas, formas de latifndio na Amrica colonial.
     O latifndio  uma forma de propriedade privada da terra. Nesse sentido, os
romanos foram um dos primeiros povos a organizar um corpo jurdico, a lex agrria,
que legitimava plenamente a propriedade privada da terra. Ao lado das grandes
fazendas pertencentes ao Imprio e administradas por funcionrios pblicos, havia
fazendas privadas autnomas cultivadas por escravos e colonos (estes ltimos mais
caractersticos do fim do Imprio, dando origem  servido medieval), que viviam
em situaes precrias.
     Haciendas e plantations, por sua vez, foram conceitos criados no sculo xx
como ferramentas para a anlise dos vastos complexos agrcolas existentes nas
colnias europeias a partir do final do sculo xv. Nas plantations, a Era Moderna
fez renascer a escravido dos grandes domnios rurais romanos antigos. A hacienda
 normalmente definida como grande propriedade voltada para o mercado interno
da prpria colnia, produzindo bens de consumo como milho, trigo, fava e animais
de carga e de corte, utilizando mo de obra indgena local, compelida a uma
forma especial de assalariamento, a escravido por dvida. As haciendas existiam
principalmente em colnias espanholas, como o Chile e o Mxico, e produziam
para alimentar os trabalhadores das minas e a populao das grandes cidades
coloniais. A plantation, por sua vez, designa em geral uma forma de propriedade,
localizada em zonas tropicais ou subtropicais, especializada na produo de um
nico artigo, cuja fora de trabalho era constituda por escravos africanos advindos


                                                                                253
                         do trfico negreiro. Alm disso, a plantation tinha um sentido exportador evidente,
Latifndio/Propriedade



                         produzindo um gnero agrcola primrio no existente no mercado europeu. Ou
                         seja, enquanto a plantation era o latifndio monocultor escravista que produzia
                         para a exportao, a hacienda era o latifndio, nem sempre monocultor, que
                         produzia para o mercado interno e utilizava mo de obra servil ou assalariada.
                         Ambas coexistiram na Amrica colonial em regies diferentes. As haciendas foram
                         tpicas do Chile e de determinadas regies mexicanas, ao passo que as plantations
                         predominaram no Caribe, na Colmbia, na Venezuela e no Brasil. O modelo de
                         plantation  o engenho brasileiro de produo de acar, do sculo xvii, instalado
                         inicialmente no nordeste colonial. Segundo Stanley e Barbara Stein, apesar das
                         diferenas, a hacienda e a plantation foram formas de latifndio de produo
                         extensiva, e muitas vezes predatria, e ambas resultantes da expropriao da
                         populao autctone. No caso das haciendas, o indgena se tornou o principal
                         trabalhador da terra cujo dono agora era o espanhol. O antroplogo Sidney Mintz
                         foi um dos principais responsveis pela distino desses dois conceitos de grandes
                         unidades agrcolas.
                              Apesar dos conceitos de plantation e hacienda serem muito utilizados para a
                         Amrica colonial, estudos recentes esto encontrando outras formas de propriedade
                         agrcola com caractersticas distintas para esse perodo, sobretudo produtores de
                         farinha de mandioca, de pequeno e mdio porte que existiam ao lado da grande
                         agricultura de exportao. Esses novos estudos, dos quais o trabalho do brasilianista
                         Bert Berickmam  exemplo, mostram que a grande plantao no foi a nica forma
                         de propriedade agrcola no Brasil colonial; que o sentido da colonizao no era
                         unicamente o mercado externo; e, por ltimo, que havia economias e vidas que se
                         desenvolviam entre comunidades camponesas compostas por negros quilombolas,
                         negros livres, mestios e brancos pobres de forma independente da plantation.
                              O conceito de propriedade, em seu aspecto jurdico, mudou muito ao longo da
                         histria. Hoje, com a famlia e o contrato, ela forma um dos pilares do Direito Civil. J
                         no Direito Romano, a propriedade era um direito absoluto e exclusivo, ao passo que na
                         Idade Mdia, com o sistema de vassalagens e os laos de fidelidade ligando os senhores
                         ao rei, o direito de propriedade era mais frgil e relativo. Para os juristas, foi com o
                         liberalismo da Era Moderna que esse direito retomou a ideia de propriedade absoluta,
                         com a ascenso da burguesia, que teve seu pice no sculo xix. Mas no sculo xx, com
                         as polticas intervencionistas do Estado, o Direito passou a entender a propriedade de
                         acordo com sua funo social, negando juridicamente a ideia de propriedade absoluta.
                              Atualmente, o direito de propriedade est condicionado ao exerccio de sua funo
                         social, o que significa que, pela Constituio Federativa do Brasil, o Estado s garante o
                         direito de propriedade se seu proprietrio cumprir com a funo social desta. Mas qual


                         254
seria essa funo social? No caso dos latifndios, os proprietrios tm liberdade de




                                                                                            Latifndio/Propriedade
possu-los desde que o aproveitem racionalmente, utilizando os recursos naturais
de modo a no prejudicar o meio ambiente, cumprindo a legislao trabalhista,
favorecendo o bem-estar dele mesmo e dos trabalhadores.A lei s prev a desapropriao
para fins de reforma agrria no caso das grandes propriedades, e mesmo assim se
essas no cumprirem a funo social. A Constituio garante ainda ao proprietrio
cumpridor da "funo social" o direito de portar armas e defender pela fora (desde que
compatvel com a "agresso" sofrida) seu direito de propriedade. Na prtica, entretanto,
 muito difcil saber se tais proprietrios cumprem ou no essa funo, e a maioria
deles tem seus pedidos de reintegrao de posse atendidos por magistrados que apenas
"presumem" que a funo social est sendo atendida. Alm disso, o Poder Judicirio
no age para descobrir aqueles que no cumprem a funo social das propriedades,
o que possibilitaria a realizao da reforma agrria. O princpio da funo social, na
prtica, tornou-se mais uma ideologia para justificar o direito de propriedade, e
no uma restrio a esse direito. Isso pode ser observado no discurso do magistrado
Jos Neure Bertan, que aconselha seus colegas a investigarem as razes subjetivas
dos envolvidos em casos de pedidos de desapropriao de latifndios. Segundo
ele,  preciso investigar a alma do proprietrio para saber se ele pode ou quer fazer a
propriedade se tornar produtiva, se as violaes ecolgicas foram ou no de m-f, se
os tratamentos injustos para com os trabalhadores foram maldosos e irreparveis ou
no. Por sua vez, essa "pesquisa subjetiva" deve tambm ouvir a "alma e o sentimento
do invasor" para saber se sua motivao  poltica ou ideolgica, se ele sabe cultivar
a terra, onde trabalhou, se seus antepassados ou descendentes foram, em algum
momento, trabalhadores rurais, se ele vive da produo ou dos fundos apresentados
pelas classes polticas, se ele conhece outros ofcios que lhes sustentem e possa exercer
nas cidades. Ou seja, essa pesquisa subjetiva  uma forma de justificar a manuteno
do direito de propriedade aos latifundirios, dificultando o acesso  terra por parte
dos despossudos.
     Essa situao no  exclusiva do Brasil. Na verdade, a propriedade vem sendo
ponto de discusso e conflitos ao longo da histria. Muitos estudos de tradio
marxista afirmam que o nascimento da propriedade privada se deu com o advento
da Civilizao. Seguindo a tradio de Engels, esses autores entendem que a diviso
de trabalho, a troca entre os indivduos e a produo mercantil minaram as estruturas
sociais anteriores, da Selvageria e da Barbrie, baseadas na produo coletiva e
no regime de distribuio direta dos produtos, caractersticas das coletividades
comunistas. Para Engels, o estabelecimento de maior diviso de trabalho, extinguiu
a produo e a apropriao comuns, instaurando a apropriao individual. Com o
surgimento da Civilizao, o Estado, a famlia patriarcal monogmica e a propriedade


                                                                                    255
                         privada teriam surgido como instituies geradoras da explorao da mulher pelo
Latifndio/Propriedade



                         homem, do escravo pelo senhor e dos dominados em geral pelo grupo dominante.
                         Nessa viso marxista, a propriedade privada dos meios de produo e dos lucros
                         devia ser abolida em nome da implantao do Socialismo, que coletivizaria a
                         propriedade. Nesse sentido, abolir a propriedade privada seria privar o Capitalismo
                         de sua prpria essncia, pensavam Marx e Engels. As sociedades capitalistas
                         contemporneas, por sua vez, esto ancoradas nos princpios liberais formulados
                         por John Locke, no sculo xvii, em que o direito de propriedade  legtimo porque
                         est vinculado  natureza humana e ao interesse privado. O Estado, para Locke, s
                         cumpria sua funo quando permitia que os interesses privados fossem livres de
                         qualquer interveno. Essa  a viso do liberalismo clssico do laissez-faire, laissez-
                         passer, um tanto podada ao longo do sculo xx pelo Estado que passou a intervir
                         mais diretamente nas sociedades capitalistas. Ao lado da crtica marxista, o sculo
                         xix assistiu ao crescimento da crtica anarquista, sobretudo do anarquismo de linha

                         proudhoniana. E, para Proudhon, a propriedade, no sistema capitalista, nada mais 
                         que um roubo legalmente sancionado. Tambm Rousseau, no sculo xviii, afirmava
                         que a propriedade privada era um elemento de corrupo da humanidade.
                              A posse de bens privados (terra, riquezas e at mesmo ideias)  caracterstica
                         da maior parte das sociedades contemporneas. Seus sistemas jurdicos regulam
                         as formas de propriedade e seus usos, mas de modo algum eliminam o direito de
                         propriedade em si mesmo. Elimin-lo equivaleria a abalar um dos pilares centrais
                         do Capitalismo. H entraves jurdicos e presses sociais imensas para que o direito
                         de propriedade permanea. Mas o latifndio  um elemento de empobrecimento da
                         sociedade e forte gerador de conflitos. Tais conflitos entre despossudos (sem-terras
                         ou sem-tetos, por exemplo) e proprietrios afloram no Brasil. A emergncia de
                         movimentos como o mSt, que contestam enfaticamente a existncia dos latifndios,
                          tema de grande relevncia para a sala de aula. No entanto, precisamos ter cuidado
                         ao analisar tais conflitos, pois a mdia exerce um papel fundamental sobre eles.
                         Professores e alunos devem educar o olhar para interpretar discursos e imagens
                         e perceber que, por trs de cada "fato" apontado pelos jornais e telejornais, h
                         uma seleo do que deve ou no ser dito, h uma fabricao da notcia. Discutir o
                         tema propriedade constitui tarefa delicada, uma vez que mexe com noes muito
                         prximas a cada um de ns, mexe com o que " meu", com o que " teu", mexe com
                         o fundamento da vida contempornea.  um desafio a cada passo. E por isso mesmo
                         os conceitos de latifndio e propriedade tm enorme relevncia social para o Brasil
                         do sculo xxi, pela relao com o crescente nmero de camponeses despossudos no
                         campo e com os conflitos agrrios por que passa a sociedade brasileira.


                         256
Ver tAmbm




                                                                                        Liberalismo
    Burguesia; Capitalismo; Cidadania; Civilizao; Colonizao; Comunismo;
    Escravido; Estado; Marxismo.

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liberAlismo
    Em pleno sculo xxi, pensar a relao entre os indivduos e o Estado, e a
prpria noo de Estado e de indivduo como cidado,  um exerccio necessrio
 constituio de prticas polticas mais humanas. Exerccio que implica o
estabelecimento da relao passado-presente no que concerne, por exemplo, aos
princpios liberais que norteiam hoje a maioria dos Estados do Ocidente. Assim,
para a prtica da cidadania em nossa sociedade, precisamos responder a perguntas
como o que  o liberalismo, quando ele se constituiu e quais formas assumiu ao
longo do tempo.


                                                                                  257
                   O liberalismo, que surgiu no sculo xviii a partir do Iluminismo, teve seu auge
Liberalismo



              no sculo xix e pode ser dividido em liberalismo econmico e liberalismo poltico.
              Vigorou principalmente na Europa ocidental e na Amrica Latina at o perodo
              do entre-guerras, quando sofreu severa crise com os regimes fascistas, ressurgindo
              no ltimo quartel do sculo xx, revitalizado na teoria poltica-econmica do
              neoliberalismo. A base social do pensamento liberal era a burguesia, que, ascendendo
              economicamente durante a Idade Moderna, almejava tomar o poder poltico.
              Economicamente, o liberalismo  uma teoria capitalista, que defende a livre-iniciativa
              e a ausncia de interferncias do Estado no mercado. O liberalismo poltico, por sua
              vez, emergiu como uma nova forma de organizar o poder, contrria ao Absolutismo.
                   A Sociologia define liberalismo como um complexo de teorias e prticas
              construdo no processo histrico de laicizao e de especializao do poder poltico.
              Enquanto a laicizao significa a separao do Estado e da religio, a especializao do
              poder poltico implica a diviso e independncia dos poderes que constituem o Estado,
              ou seja, o Legislativo, Judicirio e Executivo, limitando o poder do soberano, retirando
              de suas mos as funes de governar, criar leis e executar justia ao mesmo tempo. O
              contexto em que esse complexo emergiu foi o do Absolutismo da Europa Moderna,
              sendo os primeiros liberais os opositores desse regime. Logo de incio, segundo
              Raymond Boudon e Franois Bourricaud, os liberais reivindicavam direitos diante
              das pretenses de todas as Igrejas estabelecidas. Ou seja, reivindicavam que o Estado
              se abstivesse de se colocar a servio de qualquer ortodoxia e seguisse uma tradio
              leiga no tocante s relaes com a Igreja. Alm desse anticlericalismo, ou laicismo,
              o antiabsolutismo tambm constituiu uma tradio bastante forte do liberalismo.
                   Desde seu incio, no Iluminismo, o liberalismo assumiu faces variadas, mais
              ou menos radicais. Um dos principais tericos e fundadores do liberalismo em
              sua vertente poltica foi Montesquieu, opositor do Estado absoluto, para quem o
              liberalismo tinha a funo primordial de equilibrar o poder a partir da necessidade
              de separar os poderes, impedindo a tirania que resultaria de um poder desmedido
              concedido a um nico soberano. Assim, tomando a Inglaterra monrquica como
              exemplo (uma vez que ele no contesta o regime monrquico em si mesmo, pois para
              ele uma monarquia podia ser to livre quanto uma repblica), Montesquieu defendeu
              que o Parlamentarismo impedia o rei de impor arbitrariamente taxaes excessivas a
              seus sditos sem a autorizao dos representantes destes. Alm de Montesquieu, muitos
              liberais na Frana dos sculos xviii e xix no se sentiam particularmente incomodados
              com a forma monrquica de governo, e acomodavam o liberalismo  monarquia
              desde que uma constituio limitasse o poder do soberano e garantisse as liberdades
              fundamentais dos sditos. A ideia bsica de Montesquieu pode ser assim resumida:
              um nico homem, ou mesmo um grupo de nobres ou do povo, no pode exercer ao
              mesmo tempo o poder de legislar, executar e punir; do contrrio, tudo estaria perdido.



              258
     O liberalismo de inspirao rousseauniana, no entanto, teve cunho mais




                                                                                            Liberalismo
democrtico, na medida em que afirmava que a soberania deveria obedecer a um
contrato social e estar submetida  vontade geral, algo prximo ao bem comum, sob
pena de se autodestruir. Esse liberalismo inspirou movimentos revoltosos por diversas
reas de influncia europeia, como as independncias da Amrica Latina no sculo xix.
Outro conjunto de ideias liberais de grande influncia na poca, por sua vez, exclua a
vontade geral. Voltaire  exemplo dessa vertente. Seu discurso defendia a liberdade de
pensamento e opinio, o anticlericalismo militante e a crtica ao regime absolutista.
Todavia, para Voltaire, o povo no devia participar do processo de mudanas liberais.
Um restrito grupo de ilustrados bastaria para governar racionalmente um Estado.
     O liberalismo poltico, como se percebe, podia ser antidemocrtico. E mesmo as
ideias rousseaunianas relativas  participao de cada indivduo no contrato social,
que inspiraram grupos democrticos e radicais, permaneceram apenas na retrica
na Amrica Latina de lngua hispnica independente, em que os grupos liberais
que assumiram o poder nas novas Naes defenderam o liberalismo econmico e
o anticlericalismo, mas no a participao do povo na poltica. No caso do Brasil
oitocentista, a elite, mesmo dividida entre os partidos polticos Conservador e Liberal,
concordava quando se tratava da manuteno de seus privilgios, restringindo os
direitos polticos das camadas populares e mantendo a escravido como instituio.
A Constituio de 1824, apesar de se afirmar como liberal, foi paradoxalmente
outorgada de modo desptico por D. Pedro i. Alm disso, apesar de o Estado
monrquico brasileiro ser liberal, manteve o vnculo Igreja-Estado, com o clero sendo
funcionrio da monarquia. Nesse contexto, no discurso da elite que protagonizou
os movimentos de independncia na Amrica Latina, liberdade e liberalismo eram
compreendidos como sinnimo de anticolonialismo, de luta contra a metrpole,
e no como portadores de um contedo libertrio para todos os habitantes dessas
novas Naes. Tambm o movimento de independncia dos Estados Unidos, em
1776, com sua fundamentao amplamente liberal e democrtica, foi conservador
dos interesses escravocratas e da posio de ndios e mulheres.
     Desde ento, o liberalismo foi compreendido e praticado como o regime que
garantia a liberdade inalienvel de o indivduo possuir propriedade privada. Um de
seus fundamentos era a afirmao de que o Estado no deveria intervir nos interesses
individuais. Nesse sentido, os princpios que nortearam a luta norte-americana contra a
sujeio ao governo britnico eram, de fato, liberais: considerando a sujeio ilegtima,
os norte-americanos ansiavam pela igualdade natural, pela liberdade de empresa, pelo
direito de usufruir livremente de suas propriedades e dos frutos do seu trabalho, pelo
direito de escolher as instituies e os magistrados que os representariam. Mas o cidado


                                                                                    259
              norte-americano, branco e proprietrio, no estava inclinado a considerar os
Liberalismo



              negros, os ndios e as mulheres partcipes desse pacto poltico em torno do novo
              Estado que surgia.
                   O liberalismo pode ser entendido como uma ideologia que concede espaos 
              iniciativa e  autonomia individuais. Nessa filosofia, as aes dos indivduos, desde
              que respaldadas por normas legais (e nesse caso o Direito  fundamental para a
              instituio de uma sociedade liberal), podem manter uma autonomia relativa ante
              o Estado. Este, por sua vez, deve exercer algumas funes especficas, limitadas, mas
              essenciais  ao livre dos cidados proprietrios. Desse modo, h estreita relao
              entre o liberalismo poltico e o liberalismo econmico, na medida em que o Estado
              se estrutura para garantir os contratos, no interferir nos lucros de seus membros,
              permitir a manuteno da propriedade privada, regular o jogo de interesses, manter
              a ordem social. Em termos de poltica econmica, o liberalismo emergiu como
              uma ideologia contrria ao Mercantilismo e suas prticas intervencionistas na
              economia. A partir do sculo xviii, ao mesmo tempo em que teorias polticas liberais
              questionavam o poder absoluto dos monarcas europeus, surgiu uma nova cincia
              chamada de Economia Poltica (ou liberalismo econmico), que, a partir de autores
              como Adam Smith e David Ricardo, forjava um mundo de leis e clculos econmicos
              cujo fim ltimo era a riqueza das naes. Smith  inclusive considerado o "pai" da
              nova cincia. O princpio bsico de sua teoria rezava que o Estado deveria deixar
              o mercado se autorregular por suas prprias leis. Para ele, o mercado encontraria
              por si mesmo os nveis naturais de preos, de salrios, de lucros e de produo. O
              liberalismo econmico e seus princpios clssicos de total liberdade para os negcios
              capitalistas sem interveno estatal (laissez-faire e laissez-passer) incentivaram o
              avano avassalador da burguesia expansionista dos sculos xviii e xix.
                   Apesar disso, os fundadores desse saber econmico, chamado de clssico, fossem
              fisiocratas (pensadores que insistiam que a riqueza de uma nao consistia na produo,
              sobretudo a proveniente da agricultura, minimizando o comrcio e a indstria, o que
              era contestado por Adam Smith) como Quesnay ou liberais como Adam Smith, no
              dispensavam a ao do Estado em pontos estratgicos. Acreditavam que o Estado
              deveria garantir a segurana da propriedade e a liberdade empresarial. Como afirmam
              Chtelet, Duhamel e Pisier-Kouchner, o governo no deveria intervir nas questes
              econmicas, mas tinha de ser desptico na defesa dos bens e da livre circulao
              das mercadorias e na vigilncia e punio dos que pretendiam entravar o curso natural
              do mercado.
                   Desde cedo os liberais tiveram uma relao tensa com o Estado nacional.
              Por um lado, precisavam dele para garantir as liberdades individuais dos cidados. Por
              outro, temiam o crescimento da burocracia e da opresso do Estado. O ideal para os


              260
liberais seria um Estado limitado, que assegurasse aos cidados o gozo tranquilo de




                                                                                         Liberalismo
seus interesses particulares. Esse ideal apresentava certas dificuldades: em primeiro
lugar, a obrigao clssica do Estado de se defender contra Estados rivais aumentava
o poder do Estado; em segundo, os conflitos de interesses no prprio Estado liberal
tambm aumentam o poder estatal na medida em que esse se tornava rbitro
desses conflitos; por fim, a prpria necessidade de o Estado atender  demanda
por "bens pblicos" (sade, educao etc.) complicava a fronteira entre pblico e
privado. Socilogos do fim do sculo xx distinguiram numerosas correntes liberais
e neoliberais: dentre essas, aquela que mais tem crescido no mundo, principalmente
na Amrica Latina desde o final do sculo xx,  a corrente neoliberal, que defende
uma concepo mnima do Estado, ou seja, que o Estado deveria se encarregar
exclusivamente das atividades que s ele pode cumprir, como a defesa e a segurana
pblica, no intervindo em aspectos como a sade e a educao, considerados campos
para o investimento privado. Pregam, assim, a privatizao de escolas, hospitais,
previdncia social etc.
     O liberalismo, em sua forma atual rebatizada como neoliberalismo,  a ideologia
poltica do mundo globalizado.  ele que advoga a abertura de mercados, o livre fluxo
de capitais e os investimentos privados, a reduo das responsabilidades sociais do
Estado e a prpria diminuio deste como mecanismo administrativo (tido em geral
como dispendioso e antieconmico), em nome da privatizao. O neoliberalismo
 a reafirmao dos valores liberais originados do liberalismo econmico
do sculo xix.
     Visto esse cenrio, o professor de Histria precisa estar atento aos temas da
agenda poltica e econmica nacional e internacional, cuja linguagem quase sempre
remete ao neoliberalismo. Assim, para o trabalho em sala de aula, a mdia  um
recurso fundamental para a observao das prticas neoliberais. Mas  preciso
considerar que o ponto de vista jornalstico, apesar de se apresentar como imparcial,
 sempre eivado de interesses polticos e ideolgicos, e deve ser tomado como fonte
e, como tal, analisado com cuidado. Precisamos ainda ficar alertas, pois os discursos,
incorporados pelo senso comum, tendem a associar o liberalismo/neoliberalismo 
democracia,  prosperidade econmica e  igualdade, o que configura uma postura
a-histrica e muitas vezes inverossmil, porque liberalismo, democracia e igualdade
social no so sinnimos nem sempre andaram juntos. Na verdade, o neoliberalismo
chega mesmo a pregar a desigualdade social.
     Por ltimo, precisamos observar a realidade concreta e cotidiana em que nossos
alunos esto inseridos, pois hoje um nmero cada vez maior de pessoas trabalha
no mercado informal ou temporrio, sem os benefcios mais bsicos, como salrio
mnimo, 13, frias etc. Alm disso, as privatizaes levam cada vez mais a sade e a


                                                                                 261
            educao para longe do alcance da maioria. Como essas so prticas neoliberais, 
Liberdade



            possvel atrelar a discusso do tema a problemas bsicos enfrentados pelas famlias
            de alunos e professores.

            Ver tAmbm
                  Absolutismo; Burguesia; Capitalismo; Democracia; Estado; Fascismo; Globalizao;
                  Iluminismo; Imperialismo; Latifndio/Propriedade; Mercantilismo; Nao; Poltica.

            sugestes de leiturA
                  barboSa, Alexandre. O mundo globalizado. So Paulo: Contexto, 2001.
                  bellamy, Richard. Liberalismo e sociedade moderna. So Paulo: Ed. Unesp, 1994.
                  bobbio, Norberto. Liberalismo e democracia. So Paulo: Brasiliense, 1995.
                  cHtelet, Franois; duHamel, Olivier; piSier-KoucHner, velyne. Histria das
                   ideias polticas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
                  edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
                    entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
                  Heilbrone, Robert L. Histria do pensamento econmico. So Paulo: Nova
                   Cultural, 1996.
                  lima, Marcos Costa (org.). O lugar da Amrica do Sul na Nova Ordem Mundial.
                    So Paulo: Cortez, 2001.
                  marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria contempornea
                   atravs de textos. 10. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
                  pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
                    Contexto, 2003.




            liberdAde
                A definio de liberdade est em ntima relao com prpria noo de escravido.
            Alm disso, a liberdade possui significados especficos para diferentes povos e contextos
            histricos, nem sempre tendo sido evocada como algo fundamental para a vida
            humana. No entanto, a ideia de liberdade, alm de apresentar uma face inegavelmente
            abstrata e filosfica, pode ser pensada tambm ligada a situaes concretas de vida.
                O conceito mais difundido de liberdade, que vigora principalmente na sociedade
            contempornea ocidental, surgiu do imaginrio da burguesia da Europa moderna.
            Essa definio defende a liberdade como o individualismo, como a autonomia


            262
individual, que se materializa nas clssicas liberdades de ir e vir, de se expressar,




                                                                                               Liberdade
de comprar e vender, de dispor de sua fora de trabalho como melhor lhe convier.
Tudo isso em um contexto de igualdade perante a lei. Na prtica, tais liberdades so
cerceadas por uma srie de fatores: a pobreza, a desigualdade social, os aparelhos
repressivos do Estado, entre outros.
     A Revoluo Francesa foi a principal responsvel pela vulgarizao dessa noo de
liberdade. No final do sculo xviii, essa palavra, surgida do pensamento iluminista, estava
carregada de energia revolucionria. Parecia que o chamado Antigo Regime, marcado
pelo despotismo e pela servido, finalmente daria lugar a um mundo de liberdade,
igualdade e fraternidade, regido por princpios universais e racionais. O documento
smbolo desse anseio de liberdade  a Declarao Universal dos Direitos do Homem.
Mas os ideais da Revoluo Francesa ao mesmo tempo em que se difundiram pelo
mundo, encontraram limites. E, mesmo na Frana, o conservadorismo da burguesia
(classe revolucionria no sculo xviii) assumiu o lugar do mpeto revolucionrio
inicial, pois existia o medo de se radicalizar a ideia de liberdade. Radicalizao que
permitiria aos grupos populares tambm reivindicar liberdade.
     No sculo xx, a Antropologia comeou a perceber que existem outros conceitos
de liberdade em sociedades fora do Ocidente. Por exemplo, em sociedades cuja
organizao comunitria da vida  fundamental para a sobrevivncia dos seus
membros, o indivduo s se sente livre quando atrelado  comunidade maior.
Estudando casos como esse, Claude Meillassoux, em Antropologia da escravido,
afirma que algumas sociedades tribais africanas percebem a liberdade como a situao
de uma pessoa pertencer a um grupo. Assim, o indivduo que nasce e cresce em sua
comunidade  livre, ao passo que o estrangeiro  passvel de escravizao. Entre os
Giriamas, um povo do Qunia, ser livre  ser um Giriama,  pertencer ao grupo. Esse
conceito se ope ao conceito de liberdade do Ocidente, em que liberdade tem a ver
com autonomia pessoal. Sozinho, o Giriama no sobrevive; ele precisa ser livre no
grupo, e no sozinho. Mas a ideia de liberdade mudou tambm ao longo do tempo.
Seu carter relativo fica patente quando observamos, por exemplo, que o documento
smbolo da liberdade alcanada pelos escravos no Brasil no sculo xix, a Carta de
Alforria, no significava a transformao do escravo em cidado plenamente livre,
pois restries de toda ordem, preconceitos, estigmas da escravido ainda perseguiam
o ex-escravo e podiam inclusive revogar o documento que lhe concedia a liberdade.
     As primeiras definies para liberdade, no Ocidente, surgiram j na Antiguidade
clssica, como a ideia de liberdade interior defendida pelos filsofos estoicos. Os estoicos
defendiam uma filosofia que se pretendia to virtuosa que visava libertar o homem da
escravido do mundo. Mas seu conceito de liberdade era demasiado intimista e estava


                                                                                       263
            ligado ao esforo de autotranscendncia, ou seja, de desligamento de tudo o que pudesse
Liberdade



            aproximar o ser humano dos vcios. O homem, diziam os estoicos, podia se julgar livre e,
            no entanto, ser escravo das paixes, dos desejos, das faces polticas e de outras tantas
            expectativas mundanas. Esse conceito no fazia uma crtica  escravido praticada pelos
            gregos e romanos, pois ao mesmo tempo supunha que um escravo poderia ser livre e um
            senhor poderia ser escravo dos seus vcios. O filsofo Epicteto, que havia sido escravo no
            incio de sua vida, sentia-se mais livre que os proprietrios de escravos, que exatamente
            por os possurem se tornavam, segundo Epicteto, eles mesmos escravos e incapazes de
            alcanar a verdadeira liberdade e a virtude. Esse conceito de liberdade interior defendida
            pelos estoicos concordava com a estrutura social da poca, em que toda a economia e
            a sociedade estavam fundamentadas no trabalho escravo. Dessa forma, o surgimento
            desse sentido especfico de liberdade tinha estreita relao com a continuidade da ordem
            escravista grega, e no com a crtica a essa ordem, visto que no possua a preocupao
            com a liberdade fsica.
                 O Cristianismo, durante muito tempo, manteve essa dualidade que combinava
            liberdade de alma e escravido do corpo. Essa ltima era considerada de menor
            importncia, dado que a verdadeira liberdade s se daria na outra vida. Assim sendo,
            semelhante aos estoicos, os telogos cristos medievais tambm julgavam que os
            homens bons eram livres  independentemente de sua posio na vida  e os homens
            maus eram escravos, espiritualmente falando. Essa noo de liberdade espiritual foi
            muito defendida na Amrica colonial pela Igreja Catlica e, assim como na Grcia
            clssica, tambm apoiava a escravido.
                 O conceito de liberdade sofreu, ento, muitas mudanas ao longo da histria.
            Foram os revolucionrios franceses do sculo xviii que entenderam o problema da
            liberdade a partir de um sentido mais fsico. No se tratava mais, como percebeu
            Ubiratan Borges de Macedo, da liberdade no seio do cosmos  como na Antiguidade , ou
            da liberdade medieval da criatura em face do Deus criador e onisciente, ou mesmo da
            liberdade renascentista do homem em face da natureza. A liberdade, para os franceses
            da poca iluminista, deveria se materializar em princpios jurdicos e prticos, por
            isso pregavam a elaborao de uma Constituinte, o fim da servido, o fim do carter
            hereditrio na transferncia de poder e dos privilgios de nascimento. Surgiu ento
            um vocabulrio poltico em que a liberdade era a palavra principal. Jean-Jacques
            Rousseau, por exemplo, um dos pensadores franceses que radicalizaram o discurso
            contra o despotismo, entendia que renunciar  liberdade era renunciar  qualidade
            de homem, aos direitos da humanidade e at aos prprios deveres. Nesse momento,
            a questo da liberdade inspirou a ideia de direitos e deveres do ser humano.
                 Liberdade se tornou uma palavra incendiria no Ocidente a partir da Revoluo
            Francesa, gerando vrias interpretaes conflitantes. Por um lado, Naes colonizadas
            da Amrica Latina, como o Brasil, comearam a se sentir tolhidas pelo monoplio



            264
metropolitano e a se julgar escravas das metrpoles. Por outro, no seio do prprio




                                                                                             Liberdade
Brasil do sculo xix, milhes de homens e mulheres escravizados tanto fsica quanto
juridicamente entendiam a liberdade por um prisma bem diferente: ou seja, como o fim
da sujeio que os vinculava a senhores e senhoras. A elite brasileira falava em liberdade
nacional no tocante  metrpole portuguesa, mas no para seus prprios escravos.
     Mesmo que a liberdade possa ser entendida ora de modo mais prtico (liberdade
poltica), ora de modo mais filosfico e intimista (liberdade interior), esses
significados no so totalmente distintos, pois, na prtica, uma forma de liberdade
depende da outra. Essa afirmao vale, sobretudo, para os sculos xix e xx quando
ao poltica concreta e liberdade intelectual tornaram-se prticas usualmente
associadas. Segundo Borges de Macedo, no sculo xix a liberdade interior era o
fundamento necessrio para o exerccio das outras formas de liberdade. Isso j pode
ser percebido no debate criado por Voltaire acerca da liberdade de pensamento.
Em seu verbete "Liberdade de Pensamento", na obra Dicionrio filosfico, Voltaire
apresenta as ideias opostas de dois personagens, um ingls nomeado Boldmind  que
significa esprito forte, audaz  e um conde espanhol chamado Medroso. Boldmind a
todo o momento tentava convencer o conde Medroso a expressar seus pensamentos
e deixar de ser um fiel sargento da Inquisio. Mas o conde respondia que no lhe
era permitido falar, escrever ou pensar, e se mostrava um homem sossegado com o
fato de no poder expor sua opinio. Ao que Boldmind retrucava: sossegado como
os prisioneiros forados das gals que remavam em cadncia e silncio, mas no
feliz. Quando incitado a examinar por conta prpria os dogmas das numerosas
religies do mundo, o conde se afirmou incapaz, argumentando que no era um
dominicano. Boldmind insistiu: "Sois homem e isso basta". Vemos, assim, que a ideia
defendida por Voltaire, ainda no sculo xviii, era de que a liberdade de pensamento
deveria constituir um princpio humano bsico.
     J durante o sculo xx, frequentemente a liberdade foi pensada tambm em
oposio ao Estado, visto como injusto, repressor, inimigo do indivduo. Essa foi a
viso dos anarquistas, que influenciou Gandhi e muitos outros ativistas polticos
do sculo xx, a partir da obra do escritor norte-americano Henry David Thoreau.
Em livro emblemtico, A desobedincia civil, Thoreau defendeu a convergncia entre
pensamento e ao para a efetiva liberdade do indivduo em face do Estado. No
sculo xix, quando a liberdade j tinha seu lugar garantido no vocabulrio poltico,
as correntes anarquistas tomaram impulso, pregando a rejeio s formas de poder
institudas que mantinham as classes sociais e a dominao do homem pelo homem,
acreditando que o Estado impedia a liberdade e a iniciativa dos indivduos.
     Em suma, conceito de muitas faces, liberdade  um tema ao mesmo tempo
histrico, filosfico e poltico, e implica vrios significados que precisam ser buscados
nos prprios discursos dos atores sociais. Devemos, assim, antes de qualquer coisa,



                                                                                     265
            pensar liberdade como uma construo histrica, ou seja, uma noo que mudou
Liberdade



            e continua mudando ao longo do tempo. Atualmente, nosso conceito de liberdade
            passa tanto pela ausncia de dominao jurdica, de controle externo sobre o
            indivduo, quanto pela premissa filosfica da "liberdade espiritual". Para discutir esse
            tema com os alunos  interessante comparar os diferentes momentos histricos e suas
            mltiplas percepes de liberdade. Nesse contexto, o Brasil do sculo xix, quando a
            sociedade brasileira discutia intensamente temas como a formao poltica do Estado
            nacional e a escravido  um cenrio bastante rico para se compreender os inmeros
            significados que o conceito de liberdade implica. As contradies, os medos, os
            limites, as imensas distncias sociais do Brasil oitocentista e contemporneo, tudo
            faz pensar que a liberdade ainda deve constituir tema indispensvel no contexto de
            sala de aula.

            Ver tAmbm
                  Absolutismo; Cidadania; Democracia; Ditadura; Escravido; Estado; Iluminismo;
                  Imperialismo; Militarismo; Nao; Revoluo Francesa; Romantismo; Servido.

            sugestes de leiturA
                  carvalHo, Marcus J. M. de. Liberdade: rotinas e rupturas do escravismo no
                   Recife, 1822-1850. Recife: Universitria uFpe, 1998.
                  cHiavenato, Jlio Jos. Inconfidncia mineira: as vrias faces. 9. ed. So Paulo:
                   Contexto, 2000.
                  edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
                    entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
                  GreSpan, Jorge. Revoluo Francesa e Iluminismo. So Paulo: Contexto, 2003.
                  Karnal, Leandro. Estados Unidos: a formao da nao. 2. ed. So Paulo:
                   Contexto, 2003.
                  macedo, Ubiratan Borges de. A ideia de liberdade no sculo xix: o caso brasileiro.
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                  marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria contempornea
                   atravs de textos. 10. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
                  meillaSSoux, Claude. Antropologia da escravido: o ventre de ferro e dinheiro.
                   Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
                  pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
                    Contexto, 2003.
                  rouSSeau, J.-J. O contrato social. So Paulo: Martins Fontes, 1996.
                  tHoreau, Henry David. A desobedincia civil. Porto Alegre: l&pm, 1999.
                  voltaire. Dicionrio filosfico. So Paulo: Abril, 1973.(Col. Os Pensadores, xxiii).


            266
 m

mArxismo
         M
     Quando se fala em marxismo, no se est tratando de um tema fcil. Entretanto,
ele est to arraigado na Histria do sculo xx que praticamente toda pessoa com
alguma proximidade com o saber histrico e sociolgico tem alguma coisa a dizer
sobre ele. O marxismo pode ser definido inicialmente como um sistema racionalista de
interpretao da realidade, por meio de uma anlise histrica, originado no sculo xix,
a partir dos trabalhos de Karl Marx e Friedrich Engels, e de imensa repercusso terica
e poltica no sculo seguinte. Esse sistema interpretativo, em sua formulao final, foi
marcado pelo determinismo econmico na explicao das diversas sociedades humanas.
     A teoria marxista, de profunda inspirao filosfica, trouxe inovaes para se
pensar o homem e o mundo no sculo xix. Marx foi o primeiro a mostrar que o
significado de uma teoria s pode ser compreendido em relao  prtica histrica
correspondente. Uma teoria no pode ser pensada e entendida sem correspondncia
com o contexto histrico. Toda teoria deve, portanto, estar enraizada na realidade
histrica e dizer alguma coisa que possa transform-la. Dessa forma, Marx buscou
conciliar reflexo filosfica e prtica poltica, teoria e prxis (entendida como a ao
humana que transforma o mundo e transforma a si mesma). Em direo a uma
sociedade sem exploradores ou explorados, o projeto marxista inclua a unio da
Filosofia, da Poltica e do movimento social da classe explorada para se construir uma
sntese verdadeira, uma sociedade superior em que cada um desses elementos seria
transformado. A teoria marxista aborda a realidade sob vrios prismas: o filosfico,
o histrico, o social e o econmico. Essa realidade  pensada no de forma fixa, mas
em movimento, em sua mudana. Da que a grande preocupao filosfica de Marx
era o devenir histrico, ou seja, a transformao.
     O pensamento marxista se consolidou em torno do materialismo dialtico e do
materialismo histrico, este ltimo sendo, em geral, a terminologia mais empregada
para designar a teoria marxista da Histria. E, mesmo antes da morte de Marx,
surgiram tantas e to diversas interpretaes de suas ideias que o prprio autor
declarou ter certeza, pelo menos, de que ele no era marxista. As suas reflexes



                                                                                   267
           inspiraram, de fato, inmeras interpretaes e prticas polticas, em particular ao
Marxismo



           longo do sculo xx. Isso porque os textos de Marx so muitas vezes ambguos, e sua
           obra  demasiado ampla, o que deu margem a compreenses particulares, em que
           cada intrprete lia algumas partes da obra e "esquecia" outras. A doutrina de Marx no
           , de modo algum, clara e simplista como muitos autores deram a entender. Houve
           ainda a cristalizao de algumas interpretaes dogmticas, que vulgarizaram verses
           adulteradas do marxismo. Quando falamos de marxismo no sculo xx, j no falamos
           de Marx, mas de verses e interpretaes de sua obra: ou seja, falamos de leninismo,
           de trotskismo, de stalinismo, de maosmo, da interpretao de Rosa Luxemburgo, de
           Che Guevara etc. Todos pensadores e lderes polticos que estabeleceram determinada
           verso doutrinria do marxismo denominada "marxismo ortodoxo". Estamos falando
           ainda dos chamados "marxistas ocidentais", que contestaram o "marxismo ortodoxo",
           como George Lukcs, Karl Korsch, a Escola de Frankfurt, Louis Althusser, entre
           outros. A reviso da Escola de Frankfurt e a interpretao proposta pelo francs
           Althusser anteciparam inclusive o chamado pensamento ps-moderno.
                Depois de tantas reflexes, muitos tericos perceberam que o marxismo no
           era a ltima palavra em questo de Filosofia e de Poltica. No campo da Histria
           propriamente dita, o prprio Marx, apesar de ter se debruado sobre leituras
           histricas para construir sua obra-prima, O capital, nunca foi historiador no sentido
           prprio do termo. No se deveria, portanto, buscar em seus trabalhos uma cincia da
           Histria definitivamente construda, cujos princpios e leis poderiam ser aplicados
           para a compreenso de toda e qualquer sociedade humana. Mas a fora dos textos
           de Marx, a sua riqueza e fecundidade na anlise da sociedade capitalista e o seu
           apelo a uma anlise cientfica e objetiva da realidade, entre outros fatores, fizeram
           de sua obra uma das principais referncias metodolgicas e tericas do pensamento
           social do sculo xx. Ou seja, o marxismo (ou o que foi entendido dele) fez escolas
           de pensamento no campo da Sociologia, da Histria, da Economia, da Filosofia,
           da Geografia, entre outros ramos do conhecimento. Sob o rtulo de interpretaes
           "marxistas", muitos trabalhos (alguns excelentes, e outros de qualidade duvidosa)
           foram produzidos ao longo do tempo.
                Mas alm da imensa repercusso acadmica do marxismo, h ainda a evidente
           repercusso no cenrio poltico dos sculos xix e xx. Ele inspirou tanto prticas
           polticas efetivamente revolucionrias quanto prticas reacionrias, que impunham
           dogmas oficiais e perseguies ao pensamento livre. A concluso a que chegou
           Castoriadis, um crtico do marxismo,  a de que este se tornou uma ideologia
           exatamente na forma como Marx entendia esse termo: um conjunto de ideias que se



           268
refere a uma realidade no para esclarec-la e transform-la, mas para mascar-




                                                                                          Marxismo
la e justific-la. Tornou-se ideologia em trs sentidos: ideologia oficial dos pases
ditos "socialistas", que ensinavam aos estudantes verses simplistas e mesmo pouco
confiveis do marxismo; ideologia das vrias seitas derivadas do marxismo oficial,
que sustentavam possuir a "verdade absoluta" do pensamento marxista; e, finalmente,
tornou-se ideologia no sentido de uma teoria social e histrica para a explicao do
real. O fato, entretanto, para Castoriadis,  que o marxismo referente  ideologia de
Estados ou de partidos deixou de funcionar como "teoria viva" para a explicao
da realidade. Se, para esse autor, no h mais o que se possa fazer  teoria marxista
para torn-la de novo fecunda na anlise, muitos outros pensadores ainda sustentam
a riqueza do pensamento marxista. Aquilo que o marxismo se tornou, reconhece
Castoriadis, no deve ser imputado a Marx, pois este sempre denunciou de modo
implacvel as frases vazias, as ideologias, exigindo a autocrtica permanente.
     O marxismo como teoria da Histria apontou rumos no pensados e valorizados
at ento. Vivendo um perodo de efervescente transformao econmica, de avano
do Capitalismo pelo mundo, Marx cunhou uma teoria fundamentada no princpio
de que toda sociedade deve assegurar a produo das condies materiais de sua
existncia. Depois de Marx, nenhum pensador pode pensar a histria deixando de
lado esses aspectos fundamentais: a economia (as condies materiais de existncia),
a diviso do trabalho e a organizao social que a ela esto ligadas. Sendo a produo
uma das tarefas essenciais na histria,  sobre ela que Marx constri sua teoria.
Marx de fato elaborou uma teoria histrica que privilegiava as foras produtivas
(ou a tcnica), cujo desenvolvimento se daria de modo autnomo em relao ao
restante das relaes sociais. Assim, explicaes da realidade que tomem como ponto
de partida no a base material da sociedade, mas a construo das representaes
sociais, a cultura, o imaginrio, a memria, sem dvida constituem abordagens
cujo eixo de anlise no  o marxismo. Essas abordagens no marxistas acreditam
que nem todo gesto humano, ao longo da histria, possui significado econmico,
nem pode ser explicado unicamente em termos econmicos. As foras produtivas,
portanto, no poderiam ser uma categoria de anlise universal, para uso em todas
as sociedades que se constituram historicamente.
      Uma controvrsia discutida pelos crticos e defensores do marxismo  a existncia
ou no de um determinismo social no materialismo histrico. Alguns autores apontam
que o materialismo histrico parece postular um determinismo social, ou seja, que
os indivduos, independentemente de suas vontades, estabelecem relaes sociais e
produzem sua existncia sob condies determinadas e "necessrias". Para Castoriadis,



                                                                                  269
           na viso marxista, as classes sociais s so atores histricos ao mesmo tempo em
Marxismo



           que os atores de teatro o so: recitam um texto previamente dado e executam gestos
           predeterminados, cujo sentido final e inexorvel ningum consegue impedir. Para esse
           crtico do marxismo, a luta de classes e o determinismo econmico so maneiras de
           explicao contraditrias, no havendo, assim, no marxismo uma verdadeira "sntese"
           (produto final, positivo, superior  condio anterior, resultante da contradio
           existente na sociedade), mas s o esmagamento da luta de classes em benefcio do
           determinismo econmico. De fato, como dizem Bourd e Martin,  forte a tentao
           de pensar que, sob o marxismo, o curso dos acontecimentos ocorre fora das decises
           humanas. Mas Marx evitou cair no determinismo ao criar o conceito de prxis
           (prtica social). De acordo com esse conceito, ao e conscincia esto intimamente
           ligadas, e os homens, apesar de viverem em estruturas sociais j estabelecidas, no so
           objetos passivos dessas estruturas, mas sujeitos ativos de sua prpria histria. Assim,
           o marxismo postula a ideia de um sentido da histria, isto , de uma direo para a
           qual a humanidade caminha. Os atos humanos (conscientes ou no), desse modo,
           estariam na base de um final feliz, e o movimento da histria desde a origem at o
           sculo xix (qualificado por Marx como a Pr-histria da humanidade) constituiria
           a gestao do Comunismo, ou seja, da verdadeira histria da humanidade, na qual
           haveria paz e abundncia.
                Nas ltimas dcadas do sculo xx, o marxismo entrou em crise como de resto
           todo o pensamento cientfico da modernidade. Sendo o marxismo um projeto de
           explicao racional, herdeiro do Iluminismo e da modernidade, foi um dos principais
           alvos da crtica aos chamados grandes sistemas explicativos da realidade. A crise do
           marxismo  a crise da prpria Razo. Hoje, a maioria dos pesquisadores evita tentar
           explicar toda uma realidade histrica, como faziam aqueles vinculados ao marxismo e
           ao materialismo histrico. Existe, atualmente, uma produo historiogrfica bastante
           ampla sobre temas fragmentrios (amor, sexo, feitiaria, homossexuais, moda,
           imaginrio etc.), que no se preocupa em fornecer explicaes para a sociedade como
           um todo. Enquanto essa nova produo, ecltica em termos de objetos e metodologias,
           encontra seus defensores, h tericos que a julgam de modo mais severo, como o avano
           do irracionalismo e do relativismo exacerbado na Histria, como modismo. Como
           projeto poltico, o marxismo tambm se encontra em crise. Hoje, como afirma Michel
           Zaidan, a revoluo como atividade poltica espetacular, macroscpica (multides
           marchando pelas ruas), foi substituda por uma multiplicidade de lutas particulares,
           descentralizadas e fragmentadas, sem estratgia central unificada. O colapso da Unio
           Sovitica, o surgimento de movimentos sociais e polticos organizados em torno
           de questes ligadas ao gnero,  raa, ao nacionalismo e ao ambientalismo, foram
           responsveis por uma profunda reviso no projeto revolucionrio marxista.


           270
     No podemos nos furtar a discutir o tema na escola, visto a enorme influncia




                                                                                          Marxismo
que ele teve na formao do mundo contemporneo, assim como na prpria
historiografia. Devemos analisar com cuidado os livros didticos que abordam apenas
as questes culturais, esquecendo os temas "antigos", como luta de classes, revolues,
poltica, economia, Estados etc. Contribuies novas so importantes, sem dvida,
mas nem tudo que  novo  bom porque  novo. O profissional de ensino precisa ter
uma postura crtica, sem cair, por um lado, no marxismo dogmtico, nem, por outro,
no modismo ps-moderno. Alm disso, o marxismo est to enraizado na Histria
Contempornea que seu estudo crtico se torna obrigatrio para a compreenso
daquilo que o mundo se tornou e daquilo que ele poderia ter se tornado, pois o que
no aconteceu na histria tambm faz parte da Histria.

Ver tAmbm
    Capitalismo; Classe Social; Comunismo; Dialtica; Historiografia; Ideologia;
    Modernidade; Modo de Produo; Poltica; Ps-modernidade; Teoria.

sugestes de leiturA
    andreW, Edgar; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
     entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
    bottomore, Tom (ed.). Dicionrio do pensamento marxista. Rio de Janeiro:
      Jorge Zahar, 1998.
    bourd, Guy; martin, Herv. As escolas histricas. Lisboa: Publicaes Europa-
      Amrica, s. d.
    caStoriadiS, Cornelius. A instituio imaginria da sociedade. Rio de Janeiro:
     Paz e Terra, 1982.
    Faria, Ricardo Moura. As revolues do sculo xx. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2002.
    ______; liz, Mnica Miranda. Da Guerra Fria  nova ordem mundial. So Paulo:
      Contexto, 2003.
    HuGHeS-WarrinGton, Marnie. 50 grandes pensadores da Histria. So Paulo:
     Contexto, 2002.
    Karnal, Leandro (org.). Histria na sala de aula: conceitos, prticas e propostas.
     So Paulo: Contexto, 2003.
    marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria do tempo presente.
     So Paulo: Contexto, 2000.
    pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Faces do fanatismo. So Paulo:
      Contexto, 2004.
    zaidan FilHo, Michel. A crise da razo histrica. Campinas: Papirus, 1989.



                                                                                  271
                      mAssA/multido/poVo
Massa/Multido/Povo




                           A Histria Social, a Histria Cultural e a Histria das Mentalidades, ou seja, as
                      principais abordagens metodolgicas da historiografia atual, em geral tm o povo
                      como um de seus principais objetos de estudo, aparecendo normalmente na forma
                      de grupos sociais especficos. Apesar disso, a definio de povo utilizada pela Histria
                      pouco difere das definies lingusticas tradicionais reproduzidas nos dicionrios, o
                      que nos mostra que h pouco interesse dos historiadores em definir o termo. Assim,
                      povo  em geral definido, primeiro, como um conjunto de pessoas que vivem em
                      sociedade; segundo, como um conjunto de indivduos que integram uma nao
                      especfica ou tm uma origem tnica comum, como o povo judeu. E no  raro o
                      termo significar ainda o conjunto dos indivduos mais pobres de uma sociedade, da
                      derivando o adjetivo "popular". Tais sentidos so empregados pelos historiadores
                      desde o sculo xix, tendo sido o escritor francs Michelet um dos pioneiros a trabalhar
                      com esse tema na Histria. Apesar de seu uso amplamente difundido, as definies
                      para essa categoria ainda foram pouco elaboradas pela historiografia, que preferiu
                      construir novas noes, como os conceitos de massa e multido.
                           Massa e multido so categorias bem delimitadas e, em geral, consideradas
                      distintas por historiadores e socilogos. O terico russo Tchakhotine, por exemplo,
                      definiu massa como a populao difusa de uma cidade ou Estado, e multido como a
                      massa organizada em um espao e momento especfico, como um comcio, um evento
                      ou uma greve.
                           Atualmente, as noes de massa e multido so muito trabalhadas pelas cincias
                      sociais, despertando a ateno de psiclogos (como o prprio Tchakhotine),
                      socilogos e filsofos. O conceito de massa, por exemplo,  amplamente empregado
                      pela nova historiografia poltica, que estuda, entre outras coisas, como os polticos
                      de determinados contextos histricos usavam a propaganda para mobilizar a massa
                      em benefcio prprio. Nessa abordagem esto inseridos diversos trabalhos sobre o
                      fascismo europeu e sobre o populismo na Amrica Latina. Esse  o caso da obra
                      de Maria Helena Capelato sobre o controle das massas exercido pelos governos de
                      Getlio Vargas, no Brasil, e de Juan Pern, na Argentina de meados do sculo xx.
                      Controle exercido por meio do emprego da propaganda. A mesma noo  ainda
                      bastante utilizada pelos pensadores que refletem sobre a mdia no sculo xx e seu
                      papel na formao de uma indstria cultural, como  o caso do filsofo Edgar Morin,
                      que, alm da categoria de massa, emprega outros conceitos correlatos, como cultura
                      de massa e meios de comunicao de massa. Os trabalhos de Morin e Capelato
                      so exemplos do uso corrente da noo de massa para o estudo da poltica e das
                      mentalidades em perodos especficos.



                      272
     Com esse sentido, o conceito de massa tomou o lugar, nas cincias humanas e




                                                                                              Massa/Multido/Povo
sociais, da ideia mais genrica e bem menos delimitada de povo. Um exemplo desse
emprego  o estudo sobre a ps-modernidade elaborado pelo antroplogo Jair Ferreira
dos Santos. Este faz distino entre a massa moderna da era industrial, que para ele era
proletria, tinha ideais, lutava por melhores condies de vida e acreditava que a histria
tinha um sentido, e a massa ps-moderna hoje existente no Ocidente, caracterizada
como consumista, classe mdia, conformista e sem ideais. Assim, ao usar o termo
massa, Ferreira dos Santos faz referncia  totalidade dos indivduos que compem
os contextos histricos estudados, substituindo a noo mais comum de povo.
     A ideia de multido, por sua vez, tambm foi criada a partir de dilogos
interdisciplinares entre Histria, Sociologia e Psicologia, que buscavam compreender
as manifestaes do inconsciente coletivo na ao dos aglomerados sociais. Nessa
perspectiva, um dos estudos histricos mais abrangentes  a obra do historiador George
Rud, A multido na Histria. Importante trabalho sobre os movimentos populares
na Frana e na Inglaterra pr-Revoluo Francesa, que parte da categoria multido
para entender determinadas manifestaes populares do perodo.
     Rud se preocupou principalmente em estudar a multido e no a massa, ou
seja, preferiu no observar a totalidade dos indivduos, o povo como um todo,
mas sim grupos especficos nessa populao, os chamados grupos de contato
direto, os aglomerados populares que renem indivduos apenas em determinadas
ocasies. O autor, apesar de se basear em trabalhos de psicologia das multides e
em estudos sociolgicos, preocupou-se sobretudo em construir uma interpretao
de carter histrico sobre as multides. Para ele, os estudos sobre as multides e
seus movimentos populares por mais que se beneficiem de uma viso genrica
do fenmeno em diferentes sociedades e pocas, precisa tambm considerar as
particularidades de cada multido em cada contexto histrico. Assim,  preciso, antes
de tudo, classificar os diversos tipos de multido: h multides que so aglomerados
casuais, como  o caso de cerimnias pblicas como desfiles; h as chamadas
multides de audincia, vistas em shows e eventos esportivos, por exemplo; e, por
ltimo, as multides escapistas ou "em pnico", que so as manifestaes populares
que o autor considera "agressivas" ou "hostis", como greves, motins, insurreies,
revolues etc.  esse ltimo tipo que Rud escolheu estudar, e parece interessar
mais intensamente os historiadores.
     A partir da observao dos contextos histricos de diferentes multides, Rud
afirmou que as sociedades industriais produzem multides bem diferentes daquelas
das sociedades pr-industriais e cada uma deve ser estudada em suas caractersticas
particulares. Ressaltou ainda que as multides que promovem movimentos populares
com objetivos polticos e sociais so abordadas quase sempre de duas formas: ou


                                                                                      273
                      como grupos revolucionrios com carter quase messinico, ou como turbas violentas
Massa/Multido/Povo



                      e irracionais. Para ele, no entanto, ambas as perspectivas so generalizaes simplistas,
                      sendo preciso fazer, para cada movimento, perguntas sobre as caractersticas
                      particulares da multido em foco. Perguntas como que tipo de indivduo forma a
                      multido estudada, qual o objetivo da mobilizao da multido, entre outras. Por
                      meio dessa metodologia, Rud concluiu que a natureza do distrbio, ou seja, o
                      objetivo da multido, est intimamente associado ao tipo de pessoas que a formam
                      e aos tipos de mudanas sociais que reivindicam. Como exemplos, apresentou os
                      grevistas do sculo xviii na Frana e Inglaterra, que se mobilizavam para destruir as
                      mquinas das fbricas reivindicando melhores condies de trabalho, e as multides
                      famintas que invadiam padarias, nesse mesmo perodo.
                           Portanto, as multides podem ser estudadas a partir de seus componentes
                      sociais, de seus objetivos, de suas aes e da mentalidade que envolve essas aes.
                      E nesse contexto, o principal objetivo em se estudar uma multido  compreender
                      o movimento social, a manifestao popular, que ela gera. J no caso da massa, o
                      principal objetivo dos estudos que empregam tal categoria  a compreenso das
                      mentalidades, do inconsciente coletivo de determinada populao e de como esta
                       afetada pela poltica ou pela cultura.
                           A compreenso de tais conceitos  extremamente importante para os
                      profissionais da educao do sculo xxi, visto a atualidade dos estudos sobre
                      mentalidade e sobre inconsciente coletivo. Para a sala de aula,  possvel estudar
                      a multido a partir da anlise de movimentos populares como a Cabanagem, a
                      Balaiada, entre outros, buscando compreender os motivos que levavam tantos
                      indivduos, de forma quase espontnea, a participar de insurreies populares desse
                      tipo. Tambm a observao da manipulao poltica das massas por lderes como
                      Hitler, Mussolini, Pern e Vargas, por meio da propaganda, pode ser feita em sala
                      de aula. Em ambos os casos  possvel trabalharmos com as abordagens da Histria
                      das Mentalidades e da Histria Social. Alm disso, ao reconhecermos que muitos
                      episdios na histria foram protagonizados por multides (a tomada da Bastilha,
                      a Abdicao de Pedro i, a tomada de poder pelos bolcheviques etc.), no podemos
                      nos ater  "Histria dos Grandes Personagens", esquecendo os milhares de annimos
                      essenciais no desenrolar dos acontecimentos. A Revoluo Francesa, ainda abordada
                      por muitos livros didticos a partir do olhar de lderes como Robespierre e Danton,
                      serve de exemplo para o fato de que, muitas vezes, as multides trilham caminhos
                      independentes, surpreendendo mesmo seus pretensos lderes.

                      Ver tAmbm
                            Classe Social; Fascismo; Imaginrio; Indstria Cultural; Interdisciplinaridade;
                            Mentalidades; Nao; Poltica.


                      274
sugestes de leiturA




                                                                                        Memria
    capelato, Maria Helena. Multides em cena: propaganda poltica no varguismo
     e no peronismo. So Paulo/Campinas: Fapesp/Papirus, 1998.
    m orin , Edgar. Cultura de massas no sculo      xx .   Rio de Janeiro: Forense
     Universitria, 1997, 2v.
    pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
      Contexto, 2003.
    ______; ______(orgs.). Faces do fanatismo. So Paulo: Contexto, 2004.
    rud, George. A multido na Histria: estudo dos movimentos populares na
     Frana e Inglaterra, 1730-1848. Rio de Janeiro: Campus, 1991.
    SantoS, Jair Ferreira dos. O que  ps-moderno. So Paulo: Brasiliense, 2000.
    tcHaKHotine, Serge. A mistificao das massas pela propaganda poltica. Rio de
      Janeiro: Civilizao Brasileira, 1967.




memriA
     Segundo Jacques Le Goff, a memria  a propriedade de conservar certas
informaes, propriedade que se refere a um conjunto de funes psquicas que
permite ao indivduo atualizar impresses ou informaes passadas, ou reinterpretadas
como passadas. O estudo da memria passa da Psicologia  Neurofisiologia, com cada
aspecto seu interessando a uma cincia diferente, sendo a memria social um dos
meios fundamentais para se abordar os problemas do tempo e da Histria.
     A memria est nos prprios alicerces da Histria, confundindo-se com o
documento, com o monumento e com a oralidade. Mas s muito recentemente se
tornou objeto de reflexo da historiografia. S no fim da dcada de 1970 que os
historiadores da Nova Histria comearam a trabalhar com a memria. Na Filosofia,
na Sociologia, na Antropologia e principalmente na Psicanlise, no entanto, os
estudos sobre a memria individual e coletiva j estavam avanados. Foi o fundador
da Psicanlise, e um dos cones da modernidade, Sigmund Freud, quem no sculo
xix iniciou amplos debates em torno da memria humana, trazendo  tona seu

carter seletivo: ou seja, o fato de que nos lembramos das coisas de forma parcial, a
partir de estmulos externos, e escolhemos lembranas. Freud distinguiu a memria
de um simples repositrio de lembranas: para ele, nossa mente no  um museu.
Nesse aspecto, ele remete a Plato, que j na Antiguidade apresentava a memria
como um bloco de cera, onde nossas lembranas so impressas.


                                                                                 275
                Quando os historiadores comearam a se apossar da memria como objeto
Memria



          da Histria, o principal campo a trabalh-la foi a Histria Oral. Nessa rea, muitos
          estudiosos tm-se preocupado em perceber as formas da memria e como esta age
          sobre nossa compreenso do passado e do presente. Para tericos como Maurice
          Halbawchs, h inclusive uma ntida distino entre memria coletiva e memria
          histrica: pois enquanto existe, segundo ele, uma Histria, existem muitas memrias.
          E enquanto a Histria representa fatos distantes, a memria age sobre o que foi vivido.
          Nesse sentido, no seria possvel trabalharmos a memria como documento histrico.
          Essa posio hoje  muito contestada. Antonio Montenegro, por exemplo, considera
          que apesar de haver uma distino entre memria e Histria, essas so inseparveis,
          pois se a Histria  uma construo que resgata o passado do ponto de vista social, 
          tambm um processo que encontra paralelos em cada indivduo por meio da memria.
                Mas a memria no  apenas individual. Na verdade, a forma de maior interesse
          para o historiador  a memria coletiva, composta pelas lembranas vividas pelo
          indivduo ou que lhe foram repassadas, mas que no lhe pertencem somente, e so
          entendidas como propriedade de uma comunidade, um grupo. O estudo histrico
          da memria coletiva comeou a se desenvolver com a investigao oral. Esse tipo de
          memria tem algumas caractersticas bem especficas: primeiro, gira em torno quase
          sempre de lembranas do cotidiano do grupo, como enchentes, boas safras ou safras
          ruins, quase nunca fazendo referncias a acontecimentos histricos valorizados pela
          historiografia, e tende a idealizar o passado. Em segundo lugar, a memria coletiva
          fundamenta a prpria identidade do grupo ou comunidade, mas normalmente tende
          a se apegar a um acontecimento considerado fundador, simplificando todo o restante
          do passado. Por outro lado, ela tambm simplifica a noo de tempo, fazendo apenas
          grandes diferenciaes entre o presente ("nossos dias") e o passado ("antigamente",
          por exemplo). Alm disso, mais do que em datas, a memria coletiva se baseia em
          imagens e paisagens. O prprio esquecimento  tambm um aspecto relevante para a
          compreenso da memria de grupos e comunidades, pois muitas vezes  voluntrio,
          indicando a vontade do grupo de ocultar determinados fatos. Assim, a memria
          coletiva reelabora constantemente os fatos.
                Outra distino entre Histria e memria est no fato de a Histria trabalhar
          com o acontecimento colocado para e pela sociedade, enquanto para a memria
          o principal  a reao que o fato causa no indivduo. A memria recupera o que
          est submerso, seja do indivduo, seja do grupo, e a Histria trabalha com o que a
          sociedade trouxe a pblico. Autores como Paul Veyne, por exemplo, afirmam que
          se acreditarmos que alguns fatos so mais importantes do que outros, teremos
          de considerar que essa importncia  relativa e segue critrios pessoais de cada


          276
historiador. Para Montenegro, por sua vez, a dificuldade de se utilizar os depoimentos




                                                                                         Memria
orais como fonte da Histria  que o fato de que eles so fontes construdas pela
memria, e esta reelabora a realidade vivida pela imaginao.
     Para Jacques Le Goff  preciso diferenciar as sociedades de memria oral e as de
memria escrita. Mas enquanto estudiosos como Leroi-Gourhan consideram que a
memria coletiva, ou tnica,  uma caracterstica intrnseca de todas as sociedades,
Le Goff defende que ela  uma forma caracterstica dos povos sem escrita.
     Seja como for, nas sociedades sem escrita a atitude de lembrar  constante, e a
memria coletiva confunde Histria e mito. Tais sociedades possuem especialistas
em memria que tm o importante papel de manter a coeso do grupo. Um exemplo
pode ser visto nos griots da frica Ocidental, cidados de pases como Gmbia, por
exemplo. Os griots so especialistas responsveis pela memria coletiva de suas tribos
e comunidades. Eles conhecem as crnicas de seu passado, sendo capazes de narrar
fatos por at trs dias sem se repetir. Quando os griots recitam a histria ancestral
de seu cl, a comunidade escuta com formalidade. Para datar os casamentos, o
nascimento de filhos etc., os griots interligam esses fatos a acontecimentos como
uma enchente. Tais mestres da narrativa so exemplos de como a tradio oral e a
memria podem ser enriquecedoras para a Histria: ambas so vivas, emotivas e,
segundo o africanista Ki-Zerbo, um museu vivo.
     Esses especialistas em memria das sociedades sem escrita, todavia, no decoram
palavra por palavra. Pelo contrrio, nessas sociedades a memria tem liberdade e
possibilidades criativas, e  sempre reconstruda. A escrita por sua vez, transforma
fundamentalmente a memria coletiva. No Ocidente, seu surgimento possibilitou
o registro da Histria por meio de documentos. Para Leroi-Gourhan, a memria
escrita ganhou tal volume no sculo xix que era impossvel pedir que a memria
individual recebesse esse contedo das bibliotecas. O que levou, no sculo xx, a uma
revoluo da memria, da qual fez parte a criao da memria eletrnica.
     O sculo xx vivenciou tambm a expanso dos estudos sobre a memria na Arte
e na Literatura. O Surrealismo nas artes plsticas, estilo de pintores como Salvador
Dali, por exemplo, preocupado com o mundo dos sonhos, passou a se questionar
sobre a memria. J a obra de Marcel Proust, por outro lado,  o melhor exemplo de
uma explorao literria da memria. Outro  o conto de Jorge Luis Borges, "Funes,
o memorioso", que explora a possibilidade de um indivduo que nunca se esquece
de nada, e de como isso o faria perder a prpria capacidade de pensar, visto que esta
se baseia na seleo e associao de memrias.
     A interdisciplinaridade nas cincias sociais tambm modificou a percepo
da memria coletiva. J a partir de Halbawchs, em 1950, o estudo da memria
coletiva passou a interligar Psicologia Social, Antropologia e Etno-histria. Alm


                                                                                 277
          disso, a partir desse perodo, a Nova Histria buscou criar uma Histria cientfica
Memria



          com base na memria coletiva, considerando tambm a importncia da memria
          para a definio das identidades.
               Na dcada de 1970, o escritor afro-americano Alex Haley empreendeu uma
          monumental pesquisa em trs continentes em busca do passado de sua famlia a
          partir das memrias repassadas gerao aps gerao, desde o primeiro membro
          da famlia a chegar na Amrica como escravo. Essa pesquisa, que deu origem ao
          livro Negras razes, impulsionou um processo de valorizao da memria como
          fonte para a construo das identidades. Haley trabalhou com griots em Gmbia e
          difundiu no Ocidente um exemplo de como as sociedades sem escrita pensam sua
          memria: as comunidades tradicionais de Gmbia, os "homens sbios", afirmavam
          que a ancestralidade de todas as pessoas remontava necessariamente a um tempo
          em que a escrita no existia. E a ento a memria humana tornava-se a nica forma
          de conseguir informaes sobre o passado. Para eles, a cultura ocidental estava to
          condicionada ao esmagamento da escrita, que poucos poderiam compreender do
          que uma memria treinada era capaz.
               Nesse ponto, cabe fazermos referncia a outro grande africanista, Jan Vansina,
          que defende que a oralidade  uma atitude diante da realidade e no a ausncia de
          uma habilidade, no caso a habilidade de escrever. E so justamente as sociedades orais
          as que melhor preservam a capacidade de compreenso de seu passado por meio da
          memria coletiva. Assim, a reflexo sobre a memria tornou-se, para professores de
          Histria, uma oportunidade para refletir sobre a capacidade de produzir conhecimento
          sobre o passado, e sobre como essa capacidade difere de povo para povo. Estudar em
          sala de aula os griots, por exemplo,  trabalhar de forma prtica com a diversidade
          cultural da humanidade, no se atendo somente a um discurso de igualdade entre
          todas as culturas. E o verdadeiro entendimento da diversidade cultural passa pela
          compreenso de que no h superioridade cultural e, logo, de que a escrita no  um
          marco entre os povos desenvolvidos e os subdesenvolvidos.

          Ver tAmbm
                Cultura; Discurso; Etnia; Etnocentrismo; Folclore; Fonte Histrica; Histria;
                Histria Oral; Identidade; Imaginrio; Interdisciplinaridade; Mentalidades; Mito;
                Patrimnio Histrico; Relativismo Cultural; Tempo; Tradio.

          sugestes de leiturA
                burGuire,Andr (org.).Dicionrio das cincias histricas.Rio de Janeiro:Imago,1993.
                Haley, Alex. Negras razes. So Paulo: Crculo do Livro, s. d.



          278
    Ki-zerbo, J. (coord.). Histria geral da frica. So Paulo: tica, 1982, v. i:




                                                                                       Mentalidades
      Metodologia e Pr-histria da frica.
    le GoFF, Jacques. Histria e memria. Campinas: Ed. Unicamp, 1994.
    monteneGro, Antonio Torres. Histria oral e memria: a cultura popular
     revisitada. So Paulo: Contexto, 2001.




mentAlidAdes
     A palavra mentalidade ganhou espao no Ocidente a partir do incio do sculo
xx, significando os comportamentos e as atitudes coletivas. Essa definio j podia

ser vista na obra do escritor francs Marcel Proust, Em busca do tempo perdido. Ao
mesmo tempo, o conceito apareceu tambm nas cincias humanas e sociais, primeiro
na Antropologia, designando pejorativamente comportamentos considerados
primitivos, sendo inclusive comum ento a comparao da mentalidade do homem
primitivo com a mentalidade da criana.
     Na historiografia, o conceito de mentalidades passou a designar as atitudes
mentais de uma sociedade, os valores, o sentimento, o imaginrio, os medos, o que
se considera verdade, ou seja, todas as atividades inconscientes de determinada
poca. As mentalidades so aqueles elementos culturais e de pensamento inseridos
no cotidiano, que os indivduos no percebem. Ela  a estrutura que est por trs
tanto dos fatos quanto das ideologias ou dos imaginrios de uma sociedade. Tal
conceito est muito ligado  questo temporal, pois a mentalidade  considerada uma
estrutura de longa durao. Alm disso, ao contrrio dos fatos, que acontecem muito
rapidamente, a mentalidade permanece durante muito tempo sem modificaes, e
suas mudanas so to lentas a ponto de nem serem percebidas.
     Foi a corrente historiogrfica de Annales, entre as dcadas de 1920 e 1930
na Frana, que valorizou o tema. Da em diante, as grandes transformaes da
histria passaram a ser vistas tambm em termos de evoluo psicolgica, de
comportamentos e atitudes mentais coletivas. Lucien Febvre, um dos fundadores
de Annales, foi dos primeiros historiadores a trabalhar as mentalidades na Histria.
Outros contemporneos de Febvre, alguns filiados a Annales, como Marc Bloch,
outros independentes, como Huizinga ou Nobert Elias, tambm deram ateno aos
fenmenos mentais. Mas com a ascenso da demografia nas dcadas de 1940 e 1950,
a historiografia deixou de lado as investidas pioneiras no campo das mentalidades.
Foi s depois de 1960 que a Histria das Mentalidades tomou seu grande impulso
com a Nova Histria. Com nomes como Philippe Aris, Jacques Le Goff e Georges


                                                                                279
               Duby, a produo de obras sobre as mentalidades, principalmente sobre o medievo
Mentalidades



               francs, ganhou espao editorial, alcanando o grande pblico e formando um
               significativo mercado para trabalhos histricos.
                    A Histria das Mentalidades marcou uma grande mudana historiogrfica,
               pois ampliou de modo considervel no apenas o mercado de consumidores de
               Histria, mas as fontes e os temas trabalhados pelos historiadores. Desde ento,
               tudo se transformou em fonte: dirios, lendas, sonhos. Tambm os temas mudaram,
               trazendo preocupaes com as diferentes formas de pensar e sentir ao longo do
               tempo. Essa abordagem pode ser vista, por exemplo, em trabalhos de Georges
               Duby, que, estudando o sistema de impostos da Frana do sculo xii, concluiu que,
               nesse perodo, a realidade econmica era menos perceptvel e concreta para os
               contemporneos do que a realidade espiritual.
                    Do ponto de vista do mtodo, a Histria das Mentalidades combina abordagem
               antropolgica e abordagem psicolgica. A Antropologia fornece as tcnicas para a
               descrio da comunidade estudada: isolando-a e no se preocupando nem com sua
               origem, nem com sua evoluo (ou seja, no se preocupando com sua historicidade).
               Essa  a tcnica da Etnologia para descrever sociedades ditas primitivas, que a Histria
               transformou em Etno-histria. Nela, o historiador escolhe determinado contexto
               histrico e procura descrev-lo em todos os seus aspectos, desde a economia at as
               formas de sentir. Esse mtodo deu origem tambm ao que ficou conhecido como
               Histria Total. Por sua vez, a abordagem psicolgica se preocupa principalmente
               com o inconsciente coletivo, com tudo o que est por trs da conscincia de uma
               sociedade, com a totalidade psquica ou, como  mais comum em Histria, com
               uma estrutura mental. Esta pode ser definida como todos os traos mentais que os
               contemporneos tm em comum sem que se deem conta disso. A preocupao da
               Histria das Mentalidades, assim,  com o conjunto dos fatos culturais de uma poca
               que, nas palavras de Febvre, compem uma rede maior de fatos sociais. Nesse sentido,
               para Febvre, as mentalidades seriam um elemento a mais na compreenso da sociedade.
                    Lucien Febvre foi o primeiro a propor conceitos para a melhor interpretao das
               fontes em uma abordagem de mentalidades. Criou o conceito de aparelhagem mental,
               que abrangia todas as formas de percepo, expresso, ao, as tcnicas e a lngua
               de uma sociedade, abarcando, dessa forma, o conjunto de elementos usados pelos
               indivduos para se expressarem e interagirem em sociedade. Marc Bloch, por sua
               vez, pensava em termos de representaes coletivas, que significava basicamente um
               estudo das formas de sentir e pensar de determinado perodo  conceito influenciado
               pela Sociologia de Emile Durkheim. J Jacques Le Goff defende a estreita ligao da
               Histria das Mentalidades com a Etno-histria e a Psicologia Social. Para Le Goff,


               280
o historiador das mentalidades busca os processos culturais mais gerais, coletivos




                                                                                      Mentalidades
e psicolgicos. Como o etnlogo, ele deve buscar os nveis mais imveis e mais
estveis da sociedade, a estrutura que muda mais lentamente, no se preocupando
com suas origens ou mudanas.
     A Histria das Mentalidades tem muito parentesco com outras abordagens
histricas, algumas que se contrapem a ela, outras que se confundem com ela:
a Histria das Ideias e a Histria do Imaginrio so os principais exemplos. A
Histria das Ideias se distingue das mentalidades por abordar as inovaes e
ideias revolucionrias no campo da poltica, da cincia ou da religio, pouco se
preocupando com o que o povo pensa. J a Histria do Imaginrio, por sua vez, se
confunde frequentemente com a Histria das Mentalidades. O imaginrio estuda
as representaes e imagens ideais que uma sociedade constri, a forma como as
pessoas veem o mundo ao seu redor, imagens construdas nos mitos, nos sonhos, nos
medos coletivos, na religiosidade. A Histria da Mentalidade abarca a Histria do
Imaginrio, e nem sempre  fcil distinguir uma da outra. Para aqueles que criticam
a Nova Histria isso se deve ao fato de que a prpria Histria das Mentalidades 
pouco definida, com concepes tericas pobres. O prprio Philippe Aris, um dos
principais nomes das mentalidades, admite que a grande plasticidade dessa abordagem
termina por mescl-la com outros campos, tornando s vezes difcil defini-la. No
caso da relao entre mentalidade e ideologia, a ideologia sugere uma dependncia
das formas de pensamento para com a realidade concreta econmica, assim como
pode ser tambm uma forma de representar as condies de vida de determinada
classe, ao passo que a mentalidade  um conceito mais amplo, que abrange formas
de pensamento independentemente da classe social. O conceito de mentalidade,
assim, se nega a ser dependente da condio econmica.
     No Brasil, as dcadas de 1980 e 1990 viram o crescimento da Histria das
Mentalidades. Como na Frana, tal Histria foi responsvel pelo aumento de obras
de Histria voltadas para o grande pblico. E apesar de Srgio Buarque de Holanda
j ter excursionado no gnero com sua obra Viso do paraso, de 1959, estudando
o imaginrio da colonizao, os mitos e as crenas sobre o Brasil trazidos pelos
colonizadores, foi Laura de Mello e Souza, na dcada de 1980, que inaugurou
a corrente das mentalidades no Brasil com seu livro O diabo e a terra de Santa
Cruz. Nessa obra, a autora reconstitui o cotidiano e as angstias das pessoas que
participaram da colonizao do Brasil, buscando tambm as representaes de
Paraso e Inferno elaboradas ento sobre a Colnia. A obra de Mello e Souza foi
influenciada por importantes pensadores da Histria das Mentalidades, como Carlo
Ginzburg e Le Roy Ladurie, alm,  claro, de Srgio Buarque de Holanda. Desde
ento, muitos foram os historiadores brasileiros a trabalhar com abordagens de


                                                                               281
               mentalidades. Uma das obras mais celebradas sobre o assunto so As barbas do
Mentalidades



               imperador, de Lilia Moritz Schwarcz, que rene Histria e Antropologia para explorar
               a simbologia social e poltica em torno das barbas de D. Pedro ii.
                    A Histria das Mentalidades  uma excelente oportunidade para os professores
               que querem tornar suas aulas mais interessantes, sem relegar o contedo. A grande
               variedade de obras sobre as mentalidades permite acesso a contedos facilmente
               utilizveis em sala de aula. Mas como em tudo o mais,  preciso tambm cuidado
               com a Histria das Mentalidades. Primeiro porque ela tem alguns temas e perodos
               preferidos: sexualidade, moralidade, religiosidade; Idade Mdia francesa e colonizao
               brasileira, respectivamente. Assim, nem todos os assuntos e nem todos os perodos
               so contemplados. Alm disso, visto que sua proposta  abordar a estrutura mental,
               muitas obras no trabalham as condies econmicas e sociais. Isso no  um problema
               em si, a no ser que o professor se limite apenas s mentalidades. Devemos, nesse
               sentido, lembrar que uma sociedade  composta por vrios elementos. O trabalho
               com as mentalidades em sala de aula  no apenas interessante, mas prolfico, desde
               que acompanhado de abordagens dos aspectos polticos, econmicos e sociais
               da Histria.

               Ver tAmbm
                     Cotidiano; Discurso; Histria; Historiografia; Iconografia; Identidade; Ideologia;
                     Imaginrio; Memria; Mito; Teoria.

               sugestes de leiturA
                     del priore, Mary (org.). Histria das mulheres no Brasil. 6. ed. So Paulo:
                      Contexto, 2002.
                     ______. Histria das crianas no Brasil. 4. ed. So Paulo: Contexto, 2004.
                     HuGHeS-WarrinGton, Marnie. 50 grandes pensadores da Histria. So Paulo:
                      Contexto, 2002.
                     le GoFF, Jacques (org.). A Histria Nova. So Paulo: Martins Fontes, 2001.
                     marotta, Cludia Otoni de Almeida. O que  Histria das Mentalidades. So
                      Paulo: Brasiliense, 1991.
                     meSGraviS, Laima; pinSKy, Carla Bassanezi. 2. ed. O Brasil que os europeus
                      encontraram. So Paulo: Contexto, 2002.
                     napolitano, Marcos. Cultura brasileira: utopia e massificao. 2. ed. So Paulo:
                      Contexto, 2004.
                     peStana, Fbio. No tempo das especiarias. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2004.



               282
    pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:




                                                                                         Mercantilismo
      Contexto, 2003.
    ScHWarcz, Lilia Moritz. As barbas do imperador: D. Pedro ii, um monarca nos
      trpicos. So Paulo: Companhia das Letras, 1998.
    ______; GomeS, Nilma (orgs.). Antropologia e Histria: debate em regio de
      fronteira. Belo Horizonte: Autntica, 2000.
    Souza, Laura de Mello e. O diabo e a terra de Santa Cruz. So Paulo: Companhia
      das Letras, 1986.




mercAntilismo
     A definio mais aceita de mercantilismo informa que esse termo compreende
um conjunto de ideias e prticas econmicas dos Estados da Europa ocidental entre
os sculos xv, xvi e xviii voltadas para o comrcio, principalmente, e baseadas no
controle da economia pelo Estado. Mercantilismo d nome, nesse sentido, s diferentes
prticas e teorias econmicas do perodo do Absolutismo europeu.
     Mas tal conceito no existiu no perodo mesmo que chamamos de mercantilista.
Na verdade, a palavra mercantilismo s comeou a ser usada pelos economistas
clssicos do final do sculo xviii para se referir s rgidas prticas de interveno
do Estado na economia, prticas que eles consideravam danosas e s quais faziam
severa oposio. Assim, o mercantilismo no existiu como um conjunto coeso de
ideias e prticas econmicas, nem como grupo de pensadores da economia com
uma filosofia comum. De fato, sob a definio de mercantilismo foram reunidos
pelos crticos diferentes autores e diferentes polticas econmicas, com pouco em
comum, a no ser o fato de pertencerem a pases absolutistas.
     As teorias e prticas mercantilistas esto inseridas no contexto da transio
do Feudalismo para o Capitalismo, possuindo ainda caractersticas marcantes das
estruturas econmicas feudais e j diversos fatores que sero mais tarde identificados
com caractersticas capitalistas, no sendo nenhum dos dois sistemas, no entanto.
     O termo mercantilismo define os aspectos econmicos desse processo de
transio. Se o mercantilismo tem sua contraparte poltica no Estado absoluto,
no campo social tem relao com a estrutura social comumente conhecida como
sociedade do Antigo Regime. Ou seja, a estrutura social estamental, ainda baseada
na sociedade de ordens do medievo, porm com novos elementos, dos quais a
burguesia  o principal fator de diferenciao. Tambm a expresso Antigo Regime
 anacrnica: elaborada pela Revoluo Francesa para se referir ao perodo de


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                domnio do Estado absolutista, ele no pertenceu  sociedade que quer representar.
Mercantilismo



                Alm disso, tende a generalizar caractersticas do perodo de transio francs para
                toda a Europa absolutista.
                     O historiador Francisco Falcon distingue trs fases mercantilistas diferentes na
                histria da Europa: a primeira diz respeito ao sculo xvi e  criao do sistema mundial
                moderno com a expanso ultramarina e a fundao de colnias na Amrica. Nesse
                perodo, a Europa passou a comandar uma rede de comrcio mundial. A segunda
                fase, no sculo xvii, representou uma crise, a crise do sculo xvii, caracterizada pela
                reduo das atividades produtivas e comerciais. Autores como Eric Hobsbawm se
                dedicaram a estudar essa crise, que significou a diminuio da capacidade de exportar
                de alguns pases, provocou perodos de escassez e, ainda, definiu a partir da maior
                concorrncia comercial entre as Naes os pases que seriam os centros econmicos
                da Europa. A terceira fase, do sculo xviii, foi marcada pela retomada da prosperidade
                do sculo xvi, ao lado da ascenso da burguesia, que deu novos rumos  economia
                europeia, a partir da reivindicao de menor interveno do Estado na economia,
                que finalizou as prticas mercantilistas e originou o liberalismo.
                     Muitas vezes, a definio de mercantilismo vem acompanhada de um esboo
                das principais prticas do perodo, como o metalismo, a balana comercial favorvel
                e o protecionismo. Mas devemos ter cuidado com o anacronismo ao abordar
                essas prticas.O metalismo, por exemplo,  definido frequentemente como uma
                concepo que atrelava a riqueza de um Estado  quantidade de metais preciosos
                por ele acumulado. Mas o metalismo, que como prtica econmica predominou
                sobretudo na Frana e na Espanha do sculo xvi, dificilmente queria dizer que
                riqueza era igual  moeda acumulada. As concepes metalistas de autores como
                Jean Bodin e Azpilcueta Navarro interpretavam a moeda como um meio para obter
                riqueza em terras e em ttulos, no a riqueza financeira em si. Para a mentalidade
                capitalista, moeda e riqueza so sinnimos, mas no para a mentalidade barroca do
                Antigo Regime. Essa diferena pode parecer sutil, mas  a distino entre interpretar
                as prticas em seu significado original, ou atribuir-lhes significados que elas nunca
                tiveram, e esto mais em consonncia com nossa realidade atual.
                     O estudo das prticas mercantilistas deve, assim, considerar que so prticas e
                teorias econmicas elaboradas em um momento em que o Capitalismo ainda no
                existia, logo no  possvel interpret-las  luz de concepes capitalistas. Tal distino
                pode ser mais bem entendida se professores trabalharem o mercantilismo ao lado
                no apenas do estudo do Estado absolutista, mas tambm da cultura barroca, na
                qual  possvel visualizar os diferentes significados que a riqueza tinha para essa
                sociedade, facilitando, assim, a compreenso do pensamento econmico.


                284
     Outra importante questo a considerarmos ao estudar o mercantilismo  termos




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o cuidado de no generalizar as prticas de um nico pas, a Frana, por exemplo,
para toda a Europa do perodo. A Holanda  um bom exemplo de um particularismo
que precisa ser observado. A organizao poltica e econmica da Holanda, que na
Idade Moderna integrava as Provncias Unidas, foi um caso  parte, e hoje  motivo
de controvrsias entre historiadores. Alguns consideram que sua economia era
mercantilista, apesar de suas caractersticas peculiares, pois no havia Estado absoluto
nem interveno do Estado da economia. Mas o direcionamento dessa economia para
o comrcio se aproximaria do modelo mercantilista. Outros estudiosos, por sua vez,
afirmam que a economia holandesa no sculo xvii j dava indcios de liberalismo.
     Mas, deixando de lado a controvrsia, qual a importncia de estudarmos o
mercantilismo hoje? Como conjunto de prticas econmicas, ele est na origem
mesma da colonizao promovida pelos pases ibricos, direcionando as economias
desses pases para a formao de colnias e a explorao comercial. Precisamos levar
sempre em conta as dificuldades inerentes a esse conceito, tanto por se tratar de uma
abordagem que requer um bom entendimento dos princpios da economia (para
se trabalhar com os alunos a balana comercial favorvel e o protecionismo, por
exemplo) quanto pelas sutilezas distintas entre a mentalidade barroca da poca e a
mentalidade burguesa a qual ns pertencemos. Por outro lado, o professor deve ainda
ter bastante cuidado para no considerar o mercantilismo uma corrente filosfica,
pois tal armadilha  comum nos livros didticos.

Ver tAmbm
    Absolutismo; Barroco; Capitalismo; Colonizao; Feudalismo; Imperialismo;
    Liberalismo.

sugestes de leiturA
    deyon, Pierre. O mercantilismo. So Paulo: Perspectiva, 1973.
    Falcon, Francisco. Mercantilismo e transio. So Paulo: Brasiliense, 1990.
    maeStri, Mrio. Uma histria do Brasil colnia. 3. ed. So Paulo: Contexto, 2002.
    marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria moderna atravs
     de textos. So Paulo: Contexto, 1997.
    meSGraviS, Laima; pinSKy, Carla Bassanezi. 2. ed. O Brasil que os europeus
     encontraram. So Paulo: Contexto, 2002.
    peStana, Fbio. No tempo das especiarias. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2004.



                                                                                   285
              militArismo
Militarismo




                   Podemos definir de forma simples o militarismo como a doutrina poltica que
              defende o governo de uma Nao pelas Foras Armadas. Nesse sentido, militarismo 
              a transformao das Foras Armadas em partido poltico. Em Histria, tal noo est
              intimamente relacionada com temas como guerra e abordagens como a Histria Militar.
                   O militarismo  a aplicao prtica de doutrinas polticas de carter militar ao
              governo de um Estado. Com esse significado,  um conceito prprio do Ocidente
              contemporneo, pois est ligado s noes de Nao e de separao de poderes,
              surgidas na Europa das Idades Moderna e Contempornea. Apesar disso, o pensamento
              militar clssico do Ocidente deve muito s influncias recebidas da China antiga,
              mais precisamente da obra de Sun Tzu, A arte da guerra, escrita no sculo vi a.C., que
              considerava a guerra um dos ramos da arte de governar. Foi durante a Idade Moderna
              que a Europa comeou a pensar a guerra dessa forma, ou seja, do ponto de vista
              poltico, mas s a partir do sculo xix e das conquistas napolenicas, o militarismo
              ocidental se sistematizou, principalmente na figura do prussiano Clausewitz, autor
              de uma das obras mais clssicas do pensamento militar do ocidente, Da guerra. Desde
              ento a guerra passou a ser interpretada como importante instrumento da poltica.
              Atualmente, a Histria Militar contesta a afirmao de Clausewitz de que a guerra 
              a continuao da poltica. Para John Keegan, um dos mais importantes historiadores
              militares da atualidade, a guerra no pode ser a continuao da poltica porque precede
              o Estado em milnios. Para historiadores como ele, a funo poltica e histrica da
              guerra  o elemento bsico da historiografia militar.
                   A Histria Militar foi um dos primeiros ramos da Histria. Na Antiguidade,
              historiadores como Herdoto e Tucdides, considerados os "pais" da disciplina
              histrica, deram grande nfase  guerra, s conquistas, enfim,  histria militar.
              Posteriormente, com a poltica, da qual  muitas vezes indissocivel, a guerra e as
              conquistas militares foram os carros-chefe da Histria "positivista" no sculo xix.
              E, com a crtica da Escola de Annales a essa Histria tradicional no incio do sculo
              xx, a historiografia que abordava os grandes feitos militares entrou em decadncia.

              Mas nem a guerra como objeto da Histria nem a Histria Militar desapareceram.
              Atualmente ambas constituem at mesmo abordagens particulares: os estudos sobre
              a guerra ao longo da histria ganharam uma perspectiva social, alm de uma vertente
              interessada em sua evoluo tecnolgica. Nesse campo, atuam historiadores como
              John Keegan e Michael Howard. J a Histria Militar no sentido pleno, alm de sua
              ligao com a Histria poltica, constitui-se hoje em um campo de estudos especfico
              sobre estratgia e teorias militares. Nessa perspectiva, depois da Segunda Guerra
              Mundial, desenvolveu-se nos Estados Unidos a chamada "Nova Histria Militar",



              286
cujo objetivo era estudar as relaes sociais e polticas das Foras Armadas com




                                                                                          Militarismo
as sociedades que integravam. No Brasil, a Histria Militar como abordagem
independente tem ficado bastante restrita aos historiadores que so militares
profissionais, ao passo que a guerra, observada a insero das Foras Armadas na
sociedade, se incorporou  Histria Social.
     No caso do militarismo, um dos contextos histricos privilegiados para sua
observao  a Amrica Latina, palco de aes militares na poltica traduzidas em
intervenes armadas e governos militares, presentes na histria do subcontinente
desde as independncias no sculo xix. As ditaduras militares da segunda metade do
sculo xx, principalmente na Amrica do Sul, geraram amplo leque de reflexes acerca
do militarismo latino-americano, de suas origens e de suas principais caractersticas.
Tal militarismo latino-americano surgiu ainda no sculo xix do prprio processo
de independncia, pois com a guerra de quase vinte anos em algumas regies, os
Estados recm-formados se viram com exrcitos volumosos, fortes e fora de controle,
dominados muitas vezes por lderes polticos que eram tambm proprietrios rurais.
O caos social gerado por esses vinte anos de guerra incentivou parcelas significativas
da populao a se voltar para os lderes militares como mantenedores da ordem. Os
proprietrios rurais formavam exrcitos particulares, quando no controlavam os
exrcitos nacionais. Dessa forma, coagiam os grupos populares e disputavam poder
com outros lderes regionais, igualmente senhores de foras militares. O militarismo
latino-americano esteve, assim, desde seu incio associado  debilidade da sociedade
civil, que no possua ento outras instituies ou modelos polticos capazes de se
opor s intervenes militares. A instituio militar, uma das poucas organizadas nesse
perodo, terminou por monopolizar o poder de deciso na Nao. J no sculo xx,
a prpria instituio comeou a se sentir como a "salvaguarda" de interesses
supostamente nacionais e a combater outros modelos de Nao, Estado e sociedade
como "antipatriotas", como perigosos  segurana nacional.
     Podemos, assim, caracterizar o militarismo como um conceito ligado  formao
dos Estados nacionais no Ocidente, principalmente na Idade Contempornea. De
outra maneira, apesar das doutrinas polticas militares existentes na Europa do sculo
xix, em particular na Prssia que ento se constitua como Estado-nao, podemos
observar o militarismo em seu modelo mais bem acabado na Amrica Latina dos
sculos xix e xx, onde chegou a ser implementado com mais sucesso e a controlar o
Estado por longos perodos. Nesse momento, o militarismo funcionou basicamente
a partir de intervenes militares. Para autores como Clvis Brigago, os golpes
de Estado e as intervenes na poltica promovidas pelos militares na histria do
Brasil, por exemplo, constituem o que ficou conhecido como papel moderador das
Foras Armadas, quando decidem ser as intermedirias das instituies nacionais.
Tal papel leva invariavelmente  militarizao da sociedade.



                                                                                  287
                   Essa militarizao acontece quando os militares ocupam o poder do Estado e
Militarismo



              definem um projeto poltico para o governo da Nao. Assumem, dessa forma, a
              gerncia da totalidade de aspectos civis da sociedade: a poltica, a economia e at
              mesmo a cultura. A ditadura militar no Brasil ps-1964  um exemplo clssico desse
              militarismo, quando as Foras Armadas assumiram funes e papel de partido
              poltico. No caso brasileiro, os militares dominaram o governo federal baseados
              na Doutrina de Segurana Nacional, que preconizava a defesa da soberania do pas
              com base na interveno militar em todos os mbitos da vida social e permitia a
              perseguio daqueles que "ameaassem" essa soberania.
                   Como vimos, o militarismo na Amrica Latina est bastante associado  prpria
              histria independente do continente. A Histria poltica dessa regio, a partir do
              sculo xix, foi feita por golpes de Estado e ditaduras dosadas pela militarizao da
              poltica e da sociedade. Apesar disso, para Clvis Rossi, foi apenas a partir de 1964
              que o intervencionismo militar sofreu drstica alterao para exercer uma influncia
              muito maior na sociedade com a implantao da Doutrina de Segurana Nacional,
              que, por sua vez, gerou forte represso social. Essa doutrina foi construda pelo
              principal rgo do pensamento militar na Amrica do Sul na dcada de 1960, a
              Escola Superior de Guerra  eSG  no Brasil, e expressava a necessidade de o Estado
              garantir por quaisquer meios, inclusive psicolgicos e culturais, a segurana da
              Nao contra aqueles considerados inimigos, externos e internos. No momento da
              implantao dessa doutrina, a Amrica do Sul estava tomando o partido dos eua na
              Guerra Fria, e logo os inimigos eram os comunistas. Mas os regimes militares, como
              os que foram implantados no Brasil, na Argentina, no Chile e no Uruguai depois de
              1964, viam como inimigos da Nao qualquer antagonista da corporao militar, e
              logo a censura e a represso poltica e social militarizavam totalmente a sociedade.
                   Por sua vez, o militarismo que dominava a sociedade pelos valores militares, no
              entanto, no  caracterstica s das sociedades ocidentais. Os mais diversos povos,
              desde os japoneses medievais, passando pelos zulus da frica do Sul no sculo xix,
              at os tupis e os astecas da Amrica pr-colonial, possuam seus prprios equivalentes
              ao militarismo.
                   No caso dos zulus, descendentes de um povo de pastores razoavelmente pacfico,
              a militarizao de sua sociedade no sculo xix se caracterizou por impor uma
              formao extremamente rgida a seus guerreiros e por transformar o que at ento
              eram guerras nas quais os perdedores em geral s precisavam mudar de territrio,
              em guerras de conquista agressivas e destrutivas. As mudanas empreendidas na
              sociedade zulu para que o objetivo da expanso imperialista fosse alcanado foram
              drsticas. Toda a estrutura social precisou mudar para acomodar os novos objetivos
              militares da sociedade, desde as relaes familiares, pois os homens s poderiam se


              288
casar depois dos quarenta anos, at as relaes culturais. Os zulus so um bom




                                                                                          Militarismo
exemplo de como uma sociedade tribal pode se militarizar. Mas outro bom exemplo
so os tupis da costa brasileira pr-colonial: nas sociedades tupis a guerra era o
elemento principal de toda a cultura e dos valores tribais, tanto que no era realizada
com o objetivo de conquistar territrios, mas basicamente para a apreenso de
prisioneiros e a valorizao do status dos guerreiros.
     O outro exemplo de uma cultura extremamente militarizada fora do Ocidente
 o Japo feudal, onde a rgida hierarquia social tinha como um de seus grupos mais
influentes os samurais, guerreiros vassalos dos senhores de terra que monopolizavam
o exerccio da fora. Os valores da casta samurai, baseados em uma cultura voltada para
a formao tica e fsica do guerreiro, tiveram grande influncia sobre o Japo feudal.
     De forma geral, a organizao militar  uma instituio presente na maioria
das sociedades humanas, sem que necessariamente passe a domin-las. Assim, para
a compreenso do processo de militarizao de algumas sociedades ao longo da
histria, e no de outras, temos de nos debruar sobre o contexto histrico especfico
de cada uma, buscando as razes para a supervalorizao das organizaes militares
em cada caso.
     Precisamos lembrar, ainda, que, apesar de demonizado por alguns como algo
fora da normalidade, um golpe militar, quando se perpetua no poder e constitui
um governo militar, precisa do apoio de parte significativa da sociedade. Ou seja, o
militarismo como doutrina de governo, para se perpetuar no poder, precisa ser aceito
tambm pelas camadas civis, o que significa que um dos pr-requisitos bsicos para
que as doutrinas militares dominem determinada Nao  sua boa aceitao pela
populao civil. Nesse sentido, ao trabalharmos com a militarizao da sociedade
em sala de aula, devemos ficar atentos para o fato de que as Foras Armadas so
parte integrante da sociedade e representam interesses inseridos na populao, no
sendo instituies nem  parte nem acima da sociedade.

Ver tAmbm
   Cidadania; Democracia; Ditadura; Estado; Fascismo; Golpe de Estado; Nao;
   Poltica; Revoluo; Sociedade.

sugestes de leiturA
   briGaGo, Clvis. A militarizao da sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
   coGGiola, Osvaldo. Governos militares na Amrica Latina. So Paulo: Contexto, 2001.
   KeeGan, John. Uma histria da guerra. So Paulo: Companhia das Letras, 1995.
   KucinSKy, Bernardo. O fim da ditadura militar. So Paulo: Contexto, 2001.


                                                                                  289
                     marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria contempornea
Miscigenao


                      atravs de textos. 10. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
                     pinSKy, Jaime (org.). Histria da Amrica atravs de textos. So Paulo: Contexto, 1994.
                     roSSi, Clvis. O militarismo na Amrica Latina. So Paulo: Brasiliense. 1987.
                     Sun tzu. A arte da guerra. Rio de Janeiro: Record, 1993.
                     treviSan, Leonardo. O pensamento militar brasileiro. So Paulo: Global, 1985.




               miscigenAo
                    Podemos definir miscigenao, ou mestiagem, como a mistura de seres
               humanos e de imaginrios. Tal conceito  amplo e pode abranger tanto a chamada
               mestiagem biolgica, a mistura de raas, quanto a mestiagem cultural, e suscita
               atualmente debates e controvrsias.
                    No Brasil, a mestiagem como fato social s comeou a ser percebida no sculo
               xix. Mas, em uma sociedade dominada pela noo da superioridade branca, a

               miscigenao racial foi ento entendida como um fenmeno negativo, que degradava
               o povo brasileiro. Apenas na dcada de 1930, com a publicao de Casa-grande &
               Senzala, de Gilberto Freyre, a mistura de raas passou a ser vista como fenmeno
               nico, original e favorvel  sociedade brasileira. Tambm em Razes do Brasil,
               publicada no mesmo perodo, Srgio Buarque de Holanda abordava a miscigenao
               de um ponto de vista benevolente. Nas duas obras, os portugueses eram percebidos
               como um povo aberto  miscigenao e sem preconceitos raciais.
                    Mas apesar da viso freyriana de uma democracia racial e de uma escravido
               paternalista ainda influenciar a sociedade brasileira hoje, sua obra passou a ser alvo
               de crticas justamente por minimizar o preconceito racial e a violncia da escravido
               no Brasil. Seu pioneirismo, no entanto, inspirou uma Histria sociocultural brasileira
               a estudar a miscigenao, o que levou, a partir do final do sculo xx, a uma reviso
               da ideia de mestiagem. Visto que o conceito de raa sofria cada vez mais crticas
               severas, a ideia de miscigenao biolgica tambm comeou a perder sentido. A
               mestiagem cultural, no entanto, sobreviveu, apesar das dificuldades tericas que
               apresenta para muitos autores.
                    Para estudiosos como Serge Gruzinski, o conceito de mestiagem  bastante
               complexo. Primeiro porque termos como mestiagem e miscigenao, e mesmo
               hibridismo, no especificam bem quais os fenmenos que englobam. Alm disso,
               essas palavras pressupem uma mistura de coisas heterogneas e bem definidas, o


               290
que exigiria que todas as culturas fossem sistemas fechados e estveis. E tendo




                                                                                         Miscigenao
Gruzinski considerado que toda cultura  aberta, malevel e ela prpria fruto de
misturas, toda cultura j seria por si s o produto de uma mestiagem.
     Em vista dessas dificuldades conceituais em torno da miscigenao, seja a tese
que afirma a inexistncia de raas humanas, seja a prpria amplitude do conceito
de cultura, cada vez mais os estudiosos tm se voltado para a ideia de hibridismo
como um conceito substituto. A ideia de hibridismo cultural surgiu com pensadores
da ps-modernidade, como Homi Bhabha. Para ele, o hibridismo cultural  fruto
da interao entre diferentes identidades, em que as identidades envolvidas no
possuem hierarquia e no necessariamente se misturam ou se sobrepem. O
hibridismo seria, assim, a convivncia de elementos culturais de diferentes origens
tnicas em sociedades multiculturalistas, como as atuais sociedades europeias para
onde se dirigem migrantes de todas as partes do mundo. Nessas sociedades, segundo
Bhabha, as diferentes identidades e tradies culturais se reinventam.
     Eduardo Frana Paiva, por sua vez, trouxe o conceito de hibridismo para a
sociedade colonial brasileira. Estudando a sociedade mineira do sculo xviii, ele
defende a coexistncia de um movimento de hibridismo, em que as diferentes
culturas convivem com a mistura de etnias e prticas culturais, ou seja, com a
mestiagem. Para ele, a miscigenao convive lado a lado com universos culturais
que no se misturam, criando uma pluralidade cultural nessa sociedade. Ressaltemos,
nesse contexto, que, em geral, o hibridismo e a sobrevivncia de identidades culturais
originais significam resistncia cultural, vontade de perpetuar antigas tradies em
face do nascimento de uma nova sociedade.
     Com base nesses autores podemos distinguir miscigenao e hibridismo: a
primeira significa um novo conjunto de elementos culturais que surge da mistura
de tradies diferentes. J o hibridismo no  uma cultura nova que nasce da
mistura de elementos diversos, mas a convivncia de culturas diversas em uma
mesma sociedade.
     Nessa perspectiva, o universo cultural na colnia aparece como um todo
dinmico em que os diferentes grupos sociais influenciavam uns aos outros. A
mestiagem, o hibridismo e a dominao colonial misturavam diversas identidades, e
um mesmo indivduo na Amrica colonial poderia possuir uma identidade fornecida
pelo colonizador, uma identidade mestia e uma identidade prpria, como indgena
ou africana, por exemplo. Mas proliferavam as identidades mestias, frutos da
absoro parcial de diferentes elementos culturais, moldadas por indivduos que
buscavam a sobrevivncia em meios sociais adversos.
     Se hoje a mestiagem divide lugar com o hibridismo nos estudos sobre a cultura
colonial, a historiografia brasileira tem dado nfase tambm a um campo especfico


                                                                                 291
               da interpretao da miscigenao: o sincretismo religioso, uma forma de mistura
Miscigenao



               que diz respeito principalmente ao amlgama de crenas e religiosidade de
               diferentes origens culturais.
                    Tanto a miscigenao e o hibridismo quanto o sincretismo so conceitos
               diferentes mas interligados, relevantes para a compreenso das dinmicas relaes
               interculturais desenvolvidas, seja no universo colonial americano, seja na atual
               sociedade globalizada. A ideia de mestiagem, no entanto, em geral se contrape
               ao conceito de identidade, que significa a manuteno das tradies culturais
               originais, em oposio s misturas que tendem a diluir as culturas e identidades.
               Mas Gruzinski discorda da ideia de uma oposio entre miscigenao e identidade,
               visto que defende a tese de que todas as culturas so misturas, no havendo assim
               identidades puras. Nesse sentido, identidades e mestiagem no seriam termos
               opostos, mas complementares.
                    Esses diferentes conceitos, e os debates em torno deles, so todos aplicveis 
               Histria, em vista da grande diversidade de realidades humanas, cabendo ainda
               acrescentar que a miscigenao cultural pode ser feita sob a influncia de uma cultura
               dominante que se impe sobre outras. Nesse caso, do qual a sociedade colonial 
               exemplo, a nova cultura, fruto desse processo de imposio, constri sua base sobre
               a estrutura da cultura dominante. Tal se deu na sociedade brasileira, pois, apesar
               das muitas sobrevivncias africanas e indgenas, foi a estrutura cultural ibrica, seu
               sistema de valores, cdigos e smbolos que predominou no Brasil.
                    Em vista da configurao da populao brasileira, fruto da mistura de indivduos
               de origens tnicas as mais diversas, o debate em torno dos conceitos de raa e
               miscigenao deve ser frequente em sala de aula. Desde a elaborao dos Parmetros
               Curriculares Nacionais, os pcns, que a Histria das "minorias", a diversidade cultural
               e a multiplicidade de realidades regionais so temas privilegiados por muitos
               educadores. Isso porque, apesar do preconceito racial, a sociedade brasileira se
               considera mestia, e, a partir do fim do sculo xx, diversas identidades minoritrias
               vm tentando se afirmar, como negros, ndios e descendentes de japoneses, a despeito
               da crtica cada vez maior que a cincia faz aos conceitos de raa e miscigenao.
               Por outro lado, existe ainda uma negao das origens mestias por amplos setores
               populares que preferem se identificar como "brancos". So com essas diferentes
               realidades que o professor se defronta em sala de aula. Tais questes podem ser mais
               bem enfrentadas com o auxlio da discusso acerca dos conceitos de miscigenao,
               raa e identidade.

               Ver tAmbm
                     Aculturao; Colonizao; Cultura; Etnia; Imaginrio; ndio; Negro; Raa; Tradio.


               292
sugestes de leiturA




                                                                                          Mito
    bHabHa, Homi. O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. uFmG, 2003.
    del priore, Mary. Mulheres no Brasil colonial. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    Freyre, Gilberto. Casa-grande & Senzala: formao da famlia brasileira sob o
      regime da economia patriarcal. Rio de Janeiro: Record, 1995.
    GruzinSKi, Serge. O pensamento mestio. So Paulo: Companhia das Letras, 2001.
    Funari, Pedro Paulo; noelli, Francisco Silva. Pr-histria do Brasil. So Paulo:
      Contexto, 2002.
    Holanda, Srgio Buarque de. Razes do Brasil. Rio de Janeiro: Jos Olympio, 1994.
    maeStri, Mrio. Uma histria do Brasil colnia. 3. ed. So Paulo: Contexto, 2002.
    meSGraviS, Laima; pinSKy, Carla Bassanezi. 2. ed. O Brasil que os europeus
     encontraram. So Paulo: Contexto, 2002.
    paiva, Eduardo Frana. Escravido e universo cultural na colnia: Minas Gerais,
      1716-1789. Belo Horizonte: Ed. uFmG, 2001.
    pinSKy, Jaime. A escravido no Brasil. So Paulo: Contexto, 1993.




mito
     Os mitos de civilizaes antigas exercem grande fascnio sobre o imaginrio dos
historiadores e do pblico leigo, o que leva a mitologia a ser uma temtica bastante
popular dentro e fora da academia, como demonstram as variadas publicaes de
coletneas de mitos cujo alvo  o grande pblico. Colees mais tradicionais de
mitos egpcios, mesopotmicos e em especial gregos so facilmente encontradas no
mercado editorial brasileiro, ao lado hoje de colees menos comuns como os mitos
iorubs, vikings e mesmo maias. Um conjunto de mitos de determinada cultura 
uma mitologia: assim podemos falar em mitologia grega, mitologia asteca etc. Mas,
no entanto, mitologia tambm significa a disciplina especfica que tem como objeto de
estudo os mitos, sua natureza e significado. Nessa disciplina, encontramos nomes de
grande importncia para as cincias humanas, como Mirca Eliade e Joseph Campbell.
Mas apesar de pertencer a um campo to prezado por historiadores e amantes da
Histria, o conceito de mito  pouco conhecido e, na verdade, menos fcil de definir. O
antroplogo Everardo Rocha chega mesmo a afirmar que no  possvel definir mito.
     Alguns historiadores tradicionais, como  o caso do estudioso da cultura clssica
P. Commelin, afirmam que o mito  uma mentira. Outros, mais moderados, como


                                                                                  293
       Page, medievalista estudioso da mitologia viking, afirmam que os mitos so
Mito



       fbulas, narrativas puramente fictcias, em cuja base encontramos o sobrenatural,
       os fenmenos da natureza ou os acontecimentos histricos alterados. Nesse caso,
       a mitologia  no mais do que uma compilao de contos, muito aproximada da
       literatura e da fico. Mas os mitos so abordados de forma diferente por outras
       cincias humanas, como a Antropologia e a Psicanlise. Os historiadores que tm se
       preocupado em estudar os mitos de forma mais profunda que a simples coletnea de
       contos tm se voltado para essas disciplinas, assim como para o trabalho de mitlogos
       como Eliade. Um desses casos  o do medievalista Jeffrey Russel.
            Em seu trabalho O diabo: as percepes do mal da Antiguidade ao cristianismo
       primitivo, Russel construiu uma interpretao do diabo como figura mitolgica do
       Cristianismo. Baseado na Psicanlise, o autor defende que os mitos so produtos
       do inconsciente alterados pelo consciente, que raramente sabe o que se passa no
       inconsciente. A mitologia, assim, no  racional,  mais do que isso. Nessa abordagem,
       influenciada pelo antroplogo Lvi-Strauss, mito se diferencia totalmente de lenda
       e de fbula, no sendo considerado nem fantasia, nem fico, mas um "disfarce" para
       o pensamento abstrato e a expresso de uma conscincia humana mais profunda.
            O grande impulso na pesquisa sobre o valor dos mitos foi dado pela obra de
       Freud, no incio do sculo xx, e pela descoberta do inconsciente coletivo. A Psicanlise
       utilizou o mito como base para o estudo da mente humana. J a Antropologia se
       voltou para o mito como fonte do conhecimento social. Para os antroplogos, o mito
        uma narrativa, uma reflexo alegrica sobre a existncia, e carrega uma mensagem
       implcita capaz de revelar o pensamento de uma sociedade.
            Ao longo do tempo, vrias linhas de interpretao dos mitos foram sendo
       esboadas a partir da sua riqueza e multiplicidade de significados. Entre elas, as
       principais so: a naturalista, que considera os mitos uma traduo das foras da
       natureza; a historicista, que considera que o mito  uma representao de episdios
       verdadeiros do passado; a funcionalista, criada por Malinowski nos anos 1920, que
       afirma que o mito tem uma funo social especfica, religiosa, moral, ou de busca
       de conhecimento; a psicanaltica, que usa o mito como fonte de conhecimento da
       mente humana; e a estruturalista, de Lvi-Strauss, que busca no mito dados sobre
       as estruturas sociais. As linhas interpretativas psicanalticas so to influentes no
       estudo dos mitos quanto as antropolgicas. Mas enquanto os antroplogos querem
       entender as estruturas sociais por trs dos mitos, os psicanalistas usam os mitos para
       estudar o inconsciente humano.
             Os dois grandes nomes na interpretao psicanaltica dos mitos so Freud e Jung,
       no por coincidncia tambm dois dos maiores pensadores da Psicanlise. Tanto os
       estudos dos sonhos de Freud quanto a teoria dos arqutipos de Jung admitem a natureza


       294
imutvel e constante do inconsciente, o que permite a continuidade dos mitos.




                                                                                          Mito
Os mitos, como os sonhos, seriam expressos pelo inconsciente: para Freud, pelo
inconsciente individual, e para Jung, pelo inconsciente coletivo. Para Freud, o mito
ajuda a exprimir as vivncias humanas e a representar a influncia do inconsciente na
formao do consciente em cada indivduo. Os mitos, como o clssico mito de dipo,
foram utilizados por Freud para compreender o desenvolvimento de cada indivduo.
Para ele, o mito exprime fases da vida pelas quais cada pessoa passa. Enquanto Freud
estudava o inconsciente pessoal, Jung estudava o inconsciente coletivo, regio da mente
onde esto guardadas todas as experincias comuns da humanidade, o repositrio de
experincias humanas compartilhadas, segundo ele, por todos. Os mitos, para Jung, so
uma das provas de que o inconsciente coletivo existe, pois muitos mitos e smbolos se
repetem em diversas culturas sem nenhuma ligao. Um dos grandes exemplos de uma
figura que se repete na mente humana ao longo do tempo, em diferentes sociedades
sem influncia mtua,  o culto ao Sol: presente no Egito e no Imprio Inca, entre
outras antigas civilizaes, ele continua existindo hoje, por exemplo, na frequncia
dos brasileiros s praias em busca de diverso e socializao. Para antroplogos como
Everardo Rocha, essa frequncia  quase um "culto", com significados sociais profundos.
    Adentrando a Antropologia, deparamos com Malinowski e Lvi-Strauss. O
primeiro via o mito de forma funcionalista, ou seja, afirmando que todo mito tem
uma funo na sociedade, uma finalidade. Assim, por exemplo, o mito poderia
funcionar como forma de repassar os valores morais da sociedade. J para o
estruturalista Lvi-Strauss, o mito tem estreita relao com a linguagem e no
pode ser lido como um texto comum, pois no mostra seu significado bsico por
meio de uma sequncia de acontecimentos. Pelo contrrio, muitas vezes a srie de
acontecimentos ao qual est vinculado o significado do mito est afastada de seu
enredo. E para seu entendimento  preciso compreender a sociedade que o gerou
assim como os outros mitos da mesma sociedade.
    Na Antropologia, o campo clssico de estudo dos mitos so as chamadas
"sociedades primitivas", ou seja, sociedades tribais contemporneas da nossa
sociedade industrial/ps-industrial. Normalmente sociedades indgenas na Oceania,
frica ou Amrica. J para a Psicanlise, os mitos mais estudados so os greco-latinos,
os mitos clssicos como dipo e Electra. Na Histria, por sua vez, a mitologia como
compilao de mitos religiosos  encontrada no estudo das mais diferentes culturas,
dos vikings aos astecas.
    A universalidade do mito e sua grande importncia para o pensamento
humano  algo palpvel no fato de que todas as sociedades elaboram mitos, quer
sejam representaes do inconsciente coletivo, das estruturas sociais, quer tenham
funo prtica na sociedade. Intelectuais do fim do sculo xx, de cincias que


                                                                                  295
       tradicionalmente no se interessavam por tal tema, tm dado especial ateno aos
Mito



       chamados mitos contemporneos. Um dos mais importantes desses pensadores
        Umberto Eco, que estuda os mitos da sociedade ocidental na propaganda e no
       cinema, em personagens como James Bond.
            No podemos esquecer a importncia dos mitos para a Filosofia. Segundo
       Auguste Comte, a Filosofia inclusive teria substitudo a mitologia na explicao do
       mundo e do universo. A viso evolucionista de Comte acreditava que a mitologia
       era a forma mais primitiva de explicar o mundo, depois evoluindo para a Filosofia
       e para a cincia  medida que a prpria civilizao fosse evoluindo. Tambm os
       filsofos crticos da modernidade, como os frankfurtianos Adorno e Horkheimer, em
       meados do sculo xx, comentaram a relao entre mito e Filosofia. Esses pensadores
       acreditavam que o Iluminismo pretendeu livrar o homem da superstio e do
       medo, dissolvendo o mito, mas que, ao desenfeitiar o mundo, teria incinerado sua
       prpria conscincia. Para eles, a explicao cientfica do Iluminismo teria dado fim
        explicao mitolgica, perdendo-se muito da natureza humana nesse processo.
            O grande fascnio que a mitologia exerce sobre nossas mentes talvez seja uma
       prova de que a humanidade realmente precisa deles. O professor de Histria pode
       explorar esse fascnio em sala de aula, trabalhando com as mais diversas mitologias
       como forma de refletir sobre a diversidade cultural da humanidade.  bastante fcil
       encontrar coletneas de mitos de diferentes povos no mercado editorial brasileiro.
       Um bom exerccio talvez seja justamente trabalhar mitos de diferentes culturas de
       forma comparada. Mas lembrando que muitas dessas coletneas encaram os mitos
       como fbulas. Alm disso, j estamos constantemente trabalhando com mitos em sala
       de aula: Tiradentes, Zumbi etc. Esses "heris histricos", relacionados com a prpria
       construo da identidade brasileira, podem tambm ser interpretados como mitos.
       Essa situao  uma razo a mais para que o educador se aprofunde nas muitas formas
       de interpretao dos mitos antes de pass-los para os alunos.

       Ver tAmbm
             Discurso; Folclore; Histria; Historiografia; Identidade; Imaginrio; Mentalidades;
             Religio; Tradio.

       sugestes de leiturA
             edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
               entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
             eliade, Mirca. Mito e realidade. So Paulo: Perspectiva, 2002.
             Funari, Pedro Paulo. Grcia e Roma. So Paulo: Contexto, 2001.
             mccall, Henrietta. Os mitos da Mesopotmia. So Paulo: Moraes, 1994.


       296
    mello, Jos Roberto. O cotidiano no imaginrio medieval. So Paulo: Contexto, 1992.




                                                                                             Modernidade
    paGe, R. I. Mitos nrdicos. So Paulo: Centauro, 1999.
    pinSKy, Jaime. As primeiras civilizaes. So Paulo: Contexto, 2001.
    pinSKy, Jaime (org.). 100 textos de histria antiga. 8. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    ______. O ensino de Histria e a criao do fato. 11. ed. So Paulo: Contexto, 2004.
    pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Faces do fanatismo. So Paulo:
      Contexto, 2004.
    prandi, Reginaldo. Mitologia dos orixs. So Paulo: Companhia das Letras, 2000.
    rocHa, Everardo. O que  mito. So Paulo: Brasiliense, 1999.
    ruSSel, Jeffrey. O diabo: as percepes do mal da Antiguidade ao cristianismo
     primitivo: Rio de Janeiro: Campus, 1991.




modernidAde
     A ideia de modernidade surge, segundo Jacques Le Goff, quando h um sentimento
de ruptura com o passado. Nesse sentido, um dos primeiros pensadores a utilizar a
ideia de modernidade foi Charles Baudelaire, escritor francs da segunda metade do
sculo xix, autor de As flores do mal, que pensava a modernidade como as mudanas
que iam se operando em seu presente, utilizando a palavra sobretudo para a observao
dos costumes, da arte e da moda. Etimologicamente, entretanto, Andrew Edgar
apresenta a modernidade como um termo derivado do latim modernus (significando
recentemente), que desde o sculo v, com os escritos de Santo Agostinho, passou a ter
diversos significados. Na origem, opunha-se ao passado pago; a partir do sculo xvi,
todavia, quando os eruditos revalorizaram a cultura pag, ser moderno era se opor
ao medieval e no ao antigo ou  Antiguidade. Os homens do sculo xvi julgavam
estar vivendo em um mundo novo (moderno), embora o passado greco-romano
devesse ser respeitado na construo desse novo mundo e do novo homem, liberto
do "obscurantismo" medieval. Nesse sentido, a Era Moderna  de fato moderna, ao
menos para os que nela viveram. Mas no se pode esquecer que o termo modernidade
(modernitas) propriamente dito j aparece no sculo xii, referindo-se aos ltimos
cem anos ento vividos e ainda presentes na memria dos contemporneos. Apesar
disso, modernidade  um conceito histrico que difere do sentido original da palavra
e surgido com o Iluminismo, tendo seu pice nos sculos xix e xx.
     Podemos definir a modernidade como um conjunto amplo de modificaes nas
estruturas sociais do Ocidente, a partir de um processo longo de racionalizao da vida.
Nesse sentido, como afirma Jacques Le Goff, modernidade  um conceito estritamente


                                                                                     297
              vinculado ao pensamento ocidental, sendo um processo de racionalizao que atinge
Modernidade



              as esferas da economia, da poltica e da cultura. Segundo Sergio Paulo Rouanet,
              a racionalizao econmica levou o Ocidente a dissolver as formas feudais e pr-
              capitalistas de produo e a elaborar uma mentalidade empresarial fundamentada no
              clculo, na previso, nas tcnicas racionais de contabilidade e de administrao e na
              forma de trabalho livre assalariado. Enfim, a racionalizao econmica se materializa
              no Capitalismo, desde o sculo xviii at nossos dias.
                   A racionalizao poltica, por sua vez, apareceu com a substituio da
              autoridade descentralizada medieval pelo Estado moderno, com o sistema tributrio
              centralizado, as foras militares permanentes, o monoplio da violncia e da
              legislao pelo Estado e a administrao burocrtica racional. Com a passagem para o
              Estado liberal burgus, no sculo xviii, a dominao poltica deixou de estar vinculada
              ao carisma, ao Direito Divino, ao costume,  tradio, e passou a ser legitimada em
              fundamentos racionais, em um contrato, em regras estabelecidas pelos cidados.
              No plano cultural, aos poucos ocorreu o desencantamento do mundo: o mundo
              moderno s poderia ser entendido pela razo, sem necessitar recorrer a mitos, a
              lendas, ao temor,  superstio. Ou seja, a cincia ganhou um poder de compreenso
              do mundo que deveria permitir ao homem escapar de vises mgicas (fantasmas,
              bruxas, seres imaginrios), derrubando os altares e instalando o reino da Razo.
                   Outra mudana que caracterizou a modernidade foi a separao e a autonomia
              entre a cincia, a moral e a arte. Antes, essas esferas de valor estavam embutidas na
              religio. Mas a partir da Idade Moderna, e principalmente com a contemporaneidade,
              a cincia deixou de precisar do respaldo (e dos limites) da religio; o comportamento
              moral tambm foi separado da religio, e o Ocidente comeou desde ento a
              acreditar que uma pessoa, para ser boa, no precisaria necessariamente ser religiosa.
              Ela poderia ser racionalmente boa e instituir para si mesmo normas de conduta
              que norteariam sua relao com o mundo e com as outras pessoas. Por outro lado,
              um homem muito religioso (fantico e dogmtico) poderia fazer mal em nome de
              sua f. Por fim, a arte se desvinculou da religio e encontrou formas autnomas de
              criao e divulgao, primeiro com o mecenato e posteriormente com a formao
              do mercado consumidor de arte, permitindo que o artista possa viver de modo
              independente de sua relao com a religio e com o mecenas.
                   Reconhece-se, em geral, a Ilustrao como o fenmeno responsvel pelo incio
              da modernidade. A Reforma Protestante iniciou o processo de secularizao do
              mundo Ocidental, mas foram os pensadores do sculo xviii que o laicizaram de vez.
              Na Reforma havia ainda o dogma do pecado original, os pavores e as incertezas da
              predestinao. O Iluminismo julgou no precisar mais da religio revelada, nem de
              Deus, para se portar no mundo. Esse projeto iluminista de modernizao do mundo


              298
tinha duas vertentes, depois herdadas pelo liberalismo e pelo Socialismo: o aumento




                                                                                          Modernidade
da eficcia e o aumento de autonomia. A primeira dimenso pregava a racionalizao
das aes dos homens e da relao entre estes e a natureza, que permitisse maior
eficincia cientfica nas esferas de produo de bens e de administrao poltica, o
que seria possvel com a tcnica e a tecnologia. Em suma, essa dimenso instrumental
e funcional garantiria um controle ilimitado do homem sobre a natureza e sobre
outros homens. No entanto, a eficcia degenerou em dominao, e  atualmente
muito criticada por ser responsvel pelos estragos ecolgicos que o planeta enfrenta,
pela desumanizao das relaes sociais, pela violncia e belicosidade entre as Naes,
pelo tecnicismo frio da vida moderna, por ter colocado em risco de aniquilamento
atmico toda a humanidade. Quando se fala em crise da modernidade, fala-
se, sobretudo, na crise desse modelo da eficcia que foi, de fato, o projeto de
modernidade que mais se efetivou desde o sculo xviii at nossos dias, defendendo
uma cincia e uma tcnica que so, elas mesmas, dominao.
     Sobre a dimenso da autonomia, a modernidade defendia, e continua a defender,
acima de tudo, a libertao do Homem, sem distino de sexo, cor, raa, credo ou
opinio. Pregava que a razo devia emancipar a humanidade, que a sociedade civil
devia ser livre e atuar sobre uma slida opinio pblica que geraria tanto o dissenso
como o consenso. Essa seria a modernidade ideal proposta pelo Iluminismo. No
entanto, a modernidade realmente posta em prtica pelo Ocidente desde o sculo
xix, a chamada modernidade real gerada pelo liberalismo e pelo Socialismo, no foi

capaz de emancipar o homem.
     Os pensadores que defendem, como Sergio Paulo Rouanet, que o projeto
iluminista de modernidade ainda no foi totalmente realizado, acreditam que a
dimenso da eficcia conduziu a humanidade a um grande desenvolvimento material,
ao passo que a dimenso da autonomia ficou no meio do caminho. Ou seja, o
progresso material no foi acompanhado de maior liberdade, nem da emancipao
do homem. E, aos poucos, como notou Edgar Morin, muito do que a modernidade
iluminista projetou virou mito: a cultura de massa promoveu incontveis imagens
nas quais o amor, a felicidade, o bem-estar, o descanso, o lazer parecem possvel a
todos. A modernidade, assim, se tornou cultura de massas.
      No mbito da Amrica Latina, as oligarquias agroexportadoras durante muito
tempo construram obstculos ao processo de modernizao em razo de seus
interesses internos de dominao dos demais grupos sociais, apesar de ter sido essa
mesma oligarquia que, no final do sculo xix, se props a modernizar as cidades,
os transportes, o urbanismo latino-americano. Apesar disso, a educao formal,
considerada uma das principais ferramentas para a modernizao de uma sociedade,
permaneceu como privilgio de minorias. Nstor Canclini chega mesmo a sugerir que


                                                                                  299
              o continente s se modernizou no limiar da dcada de 1990. Seja como for, nem
Modernidade



              mesmo a modernidade instrumental, baseada na eficcia, se realizou plenamente em
              todos os pases. Fora da Amrica Latina, outras regies tm problemas semelhantes:
              at podemos falar de um Egito "moderno", mas reconhecendo que muitos traos da
              cultura tradicional dos pases muulmanos resistiram ao avano da modernizao
              que lhes parecia, no sem razo, uma ocidentalizao que serviria aos interesses dos
              pases ocidentais. J no Japo, a modernizao, segundo Le Goff, foi equilibrada, com
              a adoo de tcnicas ocidentais e a manuteno de valores prprios, ao passo que nos
              pases muulmanos ela foi conflitual, ou seja, atingiu apenas parte da populao e
              gerou tenses com as tradies antigas, com a identidade cultural dessas Naes. Na
              frica negra, por sua vez, o que existiu foi uma modernizao tateante, com fracas e
              inadequadas tentativas de modernizao promovidas pelas elites.
                   Falar em modernidade  pisar em um terreno de contradies, pois esse conceito
               muitas vezes posto em oposio ao de tradio, que pode ser considerada de um
              ponto de vista saudosista ou como algo retrgrado. Por um lado, em determinadas
              circunstncias, o discurso modernizador, em particular em sua vertente da eficcia,
              do progresso, torna-se apenas uma iluso para muitas pessoas, ou aparece como
              algo destrutivo e opressor (o progresso tcnico pode ser antiecolgico e promover
              a desigualdade social). Mas, por outro, a tradio tambm pode conter elementos
              muito conservadores das relaes de dominao entre pais e filhos, homens e
              mulheres, grupos dominantes e dominados etc., enquanto a modernidade, em sua
              vertente da autonomia, prope a igualdade e a liberdade.
                   Assim, o professor de Histria tem em mos um tema polmico, atual e
              abrangente, que toca em nossas vidas diretamente. O desafio  como associar temas
              como cidadania, tica, cincia, poltica, democracia, felicidade, liberdade em sua
              relao com a modernidade entendida como um momento histrico que, para
              alguns autores ainda no acabou, mas tambm como um projeto universalista de
              libertao da humanidade. Podemos trabalhar com os alunos a modernidade real,
              presente nas instituies polticas que nos regem, na nossa vida pessoal, nos valores
              que defendemos, nas utopias que ainda pairam no ar, no ceticismo de muitos, no
              bombardeio de informaes dos meios de comunicao de massa etc. Alm disso,
              para discutir a modernidade h um leque bastante amplo de possibilidades de
              pesquisa: podemos trabalhar a tica, a ecologia, a industrializao, as tradies
              populares e a resistncia cultural e o choque de culturas.

              Ver tAmbm
                    Cidadania; Cincia; Comunismo; Democracia; Escravido; tica; Feminismo;
                    Iluminismo; Indstria Cultural; Industrializao; Liberalismo; Liberdade; Poltica;
                    Ps-modernidade; Revoluo Francesa; Tradio.



              300
sugestes de leiturA




                                                                                           Modo de Produo
    andreW, Edgar; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
     entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
    baudelaire, Charles. Sobre a modernidade. So Paulo: Paz e Terra, 1997.
    canclini, Nstor Garca. Culturas hbridas: estratgias para entrar e sair da
     modernidade. So Paulo: Edusp, 2003.
    GreSpan, Jorge. Revoluo Francesa e Iluminismo. So Paulo: Contexto, 2003.
    Karnal, Leandro. Estados Unidos: a formao da nao. 2. ed. So Paulo:
     Contexto, 2003.
    le GoFF, Jacques. Histria e memria. So Paulo: Ed. Unicamp, 1994.
    marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria moderna atravs
     de textos. 10. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
      Contexto, 2003.
    r ouanet , Sergio Paulo. Mal-estar na modernidade: ensaios. So Paulo:
      Companhia das Letras, 2001.
    ______. As razes do iluminismo. So Paulo: Companhia das Letras, 2000.




modo de produo
     O processo histrico e as mudanas que nele ocorrem podem ser concebidos de
vrias formas, segundo a formulao de um determinado pensador. Modo de produo
 uma dessas formulaes do materialismo histrico que divide a histria (sobretudo a
histria europeia) em pocas distintas e sucessivas. Para Marx, os modos de produo
correspondem a estgios especficos das foras e relaes de produo de dada formao
social. O modo de produo, em linguagem menos terica, seria o modo pelo qual
determinada sociedade organiza sua vida econmica, o trabalho, as estruturas polticas
e jurdicas e mesmo as manifestaes culturais. Todos os aspectos da vida em sociedade
(desde os aspectos materiais at os aspectos mentais) estariam determinados pelo modo
de produo da vida material. Para o materialismo histrico,  a maneira concreta de uma
sociedade organizar sua produo que d forma a todo o edifcio social nela existente.
     Os modos de produo identificados por Marx correspondem, em linhas gerais,
 histria do mundo europeu, desde as comunidades primitivas at a ltima fase, o
Comunismo. Andrew Edgar assim identifica as seis pocas histricas ou modos de


                                                                                   301
                   produo concebidos por Marx: comunismo primitivo; sociedade escravocrata antiga;
Modo de Produo



                   Feudalismo; Capitalismo; Socialismo e Comunismo. O funcionamento da economia,
                   em cada um desses estgios, apresenta nveis de tecnologia e de relaes de produo
                   particulares. H ainda um modo de produo que complica o quadro exposto: o
                   modo de produo asitico, que no corresponde  sucesso linear esboada para
                   a histria europeia. Nesse modo de produo no h a subordinao de escravos,
                   servos ou assalariados a uma classe proprietria dos meios de produo, mas a
                   subordinao coletiva de todos os trabalhadores ao Estado.  motivo de polmica
                   entre os estudiosos de Marx qual o lugar desse modo de produo, pois para os
                   demais estgios a sucesso necessria de um a outro se d de forma linear e, de certo
                   modo, coerente. Embora o esquema marxista apresente um determinismo linear no
                   que se refere  histria europeia, Marx no esperava que tal esquema fosse o mesmo
                   para outras regies do mundo e, segundo Peter Burke, no esperava que a ndia ou
                   mesmo a Rssia seguissem necessariamente o mesmo percurso do Ocidente.
                        Como Marx era contemporneo do modo de produo capitalista, quando ele
                   fala das etapas do Socialismo e do Comunismo est projetando o que considera o
                   destino da humanidade. Para ele cada modo de produo apresenta uma determinada
                   capacidade de produzir pelo aparelhamento tcnico, pelos conhecimentos cientficos
                   e pela organizao do trabalho (foras produtivas como mquinas, ferramentas e
                   fontes de energia, habilidades fsicas e intelectuais dos indivduos); apresenta ainda
                   determinadas relaes de produo, isto , relaes sociais existentes entre a classe
                   produtora e a classe proprietria, as quais tm a ver com a posse ou o controle dos
                   meios de produo, com a diviso da renda, com o tipo de relao de trabalho e
                   assim por diante. Ele entende que em todo modo de produo, as foras produtivas
                   caminham mais rpido do que as transformaes das relaes de produo, dando
                   origem a uma contradio entre a capacidade material de produzir e as relaes
                   entre as classes sociais, que tendem a ser estveis.  assim que, de um modo de
                   produo a outro, as transformaes na esfera material terminam por forar as
                   relaes de produo a mudar, deixando espao para novas relaes de produo e
                   para o novo estgio de produo que principia. A Revoluo Francesa, para Marx, 
                   o exemplo clssico de como as foras materiais, propiciadas pela ascenso econmica
                   da burguesia, determinam uma ruptura drstica para destruir as relaes de
                   produo feudais e com elas todo o edifcio jurdico e poltico em que se assentavam,
                   estabelecendo o novo modo de produo, no caso o capitalista.
                        O sentido da histria, entendido como mudana social, o qual parece ntido para
                   Marx,  esse: cada modo de produo, apesar de tentar se perpetuar, tende a criar os
                   germes de seu prprio fim, e  essa contradio que propicia a mudana revolucionria
                   que destri o modo de produo. O esquema de mudana social, de transio entre os


                   302
modos de produo, foi aplicado, sobretudo,  passagem do Feudalismo ao




                                                                                              Modo de Produo
Capitalismo. Marx, homem de seu tempo, queria demonstrar como surgiu o modo
de produo dominante no sculo xix, como a burguesia foi capaz de destruir as
relaes feudais de produo baseadas em grande medida na servido. Ao estudar
mais detidamente essa transio que deu origem ao modo de produo burgus,
assentado na acumulao primitiva de capitais (que se deu no prprio Feudalismo),
no trabalho formalmente livre, na livre concorrncia e na propriedade privada dos
meios de produo, ele vislumbrou que a prpria burguesia estava criando o seu
tmulo: o proletariado. Ora, para ele, a burguesia no podia subsistir sem revolucionar
constantemente as foras de produo, e ao fazer isso ela ampliava o abismo social e
econmico que a separava de sua classe antagnica, os proletrios. Essa contradio
ir pr fim, de modo revolucionrio, ao Capitalismo, instituindo o Socialismo como
modo de produo assentado no domnio do Estado e dos meios de produo pelos
trabalhadores, mas que progressivamente desembocaria no Comunismo, em que o
Estado deixaria de existir, uma vez que tambm as classes no mais existiriam. Esse
seria o destino final da humanidade, o ltimo modo de produo.
     Muitos autores preferem trabalhar com o modelo marxista de infra-estrutura
e superestrutura, ou base e superestrutura. O que isso significa? A base, ou infra-
estrutura, corresponde s condies materiais de existncia,  produo material,
ou, como se define mais simplesmente,  esfera econmica, e seria a partir dela que
se daria a mudana social, a histria. J a superestrutura, entendida como resultado
da infra-estrutura, representa o arcabouo poltico, jurdico e ideolgico em que
se assenta a base, ou seja, o Estado, o Direito, as formas de pensamento, as artes, o
saber cientfico. Sabe-se que essa distino base/superestrutura  complicada, pois
exige uma rigidez pouco visvel na realidade. Exemplos simples mostram como 
complicado separar as duas esferas: os conhecimentos cientficos, apesar de fazerem
parte da superestrutura, so muitas vezes inseparveis do equipamento tcnico,
elemento da infraestrutura; mesmo as foras produtivas dependem das leis de
propriedade assentadas no Direito, isto , mais uma vez base e superestrutura esto
intimamente relacionadas. Para o materialismo histrico, a mudana de um modo
de produo a outro s seria completa quando a infraestrutura material tivesse
alterado por completo a superestrutura.
     A concepo de modo de produo, por ser demais esquemtica e pensada
particularmente para a realidade social e histrica da Europa, suscita algumas
dificuldades de aplicao para a anlise de outras realidades.  o caso do Brasil colonial,
por exemplo. Ao longo do sculo xx houve estudiosos que acreditaram ver no Brasil
colonial um modo de produo capitalista (embora perifrico), outros um modo de
produo feudal, e outros, ainda, mais originais, construram um modelo interpretativo


                                                                                      303
             prprio, um modo de produo escravista colonial. De qualquer forma, a historiografia
Monotesmo



             hoje admite que sociedades coloniais ou de culturas muito diferentes do Ocidente no
             se encaixam bem em modelos construdos para explicar a histria da Europa, como  o
             caso do modo de produo. O conceito apresenta, pensa Peter Burke, graves limitaes
             de perspectiva, em particular para o entendimento de sociedades ditas pr-industriais
             ou tradicionais. Seja como for, muitos livros didticos ainda fazem uso do conceito de
             modo de produo para explicar, s vezes de modo um tanto eurocntrico, a mudana
             de uma etapa histrica a outra, enquanto outros livros se esforam por transmitir uma
             viso completamente distinta da histria. Como afirmou Peter Burke, nenhum modelo
             (e o modo de produo  um modelo) satisfaz plenamente aos historiadores.

             Ver tAmbm
                   Burguesia; Capitalismo; Classe Social; Comunismo; Feudalismo; Ideologia;
                   Marxismo; Revoluo Francesa; Teoria.

             sugestes de leiturA
                   aron, Raymond. As etapas do pensamento sociolgico. So Paulo: Martins
                    Fontes, 1999.
                   burKe, Peter. Histria e teoria social. So Paulo: Ed. Unesp, 2002.
                   edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
                     entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
                   Faria, Ricardo Moura. As revolues do sculo xx. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2002.
                   HuGHeS-WarrinGton, Marnie. 50 grandes pensadores da Histria. So Paulo:
                    Contexto, 2002.
                   marx, Karl. O capital: crtica da economia poltica. Rio de Janeiro: Civilizao
                    Brasileira, s. d.
                   pinSKy, Jaime. As primeiras civilizaes. So Paulo: Contexto, 2001.
                   SantiaGo, Theo (org.). Do feudalismo ao capitalismo: uma discusso histrica.
                     9. ed. So Paulo: Contexto, 2003.




             monotesmo
                 O Dicionrio das religies, editado por John R. Hinnels, define o monotesmo
             como a crena em que h apenas um ser divino. Usualmente o termo  utilizado
             especificamente para indicar a crena no supremo Deus criador do Judasmo, do
             Islamismo e do Cristianismo  as trs maiores religies monotestas do mundo. No


             304
entanto, a doutrina crist da Trindade  um monotesmo modificado. Judeus e




                                                                                         Monotesmo
muulmanos tendem a criticar a viso crist exatamente nesse ponto. O Islamismo,
particularmente, v muitas vezes na Trindade dos cristos uma espcie de tritesmo
(crena em trs deuses), em outros termos, um politesmo.
     De fato, das trs grandes religies que se assumem como monotestas, a
perspectiva mais heterodoxa no que se refere  unicidade divina  a crist. A razo
para essa heterodoxia est na prpria origem da expanso do Cristianismo nos
primeiros sculos da era crist, ainda no Imprio Romano. Expandindo-se em um
imprio onde o politesmo predominava, a Igreja Catlica precisou fazer concesses
s crenas politestas para crescer. Assim, em um esforo de sntese, muito do que era
pago foi modificado em cristo sob nova roupagem. E apesar da incompatibilidade
das divindades pags em relao ao Cristianismo, ocorreu um processo de assimilao
sutil de muitos aspectos essenciais das religies de mistrio pags, inclusive de
numerosas das suas divindades, pelo catolicismo.
     Devemos reconhecer, entretanto, que o monotesmo  uma experincia subjetiva.
Os cristos se sentem monotestas, apesar de seu Deus uno se manifestar nas trs
pessoas da Trindade, o Pai, o Filho e o Esprito Santo. Interessante perceber que essa
mesma lgica crist pode ser utilizada por um hindusta. No sculo xx, de fato, os
hindustas afirmaram que, embora adorassem milhares de deuses, todos eram apenas
manifestaes, ou avatares, de uma nica divindade, Aum, criador do universo.
     O tema  complicado. Conceitualmente,  preciso distinguir o monotesmo
de conceitos afins, como o henotesmo, intermedirio entre o monotesmo e o
politesmo. O henotesmo, tambm nomeado de monolatria,  a concentrao
da ateno em um s deus, mas pertencendo o fiel a uma religio politesta, em
que vrios deuses figuram na crena ou no mito. Ou seja,  o culto a um s deus,
conquanto se admita a existncia de outros deuses, que no so contestados. Um
exemplo  o culto Hare Krishna, cujos fiis adoram apenas a Krishna, uma das
divindades mximas do Hindusmo, que tem, no entanto, milhes de divindades.
Nesse sentido, toda a multiplicidade de cultos do Hindusmo poderia ser mais bem
definida no como monotesta, mas como henotesta.
     Muitos estudiosos costumam afirmar que a primeira experincia monotesta da
histria ocorreu no Egito, no sculo xvi a.C., sob o reinado do fara Amenhotep iii.
Por meio de virulentos ataques a outras divindades, em particular a Amon, esse fara
teria escolhido como deus nico Aton, o disco solar, manancial da vida e seu sustento.
Aps essa escolha, o fara passou a se chamar Akhenaton, o Filho de Aton. Para alguns
estudiosos, nesse processo o politesmo egpcio deu lugar ao monotesmo. Outra
abordagem,todavia,entende que a adorao exacerbada dirigida a Aton,considerando-o
o "deus nico", no era novidade no Egito. Hinos a Amon tambm o consideravam
o "Senhor nico", e isso no implicava a excluso de outros deuses. O mais forte



                                                                                 305
             argumento dessa abordagem, no entanto,  o que defende a existncia de pelo menos
Monotesmo



             dois deuses no Atonismo, pois se o fara renomeado de Akhenaton adorava a Aton,
             nico deus para ele, todos os sditos deveriam render adorao ao fara, tambm
             considerado divino. Para o prprio fara, s ele podia se dirigir ao deus-vivo, que
             seria o seu deus pessoal. Haveria, portanto, duas divindades: Aton e o prprio fara.
                  Outra viso tambm recorrente  aquela que atribui ao monotesmo egpcio a
             influncia sobre o monotesmo judaico  e, por consequncia, sobre todo o monotesmo
             cristo e muulmano.Ao acreditarmos na narrativa dos relatos bblicos e na sua posterior
             datao historiogrfica, os hebreus estariam de fato no Egito em pleno fervilhar da
             revoluo religiosa egpcia. Todavia, j h muitos questionamentos aos"dados"contidos
             na Bblia, e h quem questione a longa presena hebraica no Egito e a prpria existncia
             de Moiss. Mas o argumento mais convincente desse grupo mais ctico relaciona-se 
             descontinuidade entre a experincia religiosa egpcia e a hebraica. Para o pesquisador
             John Wilson, por exemplo, o culto a Aton foi a crena pessoal de um fara que a gerao
             seguinte considerou hertica. E o fato desse culto ter sido inacessvel aos egpcios em
             geral foi demonstrado pelo retorno fervoroso ao culto dos deuses antigos, logo depois
             da deposio de Akhenaton. Assim, mesmo havendo escravos hebreus no Egito desse
             perodo, eles no saberiam o que se passava na corte. Wilson questiona mesmo a prpria
             possibilidade de concepes intelectuais, espirituais e ticas serem transmitidas de um
             povo a outro. Alm do mais, h uma diferena crucial entre o suposto monotesmo
             egpcio e os subsequentes: a falta absoluta de contedo tico do atonismo.
                  Seja como for, o monotesmo tomou forma entre os membros do Judasmo,
             do Cristianismo e do Islamismo. No obstante essa filiao comum que aproxima
             essas religies, a concepo de Deus de cada uma guarda algumas particularidades
             que merecem ateno.
                  Para os judeus, a pessoa divina  revestida de tal santidade que a simples pronncia
             de seu nome  desaconselhada. A divindade, dessa forma,  suprema e inominvel.
             Entre os muulmanos, o inverso acontece: uma das formas de adorao mais comum
              os fiis pronunciarem o nome de seu Deus  Al, termo resultante da juno das
             palavras al-illah ou "o deus"  quantas vezes for possvel ou necessrio. A prpria
             tradio islmica atribui a Al 99 nomes que, se recitados apropriadamente, conduziro
             o fiel ao reino dos cus. Na verdade, no so nomes, mas um conjunto de adjetivos da
             divindade. Michel Reeber esclarece sobre esse ponto, que, alm dos 99 nomes revelados
             aos homens, h um centsimo que s o prprio Deus conhece. J os cristos, como
             apontado, no adotam o monotesmo estrito e tiveram de elaborar consensos teolgicos
             para assentar o monotesmo em bases mais estveis. Assim, cunharam a concepo
             de Deus Uno-Trino a partir dos conclios de Niceia, Constantinopla e Calcednia,
             realizados entre 325 e 451 d.C. A concepo da unidade da Trindade se ops a heresias
             como o arianismo, para quem o Pai era maior do que o Filho e o Filho maior que o



             306
Esprito Santo, e o nestorianismo, que pregava a existncia de uma natureza puramente




                                                                                         Monotesmo
humana para o Cristo. O Cristianismo atual considera que, dotadas de uma nica
natureza divina, inteira e indivisvel, as trs pessoas da Trindade se compenetram e
agem sobre o mundo conforme uma nica vontade.
    Do que foi dito at o momento, podemos concluir que o monotesmo apresenta
particularidades interessantes. Ele no  visto da mesma maneira por cristos,
muulmanos ou judeus. Podemos mesmo considerar que o monotesmo em sua
forma mais absoluta existe apenas em sua forma islmica e judaica.
    Cabe, a ns, professores de Histria tomarmos cuidado para no nos perdermos
em sutilezas teolgicas ou discusses ideolgicas desnecessrias ao lidar com o tema
do monotesmo e das religies que o advogam.  preciso ainda certo esforo para
fugir ao aparente evolucionismo pregado pelo prprio monotesmo de que ele  um
progresso quando comparado ao politesmo. Para no cometermos anacronismos
grosseiros, nem postularmos a "necessidade histrica" do monotesmo, devemos
sempre buscar compreender tanto o monotesmo quanto o politesmo em seus
contextos histricos, observando que povos e culturas diferentes percebem de
maneiras diversas a divindade e a religiosidade.

Ver tAmbm
    Cristianismo; Islamismo; Judasmo; Politesmo; Religio.

sugestes de leiturA
    abd'allaH, Ali. Islam: a sntese do monotesmo. Recife: Centro Cultural Islmico
      do Recife, 1989.
    baHbout, Scialom. Judasmo: histria, cultura, preceitos e festas. Rio de Janeiro:
      Globo, 2002.
    cHalitta, Mansur. O Alcoro ao alcance de todos. Rio de Janeiro: aciGiS, s/d.
    demant, Peter. O mundo muulmano. So Paulo: Contexto, 2003.
    KHallidi, Tarif (org.). O Jesus muulmano: provrbios e histrias na literatura
     islmica. Rio de Janeiro: Imago, 2001.
    KnG, Hans. A Igreja Catlica. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.
    pinSKy, Jaime. As primeiras civilizaes. So Paulo: Contexto, 2001.
    pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
      Contexto, 2003.
    Siat, Jeannine. Religies monotestas: uma brevssima introduo. Rio de Janeiro:
      Jorge Zahar, 2000.



                                                                                 307
 n

nAo
         N
     Hoje, ao falarmos de Nao, normalmente estamos associando esse termo
a um contexto poltico, oriundo da formao dos Estados nacionais na Europa
Ocidental no incio da Idade Moderna. Assim sendo, o conceito mais corrente de
Nao  aquele em ntima afinidade com a ideia de Estado. Este, por sua vez,  o
organismo poltico-administrativo que ocupa um territrio determinado, sendo
dirigido por governo prprio. A Nao, em seu significado mais simples,  uma
comunidade humana, estabelecida neste determinado territrio, com unidade tnica,
histrica, lingustica, religiosa e/ou econmica. O Estado seria, nesse sentido, o setor
administrativo de uma Nao.
     Apesar desse conceito de Estado nacional ser muito empregado em cincias
humanas, essa no  a nica definio histrica para o termo Nao. Uma segunda
definio, muito utilizada por historiadores e antroplogos,  aquela relacionada 
designao de povos ou etnias africanas trazidas para o Brasil durante o trfico de
escravos entre os sculos xvi e xix. J os contemporneos da escravido e do trfico
de escravos costumavam empregar a palavra nao para designar os grupos tnicos
dos escravos no Brasil. No entanto, tal termo, ocidentalizante porque oriundo das
monarquias europeias s quais pertenciam os senhores de escravos, era empregado de
forma a caracterizar grupos que muitas vezes no existiam como povo ou etnia, a no
ser na viso do colonizador. Um exemplo disso so duas das mais conhecidas naes
de escravos no Brasil, a Cabinda e a Mina. Os escravos pertencentes a essas naes,
apesar de terem origens tnicas bem diversas, no pertencendo aos mesmos povos,
eram identificados de forma homognea como cabindas ou minas simplesmente
porque tinham sido traficados do porto de Cabinda, na atual Angola, e do porto de
So Jorge da Mina, em Gana.
     Para a historiadora Mary Karasch, a utilizao do termo nao no que se refere
aos escravos no Rio de Janeiro do sculo xix queria dizer no apenas a tribo ou o reino
ao qual pertenciam esses indivduos antes do trfico, mas tambm fazia referncia
a um novo grupo sociocultural criado na prpria cidade do Rio de Janeiro. Assim,
nesse sentido, a palavra nao ganhava um novo significado, o de definio de novas
culturas afro-americanas.


308
     No entanto, apesar da definio de nao como grupo social composto




                                                                                           Nao
por escravos, a ideia de nao predominante no Ocidente at hoje  aquela
eminentemente poltica. Construdo para a realidade europeia, o conceito poltico
de nao tambm foi empregado para aqueles territrios que se constituram da
colonizao europeia, como a Amrica. Nesse caso, as ideias de nao e Estado esto
to interligadas que deram origem a um outro conceito, o de Estado-nao. O Estado-
nao  uma realidade poltica, o cenrio em que a existncia social se desenrola.
Ele abarca a ideia de que determinada populao de um territrio seja reconhecida
como pertencente a um poder soberano, unificada por uma lngua e uma cultura
dominantes impostas a todos os habitantes do territrio e consideradas as nicas
nacionais. Isso a despeito de existirem ou no outras lnguas e outras culturas nas
fronteiras da Nao. Tal realidade poltica surgiu no Ocidente com a formao das
Naes europeias no incio da Idade Moderna. Estas se caracterizavam pela crescente
centralizao de poder e fortalecimento do Estado e do soberano, em contrapartida 
fragmentao de poder existente no sistema feudal. Uma centralizao traduzida, do
ponto de vista sociocultural, pelo nascimento de uma conscincia nacional, ou seja,
pelo nascimento da conscincia desenvolvida pela populao daqueles territrios de
que ela possua uma unidade cultural. Para que essa conscincia se desenvolvesse,
os Estados investiam na centralizao lingustica, elegendo uma lngua nacional
que todos deveriam necessariamente falar. Ao mesmo tempo, a Nao precisava se
definir no campo internacional e fazer ser reconhecida sua individualidade. Isso s
era possvel com a afirmao de soberania, ou seja, a total independncia da Nao
diante de quaisquer poderes externos a ela.
     Enquanto a ideia de Estado como unidade soberana surgiu na Idade Mdia
Ocidental, a ideia de nao comeou a se impor a partir do sculo xviii no Ocidente
e marcou toda a poltica moderna e contempornea. O Estado-nao como
conceito apareceu durante a Revoluo Inglesa, em 1690, e se expandiu para fora
do Ocidente durante a Idade Contempornea, para todos os pases que hoje so
internacionalmente reconhecidos.
     A Nao, assim como o Estado, so temas de estudo de muitos socilogos e cientistas
polticos. Desde pensadores absolutistas, como Thomas Hobbes, passando pelos
iluministas e liberais, como Adam Smith e John Locke, at os fundadores das cincias
sociais, como Max Weber, e intelectuais clssicos do sculo xx, como Norberto Bobbio.
     Max Weber, em trabalhos hoje considerados clssicos, escritos no incio do
sculo xx, afirmou que no podemos definir nao apenas como uma comunidade
lingustica, ou como um sentimento de pertencer a uma unidade territorial, pois
nem um nem outro desses aspectos so indispensveis. Para ele, a ideia de nao 
quase sempre uma construo elaborada por um grupo dominante que se atribui o
papel de unir territrio e Estado a partir de sua cultura especfica. Weber leva-nos a



                                                                                   309
        pensar, dessa forma, na artificialidade do conceito de nao, que nada tem de
Nao



        natural, mas  to somente uma construo histrica e, em geral, uma imposio
        de determinadas elites regionais a diversos territrios ou povos submetidos.
             Assim, ao analisarmos a ideia de nao, uma das caractersticas que mais nos
        chama a ateno  o carter histrico dessa ideia. Ao nos perguntarmos o que 
        uma nao, logo nos defrontamos com o fato de que tal ideia nem sempre existiu
        nem existiu em todos os lugares, mas teve um comeo e talvez tenha um final. 
        importante percebemos tambm o carter impositivo dessa construo discursiva e
        poltica, ou seja, toda nao e todo Estado-nao so fundamentados em uma cultura
        especfica de um grupo dominante que sob a justificativa de que seus valores so os
        verdadeiramente "nacionais", de que so os que melhor representam o Estado e o
        territrio ao qual pertencem, exclui todas as outras culturas tambm existentes em
        seu territrio. Tal vem acontecendo na histria desde a prpria origem do Estado
        nacional. Os exemplos so muitos: a Espanha, durante a Idade Moderna e quase todo
        o sculo xx, ao excluir as identidades de bascos, galegos e catales de sua definio
        de identidade nacional, afirmando a hegemonia da cultura e do idioma castelhanos
        como os legtimos valores nacionais do pas; Israel, hoje, ao negar aos palestinos uma
        srie de direitos de cidadania; os Estados Unidos, durante o sculo xix ao excluir
        indgenas e negros como membros da nao; o que se repete no Brasil nos sculos
        xix e xx. Os exemplos so muitos ao longo da histria.
             A construo da nacionalidade, em sua artificialidade, frequentemente recorre
        a elementos da tradio, em que o passado  mitificado, criando heris e momentos
        picos que so apresentados como definitivos na formao do povo e da nao. Obras
        de Literatura e Msica, e a construo de uma "Histria nacional", so algumas das
        formas de se construir uma nacionalidade. A identidade cultural  apresentada como
        natural e harmnica, quando nem sempre os valores desse povo tiveram tal coeso ou
        harmonia. No Brasil, por exemplo, obras de arte como os quadros de Pedro Amrico
        e Victor Meireles e smbolos nacionais como o Hino  Bandeira e o Hino Nacional
        foram elaborados para serem representativos de um passado mtico e glorioso que
        teria criado a chamada unidade nacional. O discurso que afirma a existncia dessa
        unidade pretende defender a homogeneidade cultural, que seria a existncia de um
        mesmo "carter nacional" por todo o territrio brasileiro, escamoteando, assim, as
        diferenas regionais. Da mesma forma, atualmente aspectos culturais especficos de
        cidades como o Rio de Janeiro e So Paulo so generalizados como cultura nacional
        e impostos como identidade a todo o territrio brasileiro.
             Para professores e professoras, o conhecimento acerca dos significados inerentes
        aos termos nao, Estado e soberania, entre outros conceitos polticos, funciona como
        ferramenta de cidadania. Apenas conhecendo a origem e o sentido de tais termos, os
        alunos podem criticar seu significado, percebendo que as culturas das minorias em


        310
uma nao no so necessariamente estrangeiras ou exticas, mas tm seu valor




                                                                                              Negro
diminudo pela imposio do discurso de determinados grupos humanos. Tal estudo
 essencial para a formao da conscincia do cidado, algo ainda muito debilitado no
Brasil e cuja responsabilidade cai, na maioria das vezes, sobre os professores de Histria.

Ver tAmbm
    Absolutismo; Cidadania; Discurso; Estado; Etnia; Etnocentrismo; Identidade;
    Imperialismo; Massa/Multido/Povo; Oligarquia; Poltica; Sociedade.

sugestes de leiturA
    barboSa, Alexandre de Freitas. O mundo globalizado: poltica, sociedade e
      economia. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    bobbio, Norberto. Estado, governo, sociedade: para uma teoria geral da poltica.
      So Paulo: Paz e Terra, 1999.
    ______. A teoria das formas de governo. Braslia: Ed. UnB, 1997.
    cHatelet, Franois; duHamel, Olivier; piSier-KoucHner, Evelyne. Histria das
      ideias polticas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
    GreSpan, Jorge. Revoluo Francesa e Iluminismo. So Paulo: Contexto, 2003.
    Junqueira, Mary A. Estados Unidos: a consolidao da nao. So Paulo:
      Contexto, 2001.
    KaraScH, Mary. A vida dos escravos no Rio de Janeiro 1808-1850. So Paulo:
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    Karnal, Leandro. Estados Unidos: a formao da nao. 2. ed. So Paulo:
      Contexto, 2003.
    marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria moderna atravs
      de textos. 10. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    martinS, Ana Luiza. O despertar da Repblica. So Paulo: Contexto, 2001.
    pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
      Contexto, 2003.
    Weber, Max. Economia e sociedade. Braslia: Ed. UnB, 1994, 2v.




negro
    Apesar de usualmente no receber tal tratamento, o termo negro tambm  um
conceito, uma construo discursiva com significados bem especficos em nossa
sociedade. Essa palavra, que designa originalmente cor, tem no mundo ocidental
uma conotao social ao se referir aos africanos e seus descendentes na Amrica e na
Europa. No Ocidente, tal conotao possui carter pejorativo e preconceituoso, mas
no deixa de ser uma construo histrica, oriunda da cristandade medieval e do


                                                                                      311
        Iluminismo. Porm, os afrodescendentes, ao se assumirem como negros, esto
Negro



        construindo uma viso positiva de si mesmos, reelaborando sua identidade, em
        uma atitude de resistncia cultural, diferente do sentido pejorativo que possa ter
        sido construdo pelo branco etnocntrico.
             No Brasil, negro  o afrodescendente e historicamente est associado  instituio
        da escravido. Esta, no entanto,  consideravelmente mais antiga e mais difundida que
        a colonizao da Amrica, e no esteve sempre associada aos africanos. A escravido,
        em diferentes formas e modelos, existiu da sia Menor antiga  Amrica pr-
        colombiana, sendo conhecida tambm na frica e na Europa clssica. Foi na Grcia
        clssica que a escravido se constituiu como modo de produo, sendo o Imprio
        Romano responsvel por difundir essa instituio em larga escala no Ocidente. Nesse
        perodo, todavia, os escravos tinham as mais diversas origens: eslavos, germnicos,
        gregos, iberos, celtas, egpcios, lbios e nmidas, por exemplo. A cor da pele no era
        um pr-requisito para ser escravo e, assim, a maior parte dos escravos romanos era
        realmente composta de povos de pele clara.
             Foi a escravido da Idade Moderna que se baseou totalmente no trfico de
        escravos africanos, estabelecendo os negros africanos como sinnimos de escravos
        no Ocidente. Essa escolha nada teve a ver com a cor da pele das pessoas traficadas,
        mas com razes estratgicas. Durante a Idade Mdia na Europa, a escravido no se
        extinguira de todo. Na Pennsula Ibrica islmica, por exemplo, muitas propriedades
        eram ainda cultivadas com mo de obra escrava. Mas, da mesma forma que o Imprio
        Romano obtinha seus escravos em suas fronteiras, razo pela qual em sua maior parte
        eles eram oriundos da Europa, os Estados islmicos da Pennsula Ibrica medieval
        tambm obtinham seus escravos nas fronteiras do Isl, o que inclua a frica. Com
        o estabelecimento dos Estados nacionais de Espanha e Portugal na Idade Moderna,
        o Isl continuou a ser visto como adversrio, e a frica, como regio islamizada,
        se encaixava no padro do "outro", do estranho, do inimigo. A expanso martima
        ibrica comeou pela frica islmica, sendo uma continuidade das lutas entre cristos
        e muulmanos da Idade Mdia.
             Muitos reinos africanos, por sua vez, Estados comerciais que h muito faziam
        comrcio com o Isl e a Europa mediterrnea, tinham entre seus produtos de
        exportao o brao escravo, oriundo dos prisioneiros de guerra. Assim, quando a
        colonizao da Amrica precisou do investimento escravista, Portugal e Espanha se
        voltaram para aquele que era ento o lugar mais bvio para a aquisio de escravos,
        a frica negra, pela tradio que j existia de comrcio com a regio.
             Nesse sentido, dificilmente podemos falar que a razo primeira da escravido
        africana se deveu  cor da pele de seus integrantes. No entanto, os sculos xvii, xviii



        312
e xix conheceram um trfico de escravos sem precedentes no mundo. O fluxo de




                                                                                            Negro
pessoas sequestradas na frica e trazidas para a Amrica era indito e gigantesco.
Logo, o africano passou a ser sinnimo de escravo na Amrica e na Europa, e a
associao entre a cor da pele escura e a escravido passou a ser constante.
     Mas por que a cor da pele do africano se tornou uma caracterstica to definidora
e negativa para o Ocidente? Essa identificao negativa com a pele escura talvez se deva
 dicotomia que existe na cultura ocidental entre a cor branca, que significa o bem, a
beleza, a pureza, e a cor preta, que representa o mal, a morte, o medo. Para o pensamento
cristo, o preto era a cor do demnio, atribudo a acontecimentos nefastos como a "peste
negra" e a "magia negra". A cor negra tinha, assim, conotao sinistra para o Ocidente,
que se combinou  condio de escravos dos africanos encontrados na Amrica e na
Europa para construir um conceito pejorativo acerca do negro como indivduo.
     Na Amrica colonial, os africanos e afrodescendentes foram definidos
genericamente como pretos, negros, sem uma sria diferenciao entre as diversas
etnias das quais os escravos eram oriundos. O preconceito contra o escravo foi
acrescido pelo imaginrio pejorativo sobre a cor negra e logo se criou um preconceito
acerca de todos os afrodescendentes caracterizados como negros, mesmo aps a
abolio da escravido. Nesse perodo, em fins do sculo xix, o Brasil queria se
modernizar aos olhos da Europa. Para isso, no bastava acabar com a escravido, mas
era preciso se livrar do estigma de pas mestio, pas negro. Um estigma ainda mais
forte porque o evolucionismo, predominante nas Naes latino-americanas desde
o incio do sculo xix, tinha gerado uma srie de teorias racialistas, ou seja, teorias
acerca da diferenciao dos seres humanos em vrias raas. No fim do sculo xix,
perodo em que se deu a abolio da escravido no Brasil, essas teorias racialistas se
transformaram em teorias eugnicas, em filosofias que pregavam a superioridade de
umas raas sobre outras. Tais teorias consideravam a raa negra inferior e usavam a
cincia para comprovar argumentos de ordem puramente poltica.
     A noo de negro no Brasil foi construda, assim, no apenas a partir da
escravido, mas tambm a partir das ideias discriminatrias das teorias que se
consideravam cientficas na passagem do sculo xix para o xx. Quando falamos em
negro, como conceito que engloba genericamente todos os afrodescendentes de
pele escura, estamos usando um conceito recente, que no existia durante o perodo
escravista do Brasil. Com a abolio, negro passou a ser um conceito que classificava
pela cor, diferente do perodo escravista, em que se classificava pela origem ou
condio jurdica. Caram as diferenas tnicas, lingusticas e culturais, e todos os
descendentes de africanos passaram a ser, ento, genericamente considerados negros,
e a cor da pele se tornou um distintivo social inferiorizante.


                                                                                    313
             Nesse sentido, mesmo ao falarmos criticamente de preconceito racial estamos
Negro



        perpetuando dois conceitos, o de negro e o de raa. Isso se d porque a expresso
        preconceito racial considera que negro  uma raa especfica da humanidade. Hoje os
        cientistas, seja das cincias biolgicas ou das cincias sociais, afirmam que a noo
        de raa  uma construo conceitual de pouca utilizao, ou seja, raa no existe.
        No h uma raa negra, nem no sentido biolgico, nem do ponto de vista cultural
        e geogrfico, pois os africanos no se designam como negros, mas a partir de suas
        etnias e identidades culturais prprias. Nesse sentido, o conceito de negro s existe
        do ponto de vista social, pois tanto a sociedade brasileira denomina um determinado
        grupo de seus membros como negros quanto muitos integrantes desse mesmo grupo
        se autoidentificam como negros, inclusive criando traos culturais que consideram
        prprios e falando de uma cultura negra brasileira especfica, uma identidade negra
        especfica, que conceituam como negritude.
             No entanto,  muitas vezes problemtico distinguirmos no Brasil uma cultura
        especfica dos negros. No podemos confundir negritude com a herana cultural
        africana, que fundamenta historicamente vrias instituies culturais brasileiras. A
        negritude hoje no se alimenta s de heranas culturais africanas, assim como muito
        da cultura dos "brancos" possui fortes aspectos africanos. Alm disso, a prpria
        identificao do negro  algo difcil no Brasil. O que parece bvio em um pas como
        os Estados Unidos, onde no houve miscigenao significativa, e a identificao
        pela cor da pele separa claramente os descendentes de europeus dos descendentes
        de africanos, no  to fcil em um pas mestio como o Brasil, onde a grande
        maioria dos prprios africanos trazidos para c tambm se miscigenou. Assim, a
        identidade negra termina por pertencer queles afrodescendentes de todas as cores
        que se afirmam negros. E, dessa forma, ser negro no Brasil passa, ento, por uma
        das duas coisas: ser designado como tal pela sociedade ou se autoidentificar como
        tal. Devido ao preconceito, durante todo o sculo xx o nmero de pessoas que se
        designavam negras sempre foi menor do que o nmero de pessoas designadas como
        tal pela sociedade. No entanto, nas ltimas dcadas do sculo xx um sentimento
        de afirmao, derivado do combate ao preconceito "racial", fez crescer o nmero
        de pessoas que se afirmam negras. Nesse sentido podemos observar que, apesar da
        rejeio cientfica ao conceito de raa derrubar a crena na existncia de uma raa
        negra no mundo, no Brasil, como em outros lugares da Amrica, negro passou a
        ser uma construo social, um conceito de muitos significados.
             Para o professor de Histria, tal debate  imprescindvel, pois a minoria negra
        no Brasil (a noo de minoria  aqui compreendida como aqueles grupos alijados
        do poder, sendo assim um termo que no tem conotao realmente numrica) 
        uma das que mais se autoafirma, alm de ser uma das mais importantes do ponto


        314
de vista social e cultural e uma das que mais sofre com o preconceito e a excluso




                                                                                          Negro
social. E para o profissional de ensino, que tem um comprometimento com o fim
da excluso social e com a deferncia pelas identidades minoritrias, o respeito pela
crescente afirmao da negritude como identidade cultural passa pela compreenso
histrica no apenas da escravido, mas do prprio significado de "ser negro". Traar
em sala de aula a origem do conceito de negro  uma forma de perceber como a
prpria discriminao  sem sentido,  mais eficaz do que simplesmente dizer aos
alunos que todos somos iguais, quando, na verdade, todo nosso arcabouo mental
continua a considerar essa "raa" inferior. Avaliar todos os significados do conceito
, na verdade, perceber que no h fronteiras entre as cores e falar em negro no Brasil
 uma construo to artificial quanto falar de branco.

Ver tAmbm
    Candombl; Colonizao; Escravido; Etnia; Etnocentrismo; Identidade; ndio;
    Miscigenao; Raa.

sugestes de leiturA
    daviS, David Brown. O problema da escravido na cultura ocidental. Rio de
     Janeiro: Civilizao Brasileira, 2001.
    maeStri, Mrio. Uma histria do Brasil colnia. 3. ed. So Paulo: Contexto, 2002.
    ______. Uma histria do Brasil imprio. 3. ed. So Paulo: Contexto, 2002.
    mintz, Sidney; price, Richard. O nascimento da cultura afro-americana: uma
     perspectiva antropolgica. Rio de Janeiro: Pallas, 2003.
    neveS, Maria de Ftima Rodrigues das. Documentos sobre a escravido no Brasil.
     3. ed. So Paulo: Contexto, 2002.
    pinSKy, Jaime. A escravido no Brasil. So Paulo: Contexto, 1993.
    ______. 12 faces do preconceito. 7. ed. So Paulo: Contexto, 2004.
    pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
      Contexto, 2003.
    ______; ______ (orgs.). Faces do fanatismo. So Paulo: Contexto, 2004.
    SantoS, Giselda Aparecida dos. A inveno do ser negro: um percurso das ideias
      que naturalizaram a inferioridade dos negros. So Paulo/Rio de Janeiro: Educ/
      Fapesp/Pallas, 2002.
    ScHWarcz, Lilia. O espetculo das raas. So Paulo: Companhia das Letras, 1993.



                                                                                  315
 o
         O
oligArquiA
     A palavra oligarquia indica, em primeiro lugar, uma forma de governo. O termo
vem do grego e significa o governo de poucos. Em sua obra A Repblica, Plato definiu a
oligarquia como uma forma de governo que se opunha ao bom governo. A oligarquia,
era para Plato, o governo dos ricos, vidos por poder e dinheiro. Mas, dessa definio,
a palavra foi gradativamente ganhando conotao mais social e passou a designar
tambm um grupo, uma elite detentora do poder poltico e econmico. E  com esse
significado que vemos o conceito ser mais empregado em nossos dias.
     Para Plato, a aristocracia seria a primeira experincia histrica de governo do
Estado, na qual experincia e maturidade seriam requisitos. Depois viria a oligarquia,
o governo de um pequeno grupo escolhido por sua riqueza, que governaria a partir
da hostilidade, buscando multiplicar sua fortuna  custa do bem comum. A oligarquia
se degradaria, por sua vez, na democracia, em que haveria igualdade entre os homens,
mas tambm insegurana pblica. O ltimo estgio de degradao do Estado seria
a tirania, na qual um tirano governaria se aproveitando da insatisfao dos ricos,
da poca da oligarquia e dos pobres da oligarquia e da democracia. Para ele, todos
esses estgios seriam formas imperfeitas de governo. Ideal seria o governo de um
rei-filfoso, fundamentado no exerccio da razo.
     Tambm Aristteles definiu a oligarquia como uma das trs formas de governo
possveis, com a monarquia  o governo de um  e a democracia  o governo de
muitos. J Maquiavel, no sculo xv, defendeu que o melhor tipo de governo era
o misto, pois tanto a oligarquia e a tirania quanto a anarquia eram formas de
degenerao do Estado. Assim, a ideia de oligarquia, desde Plato, tem significado
negativo, indicando um governo de uns poucos, que sucumbem  corrupo e no
servem ao bem geral.
     Uma oligarquia  um grupo social, um grupo de elite, e, logo, o governo
oligrquico  tambm um governo de elite. Assim, para a melhor entendimento do
papel do conceito de oligarquia na histria, temos de compreend-lo em conexo
com o conceito de elite. Tal noo vem da Sociologia, que a define como um conjunto
de grupos sociais que dominam a sociedade por meio do poder econmico, cultural



316
ou poltico. Para a Histria, as elites sempre estiveram em pauta de uma forma ou




                                                                                           Oligarquia
de outra, na figura dos grandes homens, por exemplo. Mas s a partir de meados
do sculo xx, comearam a ser vistas como grupo social na definio sociolgica e,
como tal, estudadas em seus perodos histricos especficos.
     No Brasil, h bastante tempo a historiografia tem se voltado para o estudo das
elites em geral e das oligarquias especificamente. Alguns trabalhos clssicos foram
escritos sobre o assunto, em especial para os sculos xix e xx. Esse  o caso da obra de
Jos Murilo de Carvalho, que estuda a formao das elites polticas no Brasil imperial.
Em uma das obras mais importantes da historiografia brasileira, A construo da
ordem, Murilo de Carvalho busca resposta para por que a independncia do Brasil
manteve o novo Estado nacional unido, ao passo que as antigas colnias da Amrica
hispnica se fragmentaram em muitas Naes diferentes, se ambas as regies tinham
um passado de colonizao comum? E para responder a essa questo, Carvalho
elabora um estudo das elites polticas na passagem da colnia para o Imprio, pois,
para ele, a deciso de constituir uma monarquia, e no uma Repblica, no Brasil
foi uma deciso poltica e se explica pela formao da elite poltica brasileira, bem
diferenciada das elites polticas hispnicas. Segundo Carvalho, um grupo de elite se
distingue tanto da massa quanto de outros grupos de elite, e tambm  definida pelo
contexto histrico em que vive, o que nos impede de utiliz-lo como explicao nica
para as transformaes sociais. Para o autor, a caracterstica mais marcante da elite
poltica que fez a independncia do Brasil, e em contraste com as elites hispnicas,
era sua homogeneidade ideolgica, pois esse grupo era composto por indivduos
que, formados nas mesmas instituies (a Universidade de Coimbra, por exemplo),
pensavam basicamente da mesma forma.
     Para elaborar seu estudo, Murilo de Carvalho usou tericos clssicos das cincias
sociais, como Mosca e Pareto. Tericos que estudaram as elites em sua vinculao
com a sociedade. Uma elite dirigente, nessa perspectiva, s seria dominante na
sociedade enquanto possusse alguma forma de fora social, nas palavras de Mosca,
que lhe desse controle sobre a sociedade. Essa fora social poderia ser dinheiro,
terras, religio etc. Esses pensadores se preocupavam, em primeiro lugar, com a
relao de influncia e dependncia mtua entre elites e estrutura social, no apenas
afirmando que a elite domina a sociedade, mas que tambm  determinada por ela.
A partir da, Carvalho conclui que cada contexto histrico gera elites prprias. No
caso do Ocidente, as elites polticas contemporneas se formaram na constituio do
Estado nacional na Europa moderna e esto vinculadas  formao das instituies
nesse Estado nacional, como o parlamento, a burocracia. Como em cada Estado as
instituies se formaram de maneira particular, as elites tiveram tambm consti-
tuies prprias de cada contexto histrico.


                                                                                   317
                  Outra rea de estudos clssicos sobre as elites brasileiras, e sobre a oligarquia
Oligarquia



             propriamente dita, so os trabalhos sobre a Repblica Velha e o coronelismo. Entre os
             estudos mais conhecidos sobre o tema esto a obra Coronelismo, enxada e voto, de Victor
             Nunes Leal, e os trabalhos de Maria Isaura Queiroz, O coronelismo numa interpretao
             sociolgica, e, de Maria Lourdes Janotti, O coronelismo: uma poltica de compromissos.
                  Para Janotti, apesar da constituio de 1891 ter consolidado o federalismo no
             Brasil, o que deveria permitir a descentralizao administrativa e a maior autonomia
             de Estados e municpios perante o governo central, esse princpio no foi muito
             bem-sucedido devido ao poder das oligarquias brasileiras. A Repblica Velha 
             conhecida por ter sido dominada por uma poltica de compromissos entre diferentes
             oligarquias regionais, que faziam acordos para manter o poder. Essa poltica das
             oligarquias controlava principalmente os perodos eleitorais e distribua o poder
             regionalmente de acordo com os grupos oligrquicos aliados.
                  O federalismo da constituio de 1891 tinha como meta derrubar a excessiva
             centralizao de poder que havia imperado no Segundo Reinado e distribuir
             melhor o poder regionalmente. Mas isso s teria sucesso, diz Janotti, se as
             estruturas socioeconmicas tivessem sido alteradas, ou seja, se os senhores rurais
             que at ento controlavam a poltica brasileira e que constituam as oligarquias
             tivessem sido alijados do poder. Como isso no aconteceu, o Brasil continuou a ser
             predominantemente rural, e as oligarquias rurais continuaram no mando, apenas
             tendo agora que dividir espao com novas oligarquias regionais, como a paulista,
             composta de banqueiros e comerciantes, alm dos proprietrios de terra.
                  Essa aliana entre diferentes oligarquias regionais constituiu a chamada
             poltica dos governadores, na qual as oligarquias controlavam determinados Estados
             e definiam o resultado das urnas por meio do clientelismo e do voto de cabresto.
             Quem compunha essas oligarquias rurais eram os famosos Coronis, na maioria das
             vezes proprietrios de latifndios, e sempre importantes chefes polticos. O poder
             poltico desses coronis vinha de sua enorme influncia sobre a populao de sua
             regio. L ele controlava o resultado das eleies, pois os moradores votavam apenas
             em quem ele recomendava. Assim, o Coronel podia barganhar com os polticos no
             poder influncia em troca de votos.
                  Em muitas regies do Brasil, como o serto nordestino, o poder das elites
             polticas locais ainda  grande na definio do resultado das eleies. Razo porque
              vital importncia que os professores de Histria conheam e trabalhem com
             esses conceitos e contextos. Alm disso, muitos so os trabalhos que abordam as
             oligarquias na Amrica Latina e no Brasil, principalmente na fase da formao dos
             Estados nacionais. Mas poucos definem o termo. Outra razo pela qual devemos estar
             atentos a esses conceitos. Por outro lado, muitas vezes a historiografia est saturada de
             determinados vcios, como o que aponta o coronelismo como caracterstica intrnseca
             do Nordeste e das regies ruralizadas, esquecendo que as oligarquias esto presentes


             318
em diferentes sociedades, como nos mostra a prpria definio do termo, bem como




                                                                                              Orientalismo
que a prpria poltica de coronis faz parte da tradio poltica do Estado brasileiro
como um todo. No devemos esquecer que os acordos polticos dos oligarcas rurais
so feitos com os polticos urbanos tambm, alm do fato de que muitas oligarquias
histricas, como a paulista, tm fortes laos com a economia e a sociedade citadinas.
     Assim, precisamos estar atentos para analisarmos de forma crtica os discursos
que nos so passados pela prpria historiografia, levando sempre essas discusses para
a sala de aula, que permitam aos alunos perceberem que a Histria no  algo fechado
e pr-construdo a qual devem aceitar e aprender da forma que lhes  transmitida.
Ao contrrio, a Histria se constri no momento em que a lemos e estudamos e os
conceitos e contextos no esto todos definidos; eles trazem sempre contradies e
questionamentos.

Ver tAmbm
    Burguesia; Cidadania; Classe Social; Democracia; Estado; Latifndio/Propriedade;
    Massa/Multido/Povo; Nao; Poltica; Sociedade.

sugestes de leiturA
    carvalHo, Jos Murilo de. A construo da ordem e o teatro das sombras. Rio de
     Janeiro: Civilizao Brasileira, 2003.
    edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
      entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto. 2003.
    Janotti, Maria Lourdes. O coronelismo: uma poltica de compromissos. So
      Paulo: Brasiliense, 1987.
    maeStri, Mrio. Uma histria do Brasil imprio. 3. ed. So Paulo: Contexto, 2002.
    martinS, Ana Luiza. O despertar da Repblica. So Paulo: Contexto, 2001.
    mondin, Battista. Curso de filosofia: os filsofos do Ocidente. So Paulo: Paulinas,
     1982, v. I.
    pinSKy, Jaime (org.). Histria da Amrica atravs de textos. So Paulo: Contexto, 1994.




orientAlismo
     Com o atual processo de globalizao e a constituio de um sistema de valores
que se impe cada vez a mais lugares do mundo, torna-se muitas vezes necessrio
recorrermos s expresses sociedade ocidental, cultura ocidental, para nos referirmos
a instituies e conceitos compartilhados por diferentes sociedades, o que tambm
se d com referncia a conceitos histricos de perodos passados, que no apenas


                                                                                      319
               eram compartilhados pela Europa ocidental, como ainda influem no que chamamos
Orientalismo



               de cultura ocidental atual. Tal situao nos leva inevitavelmente ao conceito de
               Ocidente, que, como querem alguns, como Samuel Hunttington,  uma civilizao.
               No  sem ressalvas que utilizamos tal conceito, criticado por muitos, ainda mais
               quando autores como Hunttington  consideravelmente etnocntricos  o utilizam
               com um significado carregado de superioridade cultural.
                    De qualquer forma, o Ocidente existe, se no como civilizao, ou seja, como
               realidade social e poltica concreta, ao menos como ideia, como discurso. Muitos
               so os que acreditam na existncia de um Ocidente, e essa crena est baseada em
               uma srie de caractersticas que se acredita que o Ocidente possui. Mas, para que
               exista um Ocidente, mesmo que na imaginao de seus integrantes,  preciso que
               exista tambm um Oriente.
                    O Oriente  um conceito, uma construo discursiva, uma ideia, elaborada pelo
               pensamento europeu desde a Idade Mdia, mas que ganhou forma com o imperialismo
               francs e ingls no sculo xix. Dessa ideia de Oriente nasceu o orientalismo como campo
               de estudo que engloba um conjunto de conhecimentos e de disciplinas especializadas
               em estudar o Oriente. O Oriente (e o orientalismo, nesse sentido)  uma inveno do
               Ocidente, e no existe como civilizao nem mesmo como regio.
                    O grande responsvel pela percepo de que os estudos orientalistas, e o prprio
               conceito de Oriente, so invenes ocidentais foi Edward Said, intelectual palestino,
               crtico literrio, pensador do imperialismo e da imposio cultural do Ocidente
               sobre o Oriente. Sua obra clssica, Orientalismo, nos mostra como o imperialismo
               francs e ingls do sculo xix construiu imagens sobre uma regio ao mesmo tempo
               mtica e selvagem, que vigora at hoje, e definiu o que conhecemos como Oriente.
                    O que a Europa chama de Oriente era a regio colonial adjacente  Europa, rica
               em civilizaes que os europeus consideravam seu prprio passado. Era a regio
               hoje identificada como Oriente Mdio, o Egito e o mundo rabe.
                    Mas o que  o orientalismo? Said afirma que pode haver vrias interpretaes
               para essa palavra: orientalismo  uma designao acadmica, ou seja, um conjunto
               de disciplinas que se prope a estudar o Oriente. Mas o orientalismo tambm 
               uma forma de pensamento, uma tradio na qual se baseiam escritores e artistas,
               um complexo de determinadas ideias que se acreditam constituir o Oriente. E, em
               terceiro lugar, o orientalismo  uma forma de negociar com o Oriente, uma forma
               de dominao tpica do imperialismo do sculo xix. O orientalismo que Said estudou
               para o sculo xix, mas que acreditava ter grande influncia no pensamento ocidental
               do sculo xx, era em sua origem francs e ingls, cujo marco inicial foi a expedio



               320
de Napoleo ao Egito. Expedio conquistadora que no se ateve  conquista poltica




                                                                                           Orientalismo
e territorial, pois Napoleo quis tambm se apossar do passado, da histria do Egito.
     Algumas das principais colees arqueolgicas sobre as civilizaes orientais
antigas encontram-se hoje em grandes museus da Europa, como o Louvre e o
Museu Britnico. Tais museus se tornaram grandiosos justamente durante o auge
do imperialismo europeu no sculo xix, e no foi coincidncia o interesse dos
conquistadores em escavar cidades na Mesopotmia e no Egito, por exemplo. A
Europa ocidental criou, ento, uma cronologia para a Histria que justificava a
si prpria e sua dominao sobre o mundo (essa mesma periodizao que ainda
persiste em muitos livros didticos adotados no Brasil) a qual dividiu a Histria
em Pr-histria, Histria Antiga, Medieval, Moderna e Contempornea. Nessa
periodizao, as sociedades e as civilizaes abordadas foram escolhidas entre aquelas
que melhor representavam o passado da prpria Europa ocidental e a formao
de suas instituies, consideradas superiores. Nesse contexto, muitas outras foram
desprezadas ou esquecidas, como as civilizaes da frica Negra, da Amrica pr-
colombiana e da sia. O antigo Crescente Frtil, o atual Oriente Mdio, entretanto,
permaneceu como bero da civilizao, entendida como a Europa e suas potncias
imperialistas. Essa foi a razo pela qual tantas expedies conquistadoras no sculo
xix e incio do xx buscavam to desesperadamente artefatos arqueolgicos no

Oriente Mdio: a Europa imperialista, na verdade, se apossou mesmo da Histria e
do passado dessa regio como seu, sem no entanto conectar esse passado "glorioso"
aos povos que habitavam a regio no sculo xix.
     Desde esse perodo, a relao entre o Oriente e o Ocidente passou a ser de
dominao, e a construo da ideia de Oriente  uma ferramenta nessa dominao.
O conceito de Oriente poucas vezes levou em conta a realidade histrica, poltica e
social dos pases que compunham essa regio, mas criou em seu lugar um conjunto
de imagens estereotipadas para representar o que considerava ser a cultura oriental
 ou seja, a cultura do Oriente Mdio e do mundo rabe: o Oriente era entendido
como sensual com seus harns, desptico, violento e primitivo.
     O orientalismo oitocentista foi responsvel tanto por obras eruditas sobre
costumes rabes e egpcios quanto por uma enxurrada de literatura popular na
Frana, Inglaterra e Alemanha sobre os esteretipos orientais. No incio do sculo xx, a
descoberta da tumba de Tutancamon no Egito, por exemplo, fascinou o pblico e gerou
uma onda orientalista de moda, mveis etc.Vrias verses d'As mil e uma noites tambm
datam desse perodo, tanto a purista verso do erudito e explorador Richard Burton
quanto a conservadora e pudica verso de Antoine Galland. O sucesso d'As mil e uma


                                                                                   321
               noites no sculo xix se deveu  popularizao do discurso orientalista que enfatizava o
Orientalismo



               Oriente sensual e mgico. Mas escritores como Flaubert e Michelet, e muitos pintores,
               tambm se debruaram sobre os esteretipos do Oriente.
                    O Oriente  um conjunto de ideias, vises, tipos humanos, representaes,
               dominado por preconceitos, construdos pelo Ocidente como forma de se identificar
               como superior. Ao considerar o Oriente primitivo, violento, desptico, o Ocidente, ao
               mesmo tempo, est se considerando avanado, democrtico, esclarecido. O Ocidente
               se constri assim a partir da Europa, e sobre um discurso que identifica o Oriente
               como o Outro, como a oposio, como o que o Ocidente no deveria ser.
                    O principal no trabalho de Said, nesse sentido,  trazer  tona a ideia de que
               o Oriente  o espelho do Ocidente e de que o Ocidente construiu o Oriente como
               uma forma de construir tambm sua prpria identidade. Assim, sem Oriente no h
               Ocidente, e o discurso sobre o Oriente se caracteriza como progressista e etnocntrico.
                    O orientalismo do sculo xix deixou grande herana nos sculos xx e xxi, a
               maior das quais foi o conceito de Ocidente. Pois se hoje o Oriente no  mais aquele
               bloco homogneo e, ao falarmos de Oriente, estamos falando muitas vezes do Japo
               e da China (estes, o Oriente para os eua desde o incio do sculo xx), o Ocidente
               continua a ser uma realidade que se acredita superior ao restante do mundo. Alm
               disso, o Oriente Mdio e o Extremo Oriente so ainda estranhos para ns, ainda
               so o outro, principalmente o Isl.
                    Entender o Oriente e o Ocidente como construes histricas, como discursos,
               ajuda-nos a retirar desses conceitos os esteretipos neles inseridos. Alm disso, a
               construo do Oriente pela Europa, primeiro como ideia e depois como realidade
               poltica baseada na conquista e na colonizao, encontra paralelo na prpria
               construo da Amrica, que, para muitos autores, como Edmund O'Gorman, foi
               tambm uma inveno discursiva, uma construo imaginria, originria da juno
               de diversas expectativas e medos da Europa. Lembremos, ainda, que o chamado
               Oriente nunca foi passivo a essa construo e at hoje resiste  dominao cultural do
               Ocidente. Alm disso, as grandes ondas migratrias de chineses, japoneses, rabes e
               turcos, entre outros grupos tnicos, para a Amrica Latina, Europa e eua, trouxeram
               novas vises sobre o Oriente para o prprio corao do Ocidente.
                    Trabalhar com a construo de ideias nunca  fcil, ainda mais no ensino
               fundamental e mdio, mas  uma necessidade e uma realidade atual, em que muitas
               teorias esto cada vez mais explicando o mundo a partir do estudo dos discursos,
               do imaginrio, das mentalidades. De qualquer forma, ainda que inapropriada por
               sua complexidade para o trabalho com o ensino fundamental, a obra de Said 
               hoje obrigatria para os professores de Histria, por trazer toda uma nova viso
               interpretativa, toda uma nova forma de ver e discutir as velhas formas de dominao.


               322
E  possvel adaptar seu contedo para a sala de aula, discutindo filmes que trazem o




                                                                                        Orientalismo
esteretipo do Oriente, tanto no caso do Oriente Mdio com seus harns, e agora com
seus terroristas, quanto no caso do Extremo Oriente com seus samurais e suas gueixas.

Ver tAmbm
    Discurso; Globalizao; Helenismo; Identidade; Imaginrio; Imperialismo; Isl;
    Relativismo Cultural; Romantismo.

sugestes de leiturA
    demant, Peter. O mundo muulmano. So Paulo: Contexto, 2003.
    O'Gorman, Edmundo. A inveno da Amrica. So Paulo: Edusp, 1992.
    peStana, Fbio. No tempo das especiarias. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2004.
    Said, Edward. Orientalismo: o Oriente como inveno do Ocidente. So Paulo:
      Companhia das Letras, 1990.
    ______. Cultura e imperialismo. So Paulo: Companhia das Letras, 1995.
    taHan, Malba. Apresentao. As mil e uma noites. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
      Verso de Antoine Galland.




                                                                                  323
 p
         P
pAtrimnio Histrico
     No incio do sculo xxi, um dos campos de trabalho para os historiadores que
mais crescem no Brasil  o de patrimnio histrico. No entanto, a maioria dos cursos
de graduao em Histria no possui ainda em seu currculo disciplinas suficientes
para contemplar tal crescimento. Em geral tm sido os cursos de especializao, assim
como as graduaes e os cursos tcnicos de turismo, que respondem  demanda
por profissionais que trabalhem com o patrimnio histrico e cultural brasileiro.
     A noo de patrimnio histrico tradicionalmente se refere  herana
composta por um complexo de bens histricos. Mas, apesar de ainda pouco
conhecido mesmo pelos egressos dos cursos de Histria do Brasil, o fato  que os
especialistas vm continuamente substituindo o conceito de patrimnio histrico
pela expresso patrimnio cultural. Essa noo, por sua vez,  mais ampla,
abarcando no s a herana histrica mas tambm a ecolgica de uma regio.
Assim, em ltima instncia, podemos definir patrimnio cultural (incluindo nessa
ideia a de patrimnio histrico) como o complexo de monumentos, conjuntos
arquitetnicos, stios histricos e parques nacionais de determinado pas ou
regio que possui valor histrico e artstico e compem um determinado entorno
ambiental de valor patrimonial. Em sua origem, todavia, o patrimnio tem sentido
jurdico bastante restrito, sendo entendido como um conjunto de bens suscetveis
de apreciao econmica.
     A definio atual de patrimnio cultural se originou no documento elaborado
pela Conveno sobre Proteo do Patrimnio Mundial Cultural e Natural, realizada
em 1972 e promovida pela Organizao das Naes Unidas para a Educao,
Cincia e Cultura (Unesco). Tal documento detalhou o patrimnio cultural
como monumentos, ou seja, as obras arquitetnicas, de esculturas ou de pinturas
monumentais, assim como os elementos estruturais de carter arqueolgico que
tenham valor universal do ponto de vista da Histria, da Arte e das cincias. Durante
a Conveno de Patrimnio Cultural, a Unesco elaborou uma lista dos Patrimnios
da Humanidade, cujo objetivo era chamar a ateno mundial para identificar as
propriedades de valor cultural e natural universais. Os pases que assinaram a



324
Conveno tm obrigao de proteger os locais designados como patrimnio da




                                                                                            Patrimnio Histrico
humanidade e, apesar dessa obrigao ser financeiramente custosa para eles, muitos
dos quais no possuem recursos para implementar as demandas da Conveno,
das 192 naes do mundo, 174 j ratificaram o acordo. O motivo desse interesse
poltico  o fato de que o reconhecimento da Unesco acerca da preservao do
patrimnio cultural traz para cada pas no apenas prestgio internacional, mas
desenvolvimento turstico. A Unesco reconhece stios culturais, stios naturais e
stios mistos, espalhados pelos cinco continentes.
     Essa poltica mundial de preservao despertou o interesse crescente no
patrimnio cultural na maioria dos pases. Interesse que se reflete no Brasil, que tem
dezesseis stios de patrimnios da humanidade reconhecidos pela Unesco: das cidades
histricas de Ouro Preto, Olinda e Salvador aos parques nacionais de Iguau e Pantanal.
      interessante observarmos que o conceito de patrimnio cultural no se
restringe  produo material humana, mas abrange tambm a produo emocional
e intelectual. Ou seja, tudo o que permite ao homem conhecer a si mesmo e ao
mundo que o rodeia pode ser chamado de bem cultural. Nesse sentido, recentemente
a Unesco reconheceu a arte grfica e oral do povo wajpis, tribo indgena do Amap,
como obra-prima do Patrimnio Oral e Intangvel da Humanidade, fugindo assim
ao padro de que apenas o monumental vale a pena ser rememorado pela Histria.
Existem, na verdade, quatro categorias de bens patrimoniais: os bens naturais, os
bens materiais, os bens intelectuais (que so o conjunto do conhecimento humano)
e os bens emocionais, em que so inseridas as manifestaes folclricas, religiosas e
artsticas de cada povo.
     A crescente importncia do patrimnio cultural tem levado  produo de ampla
literatura sobre o tema, inclusive no Brasil. Diversos estudos vm sendo elaborados
sobre os fundamentos e os significados do patrimnio cultural em diferentes
sociedades. Alm disso, no caso especfico do Brasil, a Revista do Patrimnio (publicao
peridica do antigo Servio do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional - SpHan,
hoje ipHan), tem contribudo significativamente para o desenvolvimento dos estudos
na rea. Apesar de ser um peridico fundado em 1937, tal revista vem se renovando
e incorporando novos temas e outras perspectivas de pesquisa sobre patrimnio,
no apenas a esttica e a histrica, mas tambm abordagens sociolgicas e polticas.
     A prpria criao do SpHan em 1937 demonstrou que j naquele momento havia
preocupao do Estado brasileiro em evitar a perda dos fragmentos materiais do
passado que chamamos de monumentos. Nesse perodo, a preocupao do Estado
com essa preservao derivava de uma preocupao maior, a de criar uma identidade
nacional, ou de recri-la, visto que esse  um momento de mudana poltica, com
o governo de Getlio Vargas e o Estado Novo que se inquieta em construir novas


                                                                                    325
                       formas de identidade nacional, mais modernas. Essa  a razo pela qual intelectuais
Patrimnio Histrico



                       modernistas como Mrio de Andrade estavam conectados ao projeto. Surgiu da
                       o processo de tombamento, ou seja, de delimitao de determinados espaos como
                       monumentos histricos, logo protegidos pela lei.
                            A participao de intelectuais e artista, como Mrio de Andrade e Lcio Costa,
                       permitiu ao novo rgo entrar em sintonia com a interpretao modernista da
                       cultura brasileira e incorporar uma noo mais abrangente de patrimnio, que
                       abarcava obras de arte, fotografias, artefatos indgenas, distanciando-se da perspectiva
                       monumentalista e sacralizadora do patrimnio. Procuravam, assim, democratizar o
                       patrimnio nacional, oficializando como Patrimnio Histrico e Artstico Nacional
                       a produo cultural dos contextos populares e das etnias afro-brasileira e indgena.
                       No entanto, apesar de o Estado ter leis de proteo desde 1937, a sociedade brasileira
                       pouco se interessou por elas ao longo do sculo xx. S recentemente esse interesse
                       comeou a ser desperto, motivado principalmente pelo turismo cultural.
                            Na Constituio Brasileira de 1988, os termos de regulamentao do servio do
                       patrimnio cultural, atualmente centralizados no Instituto do Patrimnio Histrico
                       e Artstico Nacional (ipHan), determinam que tal servio objetiva a promoo do
                       tombamento e da conservao do patrimnio histrico e artstico nacional. O que nos
                       leva a constatar que a ideia de patrimnio histrico ainda est muito associada  de
                       monumento, pois  o conjunto de stios histricos e monumentos o que normalmente
                       corresponde  descrio de patrimnio histrico, sendo os alvos principais dos
                       tombamentos previstos por lei. S com a atual definio de patrimnio cultural foi que
                       tal noo passou tambm a abranger heranas abstratas, e no apenas vestgios materiais.
                            Lembremos, entretanto, que a prpria delimitao do que  monumento, do
                       que  ou no patrimnio  seletiva, escolhe somente os pontos do passado que
                       queremos lembrar e rejeita os outros. Assim, visto que a noo de monumento 
                       seletiva e  a partir dela que se constitui o conceito de patrimnio, a prpria ideia
                       de patrimnio cultural no pode ser a mesma para todo o mundo, j que depende
                       de diferentes contextos nacionais. Cada cultura tem sua noo de patrimnio, que
                       molda seu tipo de ao estatal. E um dos grandes desafios da Unesco, nesse sentido,
                        conciliar as diversas interpretaes do patrimnio e propor aes internacionais
                       que reforcem os esforos de preservao.
                            Nessa perspectiva, para entendermos o significado de patrimnio histrico
                       precisamos primeiro compreender o que  monumento. Para Jacques Le Goff,
                       monumento  tudo o que pode evocar o passado e recordar, at mesmo o escrito.
                       Para ele, a diferena entre monumento e documento no est no fato de o primeiro
                       ser vestgio material e o outro, vestgio escrito, mas no fato de que o monumento 
                       voluntariamente selecionado pela sociedade para lembrar o passado que ela escolheu


                       326
lembrar. O documento, por sua vez, foi visto durante muito tempo pelos




                                                                                              Patrimnio Histrico
historiadores como registro do passado como um todo, ou pelo menos, no apenas
daquele passado escolhido pela sociedade como o passado ideal. Le Goff foi mais
alm afirmando que todo documento tem sua dose de monumento, ou seja, no 
imparcial. A crtica ao documento, assim, no  novidade, mas precisamos tambm
fazer a crtica do monumento.
     Atualmente, com a retomada da preocupao com o patrimnio cultural no Brasil,
vemos um incremento do turismo cultural que valoriza igualmente manifestaes
folclricas, stios histricos e arqueolgicos e reservas ambientais. Do ponto de vista
do patrimnio histrico, no entanto, talvez pela pequena atuao de historiadores
nesse campo de trabalho emergente, a crtica histrica tem sido pobre. Ou seja, a
busca da sociedade por se interessar por seu passado ainda  baseada quase sempre em
monumentos, em sobras de um passado que ela escolheu lembrar. Os turistas procuram,
dessa forma, principalmente as "idades de ouro" do Brasil, os momentos gloriosos do
passado, ou o que queremos considerar como tal: o Recife holands, os franceses de
So Lus, o bandeirantismo paulista, as cidades de ouro de Minas Gerais. No entanto,
tal olhar muitas vezes  acrtico, pois busca apenas o pitoresco e no se preocupa com
os problemas estruturais, com a histria que moldou cada perodo, com a razo de
ser daqueles monumentos. Cabe a ns, historiadores, mudar esse olhar e aproveitar o
interesse pelo patrimnio cultural para desenvolver verdadeiras divulgaes histricas
em torno de cada um desses stios. Cabe a ns ultrapassar a prpria monumentalidade
e comear a transformar aqueles recortes do passado em pontes para o conhecimento
crtico da Histria. Alm disso, precisamos nos perguntar constantemente se a
comunidade tem, de fato, alguma identificao com aquele passado, "glorioso" ou
no, que est sendo evocado pelo patrimnio, sempre nos preocupando tambm em
estabelecer formas de trabalhar a relao cidadania e educao patrimonial, pois no
h como valorizar o passado sem a tomada de conscincia social, assim como no h
conscientizao cidad sem o conhecimento da Histria.

Ver tAmbm
    Antiguidade; Arte; Arqueologia; Barroco; Cultura; Folclore; Fonte Histrica;
    Iconografia; Indstria Cultural; Interdisciplinaridade; Memria; Mito; Tradio.

sugestes de leiturA
    atadeS, J. M. de; macHado. L. A.; Souza, M. A. T. de. Cuidando do patrimnio
      cultural. Goinia: Ed. ucG, 1997.
    bittencourt, Circe. O saber histrico na sala de aula. 6. ed.So Paulo: Contexto, 2004.



                                                                                      327
                  bo,J.B.L. ProteodopatrimnionaUnesco:aesesignificados.Braslia:Unesco,2003.
Pirataria



                  FonSeca, M. C. L. O patrimnio em processo: trajetria da poltica de preservao
                    no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. uFrJ, 1997.
                  Funari, Pedro Paulo. Grcia e Roma. So Paulo: Contexto, 2001.
                  ______. Arqueologia. So Paulo: Contexto, 2003.
                  Karnal, Leandro (org.). Histria na sala de aula: conceitos, prticas e propostas.
                   So Paulo: Contexto, 2003.
                  le GoFF, Jacques. Histria e memria. Campinas: Ed. Unicamp, 1994.
                  pinSKy, Jaime. As primeiras civilizaes. So Paulo: Contexto, 2001.
                  pinSKy, Jaime (org.). O ensino de Histria e a criao do fato. 11. ed. So Paulo:
                    Contexto, 2004.
                  ______; Funari, Pedro Paulo (orgs.). Turismo e patrimnio cultural. 4. ed. So
                    Paulo: Contexto, 2005.




            pirAtAriA
                 A pirataria  mais conhecida dos jovens e do pblico leigo pela fico e no
            pela Histria. Foram os filmes e os romances de aventura que tornaram clebres
            esses tipos sociais, quase sempre retratados como foras da lei gananciosos, caricatos
            e pitorescos. Esse esteretipo, que o cinema hoje reproduz, foi difundido a partir
            do final do sculo xix pelo escritor escocs Robert Louis Stevenson, em sua obra A
            ilha do tesouro, que propagou a ideia de tesouros piratas escondidos e enterrados
            nas ilhas do Mar do Caribe.
                 Mas a pirataria  um tema histrico srio, tanto mais porque no Brasil ainda no
            se tornou um objeto reconhecido de pesquisas. Alguns piratas que assolaram as costas
            da Amrica portuguesa colonial so conhecidos dos historiadores brasileiros, como 
            o caso do pirata francs Ren Duguay-Trouin, que em 1711 manteve a cidade do Rio
            de Janeiro como refm em troca de resgate. Mas o estudo da pirataria padece da fama
            que o esteretipo do pirata com papagaio ao ombro angariou em nossa cultura. E, no
            entanto, a pirataria  muito antiga e continua a existir at hoje, na verdade.
                 Pirata  o navegador que vive da pilhagem de embarcaes comerciais e cidades
            costeiras.  um criminoso, perseguido muitas vezes em escala internacional. Os piratas
            surgiram em todos os reinos e Naes que, ao longo da histria, sobreviveram do
            comrcio martimo. Do Japo feudal ao Imprio Romano,  possvel encontrarmos
            exemplos desses bandidos martimos. Mas nossa referncia cultural de pirataria quase


            328
sempre se remete a piratas e corsrios dos sculos xvi, xvii e xviii nas costas americanas.




                                                                                              Pirataria
A pirataria da Idade Moderna se desenvolveu de modo institucional quando Naes
como a Inglaterra e a Frana resolveram assaltar os comboios de galees espanhis
carregados de ouro e prata que partiam das costas americanas para a Europa. Os
piratas da Idade Moderna surgiram, assim, do grande fluxo de metais preciosos
transportados entre a Amrica e a Europa pelos espanhis. Metais saqueados, por
sua vez, das populaes indgenas submetidas aos conquistadores desde o sculo xvi.
     Inicialmente, os piratas, ou flibusteiros como eram tambm conhecidos, agiam
por conta prpria em particular no Caribe e eram de diversas nacionalidades. Mas
com o fracasso da Frana e da Inglaterra na busca por minas de ouro e prata em
suas prprias colnias, tais reinos comearam a investir em uma pirataria financiada
pelo Estado. Nasceram, assim, os corsrios, piratas reconhecidos por um Estado e
autorizados a pilhar os navios das Naes rivais. Nesse caso, o butim, o resultado do
assalto aos navios, seria dividido entre o corsrio e o Estado contratante.
      preciso enfatizar a diferena entre o corsrio e o pirata comum, o flibusteiro
ou bucaneiro, como eram chamados no Caribe. O pirata era um criminoso tambm
em sua prpria Nao, perseguido pela Marinha, o que resultava muitas vezes de no
poderem mais habitar sua terra natal. Essa situao levou a que muitas das numerosas
pequenas ilhas no Mar do Caribe fossem, entre os sculos xvi e xviii, habitadas por
grupos de piratas expatriados. Por outro lado, o corsrio era considerado um vassalo
fiel do reino a que servia. Vivia em sua prpria ptria, possuindo propriedades
e, no raro, era elevado ao status de fidalgo ou cavaleiro. Um dos exemplos mais
conhecidos desse ltimo caso foi Sir Francis Drake, corsrio da Inglaterra no reinado
de Elizabeth i, que recebeu da prpria rainha o ttulo de Sir, de cavaleiro do reino,
posio muito cobiada. Francis Drake foi um dos corsrios mais famosos de seu
tempo, empenhado em atacar e saquear os comboios da Espanha, e um dos piratas
mais famosos da histria do Ocidente.
     Mas a pirataria da Idade Moderna no assolou apenas as costas do Imprio
Espanhol, pois tambm no eram incomuns as incurses ao territrio colonial
portugus da Amrica. O caso do Rio de Janeiro em 1711 no foi nico. Desde o
sculo xvi o territrio do que hoje  a costa brasileira conheceu incurses de coleta
de pau-brasil tanto de portugueses quanto de franceses em escala semelhante. Com o
incio da colonizao portuguesa, os franceses foram cada vez mais afastados da costa
pelos colonos. Ainda assim, fizeram duas tentativas de instalar suas prprias colnias
na Amrica do Sul, as conhecidas Frana Antrtica, no Rio de Janeiro do sculo xvi,
e a Frana Equinocial no Maranho do xvii. Ambas as tentativas fracassaram diante
do conflito com os colonos portugueses, que j ento estavam se estabelecendo no
territrio. Mas diante das tentativas coloniais fracassadas, a Frana passou a investir


                                                                                      329
            no corso. Documentos do xvii, e mesmo do sculo xviii, mostram que os ataques de
Pirataria



            piratas aos navios portugueses na costa brasileira eram uma constante, no apenas
            no Rio de Janeiro, mas tambm na costa oriental das capitanias que hoje compem
            a regio Nordeste.
                 Assim, ainda pouco estudada no Brasil, a pirataria fazia parte da vida colonial. Do
            ponto de vista das condies de vida dos piratas, o esteretipo de homem corajoso,
            que abandona a sociedade e as Naes em troca de liberdade, quase nunca equivale 
            realidade. Eram homens violentos, que no hesitavam em estuprar e assassinar, que
            tinham como nica motivao a pilhagem. Em geral, gastavam tudo o que roubavam
            muito rapidamente,fato que derruba as lendas de tesouros enterrados nas ilhas do Caribe.
                 O declnio da pirataria moderna aconteceu no sculo xviii, quando a Inglaterra
            em fase de industrializao deixou de investir no corso para investir no comrcio
            de seus produtos industrializados. Nesse momento, a prpria Inglaterra passou a
            perseguir os piratas internacionalmente, pois para as novas diretrizes econmicas,
            o comrcio martimo entre as Naes precisava ser uma prtica regular e segura.
                 A pirataria martima ainda existe atualmente, sequestrando navios e iates,
            composta por criminosos de todas as nacionalidades e perseguida tambm
            internacionalmente. Mas h muito perdeu o fascnio que envolvia seus antecessores
            da Idade Moderna. Hoje, outros tipos de pirataria chamam a ateno da mdia: sejam
            os hackers, piratas da internet que no apenas espalham vrus na rede de informaes
            mundial, como roubam informaes; ou ainda a pirataria biolgica, da qual o
            Brasil  uma das maiores vtimas, em que empresas farmacuticas multimilionrias
            estabelecidas na Europa e nos Estados Unidos registram direitos e patentes pela
            utilizao de plantas medicinais e remdios tradicionais h muito conhecidos no
            Brasil. Essa pirataria biolgica afeta em especial a Amaznia, apresentando-se hoje
            como verdadeira pilhagem de recursos naturais transformados em medicamentos e
            industrializados por essas empresas, sem que o Brasil ou as populaes ribeirinhas
            da Amaznia, proprietrias tradicionais desse conhecimento, sejam beneficiados
            com parte dos lucros.
                 A pirataria  um tema que precisa ser retomado no Brasil por vrias razes. A
            primeira  que tal temtica faz parte das discusses sobre cidadania e soberania que
            o professor de Histria pode levantar com seus alunos. Afinal de contas, a pirataria
            biolgica atinge principalmente essas duas noes. A segunda, a prpria pirataria
            moderna, a mais conhecida, tambm foi uma constante no Brasil colonial. Trabalhar
            com pirataria em sala de aula  derrubar esteretipos muito fortes na imaginao
            juvenil ocidental, o do pirata heri, perseguido pelo Estado estpido e ditatorial. E,
            talvez, mais importante do que isso, trabalhar com a violncia cotidiana na Histria,


            330
combatendo o endeusamento e a heroicizao da violncia, uma constante hoje.




                                                                                             Politesmo
Trabalhar com a pirataria em sala de aula  desconstruir mitos, um em especial
muito caro aos jovens atuais: aquele que afirma que a violncia  sinnimo de
herosmo e liberdade.

Ver tAmbm
    Cidadania; Colonizao; Descobrimento; Discurso; Liberdade; Mito;
    Nao; Violncia.

sugestes de leiturA
    bueno, Eduardo. Nufragos, traficantes e degredados: as primeiras expedies ao
      Brasil, 1500-1531. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998.
    JoHnSon, Charles. Piratas: uma histria geral dos roubos e crimes de piratas
      famosos. So Paulo: Artes e Ofcios, 2004.
    maxWell, Kenneth. Chocolate, piratas e outros malandros. So Paulo: Paz e Terra, 1999.
    peStana, Fbio. No tempo das especiarias. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2004.
    S an m artin , Eduardo. Terra  vista: histria de nufragos na era dos
       descobrimentos. So Paulo: Artes e Ofcios, 1998.
    Scott, Andrew. Piratas da clula. Lisboa: Edies 70, 1989.




politesmo
     Tratar do politesmo hoje, sobretudo para o Ocidente majoritariamente
cristo ou agnstico, pode constituir interessante oportunidade para discutir a
diversidade cultural e as diversas formas como os povos lidaram com o espiritual,
com o desconhecido, e transmitiram significados a fenmenos cuja explicao lhes
escapava. Por sua atualidade  milhes de pessoas no mundo so politestas , o
politesmo adquire status de tema fundamental no contexto em que a globalizao
tem a pretenso, talvez ilusria, de homogeneizao cultural.
     Podemos definir politesmo como a crena religiosa em uma pluralidade de
deuses ou a adorao de mais de um deus. A palavra deus tinha, entre os antigos,
acepo muito ampla. Ela no indicava, como presentemente, uma personificao
do Senhor da Natureza. Era uma qualificao genrica, que se dava a todo ser
existente fora das condies da humanidade. Entre os vrios fatores responsveis
pela criao e pela multiplicao dos deuses, devemos salientar a personificao


                                                                                     331
             das foras da natureza (mitologia astral, deuses telricos e subterrneos, deuses da
Politesmo



             fecundidade) e sua consequente elevao ao reino da divindade; a divinizao de
             antepassados e heris; e a centralizao poltica dos grandes Estados, provocando a
             fuso e a unificao de culturas e crenas.
                  O politesmo expressou-se, ao longo dos tempos, segundo a cultura de cada povo,
             em trs principais sistemas: a idolatria, adorao de muitos deuses personificados
             por dolos; o sabesmo, culto dos astros e do fogo sem intermdio de emblemas
             representativos, que deriva seu nome de Sab, reino do sul da pennsula arbica, que
             influenciou membros de vrias seitas religiosas no Islamismo antigo; e o fetichismo,
             adorao de tudo quanto impressiona a imaginao e a que se atribui poder. No 
             incomum encontrar essas trs formas de politesmo estreitamente unidas.
                  As religies politestas adoram vrios deuses, semideuses ou heris, formando
             mitologias ricas em lendas. Sua cosmogonia e teogonia se assemelham bastante, e
             muitas delas eram dadas a hbitos de sacrificar animais ou pessoas a fim de obter
             boas graas das divindades. As caractersticas fsicas, morais e espirituais dos deuses
             eram semelhantes s dos homens, s que em grau mais elevado.
                  Para precisar melhor o conceito, convm diferenciar paganismo de politesmo.
             Tais termos comumente so usados como sinnimos. Em sua essncia, paganismo e
             politesmo indicam a mesma ideia, mas so conceitos histricos diferentes. Quando
             Constantino consagrou o Cristianismo como a nova religio do Imprio Romano,
             os no cristos foram chamados de pagos, generalizando-se tanto os politestas
             propriamente ditos como os monotestas no cristos. O paganismo, por seu
             politesmo, passou ento a ser considerado pelos cristos algo pecaminoso, fruto da
             ignorncia da humanidade. Os antigos cultos pagos foram virtualmente apagados
             pela Igreja de Roma usando uma combinao de atuao social, propaganda e
             violncia. Em torno do ano de 1484, a Igreja Catlica iniciou um processo massivo
             de execuo de milhares de pessoas na Europa suspeitas de bruxaria, muitas das
             quais eram praticantes de alguma forma de religio politesta antiga.
                  Na Antiguidade, at o surgimento do Judasmo, a maioria das religies era
             politesta, com tendncia mais ou menos acentuada para o antropomorfismo. As
             religies da maioria dos povos antigos eram feiticistas na sua origem: egpcios,
             assrios, fencios, persas, cartagineses, gregos, romanos, gauleses, germanos. Fora
             do Ocidente, o politesmo estava tambm por toda parte e em diferentes perodos
             histricos: os orixs iorubanos, os inkices bantu, na frica; os milhes de divindades
             hindus; e os muitos pantees na Amrica pr-colombiana. E, apesar do predomnio
             do monotesmo no mundo contemporneo, o politesmo no desapareceu, como o
             hindusmo e o candombl podem bem mostrar.


             332
     Durante muito tempo, no entanto, a cincia teve uma viso preconceituosa




                                                                                        Politesmo
do politesmo, fundamentada em um conceito evolucionista, que tendia a
associ-lo a um suposto perodo de infncia da humanidade. Assim, o politesmo
seria fruto da mentalidade do homem primitivo, semelhante  de uma criana,
que emprestava uma alma e uma personalidade ativa a cada um dos objetos
que o rodeavam. Tal foi a viso elaborada por Edward Burnett Tylor, em 1871.
Ele defendia que em algumas raas superiores, consideradas civilizadas, o deus
supremo se teria tornado deus nico. Esse tipo de estudo antropolgico errou
ao pensar o politesmo como inferior ao monotesmo. Os estudiosos concordam
hoje que as prticas e crenas outrora chamadas de idolatria so expresses
significativas da resposta humana  complexidade do mundo e ao poder ou
poderes sobrenaturais.
     Costumeiramente, ligamos o conceito de civilizao moderna ao monotesmo,
esquecendo que essa crena no contempla toda a humanidade, bem como que mais
da metade da humanidade ainda acredita na multiplicidade de deuses. Entre todas as
religies politestas, a mais importante e duradoura tem sido o Hindusmo  termo
usado pelos europeus para designar s prticas religiosas dos hindus, a "religio
eterna", Sanatana-Dharma. A extenso da crena e da prtica abrangida por esse
termo  muito grande, pois vai desde os cultos das deusas das aldeias, como o de
Manasa, que protege contra as cobras (Durga), at os gurus modernos e as doutrinas
filosficas clssicas, como Sankhara. Comum  maioria das escolas filosficas hindus,
todavia,  a crena em Moksha, ou seja, na "libertao" humana da roda de repetidos
nascimentos e mortes, assim como na reencarnao.
     A "religio eterna" surgiu historicamente com a invaso dos rias s antigas
cidades do Vale do Indo, cerca de 1500 a.C. A fuso dessas duas culturas criou a
estrutura social de castas, existente at hoje, das quais os brmanes, senhores das
leis, so a mais elevada e trouxe os textos sagrados escritos em snscrito para a
ndia, o Bagavagita e o Mahabarata. Hoje, a Sanatana-Dharma compreende um
conjunto de cultos e lendas regionais, incorporados  tradio hindu e relacionados
com a cultura bramanista clssica em um processo conhecido como "sanscritizao",
processo que outorga nomes sanscrticos a divindades e prticas aldes. Nesse
processo, os aldeos reconhecem o elevado status da casta dos brmanes e da
autoridade dos textos sagrados, tradicionalmente guardados por eles: os Vedas e os
Puranas. Um processo complementar, que pode ser descrito como "dravidizao",
foi a absoro gradativa, pelos arianos invasores de lngua indo-europeia, de
elementos culturais do sul da ndia. A palavra drvida se refere aos povos cujos
idiomas so o tamul, o tludo, o canars, o malaiala e o tluva, povos que habitavam


                                                                                333
             a regio antes da chegada dos rias. Os cultos desses povos contriburam
Politesmo



             provavelmente para os cultos hindus agora encontrados no norte da ndia, como
             o de Krishna.
                  Sem renegar as ligaes com suas concepes vdicas originais, o Hindusmo
             evoluiu para uma sntese em que a vida religiosa se harmoniza com a Filosofia, a
             moral individual e a vida social. Embora o Hindusmo acredite em milhes de deuses
             (330 milhes, para ser exato), na prtica h certos deuses favoritos que se tm tornado
             o ponto focal das vrias seitas. No cume do panteo hindu encontra-se a Trimrti,
             trade formada pelas divindades Brahma, Vishnu e Shiva. Brahma  o Criador; Vishnu,
             o Preservador; e Shiva, o Destruidor. A mitologia hindu atribui a tarefa de criar o
             universo material a um ser, fonte ou essncia suprema  Brmine, identificado pelas
             slabas sagradas aum ou om. Todos os trs membros da Trimrti so considerados
             partes desse "Ser", e todos os demais deuses so suas diferentes manifestaes. Assim,
             qualquer que seja o deus que  adorado como supremo, pensa-se que essa deidade
             seja um todo-abrangente. Dessa forma, mesmo venerando abertamente milhes
             de deuses, a maioria dos hindus reconhece apenas a existncia de um nico deus
             verdadeiro, que assume muitas formas: homem, mulher, animal. Por conseguinte,
             telogos hindus frisam de pronto que o hindusmo  realmente monotesta,
             no politesta, ao passo que os estudiosos consideram-no um culto henotesta.
                  A concepo de deus uno apresenta-se, para muitas pessoas, como de difcil
             assimilao, da mesma forma que as infinitas manifestaes divinas do politesmo
              pouco compreensvel para aqueles que se consideram monotestas. A viso
             preconcebida e intolerante diante de manifestaes de crenas e princpios espirituais
             em nada ajuda  compreenso dos valores humanos. Mas, infelizmente, precisamos
             conviver com a intolerncia de muitos educadores para com as religies politestas
             que fazem parte de nosso cotidiano.  tarefa indiscutvel de professores de Histria
             esclarecer os diferentes caminhos possveis tomados pela humanidade, sem inferiorizar
             nenhum deles. Mas antes de esclarecermos outros, precisamos ns mesmos conhecer
             o assunto do qual pretendemos falar. Interessante estratgia para a sala de aula  fazer
             a relao passado/presente das formas de religiosidade ao longo do tempo, discutindo
             a diversidade cultural e os contextos especficos que afetam a adoo deste ou daquele
             princpio religioso, mostrando que o monotesmo no  o estgio superior da evoluo
             religiosa humana e que nem mesmo hoje  absoluto.  preciso respeitar as opes de
             inmeras pessoas que atualmente tm se voltado para diferentes religies, tentando
             fugir do vazio espiritual de suas vidas no mbito do consumismo desenfreado,
             da desumanizao das relaes humanas e da instrumentalizao dos recursos
             ambientais. E no Brasil, hoje, muitas dessas pessoas tm se voltado para uma religio
             politesta cuja origem se entrelaa com a prpria origem do Brasil: o Candombl.


             334
Ver tAmbm




                                                                                             Poltica
    Candombl; Cristianismo; Isl; Judasmo; Mito; Monotesmo; Relativismo
    Cultural; Religio.

sugestes de leiturA
    campbell, James. As mscaras de Deus: mitologia primitiva. So Paulo: Palas
     Athena, 1992.
    Funari, Pedro Paulo. Grcia e Roma. So Paulo: Contexto, 2001.
    GoSvami, Satsvarupa Dasa. Introduo  filosofia vdica: a tradio fala por si
     mesma. So Paulo: Bhaktivedanta Book Trust, 1986.
    HinnelS, John R. (ed.). Dicionrio das religies. So Paulo: Crculo do Livro, 1990.
    pinSKy, Jaime. As primeiras civilizaes. So Paulo: Contexto, 2001.
    pinSKy, Jaime (org.). 100 textos de histria antiga. 8. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    reeber, Michel. Religies: mais de 400 termos, conceitos e ideias. Rio de Janeiro:
      Ediouro, 2002.




polticA
     A palavra poltica no pode ser entendida separada da ideia de "poder". O poder,
por sua vez, s vezes  confundido com o Estado, instituio normatizadora da vida
em sociedade. Entretanto, o poder no  unicamente o Estado, pois est disseminado
por toda a sociedade. E tambm a atividade poltica no se d exclusivamente no
Estado. Partindo dessas consideraes, para definirmos a poltica vamos primeiro
observar o que as cincias sociais e humanas entendem por poder.
     Os tericos definem o poder como uma relao. Para Max Weber, o poder  uma
relao assimtrica entre pelo menos dois atores, quando o primeiro tem a capacidade
de forar o segundo a fazer algo que este no faria voluntariamente e que s o faz
conforme as sugestes e determinaes do primeiro. A relao de poder, todavia,
no gera necessariamente conflito, podendo haver negociao entre as partes. Essas
relaes de poder mostram-se em todo lugar, em todo o corpo social, segundo Michel
Foucault. H relao de poder entre pais e filhos, alunos e professores, governantes
e governados, dirigentes de partido e seus filiados, patres e empregados, lderes
de associaes sindicais e seus membros, e assim por diante. A verdade  que tais
relaes so, no mais das vezes, sutis, mveis, dispersas e de difcil caracterizao.


                                                                                     335
           O poder que, historicamente, o mundo masculino exerce sobre as mulheres  algo
Poltica



           to arraigado na conscincia das pessoas, tanto de homens quanto de mulheres,
           que passa despercebido na maioria das vezes. Apenas nas ltimas dcadas do sculo
           xx foi que as mulheres perceberam que havia grande desigualdade de poder entre

           elas e os homens, uma desigualdade nas relaes entre os gneros. Nesse momento
           perceberam que a poltica dizia respeito tambm a aspectos cotidianos, ligados ao
           corpo,  sexualidade,  reproduo, ao mercado de trabalho etc., no envolvendo
           apenas os aspectos de luta partidria ou luta de classes, por exemplo.
                Poder tambm no  somente represso.  tanto represso quanto persuaso
           e busca de legitimidade. A fora, j havia notado Rousseau, no faz o direito.
           Nenhum governo, dizia ele, que se baseie unicamente na fora subsiste por muito
           tempo se no fizer dessa fora um direito, ou seja, se no a legitimar perante os
           indivduos sobre os quais ela se exerce. O Estado usa frequentemente a fora na
           forma da represso policial, das Foras Armadas etc., mas usa tambm o discurso,
           para justificar seus atos como a sntese dos anseios de todos os grupos sociais que
           o compem. Um exemplo do emprego duplo de represso e discurso de persuaso
           pelo Estado pode ser visto no nazismo, que tanto usou mecanismos de represso
           como sofisticados meios de propaganda ideolgica para convencer as massas a
           aderirem ao Estado forte.
                O termo poltica, por sua vez, foi cunhado na atividade social desenvolvida pelos
           homens adultos da polis grega. Toda a vida social grega estava assentada na atividade
           poltica. Aristteles, na Grcia antiga, tinha uma viso bastante otimista da poltica:
           ele a pensou como a cincia que estuda o sumo bem, e como a finalidade da poltica 
           o bem humano, ela devia abranger todas as outras cincias. Essa finalidade poderia ser
           alcanada e preservada tanto para o indivduo como para o Estado, mas seria prefervel
           atingi-la para o Estado como um todo, por este englobar mais indivduos. Pensava
           Aristteles que a prtica poltica e a virtude caminhavam juntas. Segundo ele, o homem
           verdadeiramente poltico gozava da reputao de haver estudado a virtude "acima de
           todas as coisas". No contexto de Aristteles, a poltica era uma atividade tica que tinha
           a funo pedaggica de transformar os homens em cidados.
                Se, na Grcia clssica a poltica era entendida como uma experincia que se
           refletia na vida pessoal harmonizada aos interesses coletivos, confundindo-se muitas
           vezes com o conceito de tica, hoje o sentido da poltica  bem diverso. A poltica,
           entre os gregos, tinha o sentido de atividade pedaggica, a chamada Paideia. Hoje,
           o carter mais evidente do conceito atual de poltica diz respeito, por um lado, 
           gesto dos negcios pblicos e, por outro, s aes da sociedade civil a fim de ter suas
           reivindicaes atendidas. Poltica, desde Maquiavel (1513), considerado o fundador
           da Cincia Poltica, tem a ver com estratgias, aes racionais e objetivos a conquistar.


           336
Na poca de Maquiavel, os objetivos descritos em O prncipe podem ser assim




                                                                                          Poltica
resumidos: como conquistar e manter o poder sobre os principados. O livro  um
compndio de estratgias polticas, de aconselhamentos aos soberanos.
     O texto de Maquiavel no traz a definio moderna de poltica, que s seria
cunhada a partir do sculo xviii. Maquiavel enfatizou um conceito de poltica ligado
ao Estado, deixando de lado as classes sociais e suas contradies. No sculo xix, Karl
Marx resolveu pensar a poltica a partir das classes sociais e de suas contradies.
No sculo xx, o conceito de poltica atingiu at mesmo o cotidiano. Hoje, fala-se
em politizao do cotidiano, aes de protesto, lutas sociais que se do em esferas
no institucionais. Ou seja, o sentido do que  ou no poltico muda com o tempo e
tambm com os interesses dos grupos sociais. Nos dias atuais, poltica pode ser uma
ao organizada para atingir demandas sociais (educao, sade, segurana, condies
de trabalho etc.), mas durante a Guerra Fria o conceito de atividade poltica estava
intimamente ligado ao de revoluo, de ao transformadora das estruturas sociais
vigentes e da implementao de uma nova sociedade. Nas ltimas dcadas do sculo xx,
os partidos deixaram de ser o lugar privilegiado da luta poltica, embora ainda sejam
espaos importantes. Hoje, organizaes no governamentais (onGs), associaes de
moradores, associaes profissionais, organizaes feministas, grupos ambientalistas
e de defesa dos animais, entre outros, compem um leque amplo de espaos onde
manifestaes propriamente polticas podem ter lugar. Essa ampliao dos espaos
reivindicativos na sociedade civil pode ser entendida de duas formas: por um lado,
indica um avano da politizao de amplos setores sociais; por outro,  um sintoma da
descentralizao das ambies polticas, que se tornaram cada vez mais pulverizadas.
     Os Estados capitalistas modernos vm exercendo, desde a Idade Moderna,
prticas polticas de dominao sobre outros Estados ou regies. Entendida dessa
forma, a poltica pode tomar a forma de embates entre Estados. Os usos da tecnologia,
dos sistemas sofisticados de inteligncia, dos tcnicos em geral, so indicativos de
como os avanos cientficos foram instrumentalizados para reafirmar espaos de
poder entre os povos. A poltica carrega, desde suas primeiras formulaes, tanto o
sentido nobre da luta pelo bem comum, do trabalho por organizar a comunidade,
quanto o sentido negativo de lutas mesquinhas, conspiraes, corrupo, foras
subterrneas, conchavos. Um sentido apela para o ideal, o outro, para a prtica real.
     Seja como for, em um momento em que predomina um relativismo exacerbado,
e o discurso do "fim das ideologias", faz-se cada vez mais necessrio repensarmos o
sentido do poltico, do trabalho pelo bem-estar social, por valores nobres, buscando
revitalizar uma cultura poltica que sinalize formas mais humanas de relaes sociais.
O intelectual no pode se furtar  ao poltica, esconder-se em teorias pretensamente
neutras. No que todos os educadores precisem atuar necessariamente nas instncias


                                                                                  337
                  poltico-partidrias. Mas  funo do intelectual, dos profissionais de ensino, a
Ps-modernidade



                  proposio de caminhos  sociedade, de discursos compatveis com as questes
                  atuais. Ao professor de Histria cabe o fundamental papel de instituir uma cultura
                  poltica s novas geraes. Para isso, precisamos compreender que as relaes de
                  poder esto em todo lugar da sociedade e procurar contornar o desgaste que a imagem
                  da poltica (atrelada  do poltico profissional) sofreu na histria recente do Brasil.

                  Ver tAmbm
                        Cidadania; Classe Social; Cotidiano; Democracia; Discurso; Ditadura; Estado;
                        tica; Feminismo; Gnero; Ideologia; Marxismo; Revoluo; Sociedade.

                  sugestes de leiturA
                        bobbio, Norberto; matteucci, Nicola; paSquino, Gianfranco. Dicionrio de
                         poltica. Braslia: Ed. UnB/Linha Grfica, 1991.
                        caSaleccHi, Jos nio. O Brasil de 1945 ao golpe militar. So Paulo: Contexto, 2002.
                        demant, Peter. O mundo muulmano. So Paulo: Contexto, 2003.
                        Foucault, Michel. Microfsica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1999.
                        Funari, Pedro Paulo. Grcia e Roma. So Paulo: Contexto, 2001.
                        maar, Wolfgang Leo. O que  poltica. So Paulo: Brasiliense, 1994.
                        maquiavel, Nicolau. O prncipe. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
                        martinS, Ana Luiza. O despertar da Repblica. So Paulo: Contexto, 2001.
                        pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
                          Contexto, 2003.
                        ______; ______(orgs.). Faces do fanatismo. So Paulo: Contexto, 2004.
                        rouSSeau, Jean-Jacques. O contrato social. So Paulo: Martins Fontes, 1996.




                  ps-modernidAde
                       Antes de tudo, precisamos frisar que o requisito fundamental para o entendimento
                  da ps-modernidade  a compreenso da modernidade. Assim, propomos que antes
                  da leitura deste verbete o leitor se dirija ao verbete sobre modernidade, pois ambos
                  os conceitos so complementares de tal forma que a ps-modernidade no pode ser
                  explicada sem a frequente meno s caractersticas modernas. Inclusive, a nica
                  definio consensual de ps-modernidade que parece haver na multiplicidade de
                  ideias e conceitos discordantes presentes nesse "movimento"  aquela que explica a
                  ps-modernidade como a contestao da modernidade.


                  338
     O termo ps-modernidade hoje  to amplamente utilizado que, para alguns, tudo




                                                                                          Ps-modernidade
o que se produziu nos ltimos trinta anos  ps-moderno. Outros consideram que
isso  um exagero. H grande multiplicidade de conceitos sobre a ps-modernidade,
muitas vezes contraditrios, mas podemos encontrar algumas definies pragmticas.
Jair Ferreira dos Santos, por exemplo, define ps-modernidade como o conjunto de
mudanas das sociedades avanadas ocorridas nas Artes e cincias desde 1950, quando
para alguns o modernismo teria se encerrado. J para pensadores como Sergio Paulo
Rouanet, a modernidade no se encerrou realmente. H mesmo quem defenda que
ela surgiu em 1870 ou, como o historiador Arnold Toynbee, depois da Segunda Guerra
Mundial. Toynbee j usava o termo para se referir  perda de valores do Ocidente. Mas
enquanto nas Artes os ps-modernos identificam o incio de seu movimento em 1972,
com a derrubada do edifcio Pruitt-Igoe em Saint Louis, nos Estados Unidos, smbolo
da decadncia dos parmetros modernistas na arquitetura, na Filosofia e nas cincias
humanas muitos localizam seu surgimento a partir da dcada de 1960, na Frana,
com a influncia do estruturalismo lingustico sobre outras cincias e com a obra
de pensadores considerados os "pais" do ps-modernismo, como Jean Baudrillard,
Michel Foucault, Derrida e Deleuze. Para o historiador marxista Perry Anderson, no
entanto, a ps-modernidade nasceu na dcada de 1930, no modernismo artstico
surgido na dcada de 1920. Tudo isso nos mostra, no mnimo, a falta de consenso na
definio desse conceito.
     A ps-modernidade  assunto multidisciplinar: artistas, cientistas, filsofos,
entre outros, refletem sobre esse tema. Mas para alguns desses pensadores o termo
exprime coisas to diferentes que explica, na verdade, muito pouco. No entanto,
mesmo seus mais ferrenhos crticos parecem concordar com a existncia de algumas
caractersticas presentes em todos os discursos que se dizem ps-modernos. A
principal delas  a crtica aos valores da sociedade ocidental, oriundos do Iluminismo,
do racionalismo e da Revoluo Industrial.
     Para Jair Santos, a ps-modernidade nasceu com seu equivalente artstico, o
ps-modernismo da arte pop em 1960, e se desenvolveu com a Filosofia e a crtica
aos valores ocidentais em 1970. O pensamento ps-moderno seria, assim, tpico
das sociedades ps-industriais baseadas na informao, como os eua, o Japo e a
Europa ocidental, e se caracterizaria, entre outras coisas, pela sociedade de consumo
e a valorizao mais dos aspectos simblicos da vida do que da realidade. E, nesse
contexto, a mdia e os meios de comunicao tm importante papel.
     Essa interpretao da ps-modernidade tem sua origem na Lingustica, na
Semitica e na Teoria da Comunicao, disciplinas que se preocupam com o estudo
do signo, ou seja, do smbolo, e sua relao com a realidade. Para Jair Santos, a ps-
modernidade  a recriao do mundo por meio de signos. Nela a realidade perde sua


                                                                                  339
                  substncia, um fenmeno conhecido como a desreferenciao e a dessubstanciao do
Ps-modernidade



                  real, em que a realidade perde o sentido e a linguagem toma seu espao. Um exemplo
                  desse fenmeno  a propaganda, que na sociedade ps-industrial toma o lugar da coisa
                  real. Nessa definio, a ps-modernidade  uma mistura ecltica de coisas bastante
                  diversas, fruto da sociedade consumidora de servios, despolitizada e individualista.
                       Mas como muitas so as abordagens ps-modernas, essa perda do sentido da
                  realidade no se encontra em todas. Para o terico da cultura Homi Bhabha, por
                  exemplo, se a ps-modernidade for apenas a crtica da modernidade  esta entendida
                  como o discurso racional iluminista , ela  intil. Para Bhabha, a crtica ps-moderna
                  precisa ultrapassar a simples desconstruo dos valores da modernidade e incorporar
                  novas formas de saber, como o fim das ideias etnocntricas e a possibilidade de se
                  escutar outras vozes e histrias, principalmente dos grupos minoritrios.
                       Bhabha valoriza, assim, o ps-colonialismo, que discorda das ideias modernas
                  que legitimavam as desigualdades entre raas e Naes. Os pensadores ps-
                  colonialistas procuram valorizar as diferenas culturais e criticam o colonialismo
                  do Ocidente. Bhabha tenta rever o ps-moderno a partir do ps-colonialismo, sem
                  pregar o fracasso do pensamento racional como um todo, mas movido pelas histrias
                  das margens da modernidade.
                       Existem, dessa forma, muitos tipos de pensadores ps-modernos, desde os que
                  tentam, como Bhabha, fazer uma reviso racional dos preceitos da modernidade, mas
                  incorporando novas vises de mundo de fora do Ocidente, at aqueles, como Michel
                  Paty, que afirmam que tudo que existe na vida  a forma como ela  comunicada. Ou
                  seja, que a realidade  apenas discurso. Por outro lado, no so poucos os crticos da
                  ps-modernidade: pensadores que discordam que o atual momento histrico tenha
                  superado a modernidade. Entre esses est o filsofo Sergio Paulo Rouanet.
                       Para Rouanet, os ps-modernos afirmam que a modernidade no existe mais
                  e esto baseados nos seguintes argumentos: a industrializao foi substituda
                  pelo setor tercirio no domnio da economia; a poltica dos partidos e do Estado
                  tambm pereceu, estando hoje o poder em todo lugar, em particular com grupos
                  minoritrios; culturalmente a modernidade decaiu nas cincias, na Arte e na
                  Filosofia. Nas cincias, que era baseada em discursos que pregavam o progresso social
                  pelo conhecimento, hoje  pragmtica, no mais acreditando nas utopias. Na Arte,
                  extinguiram-se as fronteiras entre o popular e o erudito e a busca pela inovao.
                  Essas seriam as principais caractersticas, segundo Rouanet, que os pensadores ps-
                  modernos atribuem  ps-modernidade. Mas, para ele, todas essas ditas tendncias
                  ps-modernas j existiam na modernidade: A sociedade ps-industrial que teria
                  tornado a indstria secundria j estava embrionria no prprio desenvolvimento
                  do Capitalismo. Alm disso, se o setor industrial diminuiu, o sistema industrial


                  340
aumentou com o desenvolvimento da tecnologia. J do ponto de vista poltico,




                                                                                         Ps-modernidade
o aparecimento de movimentos fora dos partidos e do Estado  tambm um dos
fundamentos do liberalismo. Com relao  cincia, mudam as teorias, mas as regras
para seu entendimento ainda so as mesmas do tempo de Galileu.
     No entanto, Rouanet admite que h uma conscincia da ps-modernidade,
pois muitos querem abandonar a modernidade, considerando-a uma construo
deformada, destrutiva. De acordo com ele, entretanto, a nica forma de combater
as caractersticas negativas da modernidade  com a prpria modernidade, pois s
ela permite a crtica racional ao que quer que seja, inclusive a si prpria.
     Rouanet enfatiza o fato de que no h um nico conjunto de ideias na definio da
ps-modernidade. Para uns a ps-modernidade s diz respeito s Artes, para outros
abarca toda a esfera cultural, e para outros, a economia, a poltica e a sociedade.
Enquanto uns acreditam que ela  bastante recente, outros defendem seu surgimento
nos anos de 1950. Em algumas definies ela  um salto para frente, em outras  fuga
para o passado. Para ele, essa multiplicidade no obedece s regras bsicas nem da
lgica nem da identidade, na qual uma coisa no pode ser ao mesmo tempo tudo
e seu contrrio. Mas, por outro lado, essa indefinio  um sintoma de que a ps-
modernidade  um estado de esprito e no uma realidade. O nico consenso nessas
definies de ps-modernidade  a afirmao de que a modernidade envelheceu.
     J o cientista poltico Michel Zaidan considera que a ps-modernidade tem
grande influncia sobre as concepes irracionalistas da Histria, influenciadas por
Michel Foucault ou Walter Benjamin, ou ainda pela Nova Histria francesa. Essa
produo seria irracionalista por no acreditar que se pode explicar a realidade
e permanecer estudando apenas os discursos produzidos na Histria. Para a
historiografia ps-moderna, dessa forma, no haveria realidade, tudo seria simulao
da realidade, imagem e representao. Todo o conhecimento histrico  resumido
a ser um texto sobre outro texto, e nunca sobre a realidade. O prprio conceito de
Histria muda, tornando-se um "discurso verossmil" e no uma cincia. H o perigo
do relativismo absoluto, no qual no h realidade, tudo  verso, tudo  verdade.
     Com a grande visibilidade dos discursos sobre ps-modernidade em diferentes
campos do conhecimento, dificilmente o professor de Histria pode escapar de se
defrontar com esse problema atual: o que  a ps-modernidade? Como no h uma
resposta fcil para essa questo,  importante que o educador busque as diferentes
formas nas quais aparece esse discurso ps-moderno, inclusive a crtica  existncia
de uma ps-modernidade. Mas mesmo os crticos admitem que existe pelo menos
uma vontade de que a modernidade tenha acabado. Essa vontade teria gerado grande
produo artstica e filosfica. O professor hoje depara com estudantes que nasceram
e so criados sob o constante bombardeio de discursos e produes que apresentam


                                                                                 341
               uma linguagem ps-moderna. O sucesso mundial da trilogia cinematogrfica Matrix,
Pr-histria



               por exemplo (grande representante do pensamento ps-moderno que se quer ecltico
               e ao mesmo tempo  construdo pela mdia), se deu sobretudo sobre os jovens. As
               histrias em quadrinhos deixaram de ser um entretenimento juvenil para produzir
               tambm obras de arte para adultos, em um estilo de linguagem dos mais representativos
               da Arte ps-moderna. Assim, ainda que no esteja familiarizado com a obra de Lyotard
               ou Saussure, o professor est constantemente em contato com diversas linguagens
               ps-modernas, razo pela qual se faz necessrio que ele reflita sobre elas, para melhor
               trabalhar com determinadas linguagens em sala de aula, desde a j usual linguagem
               cinematogrfica at as histrias em quadrinhos.

               Ver tAmbm
                     Arte; Discurso; Identidade; Iluminismo; Imaginrio; Indstria Cultural;
                     Interdisciplinaridade; Modernidade; Relativismo Cultural; Teoria.

               sugestes de leiturA
                     bHabHa, Homi. O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. uFmG, 2003.
                     collinSon, Dian. 50 grandes filsofos: da Grcia antiga ao sculo xx. 2. ed. So
                      Paulo: Contexto, 2004.
                     edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
                       entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
                     Mccloud, Scott. Desvendando os quadrinhos. So Paulo: Makron Books, 1995.
                     rouanet, Sergio Paulo. As razes do Iluminismo. So Paulo: Companhia das
                      Letras, 2000.
                     SantoS, Jair Ferreira dos. O que  ps-moderno. So Paulo: Brasiliense, 2000.
                     zaidan FilHo, Michel. A crise da razo histrica. Campinas: Papirus, 1989.




               pr-HistriA
                    A Pr-histria, ao ser abordada pelos livros didticos, em geral  tratada como
               a antessala da Histria, sua introduo, e no como parte dela. Isso se deve a seu
               prprio conceito e a como ele  interpretado normalmente, pois a Pr-histria 
               definida como o campo de estudos do passado mais remoto da humanidade, desde
               seu surgimento at o aparecimento da escrita. Mais especificamente, at o surgimento
               da escrita no Egito e na Mesopotmia, cerca de 3000 a 2000 a.C.


               342
     Esse conceito, elaborado no sculo xix, tem, no entanto, dois srios problemas. O




                                                                                         Pr-histria
primeiro  o fato de que a escrita no surgiu em todos os lugares ao mesmo tempo,
o que torna essa diviso temporal bastante arbitrria. O segundo  o etnocentrismo
resultante do ato de considerar apenas a escrita, um elemento cultural restrito a
determinadas culturas, como o fator determinante de quem se situa na histria e
de quem se situa fora dela. A ideia de que as sociedades grafas, ou seja, sociedades
sem escrita, no teriam histria nasceu com a vertente positivista da historiografia
ocidental no sculo xix, que enfatizava sobretudo a importncia do documento
escrito na produo de conhecimento. Mas desde o momento que as cincias
humanas, no sculo xx, comearam a reconhecer que a histria  algo inerente a
toda a humanidade, a ideia de que as sociedades sem escrita esto fora da histria
passou a ser intensamente criticada por historiadores e antroplogos. E mesmo
os pr-historiadores, atualmente, no se sentem satisfeitos com esse significado
etnocntrico subjacente  palavra Pr-histria. Isso, no entanto, contribuiu para o
problema de definio da Pr-histria, e o termo continua a ser utilizado com seu
significado original, aparentemente por falta de conceito melhor, ainda estabelecendo
o surgimento da escrita na Antiguidade Oriental como o incio da Histria.
     Pr-histria, no entanto, no  apenas uma periodizao da Histria. Ela se
tornou, durante o decorrer do sculo xx, uma disciplina histrica com metodologia
prpria, definida muitas vezes como cincia autnoma. Para alguns, a Pr-histria
 uma cincia em formao, que compartilha os temas da Histria e os mtodos da
Arqueologia. A maioria dos autores, assim, aborda a Pr-histria como disciplina
complementar  Histria, com a qual divide o objetivo de estudar o desenvolvimento
humano ao longo do tempo. A especificidade da Pr-histria, nesse sentido, estaria
em estudar antigas culturas sem escrita, e em empregar um mtodo de investigao
que usa, como documento, os vestgios materiais de sociedades passadas.
     Pr-historiadores como Leroi-Gourhan afirmaram, inclusive, que poucas
disciplinas possibilitam uma abordagem to fcil quanto a Pr-histria, cujo objeto
de estudo, os artefatos de povos antigos, esto abandonados aos milhes pelo cho
nos chamados stios pr-histricos. Locais onde, segundo ele,  preciso apenas
cavar para descobrir os vestgios de culturas desaparecidas. Apesar dessa afirmao,
foi o prprio Leroi-Gourhan quem defendeu que, para o bom entendimento
desses vestgios escavados,  preciso que o pr-historiador utilize outras cincias.
A Pr-histria, assim, caracterizar-se-ia por ser uma cincia necessariamente
interdisciplinar, pois precisa, em seu cotidiano, empregar mtodos e dados da
Geologia, da Paleontologia e da Geografia, sem falar da Histria e da Arqueologia.
     O trabalho do pr-historiador, por sua vez, consiste basicamente em reconstruir
culturas h muito desaparecidas. Quando trabalha com culturas e povos muito
antigos, o pr-historiador em geral utiliza os mtodos da Geologia e da Paleontologia,



                                                                                 343
               esta associada  Gentica, para conseguir seus resultados. Isso porque, para perodos
Pr-histria



               de tempo muito remotos, em que o clima e mesmo a constituio fsica humana
               eram diferentes,  preciso recorrer aos estudos das camadas da terra, que indicam
               as mudanas climticas no tempo, e da estrutura biolgica e gentica de ossadas
               humanas, para perceber as mudanas que o ser humano sofreu desde os homindeos
               at a humanidade moderna.
                    J para perodos mais recentes, nos quais a geografia e a constituio biolgica
               dos grupos humanos so as mesmas que as atuais, as cincias utilizadas so outras,
               principalmente a Lingustica, a Antropologia e a Etnologia, que estudam costumes e
               lnguas de grupos contemporneos considerados primitivos, no intuito de encontrar
               paralelos com povos pr-histricos.
                    Existem, ainda, outros problemas atrelados ao conceito de Pr-histria. Um dos
               mais significativos  o fato de que, hoje, com a ampliao da noo do que pode ser
               objeto de estudo do historiador, a Histria tambm estuda povos sem escrita, como as
               populaes nativas da Amrica antes da conquista europeia. At o prprio conceito de
               documento histrico se expandiu, incluindo tambm os vestgios pr-histricos. Se,
               por um lado, essa situao permite uma compreenso muito mais universal da histria,
               por outro, dificulta ainda mais a delimitao do campo de estudos do pr-historiador.
                     A Pr-histria  uma disciplina emergente no Brasil. Ao estudar povos sem
               escrita, observando seus costumes e suas culturas, professores tm um bom
               instrumento para combater o etnocentrismo em sala de aula. Mas  necessrio
               ter cuidado para no encarar a Pr-histria simplesmente como um perodo
               distante e obscuro da humanidade, ou como um perodo que antecede a Histria.
                preciso perceber a histria humana como um longo processo, reconhecendo nos
               atos e nos comportamentos dos homens pr-histricos muito do que somos hoje.
               Podemos trabalhar os homens pr-histricos como seres que possuam imaginao
               e sentimentos (visveis j nos rituais fnebres neanderthais, por exemplo), o que
               permite que nossos alunos possam se identificar como da mesma espcie que esses
               homens antigos. Tambm podemos trabalhar a Pr-histria como um momento
               privilegiado da relao entre os humanos e o meio natural, estudando assim a
               Ecologia na histria. Estudar a histria antes da escrita pode ser, portanto, uma
               forma de iniciar os alunos em outros tipos de relao do homem com a natureza e
               com seus semelhantes.

               Ver tAmbm
                   Antiguidade; Arqueologia; Etnocentrismo; Evoluo; Fonte Histrica; Histria;
               ndio; Interdisciplinaridade; Tribo; Tecnologia.



               344
sugestes de leiturA




                                                                                         Pr-histria
   brzillon, Michel. Dicionrio de Pr-histria. Lisboa: Edies 70, s. d.
   Funari, Pedro Paulo. Arqueologia. So Paulo: Contexto, 2003.
   ______; noelli, Francisco Silva. Pr-histria do Brasil. So Paulo: Contexto, 2002.
   leroi-GourHan, Andr. Os caadores da Pr-histria. Lisboa: Edies 70, 1983.
   ______. Os caminhos da Histria antes da escrita. In: le GoFF, Jaques; nora,
     Pierre. Histria: novos problemas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.
   martin, Gabriela. Pr-histria do Nordeste do Brasil. Recife: Universitria da
    uFpe, 1997.

   triGGer, Bruce G. Alm da Histria: os mtodos da Pr-histria. So Paulo:
     epu, 1973.




                                                                                 345
 r

rAA
         R
     H atualmente duas discusses em torno do conceito de raa no Brasil: a
discusso acadmica, que cada vez mais tende a considerar a inexistncia de
diferenas raciais, esvaziando a ideia de raa como conceito; e o imaginrio social,
para o qual raa  uma realidade, ainda que o discurso dominante nesse imaginrio
seja o da miscigenao. Se a cincia hoje tende a afirmar que s existe uma nica raa
humana, o conceito de diferenas raciais est to arraigado na sociedade brasileira
que talvez ainda demore bastante tempo para que essa nova crena cientfica seja
incorporada ao senso comum. Qual a razo para isso? O que  raa, afinal?
     Atingindo seu apogeu como conceito cientfico no sculo xix, a noo de raa
diz respeito a certo conjunto de atributos biolgicos comuns a um determinado
grupo humano. O termo raa no era exatamente uma palavra nova nas lnguas
europeias no sculo xix. A palavra, na Idade Moderna, com outros significados,
era conhecida no mundo europeu, e dizer que se pertencia a uma raa era
afirmar o pertencimento a uma linhagem. Durante esse perodo, foi criada a tese
monogenista, que afirma a existncia de uma nica raa humana descendente de
Abrao, e praticamente no havia ainda a ideia de inferioridade racial. Isso no
significa, no entanto, que no houvesse etnocentrismo e discriminao com base
em caractersticas fsicas. Alm disso, os judeus, por exemplo, eram perseguidos na
Europa desde o fim do Imprio Romano, sobretudo por consideraes religiosas e
culturais que chamaramos hoje de tnicas.
     A origem do pensamento que entende a humanidade a partir de raas diferentes
est no sculo xvi e na formao dos Estados nacionais europeus, que comearam a
enfatizar as diferenas lingusticas e histricas internas. Mas para a autora Gislene
Santos, foram os iluministas que cunharam as primeiras doutrinas racialistas, ou
seja, as primeiras doutrinas para o estudo das diferentes raas humanas, dando
origem no sculo xviii a outra hiptese racial, a poligenista, que defendia a existncia
de diversas raas humanas. A autora distingue o racialismo, a crena em raas
humanas, do racismo, o preconceito contra raas consideradas inferiores. E no sculo
xviii o racialismo no era ainda racismo, pois as diferenas biolgicas ainda no




346
eram consideradas definitivas para a evoluo humana. O objetivo dos iluministas




                                                                                            Raa
era encontrar um sistema de valores universal, que pudesse ser estabelecido para
todas as raas. Tambm segundo Maria Alzira Brum Lemos, foi na Frana do sculo
xviii que surgiram as tradies de pensamento que influenciaram a definio de raa

como um sistema de classificao humana. Entre essas tradies estava a Histria
Natural, que daria origem, no sculo xix,  Antropologia Fsica, cincia responsvel
pelas teorias racialistas.
      O racialismo, com os iluministas, definia raa como um grupo humano cujos
membros possuam caractersticas fsicas comuns. Tal teoria voltou-se para a crena
de que a raa no era apenas definida fsica, mas moralmente, bem como que as
diferenas fsicas acarretavam diferenas mentais hereditrias. Assim, a distino do
mundo em raas correspondia  diviso do mundo em culturas, e o comportamento
do indivduo era definido pelo grupo racial ao qual ele pertencia. Alm disso, um
sistema de valores universal classificaria as raas em superiores e inferiores.
      Se at 1800, segundo Michel Banton, raa significava o pertencer a uma linhagem,
a partir dessa data, com a influncia da Histria Natural e da doutrina racialista do
sculo xvii, raa comeou a designar os tipos humanos e suas diferenas biolgicas, e
s poderia ser entendida a partir da Fisiologia. Era a extenso da classificao do reino
animal para os estudos sobre os seres humanos. E foi a Antropologia Fsica a primeira
cincia a estudar a variedade de raas e de seres humanos, levando ao surgimento
de uma disciplina especializada na determinao das diferenas biolgicas entre as
raas, a Frenologia. Criada ainda no final do sculo xviii, a Frenologia teve grande
desenvolvimento no sculo seguinte, influenciando muitos pensadores sociais, entre
os quais o criador do positivismo, Auguste Comte. Tal disciplina  hoje totalmente
desacreditada  pretendia estabelecer as caractersticas psicolgicas de cada raa com
base nas medidas e no tamanho do crebro. Ela influenciou as teorias eugnicas sobre
raas superiores nos sculos xix e xx, assim como a Medicina e a Criminologia, que
tiveram na obra do italiano Lombroso sua maior influncia. Lombroso, criador da
Antropologia Criminal, defendia que a criminalidade era uma questo biolgica e
hereditria, e poderia ser identificada pela utilizao da Frenologia.
      Em meados do sculo xix, o conceito de raa migrou das cincias naturais e alcanou
as cincias sociais e humanas. Com a publicao da obra de Charles Darwin, em 1859,
e o desenvolvimento da teoria evolucionista a partir da, o racialismo ganhou novas
perspectivas, com o chamado darwinismo social, que lastreada na teoria da evoluo e
na seleo natural afirmava no s a diferena de raas humanas, mas a superioridade
de umas sobre as outras e, ainda, que a tendncia das raas superiores era submeter
e substituir as outras. A partir da Frenologia e do darwinismo social (muitas vezes
chamado de spencerismo, pois a transposio dos argumentos darwinistas para o campo


                                                                                    347
       do social no se deveu ao prprio Darwin, mas a Spencer), desenvolveu-se a eugenia,
Raa



       que enaltecia a pureza das raas, a existncia de raas superiores e desacreditava a
       miscigenao. Tais teorias foram a base cientfica do racismo.
            Enquanto o racialismo  o estudo das diferentes raas humanas, o racismo  a
       aplicao prtica dessas teorias, que acredita em raas superiores e cria mecanismos
       sociais e polticos para reprimir as raas consideradas inferiores. Os pensadores
       racialistas eugnicos no toleravam a diferena racial e defendiam que a diferena
       qualitativa entre as raas superava as teorias igualitaristas que pregavam a igualdade
       entre todos os homens. Para eles, cada raa tinha um lugar determinado no mundo,
       definido pelo grau de importncia na escala evolutiva. E a raa superior, eleita pela
       seleo natural para ordenar o mundo, era a caucasoide, ou seja, a raa branca.
       Lembremos, no entanto, que h uma diferena entre cor e raa, pois, por exemplo, para
       os eugenistas, apesar de terem a mesma cor branca, os germnicos seriam superiores
       aos judeus e aos eslavos.
            No estamos aqui afirmando, todavia, que a discriminao social com base em
       diferenas fsicas no existisse anteriormente, mas o preconceito contra os negros
       nas Amricas, por exemplo, foi, durante a escravido moderna, baseada sobretudo
       em questes jurdicas, valores sociais, alm da diferenciao de cor, e no em
       diferenas raciais, biolgicas e cientificamente estabelecidas, apesar da escravido
       moderna ser, segundo Brion Davis, mais explicitamente racial do que a antiga.
       Mas foi com a ascenso dos estudos racialistas, que cada vez mais a discriminao
       contra judeus e negros, por exemplo, foi feita com base na pretensa inferioridade
       racial desses grupos.
            Durante o sculo xx, o preconceito racial cresceu fora dos meios acadmicos,
       dando origem a perseguies, como a levada a cabo pelo partido nazista na Alemanha
       do entre-guerras, e  restrio dos direitos dos negros no sul dos Estados Unidos at
       a dcada de 1960. Na segunda metade do sculo xx, apesar do racismo ser condenado
       na maior parte do mundo, inclusive no Brasil, onde  ilegal e criminoso, ele continua
       a existir socialmente com grande fora. E se o racismo existe  porque a sociedade que
       o abriga admite a existncia de raas. Assim, apesar de condenarmos o preconceito
       racial, nossa cultura continua a acreditar nas teorias racialistas que deram origem a ele.
            A Biologia, no entanto, foi a primeira cincia a desconstruir a teoria racialista
       que tinha ajudado a elaborar no xix. A partir do fim do sculo xx, os bilogos
       cada vez mais aderiram  hiptese de que no existem raas na espcie humana.
       Geneticistas de todo o mundo tm derrubado a crena de que se pode definir
       geneticamente as diferenas raciais na humanidade. Mas as cincias sociais
       demoraram mais para contestar esse conceito. Historiadores nos eua, por exemplo,
       onde a crena na existncia de raas ainda  predominante, continuam a utilizar o


       348
termo.  o caso do historiador afro-americano John Hope Franklin, um dos principais




                                                                                         Raa
responsveis pelo desenvolvimento de um discurso histrico afro-americano nos eua
do sculo xx.
     Tambm a Antropologia, apesar de cada vez mais se voltar para a definio de
etnia, continua a explorar as possibilidades do estudo do conceito de raa, apesar
de t-lo transformado consideravelmente.  o que podemos ver nos estudos sobre
raa no Brasil, desenvolvidos a partir da dcada de 1990, que pretendem entender o
funcionamento do racismo e de como a sociedade brasileira percebe a questo racial.
Nesse sentido, para Yvone Maggie e Claudia Rezende, a imagem de harmonia racial
brasileira, promovida a partir da dcada de 1930 por antroplogos como Gilberto
Freyre, comeou a ser contestada em 1950, quando a questo de classe passou a ser
prioritria. Mas na dcada de 1970, muitos antroplogos retomaram o conceito de
raa para mostrar que ele determinava em muitos pontos a desigualdade social no
Brasil. Atualmente, pesquisas realizadas por antroplogos como Maggie, Rezende
e Peter Fry tm entendido raa no mais como um conceito biolgico, mas como
uma construo histrica e discursiva. Ou seja, raa existe como discurso social e
no como realidade fisiolgica. Essa percepo nos leva a afirmar que a raa existe
apenas em sociedade, como um qualificativo de desigualdade social ou de identidade
cultural. Assim, apesar de a Biologia hoje contestar de modo veemente a existncia
de uma raa negra, tanto a sociedade brasileira acredita que tal raa existe quanto os
prprios indivduos considerados negros se julgam como tais, assumindo a crena na
raa como uma forma de se identificar como grupo social e cultural. O conceito de
raa, assim, se aproxima muito hoje do de etnia. Com a diferena de que enquanto
etnia  uma construo conceitual dos acadmicos, raa  um termo plenamente
assumido pelo senso comum.
     Seria assim o racismo um anacronismo? Pois, se do ponto de vista cientfico
a raa  hoje uma noo inexistente, o racismo  um preconceito baseado em uma
diferenciao que no existe. E se no existem raas, como pode existir discriminao
racial? Apesar disso, ainda hoje esse preconceito  uma realidade, transformado em
preconceito de cor, tambm consideravelmente abstrato, pois, apesar do discurso
dominante no Brasil,  extremamente difcil definir a cor da maior parte da populao.
O que nos leva a um segundo problema, o da miscigenao. Pois, se no existem
raas, como pode existir misturas de raas? Para ns professores, uma ferramenta
extremamente poderosa para o combate ao preconceito de cor que se apresenta no
Brasil como racial  o trabalho em sala de aula com essa ampla discusso em torno
do conceito de raa, pois ela nos leva a perceber o absurdo da inferiorizao de seres
humanos com base na questo biolgica, uma vez que somos todos fisiologicamente
exatamente iguais.


                                                                                 349
                       Ver tAmbm
Relativismo Cultural



                             Cidadania; Cincia; Etnia; Etnocentrismo; Evoluo; Identidade; ndio;
                             Miscigenao; Negro.

                       sugestes de leiturA
                             cavalleiro, Eliane. Do silncio do lar ao silncio escolar. 3. ed. So Paulo:
                              Contexto, 2003.
                             FranKlin, John Hope. Raa e Histria: ensaios selecionados. Rio de Janeiro:
                               Rocco, 1999.
                             lvi-StrauSS, Claude. Raa e Histria. Lisboa: Presena, 1952.
                             maGGie, Yvonne; rezende, Claudia Barcellos. Raa como retrica: a construo
                              da diferena. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 2001.
                             pinSKy, Jaime. A escravido no Brasil. So Paulo: Contexto, 1993.
                             ______. 12 faces do preconceito. 7. ed. So Paulo: Contexto, 2004.
                             pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Faces do fanatismo. So Paulo:
                               Contexto, 2004.
                             SantoS, Gislene Aparecida dos. A inveno do ser negro: um percurso das ideias
                               que naturalizaram a inferioridade dos negros. So Paulo/Rio de Janeiro: Educ/
                               Fapesp/Pallas, 2002.
                             ScHWarcz, Lilia Moritz. O espetculo das raas: cientistas, instituies e questo
                               racial no Brasil  1870-1930. So Paulo: Companhia das Letras, 1993.




                       relAtiVismo culturAl
                            A expresso relativismo cultural faz referncia a uma abordagem metodolgica, uma
                       forma de interpretar dados culturais usual na Histria e em outras cincias humanas,
                       mas principalmente na Antropologia. Na verdade, para alguns autores a relativizao
                       se tornou sinnimo mesmo da Antropologia. E no   toa que um famoso manual de
                       Antropologia brasileiro, escrito por Roberto DaMatta, chama-se Relativizando.
                            Andrew e Sedgwick, em obra de referncia recentemente lanada no Brasil,
                       definem o relativismo cultural como a viso que interpreta moralidade, prticas e
                       crenas funcionando de forma diferente em culturas distintas e, logo, no podendo
                       ser julgados quanto a seu valor segundo um ponto de vista de outra cultura. J Robert
                       Foley, antroplogo fsico preocupado com a evoluo humana, define o relativismo
                       cultural como a viso atual que nega a existncia de um conhecimento objetivo,


                       350
acreditando apenas em um mundo de palavras e textos de criao humana. Nessa




                                                                                       Relativismo Cultural
perspectiva, a experincia humana, incluindo o conhecimento, s pode ser alcanada
por meio do mundo lingustico do pensamento e da comunicao. O mundo que
experimentamos seria, dessa forma, apenas uma construo dos sentidos. Mesmo os
mais moderados dessa corrente, de acordo com Foley, acreditam que, ainda que haja
um mundo real, nunca o podemos observar e experimentar objetivamente.
     Vemos assim que existem maneiras diferentes de pensar o relativismo cultural:
na primeira, ele aparece como uma prtica contra o etnocentrismo; na segunda,
como a desconstruo da realidade, uma viso em que a realidade no existe. A
primeira viso  a mais usual na Antropologia Cultural e a segunda, que advm da
Lingustica, fundamenta a viso dos ps-modernos mais radicais.
     O relativismo cultural surgiu na Antropologia, levando os antroplogos a
estudar quais as solues que sociedades diferentes oferecem para as mesmas
questes existenciais, nas palavras de Everardo Rocha. Essa concepo metodolgica
surgiu como alternativa ao evolucionismo que imperou na Antropologia e em
outras cincias durante o sculo xix, a qual propunha uma viso progressista e
etnocntrica, na qual a sociedade ocidental era apresentada como a nica civilizao
avanada, e todas as outras formas de cultura tidas apenas como estgios na escala
para a ascenso evolutiva da humanidade. A viso evolucionista tomava, assim,
a civilizao ocidental como parmetro e julgava as outras sociedades, culturas e
civilizaes sob os padres do Ocidente. O relativismo veio contestar essa viso,
aparecendo de incio na passagem do sculo xix para o xx, e sugerindo, em linhas
gerais, que sociedades diferentes tm concepes de existncia tambm diferentes,
todas igualmente vlidas. Ou seja, a espcie humana d respostas distintas para os
problemas que encontra, sem que possamos julgar a validade de cada concepo a
partir de padres de outra cultura.
     Um dos primeiros pensadores a dar nfase a uma viso relativista foi Franz
Boas, fundando o difusionismo, tambm conhecido como "escola americana", e
revolucionando a Antropologia com a introduo da relativizao do conceito de
cultura. Criticando a viso evolucionista, Boas defendia que cada cultura tinha
suas particularidades, produzidas de condies histricas e geogrficas especficas.
Segundo Everardo Rocha, essa passagem do etnocentrismo para a relativizao
definiu alguns pontos bsicos da Antropologia, utilizados at hoje por diferentes
correntes. Entre eles est a concepo de que no existe apenas uma histria. Em
segundo lugar, a concepo de que existem culturas mltiplas e de que no  possvel
julg-las segundo uma hierarquia construda por outra cultura, como a ocidental.
Boas, apesar de inovador, no foi o nico a investir nessa relativizao. Entre os
sculos xix e xx surgiram outros nomes que deram impulso  relativizao, como


                                                                                351
                       Durkheim, Malinowski, Radcliffe-Brown e, posteriormente, Lvi-Strauss. Todos
Relativismo Cultural



                       eles grandes renovadores da Antropologia e com grande influncia sobre outras
                       disciplinas sociais, inclusive a Histria e a produo historiogrfica do sculo xx.
                            Do ponto de vista da Histria, a primeira contribuio do relativismo cultural
                       foi sua crena de que no h uma nica histria, e esta no avana em uma nica
                       direo, a do Ocidente "civilizado". O relativismo cultural contribuiu, assim, para
                       desconstruir o etnocentrismo da historiografia ocidental, abrindo espao para a
                       valorizao das histrias dos povos conquistados, que at ento no tinham espao
                       na historiografia tradicional. Com a crescente influncia da Antropologia sobre
                       a Histria a partir do ltimo quartel do sculo xx, e com o crescimento da ps-
                       modernidade nas cincias humanas no mesmo perodo, a relativizao cresceu
                       consideravelmente entre os historiadores.
                            O relativismo cultural surgiu na historiografia no perodo entre-guerras. A
                       onda de ceticismo que recaiu sobre muitos pensadores, com as destruies causadas
                       pelas guerras na Europa, levou-os a criticarem a objetividade e o conceito de verdade
                       em Histria. Entre esses estavam historiadores como Collingwood, considerado
                       um presentista. Para ele, o pensamento histrico  uma atividade de imaginao e
                       nenhum testemunho  vlido para todos os momentos, alm disso, a interpretao
                       das fontes varia de acordo com o historiador e seu contexto especfico. Depois dele
                       aparecem outros presentistas como Henri Marrou, Raymond Aron e Paul Veyne,
                       todos considerados relativistas, apesar das diferentes abordagens que apresentam.
                            O historiador presentista  um relativista porque acredita que um dos elementos
                       principais no trabalho de interpretao das fontes  o prprio cotidiano do historiador.
                       Assim, a verdade extrada das fontes seria relativa, pois cada historiador leria uma
                       verdade distinta segundo sua ideologia, seus contedos afetivos pessoais e seu
                       momento histrico especfico. H tambm aqueles relativistas moderados, como
                       Adam Shaft, que afirmam que mesmo que a verdade atingida pela Histria seja sempre
                       parcial, o historiador deve insistir na busca da verdade, pois o conhecimento histrico
                       progride pelo simples processo de acumular muitas verdades parciais.
                            Mas, se o relativismo na Antropologia trouxe uma crtica ao etnocentrismo bem-
                       vinda tambm na Histria, as mais recentes correntes metodolgicas relativistas,
                       vinculadas  ps-modernidade, trazem muitas polmicas para as cincias humanas.
                       A insero da Lingustica no trabalho historiogrfico deu nfase  ideia de que o
                       mundo que os pesquisadores poderiam alcanar pelas suas anlises no  real, mas
                       aquele criado pelos sentidos humanos, pela linguagem, e, logo, um mundo muito
                       relativo. Assim, todo conhecimento produzido se tornaria especfico de determinada
                       cultura, e de determinada percepo de mundo, chegando mesmo alguns a afirmar
                       que no h uma realidade concreta, um "mundo real". Essa concepo, no entanto,


                       352
no  aceita por todos os pensadores relativistas, que fazem parte de diferentes




                                                                                              Relativismo Cultural
correntes.  ainda o antroplogo Everardo Rocha quem nos alerta para o risco do
relativismo cultural: cair no reducionismo, ou seja, procurar explicar tudo com
base apenas nessa nica viso de mundo, afirmando que apenas um fator define a
cultura ou, no nosso caso, a Histria.
     Sergio Paulo Rouanet  um dos pensadores mais crticos da ps-modernidade
no Brasil, e tambm do relativismo cultural radical, que ele define como historismo.
Para ele, essa viso de relativizao absoluta, que afirma que no h um real,  uma
rejeio a tudo que possa haver de universal  espcie humana. E, apesar de que ao
longo do tempo essa rejeio j se fez sentir de diversas formas, como o nacionalismo
exacerbado do sculo xix, atualmente o historismo ps-moderno seria uma rejeio
ao universal com base etnolgica derivada do relativismo cultural antropolgico, e de
sua premissa de que diferentes culturas tm sua funcionalidade prpria e igualmente
vlida e no podem ser julgadas por outras culturas. No que Rouanet critique o
relativismo cultural antropolgico como um todo. Ele afirma, inclusive, que Boas
e os outros fundadores da Antropologia, apesar de sua defesa dos particularismos
culturais, nunca negaram a existncia de uma unidade no gnero humano. Mas, por
outro lado, muitos so hoje aqueles que usam as premissas do relativismo cultural
para negar a existncia de algo em comum a todo o gnero humano.
     Tanto para Rouanet quanto para Edgar e Sedgwick, esse relativismo cultural
ps-moderno  conservador e comprometido com o liberalismo, e no com a cultura
dos marginalizados, como  apresentado muitas vezes. Para Rouanet, ao negar o
universal, o relativismo deixa de pregar o igualitarismo entre a humanidade; j para
Edgar e Sedgwick, ao se ligar ao liberalismo, ele na verdade est se comprometendo
mais com o imperialismo cultural do que com a valorizao de culturas marginais.
     Notamos, assim, uma multiplicidade de vises sobre o relativismo cultural: ele
tanto pode trazer contribuies, ao nos levar a valorizar e respeitar culturas distintas
da nossa, e nesse sentido pode ser um importante instrumento para o professor,
quanto pode negar a realidade, afirmando que tudo  linguagem e representao, e
ocultando as relaes econmicas e sociais de dominao. No relativismo cultural
radical, dificilmente podemos falar em tica ou em valores que pertencem ao gnero
humano. Mas essa abordagem configura um avano inegvel na interpretao cultural
e no respeito  pluralidade de culturas. No currculo escolar de Histria podemos
encontrar numerosos tpicos em que  possvel aplicar o conceito de relativismo
cultural: as colonizaes da Amrica, da frica e da sia; a relao das civilizaes grega
e romana com os demais povos da Antiguidade (muitas vezes tratados genericamente
como "brbaros"); e o avano do nazismo e do discurso ideolgico da "cultura superior
ariana", entre outros. Estaremos, assim, respondendo  exigncia atual de que a Histria
trabalhe com a diversidade cultural no ensino Fundamental e Mdio.



                                                                                      353
           Ver tAmbm
Religio



                 Cultura; Discurso; tica; Etnocentrismo; Evoluo; Histria; Interdisciplinaridade;
                 Mentalidades; Ps-modernidade; Romantismo; Tempo.

           sugestes de leiturA
                 bourd, Guy; martin, Herv. As escolas histricas. Sintra/Portugal: Publicaes
                   Europa-Amrica, 1990.
                 edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
                   entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
                 Foley, Robert. Humanos antes da humanidade. Lisboa: Teorema, 2001.
                 HuGHeS-WarrinGton, Marnie. 50 grandes pensadores da Histria. So Paulo:
                  Contexto, 2002.
                 meSGraviS, Laima; pinSKy, Carla Bassanezi. 2. ed. O Brasil que os europeus
                  encontraram. So Paulo: Contexto, 2002.
                 pinSKy, Jaime. As primeiras civilizaes. So Paulo: Contexto, 2001.
                 rocHa, Everardo. O que  etnocentrismo. So Paulo: Brasiliense, 1994.
                 rouanet, Sergio Paulo. Mal-estar na modernidade. So Paulo: Companhia das
                  Letras, 1993.
                 Silva, Rogrio Forastieri da. Histria da historiografia: captulo para uma histria
                    das histrias da historiografia. Bauru: Edusc, 2001.




           religio
                Toda sociedade humana ao longo da histria parece ter possudo religio. Apesar
           disso, para alguns autores, o conceito de religio foi construdo no Ocidente: se, por
           um lado, a religiosidade encontrada j nos neanderthais e visvel em suas cerimnias
           fnebres  um dos aspectos definidores do ser humano, por outro, foi no Ocidente
           que a distino entre religio e os outros aspectos da vida social foi realizada. A
           palavra religio vem de religio, termo latino que originalmente se referia a qualquer
           conjunto de regras e interdies. Religio, pois,  uma categoria de anlise histrica
           e social que pode ser definida como um conjunto de crenas, preceitos e valores que
           compem artigo de f de determinado grupo em um contexto histrico e cultural
           especfico, lembrando que a religio  sempre coletiva.
                Se j podemos ver religio entre os primeiros seres humanos, isso se deve a sua
           caracterstica de esforo para explicar o mundo e o universo. Toda sociedade ao
           longo da histria se preocupou com suas origens, com a prpria origem da espcie


           354
e com os mistrios da morte. Os conjuntos de crenas que chamamos de religio




                                                                                         Religio
foram as primeiras tentativas, vlidas at hoje em diferentes culturas, para responder
a essas questes. Tais crenas, originalmente, davam sentido e ordem a um mundo
desconhecido e identificado com o caos, algo sempre temido pelas culturas da
Antiguidade, como a Mesopotmia e a Grcia Clssica.
     Esses conjuntos de crenas que se apresentam como religies podem assumir
diferentes aspectos conforme a cultura que os constri. Em alguns casos, baseiam-se
no desenvolvimento dos valores e cdigos de conduta, sem creditar a criao e os
valores a entidades superiores, como  o caso da religio tupi-guarani, considerada
por Hlne Clastres a prpria negao da Teologia, visto a ausncia total de
divindades. No entanto, na maioria das vezes, as religies defendem a existncia de
seres superiores, entidades sobrenaturais, com poderes sobre o destino humano.
Tais seres superiores so os deuses.
     Mas a variedade da religiosidade humana inclui mesmo a descrena na prpria
religio. Assim,  possvel classificarmos indivduos e sociedades naqueles que creem
em religies e naqueles que no creem. Nesse segundo caso esto ateus e agnsticos.
Os ateus so aqueles que rejeitam a existncia de divindades, sendo que alguns
estudiosos defendem mesmo a existncia de religies ateias, que no consideram a
existncia de divindades. Exemplos seriam o Budismo, o Confucionismo, o Taosmo,
alm da j mencionada religio tupi-guarani.
     O agnosticismo, por sua vez, nega tanto o desmo como o atesmo, pois no
considera que seja possvel discutir e muito menos resolver a questo da existncia
ou no de poderes superiores. O agnosticismo se recusa a discutir a existncia da
religio como caracterstica intrnseca  humanidade, assim como a possibilidade
da existncia de divindades. Para ele, na verdade, assim como  impossvel provar
a existncia de Deus,  igualmente impossvel provar Sua inexistncia. Para os
agnsticos, a discusso em torno da existncia de divindades , no mnimo, ftil e
intil, pois jamais vamos poder chegar a um resultado. Mas atesmo e agnosticismo
so conceitos complexos e muitas vezes pouco definidos.  comum, inclusive, a
definio de agnstico como aquele que no pertence a nenhuma religio, mas cr na
existncia de alguma entidade sobrenatural. Esses seriam os destas. Sinteticamente, 
possvel afirmar, de forma simplista, que o ateu no acredita em deuses e o agnstico
enfatiza a dvida.
     Colocando agora a questo do ponto de vista dos que aceitam a religio, podemos
fazer outra separao em dois grandes blocos, as religies destas, com divindades,
e as religies "ateias", ou seja, sem divindades. No segundo caso esto religies de
cunho antropocentrista, cuja funo  ditar valores morais, buscar a perfeio ou
o paraso, mas por meio da prpria humanidade e no da adorao de entidades
superiores. No Budismo, por exemplo, a busca se centra na elevao espiritual. Por



                                                                                 355
           meio de uma srie de preceitos e prticas ascticas, o fiel budista almeja alcanar
Religio



           a perfeio humana, o Nirvana. Este no  o paraso oferecido por divindades
           queles que seguem suas normas fielmente; pelo contrrio, o Nirvana  o estgio
           mais elevado da prpria humanidade, alcanado pelos que se dedicam a desenvolver
           certas potencialidades humanas ligadas ao esprito.
                J a extinta religio tupi-guarani, por sua vez, acreditava em paraso. Mas
           este, todavia, no era criado e nem de responsabilidade de divindades: estava na
           terra, e poderia ser alcanado tanto pelos vivos quanto pelos mortos. No existiam
           preceitos nem ritos especficos nessa religio, e o culto, quando presente, era voltado
           para a prpria humanidade na figura dos antepassados. Mas, em geral, at mesmo
           esse culto era secundrio, sendo o principal elemento religioso a busca da terra sem
           mal, o paraso terreno.
                Assim, podemos observar por esses exemplos que a religiosidade humana
           prescinde mesmo da divindade, muitas vezes se voltando para a prpria glorificao
           do humano. Hoje, no entanto, as religies com mais adeptos no mundo so as destas,
           aquelas que acreditam na existncia de divindades. Nesse caso tambm  possvel fazer
           uma subdiviso entre as mono e as politestas. Enquanto as primeiras defendem a
           existncia de uma nica divindade, as politestas adoram um panteo, um conjunto
           de muitos deuses e deusas. As maiores religies do mundo hoje so as monotestas. E
           apesar do Judasmo ter menos de 20 milhes de adeptos, com o Cristianismo e o Isl,
           abarca a metade da humanidade. Entre as politestas, por sua vez, o Hindusmo  a
           mais significativa. No entanto, a definio de religies poli e monotestas pode no
           ser to simples como pensvamos. Primeiro, para muitos monotestas no cristos
           o prprio Cristianismo com a crena na Santssima Trindade no  monotesta, pois
           adoraria trs divindades. Segundo lugar, visto que o Cristianismo afirma a unidade da
           divindade na Trindade, tambm o Hindusmo, no qual todas as divindades terminam
           sendo reafirmaes da divindade criadora, seria monotesta e no politesta. Entre
           os dois extremos est a definio de religio henotesta, em que o politesmo pode
           dar lugar a uma adorao monotesta quando determinado grupo de fiis escolhe
           adorar apenas uma divindade do panteo. Um exemplo seria o culto a Hare Krishna,
           originrio do Hindusmo, cuja adorao est centrada apenas em Krishna, avatar de
           Vishnu, uma das trs divindades principais do panteo hindu.
                Atualmente, as duas maiores religies em nmeros de praticantes so o Isl e
           o Cristianismo. A terceira, o Hindusmo, por sua vez,  politesta. A maioria das
           civilizaes, at o surgimento e a expanso do Cristianismo e do Islamismo, eram
           politestas, desde a Grcia clssica passando pelos maias na Amrica Central at as
           cidades-estados iorubs na frica ocidental. A marca de uma religio politesta 
           seu panteo diversificado, em que a cada divindade so atribudas determinadas
           caractersticas. Hoje o Hindusmo, religio oficial da ndia,  a principal religio



           356
politesta do mundo. No entanto, alguns consideram mais correto falar do




                                                                                            Religio
Hindusmo como um conjunto de religies que partilham elementos em comum,
mas sem uma teologia nica. Muitos praticantes do Hindusmo, inclusive, se
ressentem desse termo, que tem mais uma caracterstica geogrfica que religiosa. O
termo mais apropriado, para os indianos mais tradicionalistas,  Sanatana-Dharma,
"religio eterna". Como o Judasmo, o Hindusmo tambm gerou vrias religies
importantes, como o Budismo e o Sikhismo.
     O Budismo poderia se encaixar naquela definio de uma religio ateia, visto
que no se baseia no culto s divindades. Surgida da filosofia pregada por Buda, o
Iluminado, ou Siddartha Gautama, no sculo vi a.C., expandiu-se pela sia, hoje com
300 milhes de devotos em todo o mundo. O principal lder espiritual do budismo
 o Dalai Lama, considerado, pela corrente tibetana do Budismo, a reencarnao de
Buda. E, apesar de seu crescimento no Ocidente, nessa regio ainda  uma religio
sobre a qual so elaborados muitos mal-entendidos, principalmente devido ao
crescimento do esoterismo, que reivindica, em geral, de modo indevido, ligaes
com a pregao budista. A base deste  a crena em uma insatisfao inerente ao
homem, que, no entanto, pode ser transcendida para se obter a perfeio.
     A variedade de religies na histria engloba ainda experincias to diversas
como o Candombl, o Xintosmo e o Espiritismo. O Espiritismo, ou Kardecismo,
surgido no final do sculo xix na Europa com a doutrina de Allan Kardec,  uma
religio espiritualista, ou seja, enfatiza a alma, acreditando que esta sobrevive  morte
fsica do corpo. O Espiritismo mescla Cristianismo e influncias hindustas, como
a crena fundamental na reencarnao, tendo como uma de suas caractersticas
marcantes a apropriao de uma linguagem cientfica, reivindicando para si uma
caracterstica de cientificidade.
     O Candombl, por sua vez,  uma religio politesta, que apesar de baseada
no culto aos orixs, deuses africanos de povos como os iorubs, da atual Nigria e
Benin, nasceu no Brasil criada pelos escravos com base em cultos africanos, mas com
elementos prprios, muitas vezes miscigenados. No entanto, a ligao do Candombl
com a religio africana dos orixs  bastante visvel no fato de que em outros lugares
da Amrica podemos encontrar religies com tradies similares, como a Santera
cubana, por exemplo, tambm elaborada por escravos africanos.
     J o Xintosmo, ou Xint, religio tradicional do Japo, assim como a religio
tupi-guarani e outras religies "ateias", pouco credita  teologia, preferindo se dedicar
a encorajar respeito e gratido aos ancestrais, alm de enfatizar aspectos morais e
sociais. Tambm como a religio tupi-guarani, o Xintosmo no tem nem mesmo um
termo especfico para o conceito ocidental de Deus. Uma das suas mais marcantes e
particulares caractersticas, no entanto,  seu carter intrinsecamente nacional, estando
to ligado  cultura japonesa que praticamente no se propagou para outras regies.



                                                                                    357
               A discusso sobre a diversidade religiosa e os mltiplos significados da religio
Religio



            ampla, e, depois de ter sido relegada por muito tempo como tema de pouco
           interesse para a cincia, a crise da modernidade no Ocidente trouxe de volta um
           interesse saudvel em rever a religiosidade humana como parte integrante do que
           define mesmo o ser humano. A retomada da religio pode ser sentida na sala de aula,
           nas propostas curriculares de pedagogos. Cabe ao professor de Histria participar
           desse processo de revalorizao da religiosidade, explicando historicamente a
           grande diversidade de crenas. No entanto, devemos tomar muito cuidado para
           no confundirmos valorizao da religiosidade, como importante componente da
           identidade humana, com a imposio de crenas particulares especficas. Para o
           historiador, o respeito  liberdade de crenas, ainda que seja o respeito ao direito
           de no possuir nenhuma religio,  fundamental, e o professor precisa sempre ter
           esses preceitos em mente ao discutir temas correlatos.

           Ver tAmbm
                 Candombl; Cristianismo; Fundamentalismo; Identidade; Inquisio; Isl;
                 Judasmo; Monotesmo; Politesmo.

           sugestes de leiturA
                 campbell, James. As mscaras de Deus: mitologia primitiva. So Paulo: Palas
                  Athena, 1992.
                 claStreS, Hlne. Terra sem mal: o profetismo tupi-guarani. So Paulo:
                  Brasiliense, 1978.
                 del priore, Mary (org.). Histria das mulheres no Brasil. 6. ed. So Paulo:
                  Contexto, 2002.
                 edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
                   entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
                 HinnelS, John R. (ed.). Dicionrio das religies. So Paulo: Crculo do Livro, 1990.
                 pinSKy, Jaime. As primeiras civilizaes. So Paulo: Contexto, 2001.
                 pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Faces do fanatismo. So Paulo:
                   Contexto, 2004.
                 reeber, Michel. Religies: mais de 400 termos, conceitos e ideias. Rio de Janeiro:
                   Ediouro, 2002.
                 Silva, Eliane Moura da. Religio: estudos de religio para um novo milnio. In:
                   Karnal, Leandro (org.). Histria na sala de aula: conceitos, prticas e propostas.
                   So Paulo: Contexto, 2003.


           358
renAscimento




                                                                                           Renascimento
     Tema constante nos currculos de Histria, o Renascimento  um daqueles
assuntos que por ser muito conhecido muitas vezes  mal compreendido. Ligado
a outros importantes conceitos como Humanismo e Reforma, o Renascimento 
um momento histrico que produziu significativa influncia na formao do que
chamamos de mundo ocidental.
     A palavra Renascimento surgiu j durante o sculo xv, mas de incio seu sentido
era religioso, significando a revitalizao da alma por meio dos sacramentos. S no
sculo xvi o termo foi empregado com seu sentido mais corrente, para se referir
s mudanas de conscincia e nas formas de expresso artsticas do perodo. No
entanto, desde o sculo xv que os indivduos envolvidos no fenmeno j tomavam
conscincia dessas mudanas culturais. Renascimento, dessa forma, significa o
momento histrico que se inicia e tem seu apogeu nas cidades italianas do sculo xv,
de renovao das expresses artsticas ligada s mudanas de mentalidade do perodo,
com a ascenso da burguesia. Ele est em conexo com o Humanismo, ou seja, com
a retomada dos estudos sobre a Antiguidade clssica, apesar de hoje a maioria dos
autores no considerar mais o Humanismo a filosofia acadmica do Renascimento.
     O significado mais difundido de Renascimento, como o rejuvenescimento
cultural a partir das formas de expresso da Antiguidade clssica, j era usado por seus
contemporneos, como Marclio Ficino no sculo xvi. A historiografia tradicional,
principalmente do sculo xix, costumava olhar para o Renascimento como um
momento de ruptura com a Idade Mdia, considerada ento a Idade das Trevas. O
Renascimento, portanto, seria a volta aos valores da Arte mais pura e avanada, a Arte
greco-romana. Essa concepo tradicional estava baseada no discurso proferido pelos
prprios renascentistas. Segundo Will Durant, os italianos chamaram de Renascimento
o que consideravam a ressurreio do esprito clssico depois de mil anos de trevas.
     Atualmente, essa viso  bastante contestada. A Renascena no  mais vista como
uma ruptura com a Idade Mdia, nem essa  mais pensada em termos de Idade das
Trevas. Na verdade, os principais estudiosos do perodo, como Jacob Burckhardt e Jean
Delumeau, consideram que o movimento de reavivamento do pensamento e da Arte
que deu origem ao Renascimento comeou com a revitalizao da vida urbana europeia
j no sculo xii.
     O contexto histrico do Renascimento est associado  crise do Feudalismo e ao
surgimento do Capitalismo na Europa ocidental no sculo xiv. Essa crise histrica se
manifestou tanto nos campos econmicos, polticos e sociais quanto nos intelectual
e cultural. O Renascimento, o Humanismo e a Reforma foram expresses dessa crise,
da necessidade que os grupos sociais ento em ascenso tinham para explicar seu
papel no Universo sem recorrer s explicaes catlicas e feudais, representantes de
uma ordem que contestavam.


                                                                                   359
                    O Renascimento, assim, foi a expresso das novas concepes de mundo
Renascimento



               que comeavam a aparecer entre os ascendentes burgueses urbanos, razo pela
               qual a Itlia, rica, comercial e urbanizada, foi o ponto de partida e o pice desse
               movimento. Para a mudana mental e artstica era necessrio dinheiro, pois os
               grandes artistas da Renascena trabalhavam principalmente sob encomenda.
               Na Itlia, o secularismo da classe mdia comeava a contestar as extravagncias
               de um clero muito mundano, e influenciou as transformaes mentais, aliada
                capitalizao de banqueiros, comerciantes, burgueses e da prpria Igreja,
               enriquecidos com o prspero comrcio com o Oriente.
                    De acordo com Durant, o norte da Itlia foi o bero do movimento devido a
               uma srie de caractersticas prprias. Primeiro, l a influncia do Imprio Romano
               nunca foi destruda por completo, o latim ainda estava vivo, e a prpria arquitetura
               conservava caractersticas clssicas. Alm do mais, essa regio era a mais urbana e
               industrializada da Europa, e no conheceu um Feudalismo nos moldes clssicos.
               Tambm a tradio de intercmbio comercial com outros povos tivera significativa
               influncia no comportamento dos italianos do norte, no sentido de impedir a
               construo de dogmas muito rgidos. Dessa regio, Florena se destacou como a
               principal cidade do Renascimento, por ser a cidade mais rica da Itlia no sculo xiv
               e pela constante luta de faces em seu interior. Essa luta, na Itlia como um todo,
               se traduzia muitas vezes em uma disputa diplomtica em que o financiamento de
               obras de arte garantia prestgio aos envolvidos.
                    Nessa Itlia rica e descentralizada dos sculos xiv e xv, alguns grandes poderes
               polticos se formaram, entre eles as cidades de Milo,Veneza, Florena, Npoles e Roma.
               Na disputa por influncia, a diplomacia valia muitas vezes mais do que o conflito aberto.
               E na diplomacia tornou-se critrio de avaliao de poder o fato de que esses centros
               eram tambm importantes polos artsticos.Assim,a exibio de riqueza e de poder passava
               tambm pela ostentao artstica, pelo financiamento de grandes obras de arte, fosse
               nas artes plsticas, na arquitetura ou mesmo na literatura. Grandes nomes do perodo
               como Michelangelo e Rafael, e algumas das obras mais famosas do Renascimento,
               como a Capela Sistina, foram financiados por essa disputa de poder e influncia.
                    Mas se atualmente a abordagem mais comum do Renascimento  aquela que
               afirma que este  uma continuidade da Idade Mdia, e no uma ruptura, existem
               historiadores que contestam essa afirmao. Um desses  Eugenio Garin, para quem
               aqueles que defendem a continuidade entre as mudanas culturais da Idade Moderna
               e a Idade Mdia esto escamoteando as grandes contribuies dos sculos xv e
               xvi. Pois, para ele, a Idade Mdia oferecia pouca inspirao para o Renascimento,

               ao contrrio da Antiguidade. Garin, no entanto,  hoje uma opinio minoritria,
               uma vez que estudos feitos pela historiografia francesa sobre a cultura medieval


               360
levaram grande parte dos estudiosos do Renascimento a admitirem as ligaes do




                                                                                         Renascimento
movimento com formas de expresso e preocupaes j vigentes na Idade Mdia,
o que, no entanto, no tira o carter de inovao da Renascena.
     As discordncias sobre o Renascimento so comuns, visto que ele  objeto
de estudo privilegiado por numerosas correntes de pensamento historiogrfico,
constituindo-se em um dos mitos fundadores do Ocidente. As mudanas
metodolgicas na historiografia, no sculo xx, foram responsveis tambm por
mudanas de abordagem nos estudos do Renascimento. Hoje, uma das obras-chave
para a compreenso do perodo  O Renascimento italiano, de Peter Burke, que
observa o movimento de uma tica ao mesmo tempo social e cultural, tentando
mediar as concluses de outros grandes pensadores do Renascimento, como Jacob
Burckhardt. Coerente com as preocupaes da Histria Social, Burke defende que
o Renascimento no pode ser entendido se observarmos apenas as obras e seus
autores do ponto de vista individual, pois os interesses do artista eram definidos
por sua cultura, pelo momento em que viviam. Ele afirma ainda que, apesar dos
renascentistas afirmarem estar rompendo com o passado medieval e recuperando
o passado clssico, na verdade, sua obra  uma mistura dos dois passados, fazendo,
assim, uma mediao entre as teses da ruptura e da continuidade com a Idade Mdia.
     As abordagens sobre o Renascimento so mltiplas e oferecem muitos pontos
interessantes para reflexo no s sobre o perodo, mas tambm sobre a formao do
Ocidente e sobre a prpria produo da Histria. Comumente colocado em ordem
cronolgica na Idade Moderna, esse movimento  considerado um dos momentos
fundadores da prpria modernidade. Mas as concepes que o mostram como
continuidade da Idade Mdia desconstroem parte dessa viso rgida de Renascimento
associado  modernidade, e mesmo da prpria modernidade como fruto desse perodo.
     Apesar de ser difcil fugir ao eurocentrismo da Histria ocidental abordando
temas como o Renascimento, por mais que almejemos uma Histria cada vez menos
centrada na evoluo europeia, no podemos fugir ao fato de que a Amrica foi
criada a partir desse mundo moderno, inventada a partir dele, assim como que o
prprio pensamento renascentista teve grande relao com essa inveno. Isso no
quer dizer, todavia, que os professores devam se contentar com o que diz o livro
didtico. Nunca  demais ressaltar a importncia do trabalho com as fontes. E no
caso do Renascimento, essas fontes so de fcil acesso para a maioria dos professores,
mesmo fora dos grandes centros brasileiros. Obras dos chamados grandes mestres
da literatura, como Dante, Shaskeapeare e Rabelais, so facilmente encontradas em
edies populares. No esqueamos tambm das artes plsticas, cujas obras principais


                                                                                 361
            tambm esto reproduzidas em diversas mdias e disponibilizadas na internet. Mas,
Revoluo



            como nos lembra Leandro Karnal,  importante que o professor leia tambm os
            grandes clssicos da historiografia sobre o assunto, como Burckhardt.

            Ver tAmbm
                  Antiguidade; Arte; Barroco; Burguesia; Humanismo; Iconografia; Mercantilismo;
                  Modernidade.

            sugestes de leiturA
                  burcKHardt, Jacob. A civilizao da Renascena italiana. Lisboa: Presena, s. d.
                  burKe, Peter. O Renascimento italiano: cultura e sociedade na Itlia. So Paulo:
                    Nova Alexandria, 1999.
                  delumeau, Jean. A civilizao do Renascimento. Lisboa: Estampa, 1984, 2v.
                  durant, Will. A Renascena: a histria da civilizao. Rio de Janeiro/So Paulo:
                   Record, 2002, v. v.
                  Karnal, Leandro (org.). Histria na sala de aula: conceitos, prticas e propostas.
                   So Paulo: Contexto, 2003.
                  marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria moderna atravs
                   de textos. So Paulo: Contexto, 1997.




            reVoluo
                  Palavra muito utilizada pela historiografia, revoluo  uma das poucas categorias
            das Cincias Sociais cujo significado no  controvertido. O problema, quando existe, est
            no emprego poltico do termo, pois revoluo  s vezes utilizada com o sentido de golpe
            ou reforma. Primeiro, vamos definir uma revoluo como um processo de mudana
            das estruturas sociais. A palavra surgiu durante o Renascimento como referncia ao
            movimento dos corpos celestes, ganhando um significado poltico apenas no sculo
            xvii, com a Revoluo Inglesa. Nesse perodo, revoluo significava retorno  ordem

            poltica anterior que tinha sido alterada por turbulncias. Assim, naquele momento, a
            Revoluo Inglesa no foi entendida como a guerra civil e a ascenso de Cromwell, mas
            a volta  monarquia. Somente com a Revoluo Francesa o termo ganhou o significado
            que tem hoje: o de uma mudana estrutural, convulsiva e insurrecional.
                  Hector Bruit define uma revoluo como um fenmeno poltico-social de mudana
            radical na estrutura social; um confronto entre a classe que detm o poder do Estado e as
            classes que se acham excludas desse poder. Revoluo , assim, um confronto de classes.


            362
O autor apresenta ainda algumas das caractersticas mais marcantes de uma revoluo:




                                                                                            Revoluo
a rapidez com que as mudanas so processadas durante esse fenmeno e a violncia
com que so feitas. Nesse sentido, uma revoluo  sempre traumtica porque tira a
sociedade de sua inrcia, movimentando a estrutura social. Logo, toda revoluo  vista
negativamente por seus contemporneos.
     Bruit trabalha com um tipo especfico de revoluo, aquela com base social e po-
ltica. Mas o termo pode ser aplicado a diferentes reas da vida humana: revoluo
poltica, revoluo cultural, revoluo tecnolgica. Assim como a contextos histricos,
como Revoluo Francesa, Revoluo Industrial. Revoluo, como categoria de anlise,
significa todo e qualquer fenmeno que transforma radicalmente as estruturas de uma
sociedade; quaisquer estruturas, e no apenas estruturas polticas, econmicas e sociais.
Na perspectiva poltica, a historiografia costuma classificar dois tipos principais de
revoluo: as revolues burguesas e as revolues proletrias. Os principais modelos
so, respectivamente, a Revoluo Francesa e a Revoluo Russa.
     A revoluo burguesa, diz Modesto Florenzano,  um conceito adotado para
definir os fenmenos histricos protagonizados pela burguesia ou aqueles dos quais
ela foi beneficiada. Esse conceito est contextualizado no momento histrico do
nascimento do Capitalismo e de transformao da sociedade feudal em sociedade
burguesa, entre 1770 e 1850. Apesar da revoluo burguesa clssica ser a Revoluo
Francesa, as alteraes polticas na Inglaterra entre 1640 e 1660 tambm so assim
descritas. Florenzano define ainda classe revolucionria: uma classe capaz de pr
em prtica um novo projeto social e de estabelecer uma nova sociedade. Florenzano,
como Bruit, considera que a revoluo  um movimento de classe. Assim, para que
haja uma revoluo  preciso primeiro que haja um conflito social, uma situao
de crise revolucionria. Sua tese  a de que a burguesia quase nunca foi uma classe
revolucionria, aparecendo quase sempre como reformista, no tendo iniciado nem
a Revoluo Inglesa, nem a Francesa, nem liderado os principais momentos dessas
revolues. Mas, sem dvida, foi ela quem se beneficiou desses movimentos. Para o
autor, as revolues burguesas foram mais consequncia das foras desencadeadas
pela Revoluo Industrial do que dos esforos revolucionrios da burguesia.
     Talvez a mais influente definio de revoluo tenha sido a de Karl Marx e Friedrich
Engels. Cunhada em meados do sculo xix, a ideia de revoluo do materialismo
histrico influenciou no apenas os estudiosos, mas tambm os revolucionrios,
impulsionando diversos movimentos polticos, inclusive a Revoluo Russa. Marx
e Engels construram o conceito de revoluo pensando na revoluo proletria
que deveria acontecer, a seu ver, inevitavelmente no Capitalismo. Para eles, uma das
exigncias para a revoluo proletria era que antes dela a revoluo burguesa fosse
feita. Assim, no definiram s a revoluo socialista, mas a revoluo burguesa. Para


                                                                                    363
            eles, a Revoluo Francesa foi o paradigma das revolues burguesas: um movimento
Revoluo



            social desenvolvido por uma burguesia revolucionria aliada a grupos populares que
            derrubou as estruturas feudais. A revoluo burguesa abriu espao para o Capitalismo;
            este, por sua vez, levaria  revoluo socialista, desencadeada por uma nova classe
            revolucionria, o proletariado, agora que a burguesia era a classe dominante. Essa tese
            influenciou pensadores durante todo o sculo xx: de revolucionrios como Lenin a
            socilogos como Florestan Fernandes.
                 Mas na Amrica Latina, onde o desenvolvimento capitalista se deu de forma
            diferente da Europa,  difcil aplicar esses conceitos de revoluo burguesa e revoluo
            proletria. Alguns autores falam de revolues camponesas, considerando esse termo
            mais apropriado para a Amrica Latina. Porm, nessa regio, o imperialismo gerou
            em especial revolues caracteristicamente anti-imperialistas no sculo xx, no
            burguesas ou proletrias.  Hector Bruit quem, ao se debruar sobre as revolues
            mexicana, cubana e nicaraguense, defende que as revolues latino-americanas
            tiveram cunho mais nacionalista do que de classes. Mas ele ainda classifica a revoluo
            mexicana como burguesa e a cubana e a nicaraguense como proletrias, observando
            sobretudo o resultado das revolues. No podemos esquecer, porm, que enquanto
            esses movimentos estiveram ativos, setores da burguesia participaram da revoluo
            cubana, e os movimentos de massa foram fundamentais no Mxico.
                 Importante noo atrelada ao conceito de revoluo  a de contrarrevoluo.
            Florestan Fernandes nos diz que uma contrarrevoluo  uma realidade histrica
            contrria  revoluo.  aquilo que impede uma revoluo. Atualmente, autores
            como Clvis Rossi chamaram o golpe de 1964 de falsa contrarrevoluo. Para esse
            autor, os golpes militares na Amrica Latina da segunda metade do sculo xx foram
            fundamentados em uma filosofia que se dizia contrarrevolucionria, pregando a
            tomada do poder por grupos de direita que procuravam impedir uma revoluo
            socialista. E, no entanto, nem no Brasil, nem na Argentina, nem no Uruguai, por
            exemplo, havia uma revoluo socialista em andamento, e os golpes militares foram
            desfechados mesmo apenas contra a democracia.
                 Durante a prpria vigncia desses governos militares, os golpes de Estado que
            lhes deram origem eram chamados de revolues. Para Florestan Fernandes, o uso
            da palavra revoluo como sinnimo de golpe de Estado (principalmente no que
            dizia respeito ao governo militar brasileiro e  tomada de poder em 1964) tem um
            profundo carter ideolgico. Fernandes concorda que a definio de revoluo oferece
            pouca controvrsia: revoluo  um fenmeno social e poltico de mudanas rpidas e
            drsticas nas estruturas sociais, em que a ordem social vigente  subvertida. Mas o uso
            das palavras sempre se remete s relaes de dominao assim, empregar revoluo
            em vez de golpe de Estado para nomear um acontecimento que no transformou as
            estruturas sociais  uma forma de escamotear a realidade histrica.



            364
     Tambm precisamos distinguir revoluo de revolta. As revoltas so manifestaes




                                                                                               Revoluo
populares de insatisfao, em geral de carter mais efmero, um protesto contra os
aumentos de preos, por exemplo. So muitas vezes espontneas e sem organizao
sistemtica e, de modo diferente das revolues, no chegam a alterar as estruturas sociais.
     Se a historiografia trabalha de forma mais prolfica com o conceito poltico de
revoluo, o que inclui as mudanas econmicas e sociais alm de culturais, existe
todo um campo de estudo para as mudanas da tcnica, o campo das revolues
tecnolgicas. Tericos como Mandel definiram a revoluo tecnolgica como o
processo de mudanas radicais e qualitativas na base tcnica sobre a qual se assenta
o sistema produtivo de uma sociedade. Os autores divergem sobre quantas e quais
foram as revolues tecnolgicas ao longo da histria, mas quase todos concordam
com pelo menos uma, a Revoluo Industrial. O conceito de Revoluo Industrial,
inclusive,  questionvel, pois para muitos  uma simples evoluo da tcnica. Para
aqueles como Francisco Iglsias que aceitam a definio de revoluo, esse fenmeno
dos sculos xviii e xix  uma revoluo em especial porque passa da manufatura
para a maquinofatura, ou seja, se at ento os homens utilizavam ferramentas para
auxiliar a fora humana, agora usavam a fora da natureza nas mquinas. Tambm
substituam a descoberta de tcnicas, o que seria puro acaso, pela inveno, tpica dos
estados mais "avanados" da civilizao. Tambm Eric Hobsbawm fala de Revoluo
Industrial como o processo em que o poder produtivo humano teria alcanado
nveis totalmente novos. Segundo ele, existiu uma Era das revolues, o perodo entre
1789 e 1848, ou seja, entre a Revoluo Francesa e a Revoluo de 1848, momento de
desenvolvimento da Revoluo Industrial e de muitas transformaes da vida social
da Europa ocidental. Na verdade, ele fala de uma grande revoluo que teria tomado
todo esse perodo e que teria mudado o rumo da histria humana, com a ascenso da
indstria capitalista e da sociedade burguesa.
     Alguns autores datam o surgimento da noo revoluo na histria.  o caso de
Henri Mendras, que, estudando as sociedades camponesas, afirma que a revoluo
como fenmeno s surgiu em 1789, e antes disso as sociedades camponesas nunca
haviam feito uma revoluo. Revoltas, levantes e sedies sim, mas revoluo nunca.
Para Mendras, na Revoluo Francesa, pela primeira vez, os camponeses se uniram
a outros grupos, estes urbanos, e tiveram faces dirigentes capazes de empreender
uma transformao radical no sistema de poder vigente.
     Essas consideraes nos levam a observar que todos esses autores usam o mesmo
conceito de revoluo, o de transformao radical nas estruturas sociais. Se no h
dissenso sobre a ideia de revoluo, devemos nos preocupar com a utilizao da
palavra. Toda palavra tem seu significado e sua funo especfica na sociedade; assim,
toda palavra tem um uso poltico. Por isso devemos ser precisos com os conceitos e


                                                                                       365
                     falar de golpe de Estado quando houver um e de revoluo quando for o caso.
Revoluo Francesa



                     O emprego de um conceito por outro  como nesse caso citado  nunca  sem
                     consequncias. Uma revoluo  uma alterao profunda na sociedade, e quando
                     afirmamos que o golpe de Estado de 1964 foi uma revoluo, estamos defendendo
                     que ele trouxe alteraes sociais profundas, fato que no aconteceu.

                     Ver tAmbm
                           Burguesia; Ditadura; Estado; Golpe de Estado; Ideologia; Marxismo; Massa/
                           Multido/Povo; Revoluo Francesa; Revoluo Industrial; Tecnologia; Violncia.

                     sugestes de leiturA
                           bruit, Hector. Revolues na Amrica Latina. So Paulo: Atual, 1988.
                           Faria, Ricardo Moura. As revolues do sculo xx. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2002.
                           FernandeS, Florestan. O que  revoluo. So Paulo: Brasiliense, 1984.
                           Florenzano, Modesto. As revolues burguesas. So Paulo: Brasiliense, 1998.
                           GreSpan, Jorge. Revoluo Francesa e Iluminismo. So Paulo: Contexto, 2003.
                           HobSbaWm, Eric. A era das revolues: 1789-1848. So Paulo: Paz e Terra, 1997.
                           iGlSiaS, Francisco. A revoluo industrial. So Paulo: Brasiliense, 1981.
                           marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria contempornea
                            atravs de textos. 10. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
                           mendraS, Henri. Sociedades camponesas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
                           pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
                             Contexto, 2003.
                           ______; ______(orgs.). Faces do fanatismo. So Paulo: Contexto, 2004.
                           roSSi, Clvis. A contrarrevoluo na Amrica Latina. So Paulo: Atual, 1994.




                     reVoluo FrAncesA
                         Talvez nenhum outro episdio histrico tenha sido to debatido quanto a
                     Revoluo Francesa. Os estudos produzidos sobre o tema contam-se s centenas.
                     Conhece-se sua trama poltica at nos detalhes. Aparentemente, pouco se teria a
                     discutir ainda sobre o tema, e, no entanto, no  isso que ocorre. A Revoluo Francesa
                      um desses acontecimentos que suscitam paixes, estimulando debates e polmicas.
                     No podia ser de outro modo: trata-se de um fato poltico da maior relevncia para


                     366
toda uma poca. No geral, a Revoluo Francesa  reconhecida como o nascimento da




                                                                                               Revoluo Francesa
democracia moderna, pois enquanto a sociedade do Antigo Regime se fundamentava
na desigualdade entre os homens, surgiu pela primeira vez na histria uma revoluo
que tinha como bandeira a igualdade, a soberania do povo, a liberdade, a ideia de
Direitos do Homem. Segundo Franois Furet e Mona Ozouf, essa ruptura j exprime
a natureza ao mesmo tempo poltica e filosfica do movimento. E no  por acaso
que a Revoluo Francesa  considerada o marco da transio da Idade Moderna
para a Idade Contempornea.
     Conceituar a Revoluo Francesa  mais difcil do que parece, mesmo porque muitas
definies so construdas por diferentes vises historiogrficas. A definio clssica, de
fundamentao marxista,  uma das mais utilizadas. Segundo ela, a Revoluo Francesa
foi uma revoluo poltica da burguesia. E essa classe, economicamente pujante no
sculo xviii, mas politicamente excluda no Antigo Regime, teria assumido o poder
poltico formal pela revoluo e, por meio dela, construdo uma nova sociedade baseada
na ideologia liberal. Nesse sentido, a Revoluo Francesa teria posto fim s estruturas
do Absolutismo e do Feudalismo e inaugurado a nova ordem capitalista. Essa definio
apia a tese marxista de que a burguesia havia feito a sua revoluo, e o passo seguinte
seria o proletariado fazer tambm a sua.
     Muitos autores que estudam a Revoluo Francesa reconhecem que havia um
descompasso entre as instituies arcaicas do Antigo Regime e as novas foras sociais
ascendentes. Essa, por exemplo,  a posio de Eric Hobsbawm, para quem a Revoluo
Francesa no foi apenas mais um evento que abalou as estruturas do Antigo Regime,
mas um fato de consequncias mais fundamentais para a contemporaneidade do que
qualquer outro, visto que foi uma revoluo social de massa. Para esse historiador, se
a Revoluo Industrial inglesa moldou a economia do mundo no sculo xix, foi a
Frana, por sua vez, a Nao que deu s transformaes econmico-sociais do perodo
uma linguagem poltica, com o liberalismo e a democracia. O prprio conceito
de nacionalismo  resultado da Revoluo Francesa. Tambm Marx enfatizou a
especificidade desse fato histrico: sua velocidade, violncia e abrangncia. Para esses
pensadores, a Revoluo Francesa no foi uma revoluo comum, mas uma revoluo
que sacudiu as instituies vigentes e props novas instituies e valores ao mundo.
Alm disso, o discurso da Revoluo Francesa teve carter universal, tocando nos
anseios de todos os povos oprimidos e falando em nome deles por liberdade, igualdade
e fraternidade. Isso no significa dizer que a burguesia no tivesse projetos particulares,
pois ela foi, de fato, a real beneficiria desses novos valores, e no queria ir muito longe
no processo de radicalizao. Mas toda revoluo genuna, como diz Hobsbawm, tende
a ser ecumnica, e a Revoluo Francesa  genuinamente uma revoluo.


                                                                                       367
                          Outro eminente historiador da Revoluo Francesa  Albert Soboul. Tambm
Revoluo Francesa



                     de formao marxista, Soboul inicialmente interpretou a Revoluo Francesa como
                     burguesa, mas de grande apoio popular, sobretudo dos camponeses. Ao longo de
                     seu amadurecimento intelectual, passou a caracterizar a Revoluo Francesa como
                     uma revoluo campnio-burguesa, chegando mesmo a usar a expresso revoluo
                     camponesa para se referir ao evento. Soboul percebeu a importncia das massas
                     camponesas nesse fato histrico e o fato de que sem elas o Feudalismo no teria
                     sido abolido. Tal afirmao hoje parece ser um consenso entre os pesquisadores.
                     Para ele, foi a revoluo camponesa que imps uma revoluo burguesa no campo,
                     abrindo assim caminho para o Capitalismo.
                           Apesar de enfatizar a presena dos camponeses no evento, a interpretao de
                     Soboul pode ser descrita como "clssica", porque remonta aos estudos de outro
                     historiador marxista francs, George Lefebvre, para quem a Revoluo Francesa era
                     burguesa  Lefebvre exps sua tese na dcada de 1920. Soboul, com uma interpretao
                     socioeconmica, retomou e ampliou a tradicional viso de Lefebvre. Contra essa
                     interpretao clssica, surgiram vrios especialistas chamados de revisionistas, muitos
                     dos quais de origem anglo-sax. Os argumentos dos autores revisionistas podem
                     ser assim expostos: a transformao social e econmica ocorrida no sculo xviii no
                     acirrou o conflito entre nobreza e burguesia, pois cada um desses grupos era composto
                     por elementos to heterogneos, em termos de riqueza, posio social e perspectivas,
                     que sequer chegavam a constituir classes. Na verdade, o que teria havido foi uma
                     fuso dos escales superiores da burguesia e da nobreza, criando-se uma classe de
                     "notveis", propensa  ideologia iluminista e coesa em pontos essenciais. Por que,
                     ento, houve a revoluo? Os revisionistas negam que ela resultou da luta de classes
                     entre nobreza e burguesia e entendem que o Antigo Regime ruiu pela confluncia
                     de duas crises distintas ocorridas no final da dcada de 1780: a crise poltica oriunda
                     da bancarrota financeira da monarquia e a crise econmica agravada pelas ms
                     colheitas. Para os revisionistas, a crise se tornou revoluo. Em outros termos, como
                     havia nobres empreendedores e abastados, muitos deles eram adeptos e tambm
                     beneficirios das mudanas em curso: a Frana resultante seria menos uma Frana
                     burguesa em sentido estrito que uma Frana pelos e para os notveis. Nesse ponto,
                     autores marxistas concordam que a burguesia s veio objetivamente a se estabelecer
                     de modo hegemnico no poder na chamada Terceira Repblica, depois de 1871, mas
                     em pontos fundamentais as duas vises, a revisionista e a clssica, so inconciliveis.
                          Outro ponto de discordncia entre as duas interpretaes  a influncia do
                     Iluminismo nos acontecimentos da revoluo. Na interpretao clssica, o Iluminismo
                      a ideologia da burguesia. O Iluminismo, para os marxistas, tem relao inequvoca
                     com a Revoluo Francesa. Ele configura um estgio historicamente importante no



                     368
desenvolvimento do pensamento burgus ocidental, sendo que as principais categorias




                                                                                          Revoluo Francesa
mentais da sociedade burguesa estavam presentes no pensamento iluminista: o
individualismo, a ideia de contrato, a igualdade, a universalidade, a tolerncia, a
liberdade e a propriedade. Haveria, portanto, estreita correlao entre a revoluo
burguesa ocorrida na Frana e o iderio iluminista. Todavia, a associao rpida entre
ideologia burguesa e ideologia iluminista perde de vista, segundo os revisionistas, a
heterogeneidade social e ideolgica dos prprios pensadores do Iluminismo. Alm
disso, argumentam eles, muitas parcelas da burguesia eram hostis ao Iluminismo, ao
passo que muitos nobres assumiam as ideias liberais ento em voga nos sales e nas
academias. No se poderia, portanto, fazer, como alguns marxistas, generalizaes
do tipo: toda a burguesia  iluminista, ou a nobreza  avessa ao Iluminismo. Segundo
os revisionistas, as principais luzes haviam sido absorvidas pela alta sociedade do
Antigo Regime. A favor desse argumento est a constatao de que muitos pensadores
iluministas eram nobres, e no burgueses, e muitos leitores desses pensadores eram
tambm nobres. Muitos filsofos faziam mais crticas  religio revelada, associada ao
fanatismo, do que  nobreza da qual faziam parte. Seja como for, as duas interpretaes
parecem concordar que o ambiente era bastante propcio a que as ideias iluministas se
disseminassem e ganhassem fora, chegando a influenciar a revoluo, e configurando
uma das foras que desestabilizaram o Antigo Regime, como acredita T. C. W. Blanning.
     A Revoluo Francesa no foi uma revoluo planejada e organizada. Os
fenmenos se sucederam, surgiram personagens na cena poltica, intervenes
estrangeiras, solues para o prosseguimento do processo revolucionrio, para
a estabilidade, e assim por diante. No havia um lder, como no havia tambm
uma filosofia nica que inspirava o movimento. Diferentemente de muitas outras
revolues, ela no buscava realizar um retorno a um passado ideal, o resgate de
liberdades perdidas para o novo. Como notaram Furet e Ozouf, ela  uma promessa
sem fronteiras, aberta para um futuro ilimitado.
     Assim, a leitura da Revoluo Francesa deve estar atenta ao seguinte ponto:
uma coisa  a Revoluo em si, cheia de cenas s vezes horrveis, cheia de eventos
que deixam escapar ambies puramente particulares; outra coisa  o despontar
de uma linguagem universal, de uma promessa que pode ser retomada por outras
revolues. Muitos de seus ideais, universais na retrica do momento, tiveram de
ser conquistados ou ampliados por lutas posteriores. O professor de Histria, para
melhor discusso do tema, no pode deixar de projetar a Revoluo Francesa para
a contemporaneidade, perodo que em grande medida ela criou. Alm disso, o fato
histrico Revoluo Francesa  uma fonte inesgotvel de temas:  possvel, a partir
dele, abrir espao no contedo programtico para discutir democracia, direitos
humanos, cidadania, nao, soberania, liberdade, terror etc.


                                                                                  369
                       Ver tAmbm
Revoluo Industrial



                             Absolutismo; Burguesia; Cidadania; Democracia; Feminismo; Iluminismo;
                             Liberalismo; Liberdade; Marxismo; Massa/Multido/Povo; Modernidade;
                             Nao; Revoluo.

                       sugestes de leiturA
                             blanninG, T. C. W. Aristocratas versus burgueses?: a Revoluo Francesa. So
                               Paulo: tica, 1991.
                             Florenzano, Modesto. As revolues burguesas. So Paulo: Brasiliense, 1998.
                             Furet, Franois; ozouF, Mona. Dicionrio crtico da Revoluo Francesa. Rio de
                               Janeiro: Nova Fronteira, 1989.
                             GreSpan, Jorge. Revoluo Francesa e Iluminismo. So Paulo: Contexto, 2003.
                             HobSbaWm, Eric. A era das revolues: Europa 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e
                              Terra, 1997.
                             marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria contempornea
                              atravs de textos. So Paulo: Contexto, 2000.
                             pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
                               Contexto, 2003.
                             Soboul, Albert. A Revoluo Francesa. Edio comemorativa do bicentenrio
                               da Revoluo Francesa, 1789-1989. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.




                       reVoluo industriAl
                            O conceito de Revoluo Industrial designa um fenmeno histrico acontecido
                       em tempo e lugar determinados: intensas transformaes nas tcnicas produtivas,
                       realizadas na Inglaterra e parte da Esccia no sculo xviii. Alguns autores apontam a
                       existncia de uma segunda, terceira e at quarta Revolues Industriais, acontecidas
                       a partir do sculo xix e caracterizadas tambm por grandes transformaes na
                       tecnologia de produo. Entretanto, o pioneirismo da Inglaterra e a fora do conceito
                       clssico de Revoluo Industrial so pontos pouco contestados pelos historiadores
                       e economistas em geral. A chamada Primeira Revoluo Industrial  definida
                       pelos economistas como o ponto de partida para o crescimento autossustentvel da
                       produo. Para o historiador Eric Hobsbawm, o termo revoluo deve ser aplicvel
                       ao fenmeno, pois de fato houve uma exploso na capacidade humana de produzir
                       mercadorias e servios por volta da dcada de 1780, quando, pela primeira vez na
                       histria, essa capacidade se multiplicou de modo ilimitado.


                       370
     Mas  ainda Hobsbawm quem afirma que essa revoluo, que fez da Inglaterra




                                                                                            Revoluo Industrial
durante quase um sculo a "oficina do mundo", no foi um episdio que teve
princpio e fim. A mudana revolucionria no se "completou" e continua at o tempo
atual. Assim, no  possvel datar com preciso a origem da Revoluo Industrial.
O autor chega a declarar, entusiasticamente, que essa revoluo no poder humano
de produzir de modo ilimitado foi o fenmeno histrico mais importante depois
da inveno da agricultura e das cidades.
     As indstrias e muitos avanos tcnicos sempre existiram ao longo da histria,
mas nunca a ponto de revolucionar as foras produtivas do homem. Segundo
Francisco Iglsias, se definirmos indstria como o preparo da matria-prima para
uso, a atividade industrial sempre existiu. O que diferencia, ento, as fbricas inglesas
do sculo xviii e xix das formas anteriores de "indstria", em geral descritas como
atividades de artesanato e manufatura? A indstria moderna, para existir, precisa de
alguns pr-requisitos: a utilizao de utenslios e mquinas que substituem o trabalho
pesado do homem; o aumento do nmero de pessoas empregadas nas fbricas; a
automao das etapas de produo; a diviso e especializao do trabalho, entre
outras coisas. Outras diferenas entre esse tipo de fbrica moderna e o artesanato e
a manufatura so bem evidentes. Primeiro, a fbrica produz muito mais com menor
custo, tendo em vista um mercado consumidor indeterminado, muitas vezes de nvel
mundial. Por sua vez, o artesanato e a manufatura produzem para um mercado
local, composto por um grupo restrito de pessoas conhecidas e prximas. Aps a
Revoluo Industrial, a produo passou a ser em larga escala, literalmente "a todo
o vapor", para mencionar a importncia do vapor na gerao de energia das fbricas
nos sculos xviii e parte do xix. Associando o conceito de indstria moderna ao de
Revoluo Industrial, encontramos a formao e expanso de um sistema fabril
mecanizado que produzia em grandes quantidades, ou seja, em larga escala e em
srie, e a custos rapidamente decrescentes, a ponto de criar seu prprio mercado
consumidor, conforme indica Eric Hobsbawm.
     O investimento de capitais nas nascentes fbricas inglesas de finais do sculo
xviii e grande parte do xix s foi possvel graas  existncia do comrcio colonial

ultramarino ingls, que prometia grande e rpida expanso dos mercados,
encorajando os empresrios a adotarem as inovaes tcnicas e a montarem
estabelecimentos fabris. Capital no era problema: grandes comerciantes e
financistas enriquecidos com o comrcio ultramarino, e mesmo aristocratas, quando
no investiam diretamente nas fbricas, emprestavam a elementos das classes
mdias, vidos pelos rendimentos que a indstria lhes propiciaria. A mo de obra
tambm existia em abundncia depois de sculos de expropriao do campesinato
pelos Decretos das Cercas (Enclosure Acts). Os camponeses, que praticamente


                                                                                    371
                       desapareceram dos campos ingleses no sculo xviii, transformaram-se nos proletrios
Revoluo Industrial



                       das nascentes indstrias. A esses, iriam se juntar artesos falidos pela concorrncia
                       industrial e imigrantes judeus e principalmente irlandeses. Famintos, expropriados,
                       coagidos pela presso social e econmica, esses grupos se submeteram ao trabalho
                       industrial recebendo os baixssimos salrios e trabalhando as longas jornadas
                       imortalizadas pela literatura do perodo. Os avanos tcnicos introduzidos na
                       agricultura inglesa permitiam que as propriedades, agora pensadas por arrendatrios
                       e proprietrios capitalistas, produzissem para alimentar as massas urbanizadas e
                       proletarizadas, sem a necessidade de empregar grande mo de obra rural. O quadro
                       mental tambm havia mudado em favor do industrialismo. A cincia ganhava um
                       sentido cada vez mais pragmtico, associando-se  tcnica e atuando na valorizao
                       das atividades mecnicas, durante longo tempo desprezadas.
                            Quem pensa em Revoluo Industrial, pensa em algodo. Essa foi a matria-prima
                       da Revoluo. Melhoramentos contnuos nas tcnicas de fiao e tecelagem eram
                       recompensados generosamente pela exportao destinada ao comrcio colonial. O
                       algodo fez as primeiras fortunas da Revoluo Industrial, e foi sua transformao
                       industrial que, durante dcadas, contribuiu para os ndices positivos da balana comercial
                       da Inglaterra. Foi o produto-smbolo do progresso industrial em sua primeira fase:
                       praticamente o mundo inteiro consumia os tecidos ingleses no sculo xix. Instalar um
                       "engenho"ou fbrica de algodo no era muito caro e os rendimentos pareciam infinitos.
                            J o smbolo da Revoluo Industrial em sua segunda fase foi a ferrovia. A partir
                       de finais da dcada de 1840, o excesso de capitais da burguesia britnica era empregado
                       na instalao de ferrovias em diversas regies do mundo. Os industriais cujos negcios
                       eram vinculados  metalurgia conseguiam, assim, um mercado para seus produtos.
                       Os chamados bens de capital, particularmente mquinas, eram, pela primeira vez
                       na histria, destinados  fabricao de outras mquinas. Isso no teria sido possvel
                       sem as ferrovias, que garantiram um mercado vasto para as indstrias nascentes de
                       bens de capital. Mas alguns autores, em vez de falar em segunda Revoluo Industrial,
                       defendem que esse uso de mquinas para a elaborao de outros equipamentos foi
                       a primeira Revoluo Tecnolgica. Essa tese  de Ernest Mandel, que afirma que s
                       houve uma Revoluo Industrial propriamente dita, que se desdobrou em revolues
                       no campo da tecnologia. Em linhas gerais, Mandel considera que desde meados do
                       xviii, houve a Revoluo Industrial e trs Revolues Tecnolgicas. A primeira, nos
                       anos finais da dcada de 1840, forneceu a base para uma produo automatizada;
                       a segunda, ocorrida por volta da ltima dcada do sculo xix e incio do sculo xx,
                       inaugurou o uso da energia eltrica, dos motores  combusto, e iniciou a produo
                       para um mercado de massa; j a terceira Revoluo Tecnolgica comeou aps a
                       Segunda Guerra Mundial, quando surgiram os processos automatizados cuja base 
                       a eletrnica (uso de computadores, robs industriais, energia nuclear etc.).



                       372
     A influncia da Revoluo Industrial, em particular no Ocidente, ultrapassou a




                                                                                         Revoluo Industrial
esfera da produo e da economia, mudando, por exemplo, as noes tradicionais
de tempo, ritmo e velocidade. A Revoluo Industrial e as revolues tecnolgicas
subsequentes forneceram algumas das bases para o mundo contemporneo. A
economia do mundo, no sculo xix, como notou Hobsbawm, foi formada sobretudo
sob a influncia britnica. A Amrica, o Oriente e algumas Naes africanas tambm
buscaram a via da industrializao. Contudo, o contexto histrico da Revoluo
Industrial inglesa foi nico, o que impede que os passos iniciais da Inglaterra
setecentista no caminho da industrializao possam ser copiados com sucesso por
outras Naes. Alm disso, no h porque seguir os passos da Inglaterra, que, apesar
de bem-sucedidos, foram no geral improvisados.
     Aprofundar em sala de aula o tema requer pensar a Revoluo Industrial em
seus antecedentes e em sua repercusso histrica. Existe toda uma literatura sobre a
vida moderna aps esse fenmeno que pode ajudar o professor a conhecer melhor
esse momento: os romances de Charles Dickens, de Victor Hugo, de mile Zola,
entre outros, ensinam muito sobre aspectos da desumanizao promovidos pela
vida industrial. Alguns desses romancistas tiveram suas obras transpostas para a
linguagem cinematogrfica, revelando imagens fortes do cotidiano da moderna
civilizao industrial. Trabalhar com essa literatura nos ajuda a evitar pensar a
Revoluo Industrial apenas pelo prisma dos avanos tcnicos, pois envolvidos
nesse processo estavam seres humanos atrelados ao industrialismo moderno. Muitos
deram suas vidas, muitos protestaram. Houve momentos de otimismo exacerbado
e momentos de pessimismo e crise.  preciso sensibilidade para entender o mundo
ps-Revoluo Industrial.

Ver tAmbm
    Burguesia; Capitalismo; Imperialismo; Indstria Cultural; Industrializao;
    Liberalismo; Modernidade; Modo de Produo; Revoluo; Tecnologia; Trabalho.

sugestes e leiturA
    barboSa, Alexandre de Freitas. O mundo globalizado: poltica, sociedade e
      economia. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    HobSbaWm, Eric J. A era das revolues: Europa: 1789-1848. 10. ed. Rio de Janeiro:
     Paz e Terra, 1997.
    iGlSiaS, Francisco. A Revoluo Industrial. So Paulo: Brasiliense, 1981.
    marqueS, Adhemar; berutti, Flvio; Faria, Ricardo. Histria contempornea
     atravs de textos. So Paulo: Contexto, 2000.



                                                                                 373
                   marx, Karl. O capital: crtica da economia poltica. Rio de Janeiro: Civilizao
Romantismo


                    Brasileira, s. d.
                   pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo:
                     Contexto, 2003.
                   SeGrillo, Angelo. O declnio da   urss:   um estudo das causas. Rio de Janeiro:
                     Record, 2000.
                   zola, mile. Germinal. So Paulo: Companhia das Letras, 2001.




             romAntismo
                  A Histria  um campo de conhecimento que muitas vezes abarca conceitos,
             mtodos e objetos de outras reas e cincias. Isso acontece frequentemente com a
             Literatura, disciplina muito prxima, que inclusive nasceu com a Histria. Nessa
             relao interdisciplinar entre Histria e Literatura, encontramos temas de extrema
             importncia para ambas, como  o caso do Romantismo.
                  O Romantismo  mais conhecido dos profissionais de ensino no Brasil como um
             movimento literrio, responsvel pela fundao da literatura nacionalista no final
             do sculo xix, que teve por elementos principais a nfase no passado, na natureza e o
             indianismo. Mas muitos estudiosos acham difcil definir o Romantismo. Essa  a opinio,
             por exemplo, de Alfredo Bosi, um dos maiores especialistas em teoria literria do Brasil
             e um pensador que vem fazendo um importante trabalho de reflexo interdisciplinar
             entre Histria e Literatura, para quem a dificuldade em definir o Romantismo faz que
             muitos apenas listem as caractersticas, os temas e os motivos do movimento literrio
             como se somente isso fosse suficiente para conceitu-lo e compreend-lo a fundo.
                  Ernst Fischer define o Romantismo como um movimento de protesto contra
             a ascenso do mundo burgus e da sociedade capitalista no sculo xix. Para ele,
             esse movimento foi uma tentativa de resgatar iluses perdidas  por isso a volta
             a um passado considerado glorioso  e se dividia em progressistas e reacionrios.
             Em comum todos tinham a antipatia pelo Capitalismo, mas a diferena era que
             os progressistas criticavam a sociedade burguesa de uma perspectiva da plebe e os
             reacionrios, de uma viso da nobreza.
                  Michael Lwy e Robert Sayre, por sua vez, consideram que o Romantismo foi
             mais do que um movimento literrio, que se constituiu em uma viso de mundo.
             Poderamos definir, dessa forma, o Romantismo como uma estrutura mental que
             abrangeu a poltica, a Arte, a Teologia, a Sociologia, a Histria, a Economia, enfim,
             todas as formas de pensamento de determinados grupos sociais, aps a ascenso
             da sociedade capitalista burguesa no sculo xix. Os grupos sociais insatisfeitos com


             374
essas mudanas sociais eram tanto a nobreza quanto a pequena burguesia, que no




                                                                                                 Romantismo
conseguia ascender. Nesse sentido, foram romnticos desde os escritores consagrados
pela crtica ocidental como Balzac, Byron e Goethe, at economistas como Edmundo
Burke, filsofos como Proudhon e mesmo socilogos como Max Weber. Para Lwy
e Sayre, todos tinham em comum a viso pessimista acerca do mundo capitalista.
      Lwy e Sayre tambm enfatizam a complexidade do Romantismo, mostrando
principalmente suas contradies: para eles, o Romantismo  complexo e desafia a
anlise cientfica porque , ao mesmo tempo, reacionrio e revolucionrio, realista e
fantstico. E, alm disso, o movimento no possui coerncia interna. Citam Balzac como
exemplo das contradies: um escritor romntico que foi ao mesmo tempo pessimista,
anticapitalista e reacionrio. Defendem que  preciso criar um novo conceito para
discutir a obra de Balzac, e esse conceito seria o irrealismo crtico, que permitiria analisar
a mistura que muitas obras romnticas fazem de pessimismo e realismo com o fantstico
e at o surrealista. O conceito de irrealismo crtico possibilitaria, assim, analisar tanto
o universo imaginrio quanto a realidade cinzenta que existem ao mesmo tempo nas
obras romnticas. Sem esquecer que essa realidade cinzenta retratada  uma crtica ao
Capitalismo e  desumanidade da sociedade burguesa.
     Historicamente, o Romantismo teve incio ainda no sculo xviii, com nomes
como Rousseau na Frana, Goethe na Alemanha e Richardson na Inglaterra.
Mas teve seu auge no sculo xix. Pensadores to diversos como os irmos Grimm
(compiladores de famosos contos de fadas como Joo e Maria) e Max Weber so
classificados por Lwy e Sayre como romnticos por acreditarem que sua sociedade
passava por um perodo de desencantamento. Para Weber, o Capitalismo era o
desencantamento do mundo. Os irmos Grimm, por sua vez, representam uma
revolta contra esse desencantamento. O Romantismo nessa perspectiva defendia
um reencantamento do mundo, revoltando-se contra a realidade concreta e fria e
usando a imaginao como instrumento para essa revolta.
     J Maximo Gorki, um dos maiores literatos russos do sculo xix, apesar de
hoje considerado um dos pais do realismo socialista, dava grande importncia ao
Romantismo e se preocupou em defini-lo como uma das tendncias universais da
Literatura. Para ele, a literatura tem duas tendncias bsicas, o Romantismo e o
Realismo. Enquanto este seria a representao real e sem adornos das condies
de vida do povo, o Romantismo poderia ou conciliar o povo com a realidade fria,
colorindo essa realidade, mascarando-a, ou separ-lo da realidade, levando-o a
preocupaes com o mundo das ideias, e com temas como o amor e a morte. Gorki
tambm acreditava que era muito difcil definir o Romantismo. Para ele, os grandes
escritores eram aqueles que misturavam Romantismo e Realismo em suas obras,
como Balzac e os escritores russos Gogol e Tchekov. Gorki termina por defender a


                                                                                         375
             inevitabilidade do Romantismo na Literatura, pois, para ele, um Romantismo ativo
Romantismo



             fortaleceria o desejo de viver das pessoas, rebelando-as contra a tirania.
                  No caso do Brasil, o Romantismo tem grande significao cultural, no apenas
             por ser uma das primeiras tendncias da literatura nacional, mas por ter tambm
             ajudado a fortalecer o prprio conceito de nacionalidade na Nao recm-formada.
             Nos anos de 1820 e 1830, apareceu entre os intelectuais brasileiros o desejo de
             autonomia cultural, uma vez que a autonomia poltica j havia sido conquistada. A
             unidade nacional foi conquistada durante o perodo regencial a duras penas, com
             a represso a diversas revoltas regionais. O Segundo Reinado representou o desejo
             de unidade, traduzido no nacionalismo crescente. Mas para que o sentimento de
             nacionalismo fosse fomentado entre a populao, era preciso primeiro que fosse
             criada a nacionalidade, ou seja, um conjunto de caractersticas prprias do Brasil,
             que o distinguisse dos outros pases e representasse a Nao como um todo. Para
             que essa nacionalidade fosse criada, o Imprio investiu na produo cultural, que
             poderia criar e divulgar os novos sentimentos. Dom Pedro ii trouxe assim a Misso
             Artstica Francesa, composta de artistas plsticos que deveriam ensinar e retratar
             as caractersticas nacionais brasileiras, criando uma Arte autnoma e apagando o
             passado colonial. Foi fundado tambm o Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro,
             instituio que tinha como objetivo recuperar o "autntico" passado brasileiro. Mas
             restava sempre o problema de que o passado brasileiro era colonial, e para construir
             a nacionalidade seria preciso se voltar para instituies portuguesas, o que era ento
             inadmissvel. Foi nesse contexto que o Romantismo forneceu os temas e as ferramentas
             para a construo do sentimento nacional no Brasil.
                  Apesar de o Romantismo brasileiro ter comeado oficialmente em 1836 com
             a publicao de Suspiros poticos e saudades, de Gonalves de Magalhes, j desde
             1826 que os intelectuais vinham propondo frmulas para a elaborao de uma
             literatura nacional. Um dos primeiros a se engajarem nesse projeto foi o francs
             radicado no Brasil Ferdinand Denis, para quem a Literatura de um pas deveria
             ter sua fisionomia e assim se relacionar com a natureza e a sociedade dele. Denis
             sugeriu que os escritores brasileiros se concentrassem na natureza e no ndio como
             elemento de ligao entre essa natureza e a nao. O ndio comeou a aparecer ento
             como o autntico habitante do Brasil, representando um passado pr-colonial, que
             os intelectuais queriam valorizar em detrimento de um passado colonial.
                  Os escritos literrios do Romantismo apareciam como textos complementares
             aos estudos histricos do Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro. Cabia aos
             historiadores levantar o passado autntico, e aos escritores, populariz-lo, inclusive
             preenchendo as lacunas com a imaginao literria, atendendo sempre  necessidade


             376
de transmitir ao povo sentimentos de amor e empatia pela Nao. Nesse sentido, o




                                                                                         Romantismo
gnero que melhor se adaptou  nova sensibilidade das classes urbanas letradas foi
o romance. Por sua linguagem simples e acessvel, o romance logo caiu no gosto do
pblico brasileiro. O primeiro romance romntico a ser um grande xito de pblico
foi A moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, publicado em 1844. O romance se
encaixou muito bem no perfil exigido  literatura da poca, porque nesse gnero o
leitor era levado a julgar o enredo pela tica do narrador, que transmitia suas ideias
de forma clara, na linguagem cotidiana desses leitores.
     O grande nome do Romantismo no Brasil foi, sem dvida, Jos de Alencar. Autor
de obras clssicas do indianismo como O guarani, Iracema e Ubirajara, alm de
romances urbanos, como A pata da gazela, Cinco minutos, Lucola, Alencar  hoje uma
referncia obrigatria no ensino Mdio. Mas poucos so os professores que analisam
suas vinculaes polticas com o projeto de formao da nacionalidade brasileira.
Alencar foi influenciado pela obra de romnticos europeus como Sir Walter Scott,
autor de Ivanho, e Alexandre Dumas, de Os trs mosqueteiros, que usavam a frmula
do romance histrico, recheado de herosmo, amor, perfdia, e agradava bastante ao
pblico. Mas sua obra foi formulada com base em uma viso muito bem definida
do papel da literatura na formao da nacionalidade. Para Alencar, no bastava que
o escritor usasse dados recolhidos dos historiadores, completando as lacunas com
sua imaginao. Ele acreditava que sua obra indianista (que afirmava se basear nas
tradies orais recolhidas em sua terra, o Cear) tinha mais valor histrico que as
pesquisas dos historiadores. Assim, a fico era entendida como mais verdadeira
que os cronistas, viso que se aproximava da formulao do Romantismo europeu,
que queria reencantar o mundo, e se afastava dos historiadores da poca, para os
quais o documento escrito era a verdade absoluta. Alm disso, a obra de Alencar
 romntica por seus temas, pela nfase dada s descries da natureza,  lngua
nacional (que ele afirmava ser diferente do portugus de Portugal) e pela busca de
um passado glorioso, que, na maior parte das vezes, era uma tradio inventada,
como no caso de Walter Scott, que tambm queria resgatar um passado em que a
nobreza era heroica.
     Para o trabalho em sala de aula, o Romantismo  um tema de enormes
possibilidades.  possvel realizar um trabalho em conjunto com o professor de
Literatura, abordando as caractersticas histricas e artsticas dos escritores do
Romantismo. Em especial, a obra de Jos de Alencar oferece muitas perspectivas de
trabalho, at pela insero desse autor no currculo de muitas escolas, como leitura
obrigatria para a disciplina de Portugus e Literatura. O professor de Histria pode
usar isso a seu favor e discutir os aspectos polticos e histricos da obra de Alencar
e sua vinculao com a construo de um sentimento de nacionalidade. Tambm 


                                                                                 377
             interessante trabalhar outros romnticos, como Alexandre Dumas ou Walter Scott.
Romantismo



             Alm da grande importncia de sua obra, livros como Ivanho e Os trs mosqueteiros,
             pela grande carga de ao e aventura que trazem, ainda falam bastante a nossa
             linguagem atual, e so de fcil aceitao pelos jovens. Tais obras, inclusive, tm contnua
             presena no cinema ocidental.  preciso ter cuidado, no entanto, se optarmos por
             trabalhar com algumas dessa obras cinematogrficas, pois a maioria no  fiel aos
             textos originais. A melhor estratgia, nesse sentido,  fazer um estudo comparado
             entre o Romantismo de diferentes autores, como Alencar e Scott. Outra possibilidade
             interessante  analisar a obra dos irmos Grimm, responsveis pelos contos de fadas
             que j se incorporaram ao imaginrio do Ocidente, comparando-a com as verses
             medievais dos mesmos contos, trazidas a ns por Robert Darnton, o que nos permite
             perceber as alteraes impostas aos contos pelo gosto do Romantismo.

             Ver tAmbm
                   Antiguidade; Arte; Fonte Histrica; Histria; ndio; Interdisciplinaridade; Mito;
                   Nao; Tradio.

             sugestes de leiturA
                   alencar, Jos de. O guarani. So Paulo: Martin Claret, 2002.
                   boSi, Alfredo. Histria concisa da literatura brasileira. So Paulo: Cultrix, 1994.
                   candido, Antonio. O romantismo no Brasil. So Paulo: Humanitas/FFlcH-uSp,
                    2002.
                   darnton, Robert. O Grande Massacre de Gatos: e outros episdios da Histria
                    cultural francesa. Rio de Janeiro: Graal, 1986.
                   dumaS, Alexandre. Os trs mosqueteiros. So Paulo: Nova Cultural, 2003.
                   edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
                     entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
                   GorKi, Maximo. Como aprendi a escrever. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1998.
                   Jobim, Jos Luis (org.). Introduo ao romantismo. Rio de Janeiro: Ed. uerJ, 1999.
                   LWy, Michael; Sayre, Robert. Romantismo e poltica. Rio de Janeiro: Paz e
                     Terra, 1993.
                   Scott, Walter. Ivanho. So Paulo: Nova Cultural, 2003.




             378
 s

serVido
         S
     A servido foi o tipo de relao social predominante no Feudalismo, estabelecida
entre os servos e os senhores medievais, resultante no apenas da desagregao do
Imprio Romano como das sociedades dos povos ditos "brbaros".  preciso ressaltar
de antemo, como fez Georges Duby, que nem a sociedade romana nem a germnica
eram sociedades igualitrias. Portanto, no era de se esperar que a fuso dessas duas
culturas originasse uma Idade Mdia livre de alguma forma de desigualdade. Essa
forma de relao social  embora, sem dvida, bastante desigual  era caracterizada, em
linhas gerais, pelos laos de dependncia mtua: ao servo, o senhor devia "proteo"; ao
senhor, o servo devia obedincia, trabalho e tributos. Essa ordem social, assim fixada,
era aprovada pela ideologia catlica ento vigente, que dividia a sociedade em trs
ordens: os que oravam (oratores) pela salvao de todos; os que lutavam (bellatores)
para a proteo do povo; e os que trabalhavam (laboratores) para alimentar os homens
da religio e os da guerra. Cabia aos trabalhadores, camponeses em condio de
servido, a manuteno das duas primeiras ordens, que por eles oravam e guerreavam,
em troca da "proteo" espiritual e terrena recebidas. Essa definio no corresponde
 diversidade de estruturas sociais, alm disso equivalem apenas ao Feudalismo dito
clssico  aquele situado ao norte da Frana entre os sculos xi e xiii. De modo geral,
entretanto,  essa definio que vigora na maioria dos livros didticos.
     Servido e vassalagem foram as relaes sociais predominantes na sociedade
feudal. Ambas as relaes nos ensinam algo fundamental sobre essa formao social:
ela no pode ser compreendida sem o princpio da dependncia entre os homens.
Ningum era verdadeiramente independente ("livre") no mundo feudal. As relaes
de servido, suserania e vassalagem ligavam todos os membros da sociedade em uma
rede infinita de hierarquias e dependncias. Nenhum homem feudal era livre no
sentido que o sculo xviii, por exemplo, vai dar ao termo. Na Idade Mdia, a ideia de
que os "homens nascem livres" (igualdade natural) no fazia sentido. Todas as pessoas
estavam comprometidas com uma rede de obrigaes que permeava o tecido social.
Isso no diminui o fato de que, na base da pirmide social, estavam os camponeses de
condio servil, os mais dependentes e submissos nesse tecido hierrquico.


                                                                                   379
                Ao contrrio do que parece, a servido no  um tipo de relao social que substitui
Servido



           a escravido de modo linear. Em outras palavras, a humanidade no progrediu do
           trabalho escravo (Antiguidade)  servido (Idade Mdia), e da servido ao trabalho
           livre (caracterstico do perodo de formao e consolidao da sociedade burguesa,
           nas Eras Moderna e Contempornea). Em primeiro lugar, a condio do servo era
           muito prxima da do escravo em termos de status e tipo de trabalho. Em segundo,
           escravido e servido coexistiram e se sobrepuseram na Idade Mdia; at mesmo os
           juristas medievais frequentemente confundiam as duas condies, traduzindo as
           palavras servitus e servus, do Cdigo de Justiniano, como servido e servo, ou seja,
           igualando o servo  condio do escravo (que em latim era designado pelo termo
           servus). Segundo Brion Davis, muitos aspectos da lei romana quanto  definio
           jurdica do escravo foram retomados para definir o servo: o servo francs era definido
           como propriedade mvel, e s poderia testemunhar em tribunal contra um outro
           servo; tambm s poderia se casar com servo de outro senhor com permisso de seu
           senhor; no sculo xiii, com exceo da Borgonha, os tribunais franceses tambm
           determinaram a regra romana de partus sequitur ventrem (o parto segue o ventre, isto
           , os filhos seguiam a condio das mes j pelo nascimento) para os servos. Todos
           esses instrumentos legais, como se percebe, eram definidores da condio de escravo
           na Roma antiga, e continuaram no mundo feudal.  bom lembrar que, nas fazendas
           romanas, os coloni (colonos presos ao solo, com pouca liberdade de movimento) com
           frequncia trabalhavam lado a lado com os escravos, e era difcil separar ambos. O
           fato  que, aos poucos, na chamada Alta Idade Mdia, foram se estreitando cada vez
           mais as diferenas entre os colonos e os escravos, de modo que a servido resulta dessa
           aproximao de status: aos poucos no houve mais colonos ou escravos propriamente
           ditos, apenas servos, presos  terra e cuja condio era passada hereditariamente.
                Com o passar do tempo, nota o medievalista Georges Duby, a liberdade
           dos camponeses das provncias romanizadas foi ainda mais minada, agravando
           a explorao econmica que j sofriam. Os coloni, apenas formalmente livres,
           cultivavam terras pertencentes a outros e eram na realidade prisioneiros de uma
           vasta gama de obrigaes. De modo geral, na Idade Mdia, as antigas obrigaes
           militares foram convertidas na obrigao de fornecer alimentos aos exrcitos
           profissionais. O servio militar era uma caracterstica essencial da liberdade
           tanto nas sociedades romanas e germnicas quanto na medieval, diz Duby. Mas
           os camponeses, para sobreviver, tiveram de oferecer uma forma de "servio" (o
           obsequium) considerada na poca degradante, o fornecimento de alimentos s
           tropas. A misria dos camponeses livres e no livres foi se tornando praticamente a
           mesma, e os impostos que incidiam sobre eles tornavam-se pesados  medida que
           necessitavam da "proteo" de alguma figura poderosa. Servilizao e dependncia
           senhorial foram fenmenos complementares que ajudaram a definir tanto a condio



           380
do servo como do senhor. A terra  o elemento fundamental de poder no Feudalismo.




                                                                                          Servido
Desprovido da propriedade da terra, o campons se torna dependente, cultivando a
terra pertencente ao senhor e usando moinhos e outras instalaes senhoriais a alto
custo. Proprietrio da terra e das armas (ou da terra e do poder espiritual, no caso da
Igreja), o senhor est investido de um poder e de uma autoridade que lhe permitem
extorquir o servo, mas no escraviz-lo totalmente. Este no pode ser retirado das
terras, o que constitui tanto uma obrigao quanto um direito.
     De fato, mesmo sem a escravido ser extinta totalmente,  preciso reconhecer
que, em geral, a instituio da servido foi predominando ao longo da Idade
Mdia. A servido, na Pennsula Ibrica, todavia, em virtude da disponibilidade
de escravos muulmanos oriundos das guerras constantes entre mouros e cristos,
no se consolidou nem na Espanha nem em Portugal. Nesse ltimo pas, como
nota Perry Anderson, a servido da gleba j estava desaparecendo no sculo xiii.
Assim, sociedades distintas apresentam tambm graus diferentes de servilizao
do campesinato. Entretanto, a definio apresentada nesse texto pode se aplicar
ao conjunto das formaes sociais, mas  preciso alguma adaptao aos contextos
especficos. O modelo francs  o mais completamente feudal, e os demais apresentam
traos feudais, mas no so cpias exatas da Frana feudal.
     O professor de Histria deve estar atento s diversas formas institucionais
e sociais das relaes de trabalho ao longo do processo histrico. O trabalho, na
anlise da servido, da escravido e do trabalho dito "livre", pode e deve constituir
um eixo temtico fundamental em que pesquisas e seminrios podem ter lugar.
Quais foram os argumentos dos poderosos para fazer a humanidade trabalhar para
eles em cada momento histrico? O que fez e faz que amplas parcelas da populao
mundial aceitem trabalhar para o sustento de to poucos? Em cada perodo histrico
considerado, coexistiram mais de um tipo de regime de trabalho? Essas so algumas
das questes que o eixo temtico "Trabalho" pode buscar responder. O presente deve
ser o ponto de partida, uma vez que o trabalho (ou a falta dele) continua a ser uma
realidade que abrange o universo social de alunos e professores.

Ver tAmbm
    Escravido; Feudalismo; Latifndio/Propriedade; Liberdade; Massa/Multido/
    Povo; Trabalho.

sugestes de leiturA
    anderSon,Perry.Passagens daAntiguidade ao Feudalismo.Porto:Afrontamento,1989.
    blocH, Marc. A sociedade feudal. Lisboa: Edies 70, s. d.



                                                                                  381
                  duby, Georges. Guerreiros e camponeses: os primrdios do crescimento
Sociedade


                   econmico europeu. Lisboa: Estampa, 1980.
                  Franco Jr., Hilrio. A Idade Mdia: nascimento do Ocidente. So Paulo:
                    Brasiliense, 2001.




            sociedAde
                 Sociedade  um conceito que se confunde com a prpria histria da Sociologia.
            Foi essa cincia que, em sua formao na segunda metade do sculo xix, reivindicou
            para si a sociedade como seu objeto especfico de estudo. Desde ento, surgiu uma
            infinidade de definies tericas que permitiram no apenas anlises distintas da
            sociedade, como aes poltico-ideolgicas especficas. No sentido moderno, como
            prope Peter Sedgwick, sociedade  uma combinao de instituies, modos de
            relao, formas de organizao, normas etc., que constitui um todo inter-relacionado
            no qual vive determinada populao humana.
                 Alguns problemas emergem nas cincias sociais e humanas na anlise das
            sociedades: o que torna uma sociedade distinta das outras? Quais so os elementos
            que alteram a estrutura de uma sociedade de modo a dizermos que uma nova forma
            social tomou o lugar da antiga? E, para o historiador, qual a relao entre o conceito
            de sociedade e a Histria Social, tambm conhecida com Histria das Sociedades?
                 A maior parte das definies sociolgicas tende a ver a sociedade como uma
            populao relativamente independente, autossuficiente, que se caracteriza por ter
            organizao interna, territorialidade e cultura distinta, que recruta seus membros
            por reproduo sexual. A autossuficincia  questionvel, sobretudo quando se sabe
            que as sociedades so influenciadas externamente. Exatamente pela complexidade a
            ela inerente, alguns autores pensam a sociedade como um sistema social composto
            por diversas instituies que se inter-relacionam. Embora o conceito proposto pelos
            estudiosos seja uma formulao um tanto abstrata, todos parecem reconhecer um
            certo pano de fundo histrico para o conceito: a prpria existncia da sociedade,
            sua reproduo e perpetuao, envolvem consideraes histricas, na medida em
            que para existir uma sociedade  preciso que ela exista durante um perodo maior
            do que a vida de um indivduo. Alm disso, os autores parecem reconhecer tambm
            que as sociedades criam certos mecanismos de autoperpetuao que asseguram sua
            continuidade no tempo: reproduo sexual, diferenciao de papis sociais (cabendo
            aos indivduos papis especficos), comunicao, concepo comum do mundo e
            dos objetivos da sociedade, normas que regulam a vida, formas de socializao e de
            controle dos comportamentos tidos como desviantes. Castoriadis, que em grande


            382
medida discorda das teorias propostas seja pelo funcionalismo, pelo estruturalismo




                                                                                            Sociedade
ou pelo marxismo, afirma que toda sociedade  sempre histrica, na medida em
que ela  uma forma particular de organizao. Mas os problemas que ele coloca
(o que mantm as sociedades coesas? e o que faz surgir novas formas sociais?) so
problemas j apresentados pelas teorias sociais predecessoras.
     Apesar de alguns consensos gerais, a regra  haver abordagens distintas. Os
tipos de discordncias mais comuns giram em torno dos seguintes temas: a relao
indivduo/sociedade; a fragilidade ou a solidez das estruturas sociais; as formas
pelas quais se operam as mudanas sociais; e ainda os usos ideolgicos do conceito.
     Se a sociedade for compreendida como um organismo, como muitos
socilogos funcionalistas a pensavam, ento a nfase recair sobre a organizao e
a interdependncia de suas partes constituintes. Durkheim, por exemplo, embora
insistisse que a realidade social  independente do indivduo (este seria criado
pelo meio social), reconhecia que a coerncia da sociedade estava baseada na
interdependncia das atividades e na regulao moral criada pela interao. Para ele,
que discordava dos pensadores liberais clssicos, como Locke, Mill, Rawls, a sociedade
no era um agregado de indivduos isolados, um mero agregado das vontades
individuais. Tanto o funcionalismo de Durkheim como a viso dos estruturalistas
compreendiam a sociedade como possuidora de uma natureza organizada de modo
independente dos indivduos que a compunham. Durkheim, particularmente,
pensava a estrutura social composta por instituies que exerceriam funes
necessrias  sobrevivncia e estabilidade do todo, ou seja, da sociedade. Muitos
autores contestam essa viso, por consider-la ideologicamente muito conservadora.
Em um outro extremo, outras teorias, de enfoque sociopsicolgico, ressaltam as
habilidades e competncias dos agentes sociais para criar e administrar o mundo social
em que vivem; isto , o indivduo no teria sua ao determinada pela estrutura
social. Essa interpretao, por sua vez, tende a ser associada  ideologia do liberalismo
moderno, pela nfase que confere ao indivduo diante das instituies sociais.
     Na viso marxista, os indivduos tambm no so vistos como elementos isolados.
Marx afirma que a sociedade existe nas relaes concretas entre os grupos sociais, e
o cimento da sociedade se encontra nas relaes econmicas entre os homens. Ele
parte do pressuposto de que os homens se organizam em sociedade para prover suas
necessidades materiais, e por isso ingressam nas relaes de produo que, quando
estveis, constituem estruturas econmicas. Tanto Marx como Comte e Durkheim
preocupavam-se em identificar o que mantm a coeso de uma sociedade. Comte
via na famlia a unidade social, enquanto Durkheim entendia a sociedade como
uma entidade unida organicamente por relaes e interdependncias que forjavam
uma conscincia e uma ordem moral coletivas. Pensando o mesmo problema,


                                                                                    383
            Castoriadis prope que o que mantm a sociedade como unidade  o conjunto de suas
Sociedade



            instituies particulares (normas, valores, linguagem, instrumentos, procedimentos
            e mtodos de fazer frente s coisas e de fazer coisas, e o indivduo). Para se instituir,
            a sociedade pode usar a fora e as sanes, mas sobretudo a adeso, o apoio, o
            consenso, a legitimidade, a crena, de modo a fabricar o indivduo social, que termina
            por incorporar no apenas as instituies como os mecanismos de perpetuao
            que elas criam. A unidade e a coeso interna seriam garantidas, pensa Castoriadis,
            porque os membros dessa sociedade especfica fariam parte de um mesmo sistema
            de interpretao do mundo, ou seja, de um mesmo imaginrio.
                  Quanto ao problema relativo  mudana da estrutura social para uma nova formao
            social, as explicaes so bem divergentes. Para alguns autores, a estrutura social
            possui apenas um equilbrio precrio, estando sujeita a processos de desestruturao
            e reestruturao. Bottomore aponta algumas situaes que tendem a modificar
            a estrutura social: o surgimento de novos membros (por nascimento, migrao,
            conquista); as geraes mais jovens, com nova viso de mundo, podem interpretar a seu
            modo os papis sociais antigos e reestruturar a sociedade; o crescimento ou declnio do
            conhecimento, que faz surgir novos grupos sociais com novos valores e interesses; e o
            desenvolvimento da diviso de trabalho e da correspondente diferenciao social. Todas
            essas situaes podem ser percebidas historicamente em muitos exemplos. Para esse
            autor, a estrutura social tanto muda apenas parcialmente e de modo gradual como pode
            mudar totalmente e de modo rpido. Mas a distino entre um processo e outro no 
            fcil de perceber. Para Marx, so as contradies geradas pela formao social anterior
            que abrem caminho para a mudana: no caso da sociedade capitalista, a contradio
            de classe (que ope antagonicamente a classe capitalista e a classe trabalhadora) e a
            contradio entre as foras produtoras e as relaes de produo seriam as razes
            para se acreditar no fim da sociedade capitalista. Castoriadis pensa a mudana de uma
            forma de sociedade a outra de modo diferente: novas formas scio-histricas s podem
            surgir pela criao. Seria preciso criar um indivduo autnomo, que questione e julgue
            a instituio da sociedade como um todo, sua representao do mundo, suas leis, de
            modo que a autonomia do indivduo resulte em uma sociedade auto-instituda, e no
            instituda de fora dele. Castoriadis d a entender que s em uma sociedade plenamente
            democrtica esse indivduo seria criado.
                  Uma ltima questo diz respeito  Histria Social. Para Hobsbawm, a Histria
            Social s tem sentido se pensada como Histria da sociedade. Ela no seria uma
            Histria especificamente econmica, poltica ou cultural, por exemplo. Ela dever
            ser ampla o suficiente para pensar a sociedade em seu todo, o que inclui de modo
            necessrio entender sua economia, poltica e cultura especficas. Pensar e fazer a
            Histria Social implica, assim, uma atitude interdisciplinar.


            384
     De maneira geral, o autor defende que a Histria Social  Histria acima




                                                                                                Sociedade
de tudo, e no uma Sociologia do passado. De todo modo,  bom lembrar que
precisamos dialogar com outras disciplinas (em particular com a Sociologia) para
compreender e interpretar melhor as sociedades. Em sala de aula, discutir o que 
de fato uma sociedade e como esta pode vir a se transformar em formao social ,
acima de tudo, fazer histria, discutir, debater, analisar o presente, provocar, projetar.
Adolescentes, ansiosos por respostas prontas, precisam ser envolvidos gradativamente
em problemas que nem os especialistas, nem os chamados polticos profissionais e
suas frmulas sabem (ou desejam) resolver.

Ver tAmbm
    Capitalismo; Cidadania; Classe Social; Comunismo; Cultura; Democracia; Estado;
    Etnia; Histria; Imaginrio; Luta de Classes; Nao; Poltica; Religio.

sugestes de leiturA
    andreW, Edgar; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
     entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
    blau, Peter. Introduo ao estudo da estrutura social. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1977.
    caStoriadiS, Cornelius. As encruzilhadas do labirinto. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
     1987, v. 2  Os Domnios do Homem.
    HobSbaWm, Eric. Sobre histria. So Paulo: Companhia das Letras, 1998.
    HuGHeS-WarrinGton, Marnie. 50 grandes pensadores da Histria. So Paulo:
     Contexto, 2002.




                                                                                        385
 t
         T
tecnologiA
     Como as cincias humanas em geral trabalham com temas ligados ao nosso
cotidiano,  comum que s vezes deixemos passar os significados inerentes a alguns
conceitos histricos e sociolgicos por consider-los senso comum.  o que muitas
vezes acontece com a noo de tecnologia, geralmente associada ao conceito de
tcnica, sendo as duas palavras consideradas sinnimas, quando, na verdade,
so termos distintos. Alm disso, tais conceitos esto muito associados em nosso
imaginrio ao maquinicismo,  robtica,  informtica, ou seja, quelas atividades
de produo de bens materiais que consideramos de ponta, altamente desenvolvidas.
Mas as noes de tcnica e tecnologia vo muito longe no passado e so tambm
frequentemente associadas  cincia e ao termo indstria.
     Definindo indstria por meio da Arqueologia, podemos consider-la toda
produo de ferramentas de quaisquer tipos, e no apenas a produo massificada,
em larga escala, de bens materiais, caracterstica da Idade Contempornea no
Ocidente. Considerando esse sentido mais abrangente de indstria, vemos que
ela surgiu com os primeiros homindeos. Tais conceitos tm papel importante na
definio da prpria humanidade, pois, para alguns autores, o homem se significa
como tal a partir da produo de cultura, que em sua vertente material se apresenta
como tcnica, indstria e tecnologia.
     Desde a dcada de 1940 que os estudiosos comearam a definir tecnologia, de
forma simples, como a maneira pela qual as pessoas fazem as coisas. Na verdade,
tecnologia  um conjunto de conhecimentos especficos, acumulados ao longo da
histria, sobre as diversas maneiras de se utilizar os ambientes fsicos e seus recursos
materiais em benefcio da humanidade. Segundo essa definio, tecnologia abrange
desde o conhecimento de como plantar e colher, passando pela fabricao de
ferramentas, de pedra lascada ou ao inoxidvel, at a construo de grandes represas
e satlites. Os pesquisadores que concordam com ela, como R. Forbes, consideram que
a tecnologia  to antiga quanto a prpria humanidade. Os primeiros homindeos,
assim, s teriam se tornado seres humanos no momento em que passaram a dominar
a tcnica. Nessa perspectiva, a prpria histria comearia com a tecnologia.


386
     Mas qual a diferena entre tecnologia, tcnica e cincia? A diferena principal entre




                                                                                             Tecnologia
tecnologia e cincia  que, enquanto a tecnologia  um conjunto de conhecimentos
prticos sobre como utilizar os recursos materiais a favor da humanidade, a cincia seria
uma srie de conhecimentos tericos e abstratos para o mesmo fim. A tcnica, por sua
vez,  o esforo prtico de dominar e utilizar os recursos materiais, apresentando-se
como o conjunto de instrumentos e hbitos que tornam vivel a produo, e tambm
os instrumentos de trabalho. Ou seja, tcnica  a prtica, ao passo que tecnologia  o
conjunto de conhecimentos que fornece as bases para a realizao dessa prtica, e a
cincia  a teorizao abstrata em torno da essncia das coisas.
     Embora, em geral, o estudo da tecnologia parea distante do grande pblico,
do ponto de vista da Histria isso  enganoso, pois toda a Histria tradicional
do Ocidente foi construda, a partir do sculo xix, com base na utilizao da
tecnologia como parmetro de periodizao e de classificao das sociedades. A
partir do final do sculo xviii, momento que na Europa Ocidental corresponde ao
Iluminismo, princpios como a razo e o progresso passaram a ser os princpios
norteadores no Ocidente. Quando, a partir do sculo xix, a Revoluo Industrial
comeou a transformar a economia, a sociedade e a cultura no mundo, ela se
baseou fundamentalmente nesses princpios de progresso e razo, que, associados
 necessidade de novidades tcnicas para impulsionar a indstria, deram origem
 formao de um novo paradigma para o Ocidente, o tecnicismo, que estabelecia
o desenvolvimento tecnolgico como parmetro a ser seguido por toda sociedade.
     Tal processo histrico teve contrapartida na produo intelectual do Ocidente,
cujo resultado na historiografia e cincias sociais, por exemplo, foi a glorificao
da tecnologia como parmetro para se classificar as sociedades. A partir da, a
historiografia tradicional, fosse positivista, fosse materialista histrica, comeou a
construir periodizaes e classificaes sociais usando a tecnologia como critrio.
Por exemplo, a conhecida classificao de perodos histricos em Paleoltico,
Neoltico, Idade dos Metais, utiliza exatamente a tecnologia como padro, pois
separa os perodos histricos de acordo com a forma pela qual as pessoas usavam
as ferramentas e de como as construam, se de pedra lascada, polida ou de metais.
Tal tipologia  progressista, pois considera, por um lado, que o domnio da tecnologia
evolui ao longo da histria da humanidade  que se desenvolve e muda para melhor
 e, por outro, que a sociedade que a domina tambm progride.
     Um autor clssico a trabalhar com a tecnologia como parmetro para a Histria
foi o arquelogo Gordon Childe. Para ele, tecnologia  o estudo das atividades dirigidas
para a satisfao das necessidades humanas, as quais produzem alterao no mundo
material.  o conjunto de conhecimentos e instrumentos possudos por determinada
sociedade para se articular no ambiente. Na dcada de 1930, Childe criou o termo
Revoluo Neoltica, por meio do qual estudou o que considerou o progresso de



                                                                                     387
             sociedades primitivas e sua transformao em civilizaes. Para ele, a Revoluo
Tecnologia



             Neoltica foi o processo que culminou no domnio da agricultura e no assentamento da
             humanidade em cidades, que aconteceu primeiro no Crescente Frtil, ou seja, na regio
             entre o Egito e a Mesopotmia na Antiguidade oriental. Essa revoluo tecnolgica
             teria desencadeado uma srie de acontecimentos que favoreceram o desenvolvimento
             social, econmico e cultural do homem. A tese de Childe pode ser classificada como
             uma viso progressista e, no sculo xx, ganhou status de viso tradicional acerca do
             desenvolvimento humano, sendo tambm bastante criticada.
                  Mas outras vertentes historiogrficas tambm utilizaram, durante o sculo xx, a
             tecnologia como parmetro histrico. O materialismo histrico, corrente filosfica
             tambm derivada do Iluminismo,  igualmente progressista e, apesar de criticar a filosofia
             burguesa que fundamentou a Revoluo Industrial, no deixou de empregar tambm
             a tecnologia como mediador histrico. Karl Marx, inclusive, deu grande importncia
             ao estudo da tecnologia na histria. Para ele, se a tecnologia  o modo de proceder
             do homem para com a natureza, ela pode revelar para o pesquisador o processo de
             produo da vida material e ajudar a elucidar as condies da vida social e as concepes
             mentais que dela decorrem. Assim, o materialismo histrico deu impulso ao estudo
             da tecnologia como ferramenta para a compreenso da Histria econmica e social.
                  Mas com a aproximao do final do sculo xx, diversas crticas foram sendo
             elaboradas  concepo tecnolgica da Histria, inclusive por historiadores materialistas,
             como  o caso de Zhkov, para quem as tentativas de periodizar a Histria segundo
             indicadores tecnolgicos esconde o prprio homem e seu sistema de relaes sociais.
             Para ele, tal concepo reduz o curso do processo histrico apenas ao desenvolvimento
             da tecnologia, sem analisar as relaes sociais dominantes. E, para Zhkov,  impossvel
             reduzir a histria humana to somente  histria de mquinas e instrumentos.
                  Outras correntes, como a do arquelogo Andr Leroi-Gourhan, tambm
             levantaram pesadas crticas  periodizao tecnicista da Histria. Para ele, a
             tecnologia deve ser vista sob um ngulo ecolgico, como resultado da interao
             entre homem e meio ambiente. Nesse sentido, todos os membros da humanidade
             sentem a mesma necessidade de se adaptar a seu meio ambiente, e  dessa necessidade
             que surge um conjunto especfico de tcnicas, ou seja, a tecnologia caracterstica de
             cada sociedade. E como necessidades diferentes aparecem em regies e em pocas
             diferentes, no  possvel distinguirmos tecnologias superiores e inferiores, pois
             todas so especficas de determinada sociedade e de determinado meio ambiente.
             Visto dessa maneira, o desenvolvimento tecnolgico no pode ser o nico parmetro
             para escalonar perodos histricos.
                  Seguindo a viso de Leroi-Gourhan, percebemos que, se podemos utilizar o
             surgimento de novas tcnicas para estudar as sociedades e suas transformaes, no
             podemos, todavia, nos fixar apenas nessas tcnicas nem tampouco adotar a tecnologia



             388
de uma sociedade para julgar as outras. Tal parmetro, comum ainda hoje na Histria,




                                                                                       Tecnologia
 etnocntrico, e tende a julgar todos os povos pela cultura do Ocidente. Lembremos,
entretanto, que as necessidades ambientais que levaram o Egito e a Mesopotmia
a desenvolver o urbanismo e o monumentalismo grandioso no existiram, por
exemplo, entre as tribos tupis na Mata Atlntica brasileira milnios depois, razo
pela qual essas tribos no sentiram necessidade de elaborar um urbanismo na mesma
escala. Assim, no podemos julgar os primeiros mais adiantados do que os segundos
com base na adaptao a ambientes e necessidades diferentes.
     A tecnologia tem hoje um significado altamente definidor no Ocidente. Por meio
dela ainda definimos quem  desenvolvido e quem no . Tal significado, originado
da ascenso do progresso e do racionalismo no fim do sculo xviii e da vitria da
Revoluo Industrial sobre o mundo, criou um culto  tecnologia, de tal forma que
mesmo na Histria definimos povos e Estados pelo critrio de quem possui tal ou
qual tecnologia. Mas tal viso leva a um preconceito para com aquelas sociedades
que consideramos inferiores porque no possuem a mesma tecnologia que a nossa,
no importando se elas precisam ou no dessa tecnologia. Para a sala de aula,
desconstruir o culto  tecnologia se torna uma necessidade para reconstruirmos o
conceito de cidadania e de identidade de minorias, como as populaes indgenas,
consideradas inferiores ainda hoje pela classificao tecnolgica da Histria. A
desconstruo de tal culto permite tambm uma reviso da prpria cincia histrica
e de seus conceitos e preconceitos.

Ver tAmbm
    Arte; Arqueologia; Cidade; Civilizao; Cultura; Etnocentrismo; Evoluo;
    Iluminismo; Industrializao; Modernidade; Ps-modernidade; Pr-histria;
    Relativismo Cultural; Revoluo Industrial.

sugestes de leiturA
    barboSa, Alexandre de Freitas. O mundo globalizado: poltica, sociedade e
      economia. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
    cHilde, Gordon. A evoluo cultural do homem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1975.
    Gama, R. A tecnologia e o trabalho na Histria. So Paulo: Edusp, 1981.
    Hiller, E. Humanismo e tcnica. So Paulo: epu, 1973.
    leroi-GourHan, Andr. Evoluo e tcnica. Porto: Edies 70, 1984.
    pinSKy, Jaime. As primeiras civilizaes. So Paulo: Contexto, 2001.
    SHapiro, H. Homem, cultura e sociedade. So Paulo: Martins Fontes, 1982.



                                                                                389
        tempo
Tempo




             A Histria  todos ns estamos acostumados com essa definio   o estudo
        das atividades e produes humanas, ou seja, da cultura, ao longo do tempo. Assim,
        no prprio conceito de Histria est inserido o conceito de tempo, o que nos mostra
        sua importncia. No entanto, tempo  uma daquelas noes que perpassam nosso
        dia a dia e s quais damos pouca ateno, a despeito de sabermos de sua importncia.
        Na verdade, a palavra tempo pode designar, em portugus, coisas diferentes, desde
        o clima ao tempo histrico, o tempo cultural.
             O tempo, como produo humana,  uma ferramenta da Histria, visvel em
        instrumentos como o calendrio e a cronologia. Cronologia  a forma de representar
        os acontecimentos histricos no tempo, o que exige um calendrio e uma noo de
        contagem do tempo. Todas as civilizaes possuem uma data que convencionam
        como o incio do tempo e, logo, o incio da histria. Assim, contando a partir dessa
        data  que representa normalmente o incio do mundo  demarcam os anos e os
        sculos, situando cada acontecimento. Nessa perspectiva, o calendrio, o ano, o
        sculo e a cronologia so invenes da mais alta importncia para a Histria como
        a entendemos hoje. Juntas compem o tempo cronolgico, medio adotada pelos
        historiadores. E, no entanto, cada cultura tem uma maneira especfica de ver o
        tempo, muitas delas inclusive prescindindo do calendrio. Dessa forma, nem todo
        tempo histrico  tempo cronolgico, pois uma sociedade pode no registrar seus
        acontecimentos em uma cronologia, no possuindo uma organizao de anos e
        sculos, sem que isso faa com que ela deixe de ter histria. Nesse sentido, a Histria
         a experincia humana pensada no decorrer do tempo, mesmo sem cronologia.
             Todas as culturas humanas indagam acerca da natureza do tempo. E no s
        a Histria, mas a Arte, a religio e a cincia tm frequentemente se inquietado
        sobre essa natureza. Duas so as principais percepes filosficas sobre o tempo:
        o tempo cclico e o tempo linear. O tempo cclico  aquele em que o fim  sempre
        um novo comeo. Por exemplo, na cultura hindu, na qual a reencarnao  uma
        crena religiosa, o tempo  cclico, pois a morte significa uma nova vida. Tambm na
        cosmologia asteca  assim como no calendrio da maioria dos povos da Mesoamrica
        antiga  o tempo cclico significava que o mundo no tinha comeo nem fim. O
        mundo era gerado, vivenciava toda uma era, um sol, e depois perecia, apenas para
        ser gerado novamente, vivenciar um novo sol, e depois perecer mais uma vez. E
        assim sucessivamente. Quando de sua destruio como civilizao pela conquista
        europeia no sculo xvi, os astecas acreditavam viver ento o quinto sol, na quinta
        Era da histria da humanidade. Nessa viso de mundo, no h um incio para a
        histria, mas vrios.



        390
     A percepo histrica do tempo linear, por sua vez,  aquela que acredita em um




                                                                                            Tempo
nico incio para o mundo, o universo e a histria, e em um nico final. Essa, por
exemplo,  a crena judaico-crist que influenciou consideravelmente o pensamento
ocidental, sendo a percepo do tempo linear a predominante no Ocidente. H muitas
variaes da crena no tempo linear: a variao religiosa afirma que o mundo foi criado
por Deus do nada, evolui de modo constante e culminar na destruio total, na volta
para o nada. Assim, criado por Deus, o universo tem toda sua histria dirigida para o
fim, tambm determinado por Deus, onde Este ir separar os bem-aventurados dos
que no merecem o Paraso. Outra variante  a viso progressista nascida durante o
Iluminismo, na qual a histria teria seu comeo nas sociedades primitivas, evoluindo
sempre at atingir as sociedades mais desenvolvidas. Nessa viso, o tempo linear
tambm levaria at um paraso, mas um paraso social. Essa crena influenciou vises
como a comunista, que defendia uma evoluo desde a sociedade primitiva at o
mais perfeito tipo de sociedade, a comunista. Alm disso, ela ainda  predominante
em nosso dia a dia, quando consideramos que nosso prprio perodo , sem dvida,
melhor do que os que o antecederam.
     A grande diferena entre o tempo linear e o tempo cclico  que, enquanto
para o primeiro a histria tem comeo, meio e fim, para o segundo ela est sempre
recomeando. Mas, no nosso cotidiano tambm temos uma percepo dual do
tempo: o tempo linear  aquele que marca a passagem do tempo em nossa vida e
determina o envelhecimento do qual todos estamos cientes. No entanto, diariamente
vivenciamos o tempo circular, a rotina, a repetio de atividades dia aps dia, o que
nos traz uma noo de continuidade, de experincia que se repete.
     Na Histria, o tempo aparece de formas muito diversas. Fernand Braudel, por
exemplo, trouxe para a pesquisa histrica a distino entre o tempo de curta durao
e de longa durao, distino muito influente na produo historiogrfica atual. A
curta durao seria o tempo dos acontecimentos, da poltica, do que muda com muita
rapidez. J a longa durao seria o tempo das estruturas, da economia e da mentalidade,
do que muda com muita lentido, que tem mudana to lenta que aqueles que a
vivenciam em geral no a percebem. Outra importante reflexo histrica sobre o
tempo  a pesquisa sobre a Histria dos calendrios. A maioria das civilizaes possuiu
calendrios: sumrios, egpcios, chineses, maias, astecas. O calendrio  um sistema de
medida do tempo baseado nos astros, tendo como menor unidade o dia. Sua primeira
utilizao foi para a agricultura. Por meio da observao dos astros, a maioria dos povos
agricultores, organizados em Estados ou no, demarcava o perodo das semeaduras,
colheitas, o perodo das chuvas etc. Para Jacques Le Goff, o calendrio  tanto um objeto
religioso, cientfico e cultural quanto um objeto social. E muitas vezes foi tambm um
objeto de manipulao de poder: quem detinha o conhecimento do calendrio, detinha


                                                                                    391
        o controle da agricultura, logo dos camponeses. Um dos melhores exemplos desse uso
Tempo



        pode ser visto na sociedade maia clssica. A os sacerdotes dominavam o calendrio
        mais exato dentre todos os elaborados na histria  com exceo do atual  e utilizavam
        esse conhecimento para prever as melhores pocas para o plantio, de acordo com
        as estaes das chuvas e os acontecimentos celestes, determinando o curso da vida
        social. Todos, camponeses e reis, dependiam dos sacerdotes, que tiveram um enorme
        poder nessa sociedade.
             Em nossa cultura, como vimos, estamos acostumados  linearidade do tempo
        histrico. E, nesse sentido, tempo, Histria e evoluo so conceitos correlatos. Alm
        disso, a experincia do tempo  muitas vezes individual. Na Histria, a Histria Oral
        e os pesquisadores da memria tm se voltado para essa constatao, buscando
        compreender, por exemplo, como os indivduos das classes iletradas em culturas
        alfabetizadas percebem o tempo de forma diferente do tempo oficial ditado por
        sua sociedade. As cincias exatas tambm se preocupam com a possibilidade de um
        tempo absoluto, que se sobreponha a todas essas diferentes percepes culturais e
        mesmo individuais. O matemtico ingls G. J. Whitrow tem se dedicado a responder
        a essas inquietaes. Para ele, no h um tempo absoluto e todas as medidas de
        tempo feitas em sociedade so convenes. Assim, o tempo social, histrico, no tem
        nenhuma ligao com o tempo do universo. Whitrow vai mais longe e afirma que
        no h nenhuma prova cientfica de que a espcie humana tenha um sentido especial
        para o tempo. No nascemos com uma conscincia temporal, e nossa experincia
        do tempo  sempre do presente. Para esse autor, a conscincia do tempo depende de
        nosso grau de interesse: assim, se o que estamos fazendo nos interessa, o tempo parece
        curto, e vice-versa. Essa  a razo pela qual cada pessoa vivencia percepes diferentes
        de tempo. No queremos dizer com isso que o tempo no existe e  sempre relativo.
        Pelo contrrio, o processo de envelhecimento caracterstico da natureza  uma das
        formas de percebermos que h um tempo que podemos chamar de natural. Mas esse
        no  o tempo histrico, e muito menos o individual. A despeito da existncia de um
        tempo natural ou universal, as sociedades e os indivduos constroem interpretaes
        bem prprias do tempo.
             A constante referncia ao tempo na vivncia humana e sua importncia na Histria
        tm feito com que a reflexo historiogrfica se volte cada vez mais para ele. No Brasil,
        os livros didticos tambm vm trazendo essa reflexo. Sugerimos que o professor de
        Histria, no entanto, no se atenha apenas ao texto dos livros didticos.  importante
        perceber a multiplicidade histrica do tempo para poder levar os alunos a compreender
        que a experincia histrica  algo muito diverso, assim como as noes que temos como
        universais raramente o so. Uma boa ferramenta para o professor  conhecer as obras


        392
de literatura que tm o tempo como tema. O escritor argentino Jorge Luis Borges, por




                                                                                       Teoria
exemplo,  uma boa dica, pois, inserido na mentalidade ocidental, Borges procurou
em muitos de seus trabalhos entender como as pessoas de outras culturas pensavam
o tempo circular e a imortalidade, que  uma forma prpria de interpretar o tempo.
Para o trabalho em sala de aula,  possvel trabalhar tambm com a ideia de "mquina
do tempo", recorrente no imaginrio ocidental, provavelmente conhecida da maioria
dos jovens nas cidades brasileiras. As muitas histrias sobre mquinas do tempo,
frequentes na cultura pop, remetem a uma preocupao antiga da humanidade: a
impossibilidade de controlar a passagem do tempo.

Ver tAmbm
    Cincia; Evoluo; Histria; Histria Oral; Interdisciplinaridade; Memria;
    Mentalidades; Mito.

sugestes de leiturA
    borGeS, Jorge Luis. Fices. So Paulo: Globo, 2000.
    ______. O aleph. So Paulo: Globo, 1986.
    cHiquetto, Marcos. Breve histria da medida do tempo. So Paulo: Scipione, 1996.
    HuGHeS-WarrinGton, Marnie. 50 grandes pensadores da Histria. So Paulo:
     Contexto, 2002.
    le GoFF, Jacques. Histria e memria. Campinas: Ed. Unicamp, 1994.
    turazzi, Maria Inez; Gabriel, Carmen Teresa. Tempo e histria. So Paulo:
     Moderna, 2000.
    WellS, H. G. A mquina do tempo. Lisboa: Europa-Amrica, 1992.
    WHitroW, G. J. O tempo na histria: concepes do tempo da Pr-histria aos
     nossos dias. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.




teoriA
     Entendemos teoria como um ato crtico de pensamento sobre a realidade, um
ato que envolve no apenas a capacidade de abstrao (pensamento), como tambm
os sonhos, os projetos, as paixes humanas. Um ato que , antes de tudo, humano,
porque s o homem pode refletir sobre e transformar suas prticas; um ato que
guarda profundas e estreitas relaes com a prtica, com a ao.



                                                                                393
              A mais simples definio de teoria diz que ela  um conjunto organizado
Teoria



         de princpios e regras para explicar uma srie de fatos, na verdade, para explicar
         o mundo. Na cincia, seria um conjunto de leis cientficas. Existem teorias em
         praticamente todas as reas de conhecimento, apesar de serem mais usuais nas
         cincias biolgicas e exatas. Nas cincias humanas, as disciplinas que mais buscam
         formular teorias so a Economia, a Sociologia, a Antropologia e a Lingustica.
              Uma primeira questo a ser percebida ao definirmos teoria  sua relao com
         a prtica poltica. H a concorrncia entre duas vises opostas dessa relao: a
         primeira afirma que poltica e teoria so campos contrrios. Por exemplo, quando a
         chamada Histria das Mulheres, que comeou como uma atividade poltica engajada
         com o movimento feminista, foi se aprofundando teoricamente ao longo dos anos
         1980, muitos afirmaram que o engajamento feminista iria declinar e virar "coisa da
         academia", ou seja, de universidades e centros de pesquisa.
              A segunda vertente, que se difundiu com o marxismo, presente no materialismo
         dialtico, afirma que a teoria que no se encontra enraizada na prtica no  teoria.
         Da que  da relao teoria/prtica (relao dialtica) que resulta uma sntese, a
         prxis, que pode ser definida como a ao social, comprometida com determinada
         viso de mundo, determinada ideologia. Nessa viso, teoria e prtica convergem
         para a prxis, entendida como a ao humana consciente, fruto de uma reflexo, de
         uma percepo de que os atos so histricos, de que eles correspondem  situao
         social e histrica do sujeito no mundo. Ao atingir o estgio da prxis, o homem no
         menospreza nem a prtica nem a teoria, pois sua prtica e sua teoria praticamente
         se misturam: o seu ato  terico e sua teoria  prtica.
              No entanto, no se conhece teoria que explique satisfatoriamente a totalidade
         da experincia humana. A grande dificuldade, nesse ponto, resulta do fato de que
         as cincias humanas, como um todo, lidam com um objeto bastante complicado,
         o homem, e a Histria ainda tem o agravante de lidar com o homem no tempo.
         Assim, os historiadores atualmente so mais comedidos em formular teorias,
         embora no dispensem conceitos e modelos explicativos na anlise. Se durante o
         auge do materialismo histrico como concepo de histria muitos historiadores se
         preocupavam com o estabelecimento de modelos que estruturassem as explicaes
         da Histria, com a ascenso da Nova Histria, e depois com a ps-modernidade, no
         ltimo quartel do sculo xx, a Histria foi se tornando cada vez menos terica, ou
         seja, cada vez menos preocupada com as explicaes preestabelecidas para a anlise
         de diferentes sociedades no tempo.
              Hoje, as teorias da Histria, as grandes linhas interpretativas do processo histrico,
         caram em descrdito, o que se explica sobretudo pelo fato de a Histria no ser uma
         disciplina muito fcil de se teorizar: se as aes humanas, os acontecimentos e processos


         394
histricos tivessem certa margem de repetio (fossem tpicos, ou seja, fossem




                                                                                         Teoria
semelhantes entre si de modo que o tempo e o espao no afetassem sua dinmica),
at que haveria maior chance de construo de uma teoria geral que explicasse todo
o movimento histrico. Como isso no acontece, fica difcil propor uma teoria que
explique o sentido da histria. O que ocorre  que essa complexa disciplina no 
uma cincia como outra qualquer (para muitos, nem cincia ela ), ela lida com fatos
singulares (irrepetveis), que do margem a muitas interpretaes. E, no entanto, por
mais que muitos historiadores atuais privilegiem a prtica emprica da pesquisa e
deem nfase  metodologia, dispensando a teoria, no deixam de buscar explicaes
e, de certo modo, por trs de suas operaes "prticas", est sempre alguma concepo
terica, sobre o que  o fazer/escrever da Histria. Portanto, uma concluso se impe:
por mais que nos imaginemos livres em nossas prticas (ensino e/ou pesquisa), no
escapamos assim to facilmente nem das ideologias nem da teoria.
     De modo geral, as teorizaes sociais so mais bem-sucedidas para explicar o
presente do que o passado. Crticos do marxismo, como Castoriadis, afirmam que
a teoria marxista  muito mais aplicvel ao entendimento do perodo da Histria
em que o Capitalismo impera do que a perodos anteriores, em que nem sempre a
economia constituiu o principal sentido das aes das pessoas.
     Existe uma separao entre teoria social e Histria, como apontou Peter Burke,
que se baseia no fato de que os socilogos julgam compreender as estruturas sociais,
as generalidades, ao passo os historiadores julgam que o essencial  compreender
o que  especfico em dada sociedade. Para tais historiadores, as teorias ou
generalizaes dos socilogos no so teis para contemplar a diversidade das
sociedades humanas; por sua vez, os socilogos afirmam que os historiadores
so meros colecionadores de fatos do passado, sem competncia (porque sem
base terica) para compreender as sociedades como um todo. Atualmente, com
a interdisciplinaridade, est havendo uma tentativa de reaproximao entre
os historiadores e os tericos sociais. O historiador usa conceitos e tipologias
tomados de emprstimo aos tericos, e estes, por sua vez, terminam por dar uma
dimenso histrica a suas teorizaes. Mesmo que as "grandes teorias da Histria"
tenham cado em desuso, isso no contradiz o fato de que os historiadores, de
modo geral, esto cada vez mais se preocupando com a fundamentao terica
de seus trabalhos. E isso  algo muito positivo. Historiadores sociais e da cultura,
por exemplo, aproximam-se com cada vez mais competncia das demais reas das
cincias humanas, como a Sociologia, a Antropologia, a Literatura, e o resultado
disso  o maior nmero de trabalhos com qualidade analtica.
     Um historiador que no se preocupa com conceitos e modelos explicativos, a
maioria dos quais resultam de teorias, provavelmente no costuma pensar muito a
respeito das aes humanas, limitando-se a narr-las, sem explic-las ou compreend-



                                                                                 395
         las. Isso no significa que o historiador deva ficar atado a esta ou quela teoria, a este
Teoria



         ou quele modelo explicativo como uma receita que serve para tudo. A matria da
         Histria  as aes humanas no tempo, como afirmou Marc Bloch  no  passvel
         de se encaixar perfeitamente em nenhuma teoria. Mas quando falamos em mais valia,
         em modo de produo, mentalidades, burguesia, feudalismo, capitalismo, modernidade,
         imaginrio etc., estamos lidando com conceitos derivados de modelos de explicao
         das sociedades elaborados em concepes tericas. Da que o conhecimento terico
          fundamental para a compreenso e a explicao da Histria, seja em sala de aula,
         seja no campo da pesquisa.
               No que diz respeito  sala de aula, no mbito do ensino Fundamental e Mdio,
         a teoria tambm se torna fundamental para restabelecer um certo sentido de
         profundidade ao processo de ensino-aprendizagem. Todos os livros didticos se
         baseiam em alguma forma de explicao do mundo e da Histria, em concepes
         histricas que no deixam de ter um fundamento terico subjacente. Lidar com
         recursos didticos diversificados (filmes, documentrios, textos, documentos,
         fotografias, imagens de revistas, jornais etc.) tambm requer algum nvel de
         habilidade terico-crtica para uma leitura produtiva do recurso. Tambm a leitura e
         a interpretao de textos exigem algum princpio de elaborao terica por parte de
         alunos. Embora nenhuma teoria explique tudo, elas nos ajudam tanto a interpretar
         as sociedades e a Histria quanto a propor aes prticas diante de nossa relao
         com o mundo e com as outras pessoas. Teorizar , em si, um ato de inquietao.

         Ver tAmbm
               Arqueologia; Cincia; Cotidiano; tica; Gnero; Histria; Historiografia; Ideologia;
               Interdisciplinaridade; Marxismo; Mentalidade; Modo de Produo; Poltica;
               Tecnologia.

         sugestes de leiturA
               burGuire, Andr (org.).Dicionrio das cincias histricas.Rio de Janeiro: Imago,1993.
               burKe, Peter. Histria e teoria social. So Paulo: Ed. Unesp, 2002.
               ______. A escrita da histria: novas perspectivas. So Paulo: Ed. Unesp, 1992.
               edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
                 entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.
               HuGHeS-WarrinGton, Marnie. 50 grandes pensadores da Histria. So Paulo:
                Contexto, 2002.
               Karnal, Leandro (org.). Histria na sala de aula: conceitos, prticas e propostas.
                So Paulo: Contexto, 2003.
               pereira, Otaviano. O que  teoria. So Paulo: Brasiliense, 1988.


         396
terrorismo




                                                                                            Terrorismo
      Tema pungente nos dias atuais, o terrorismo no pode deixar de ser discutido no
meio escolar, sob pena mesmo de deixarmos  imprensa e  sua banalizao do mal a
tarefa ambgua de "demonstrar" s pessoas o que  o terrorismo e o que ele significa
na contemporaneidade. A relao do terror com a imprensa, a ao repressiva que
recai sobre os que praticam o terror, a organizao dos grupos terroristas e suas
motivaes, entre outros, so temas complexos que carecem de um mnimo de senso
crtico para se alcanar o entendimento da Histria Contempornea.
      O terrorismo  a ao armada contra civis;  a violncia usada para fins polticos,
no contra as foras repressivas de um Estado, mas contra seus cidados. Uma
classificao atual distingue o terrorismo em pelo menos quatro categorias: terrorismo
revolucionrio; terrorismo nacionalista; terrorismo de Estado; e terrorismo de
organizaes criminosas. O terrorismo de cunho revolucionrio pode englobar grupos
como as Brigadas Vermelhas e o Ordine Nuovo, que atuaram na Itlia durante o sculo
xx; a Frao Exrcito Vermelho, da Alemanha; Ao Direta, na Frana; o Sendero

Luminoso, no Peru. Esses grupos pregam o uso da ao terrorista como ferramenta
para a instalao de uma revoluo. J o terrorismo nacionalista  aquele praticado
por grupos que pretendem fundar um Estado-nao com a separao de uma regio
de um Estado preexistente, como o Setembro Negro palestino, o grupo basco Eta e o
irlands ira, entre outros. O terrorismo de Estado, por sua vez, como o prprio nome
diz,  aquele praticado por Estados nacionais, como o promovido pela Lbia na segunda
metade do sculo xx. Por fim, o terrorismo criminoso se refere a grupos criminosos,
como a Mfia, a Camorra, o Cartel de Medelln, entre outros.
      Muitos estudiosos remontam o terrorismo ao sculo i d.C., quando, entre os
zelotes, judeus contrrios ao domnio romano na Palestina, surgiu um grupo radical
denominado sicrios ou "homens com punhal", que atacava cidados, judeus ou no,
tidos como simpatizantes da causa romana. A Histria registra ainda a existncia
de uma seita muulmana que, no final do sculo xi d.C, dedicava-se a exterminar
seus opositores no Oriente Mdio, seita inclusive da qual teria se originado a
palavra assassino. Ambos esses grupos, no entanto, pertencem a contextos histricos
diferenciados e pouco tm a ver com o terror contemporneo.
      As razes do terrorismo moderno se encontram mesmo no sculo xix europeu,
quando grupos anarquistas e niilistas hostilizavam o Estado, alguns iniciando luta
armada contra essa instituio, na tentativa de constituir uma sociedade sem Estado.
A ao revolucionria anarquista, quando seguia a trilha da violncia armada,
visava a atingir sobretudo lderes de Estado, e no cidados comuns. O terrorismo
desenvolvido por alguns grupos anarquistas tinha, portanto, carter revolucionrio e



                                                                                    397
             estratgico na luta contra a ordem vigente. A liberdade era uma das bandeiras de luta.
Terrorismo



             Em sua luta contra os elementos conservadores da sociedade russa, por exemplo, os
             niilistas justificavam a violncia acreditando que a eliminao da ignorncia e da
             opresso asseguraria a liberdade humana. O governo russo de Alexandre ii reprimiu
             severamente os revolucionrios, que se vingaram assassinando o imperador em 1881.
                  Mas o czar russo foi apenas uma das vtimas do terrorismo oitocentista, que teve
             seu auge nas quatro dcadas anteriores  Primeira Guerra Mundial. Em 1878 houve
             dois atentados  vida do kaiser alemo; em 1893, explosivos foram jogados na Cmara
             dos Deputados da Frana e, em 1894, o presidente francs foi esfaqueado e morreu por
             causa dos ferimentos; em 1898, a imperatriz Elizabeth (Sissi) da ustria foi assassinada
             e trs anos depois foi a vez do presidente norte-americano Mckinley. Apenas no ano de
             1892, houve mais de mil ataques de explosivos na Europa e quase quinhentos nos eua.
                  Entretanto, foi o sculo xx que conheceu a grande expanso do nmero de
             grupos que optaram pelo terrorismo como arma de luta: guerrilheiros urbanos
             marxistas, maostas, trotskistas, castristas em toda a Amrica Latina; separatistas
             bascos na Espanha; tmis no Sri Lanka; corsos na Frana; quebequenses no Canad;
             curdos na Turquia e no Iraque; sikhs no norte da ndia; muulmanos na Caxemira,
             na Chechnia, na Palestina e nas Filipinas; a Supremacia Branca nos Estados Unidos,
             grupo de organizaes paramilitares racistas de extrema direita. Um dos seguidores
             dessa organizao  Timothy James McVeigh, responsvel pelo atentado de Oklahoma
             na dcada de 1990, no qual morreram 168 pessoas.
                  No sculo xx, o terrorismo no se expandiu apenas quanto ao nmero de grupos,
             mas tambm em termos de raio de atuao. Conexes internacionais sofisticadas, uso
             de tecnologia blica de alto poder destrutivo, redes de comunicao como a internet,
             tudo isso mostra o quanto o terror tomou uma face que dialoga cada vez mais com
             a tecnologia de ponta. Seus fins podem ser "antigos", a mdia pode at taxar alguns
             grupos, como a Al-Qaeda, de fundamentalistas retrgrados, mas  inegvel que a
             modernidade tcnica  instrumentalizada por eles com eficincia cada vez mais letal.
             Antes, com poucas excees, os grupos extremistas conduziam suas campanhas de
             violncia em seus prprios territrios e contra inimigos declarados. Mas desde a
             segunda metade do sculo xx j no h mais fronteiras para atingir as metas polticas,
             e os pases mais vulnerveis so, em geral, aqueles onde tradicionalmente todos que
             chegavam tinham liberdade de movimento. Os terroristas, agora, so os moradores
             tpicos do que o terico Marshall MacLuhan designou "aldeia global".
                  Para a maior visualizao do terrorismo mundial, a mdia exerce um papel
             fundamental. Mas  evidente que tambm cria um sensacionalismo em torno dos
             terroristas. H at quem acredite que a ateno exacerbada dada pela mdia aos atentados
             auxilia os grupos radicais na propaganda do terror. Por sua vez, o sensacionalismo se torna


             398
uma arma tambm na propaganda antiterror, veiculada por grupos e Estados atingidos




                                                                                           Terrorismo
pelo terrorismo. Dessa forma, a mdia ajuda a justificar a legalidade e a necessidade de
aes antiterroristas que, muitas vezes, levam adiante banhos de sangue e violaes aos
direitos humanos que atingem mais a populao civil do que os prprios terroristas.
     O poder da mdia, entretanto, no gera o terror. Muitas campanhas terroristas
tm razes histricas profundas e so inspiradas em situaes reais de dominao
imperialista.  o caso, por exemplo, do terrorismo contra a colonizao europeia.
No Qunia, a rebelio Mau Mau, iniciada em 1952, durou trs anos e foi responsvel
por aes violentas contra europeus e africanos considerados desleais. E, embora sua
derrota tenha culminado na morte de 11 mil rebeldes, a ao do grupo impulsionou
a independncia do Qunia. Cem europeus foram mortos nessa rebelio. A
independncia do Chipre perante a Gr-Bretanha tambm foi resultante da ao
terrorista cipriota por meio da organizao Eoka. Outro conflito de razes profundas
 o que se trava entre o setor extremista da Organizao pela Libertao da Palestina
e o Estado de Israel. A olp, corporao poltica fundada em 1964, foi uma tentativa
de unir os diversos grupos rabes palestinos para se opor  presena israelense
no antigo territrio da Palestina. O grupo no  necessariamente terrorista. Mas
a dcada de 1980 assistiu a uma radicalizao dos conflitos na regio, e surgiram
revoltosos que optaram pelo terror contra Israel:  o caso da Frente Popular para a
Libertao da Palestina e do Setembro Negro. Por sua vez, sentindo-se vtimas dessas
aes terroristas, o Estado de Israel reage com o terrorismo de Estado, dificultando
o dilogo entre as partes. O fundamentalismo judaico e a sanha dos palestinos em
criar um Estado na Palestina so ingredientes de um conflito de longa durao.
     Ao falar em terrorismo de Estado, podemos abordar duas vertentes do terror:
a primeira  o terrorismo de Estado, praticado contra sua prpria populao,
como no modelo clssico totalitrio; a segunda, os alvos so os civis, na maioria
das vezes considerados estrangeiros, como ocorre no modelo norte-americano. O
modelo clssico totalitrio ocorreu em particular no sculo xx. O regime nazista na
Alemanha exerceu uma poltica de terror, perseguio e morte aos judeus; o regime
stalinista, por sua vez, fez uso da fora do Estado centralizado para minar qualquer
dissidncia por menor que fosse, por meio de prises e milhes de assassinatos; por
fim, as ditaduras latino-americanas do Chile, Brasil e Argentina, por exemplo, e a
ditadura de Pol Pot no Camboja, tambm exerceram o terrorismo de Estado com
perseguies, extermnios, torturas e deportaes. No seria errneo dizer que os eua
e Israel do sculo xxi praticam terrorismo de Estado. A ideia de George W. Bush de
guerra preventiva e as frequentes aes militares israelenses contra os palestinos so
formas de terrorismo de Estado que, sob a desculpa do combate a grupos terroristas,
espalham a morte por meio de tecnologias do terror para alcanar ou consolidar
espaos geopolticos.



                                                                                   399
                Devemos nos perguntar, antes de tudo, por que o terrorismo existe, quais as
Trabalho



           razes do dio poltico e quais projetos existem por parte daqueles que matam e
           morrem. O professor de Histria deve ter a coragem de discutir o terrorismo para
           alm do sensacionalismo da mdia. Perceber o duro jogo de poder que  travado
           entre as foras em conflito , antes de tudo, implodir a noo simplista, e muitas
           vezes bastante conveniente, de que h no mundo uma luta do bem contra o mal.
           Outra questo a ser observada: h o terror como prtica e h ainda o discurso sobre
           o terror, que temos de analisar para no cair no senso comum.

           Ver tAmbm
                 Discurso; Estado; Fascismo; Fundamentalismo; Globalizao; Imperialismo; Isl;
                 Militarismo; Nao; Orientalismo; Violncia.

           sugestes de leiturA
                 arendt, Hannah. Origens do totalitarismo: antissemitismo, imperialismo,
                  totalitarismo. So Paulo: Companhia das Letras, 1989.
                 barboSa, Alexandre de Freitas. O mundo globalizado: poltica, sociedade e
                   economia. 2. ed. So Paulo: Contexto, 2003.
                 carr, Caleb. Assustadora histria do terrorismo. Rio de Janeiro: Prestgio, 2003.
                 cHomSKy, Noam. 11 de Setembro. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
                 demant, Peter. O mundo muulmano. So Paulo: Contexto, 2003.
                 melo neto, Francisco Paulo de. Marketing do terror. So Paulo: Contexto, 2002.
                 pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Faces do fanatismo. So Paulo:
                   Contexto, 2004.
                 raSHid, Ahmed. Jihad: a ascenso do islamismo militante na sia Central. So
                   Paulo: Cosac & Naify, 2003.
                 ricardo, Slvia; Sutti, Paulo. As diversas faces do terrorismo. So Paulo: Harbra, 2002.




           trAbAlHo
               Apesar de frequentemente ser o centro das discusses tericas nas cincias
           sociais, poucos historiadores, no entanto, do ao conceito de trabalho a devida
           ateno. Mas a noo de trabalho, como toda ideia humana, muda de definio
           ao longo do tempo.



           400
     Em sua definio mais comum, trabalho  toda ao de transformao da matria




                                                                                          Trabalho
natural em cultura, ou seja, toda transformao executada por ao humana. Mas
o trabalho tem significados diferentes de acordo com a cultura que o vivencia e,
em muitos casos, o que  considerado trabalho em uma no  na outra. Em muitas
lnguas europeias, h inclusive uma distino entre o trabalho que d reconhecimento
social, uma obra, e o trabalho repetitivo, o trabalho. Tal diferenciao, no entanto,
no existe em portugus.
     O trabalho, dizem os filsofos, est associado ao esforo para se atingir um fim,
esforo esse fsico e espiritual. O Ocidente criou outra diferenciao, a do trabalho
braal e a do trabalho intelectual, sendo este ltimo considerado, em diferentes
perodos histricos, superior ao braal. Para a filsofa Suzana Albornoz, no entanto,
essa distino  em si mesma preconceituosa, pois o trabalhador que executa tarefas
manuais no deixa nunca de usar a criatividade e outras exigncias do trabalho
considerado intelectual. O trabalho  tanto o esforo quanto o resultado desse esforo.
     Ao se debruar sobre a Grcia antiga, por exemplo, os historiadores franceses
Jean-Pierre Vernant e Pierre Vidal-Naquet procuraram os significados do trabalho
naquela sociedade. Para Vernant, trabalho  um tipo de comportamento, uma forma
particular de atividade humana e, como tal, mutvel no decorrer da histria.  um
fato humano que pode ser entendido de diferentes ngulos possveis: pela anlise
tcnica, econmica, social e psicolgica. E enquanto a nossa sociedade percebe o
trabalho de forma unificada, como um tipo de comportamento, na Grcia antiga
as pessoas no percebiam as atividades produtivas ligadas umas as outras, ou seja,
no havia noo de trabalho como a entendemos hoje, em que todas as atividades
produtivas esto integradas, percebendo que tm em comum umas com as outras um
mesmo tipo de comportamento, o trabalho. Na agricultura grega, o esforo humano
no era entendido como forma de transformar a natureza, mas de se adequar a ela.
Mais importante, para Vernant, os gregos no davam valor social a seu esforo, seu
ofcio. Para eles, cada profisso correspondia a uma qualidade humana, e era quase
uma continuidade da natureza.
     A sociedade contempornea entende o trabalho como uma categoria nica, um
tipo unificado de conduta:  uma atividade regulamentada que visa a produzir valores
teis ao grupo. A sociedade de mercado, em que todos os valores teis so os criados
para o mercado, unifica a percepo de todas as tarefas produtivas como trabalho.
Todos entendem suas atividades particulares nessa categoria geral. Em uma economia
plenamente comercial, segundo Vernant, todas as atividades produtivas so colocadas
lado a lado de forma homognea, criando assim o conceito atual de trabalho.
     Na Antiguidade, por outro lado, cada tarefa se definia a partir de seu produto
particular, e no havia uma percepo geral de que toda a produo de alguma coisa
era um esforo humano criador de valor social. Assim, na Grcia antiga no existia



                                                                                  401
           o trabalho como funo humana que abarca todas as atividades. Inclusive, a agricultura
Trabalho



           no era nem mesmo encarada como uma atividade profissional, aparentando-se
           mais, no ver de Xenofonte,  atividade guerreira.
                A Histria tem dado ateno ao trabalho em muitos e variados ngulos: a partir
           da Histria Econmica, da Histria Social, da Histria das Tcnicas e at mesmo
           da Histria das Ideias. E no  a nica disciplina a ter o trabalho como objeto: a
           Antropologia, o Direito e a Filosofia tambm o abordam. Desde o Iluminismo que
           os filsofos j pensavam o trabalho, e os socialistas do sculo xix, de Saint-Simon a
           Proudhon, procuraram dar uma ateno especial ao trabalho. Para Marx, a histria
           era o desenvolvimento das relaes entre doadores e tomadores de trabalho. Ele
           ainda criticava o fato de os filsofos se limitarem  busca da interpretao do mundo,
           quando o que importava era transform-lo. Nesse sentido, trabalhar sobre ele.
                Hoje o historiador que estuda o trabalho se preocupa entre outras coisas com os
           mecanismos da produo e das trocas. Georges Friedmann, na dcada de 1960, definiu
           o trabalho como o conjunto de aes com finalidade prtica que o homem exerce
           sobre a matria, com a ajuda das mos, do crebro, de ferramentas ou de mquinas,
           aes essas que modificam no s a matria mas tambm o homem. Mas o prprio
           Friedmann afirmava que devemos desconfiar das definies metafsicas e muito
           generalizantes do trabalho. Para entender o trabalho precisamos buscar sua variedade
           na histria e nas sociedades, procurando principalmente entender como o trabalho
            vivido e sentido pelos que o executam. Uma pergunta a se levantar, nesse sentido, 
           se o trabalho  sempre, em todas as sociedades, sentido como sujeio.
                No contexto do mundo industrial, e diramos ps-industrial, o trabalho 
           uma categoria que representa um esforo coletivo e socialmente organizado, o
           que contrasta com sociedades como a Grcia antiga. Nesse contexto do mundo
           globalizado, apesar da nova diviso mundial de trabalho homogeneizar as relaes
           de produo em lugares to dspares quanto o Brasil, a Frana e Taiwan, cada cultura
           ainda v o trabalho de forma diferente: Na maior parte do Brasil, influenciado pela
           tradio da Reforma Catlica na Idade Moderna, para a qual o trabalho era um
           castigo imposto ao homem por Deus, trabalhar  uma atividade necessria, mas
           vista como imposio. No Japo, no entanto, onde a cultura da honra e da tradio
           ainda se sobrepe s inovaes da cultura globalizada, o trabalho  algo sagrado e
           deve ser encarado como honra.
                 comum que tentemos levar nossa noo de trabalho para a interpretao de
           outras culturas. Nesse sentido, um caso muito comum  a considerao de que os
           tupis da costa brasileira, durante os primeiros tempos da conquista, eram povos que
           no estavam acostumados ao trabalho, que no gostavam de trabalhar, mito esse que
           persiste em muitas explicaes acerca da escravido no Brasil. A realidade, no entanto,


           402
 que os tupis, como qualquer sociedade humana, tinham sua prpria noo de




                                                                                         Trabalho
trabalho, sua diviso social de trabalho, inclusive; e em sua viso  masculina,
devemos acrescentar  o esforo posto no trabalho era medido e determinado e no
precisava ser aumentado. Ou seja, o trabalho no era visto como o centro da vida
social. No que fosse desprezado, s no era supervalorizado. As tarefas produtivas
tinham seu espao e seu lugar especfico, mas no determinavam o conjunto da vida.
De qualquer forma, a viso masculina  diferente da feminina. Na sociedade tupi,
o trabalho era definido por sexo, e as atividades produtivas recaam especialmente
sobre as mulheres. Uma viso tradicional v nisso apenas a explorao patriarcal,
mas novas interpretaes, como a de Joo Azevedo Fernandes, relatam que eram
as mulheres que dominavam as tcnicas de produo da agricultura, da cermica
e de quase todas as atividades culturais, em contraste com a supremacia "natural"
masculina, e esse domnio era reconhecido e valorizado.
     J para as sociedades industriais, Karl Marx construiu um conceito de trabalho
que at hoje pode ser utilizado, o de trabalho alienado. O trabalho alienado 
caracterstico das linhas de montagem, da grande produo em massa, de qualquer
forma de produo em que o trabalhador no seja responsvel pela produo integral,
em que ele no possua mais o conhecimento para produzir o produto de forma
total. Nesse sentido, o trabalhador produz apenas uma parte, uma pea do produto,
sempre em atividades repetitivas e sem sentido, pois, de modo diferente do arteso,
ele no v o resultado de seu trabalho no produto terminado. O trabalho  alienado
tambm porque o trabalhador no possui os meios de produo. Ele vende sua fora
de trabalho, sendo assim alienado dela. O trabalho alienado  uma caracterstica do
Capitalismo e de sua organizao da produo.  uma resultante do aprimoramento
da produo, da velocidade com a qual o mercado exige os bens de consumo.
     Muito se tem falado acerca do trabalho alienado e de sua influncia na sociedade
atual, inclusive interligando-o  massificao da cultura, ao desenvolvimento da
cultura de massa "alienada". Um dos campos clssicos de estudo da Histria do
trabalho  a Histria da classe operria, rea bastante influenciada pelo materialismo
histrico. Hoje um tema secundarizado, j rendeu importantes obras de historiadores
que no se prendem aos modismos da Histria, como Eric Hobsbawm. De qualquer
forma, com a globalizao, outras formas de trabalho parecem evidentes para as
cincias sociais, deixando de lado um pouco o trabalho industrial, que no  mais
preponderante no Ocidente. Estudos sociolgicos tm dado cada vez mais nfase
 chamada jornada dupla de trabalho das mulheres nas grandes sociedades ps-
industriais. Nela, a mulher, alm de possuir um emprego fora de casa, deve tambm
arcar com as tarefas domsticas, o que no  considerado trabalho por sociedades
como a brasileira. Podemos ver o conceito de trabalho em nossa sociedade na


                                                                                 403
           definio do ibGe, para quem trabalho so todas as ocupaes remuneradas em
Trabalho



           dinheiro, mercadoria ou benefcio, desenvolvidas na produo de bens e servios,
           assim como qualquer ocupao remunerada no servio domstico e qualquer
           ocupao no remunerada na produo de bens e servios desenvolvidas em pelo
           menos uma hora por semana. Essa definio, apesar de bastante ampla e de incluir as
           empregadas domsticas, exclui as donas de casa, que continuam a ser consideradas,
           no Brasil, economicamente inativas.
               Uma importante reflexo que os professores podem levantar em sala de aula
           em torno do trabalho  sua multiplicidade histrica: primeiro, trabalho no 
           emprego. No  porque algum  como uma dona de casa, por exemplo  no tem
           um emprego que ela no trabalha. Segundo, o trabalho  mutvel, na forma como
           as pessoas o veem ao longo do tempo. Assim, no apenas entendemos o objetivo
           do trabalho de forma diferente de um japons, como tambm definimos trabalho
           de forma diferente de um grego do tempo de Pricles. O risco do anacronismo na
           anlise histrica de trabalho  grande. Precisamos estar atentos a essas questes
           em sala de aula e acabar de vez, por exemplo, com a viso de que os ndios eram
           preguiosos, no gostavam de trabalhar e, logo, no serviam para a escravido.
           Alm disso, importante contribuio para a construo da cidadania brasileira  a
           valorizao do trabalho domstico, do trabalho feminino e o reconhecimento de
           que a maioria das mulheres realiza uma jornada dupla de trabalho. Enquanto o
           trabalho domstico no for considerado trabalho no Brasil, a maioria das mulheres
           brasileiras, principalmente as de baixa renda, continuar a trabalhar duplamente
           sem reconhecimento profissional ou social.

           Ver tAmbm
                 Cidadania; Classe Social; Escravido; Famlia; Gnero; Globalizao; Indstria
                 Cultural; Industrializao; Latifndio/Propriedade; Modo de Produo;
                 Servido; Tecnologia.

           sugestes de leiturA
                 albornoz, Suzana. O que  trabalho. So Paulo: Brasiliense, 2002.
                 burGuire, Andr (org.).Dicionrio das cincias histricas. Rio de Janeiro:Imago,1993.
                 del priore, Mary (org.). Histria das mulheres no Brasil. 6. ed. So Paulo:
                  Contexto, 2002.
                 ______. Histria das crianas no Brasil. 4. ed. So Paulo: Contexto, 2004.
                 edGar, Andrew; SedGWicK, Peter. Teoria cultural de A a Z: conceitos-chave para
                   entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003.



           404
    HobSbaWm, Eric J. Mundos do trabalho: novos estudos sobre histria operria.




                                                                                          Tradio
     So Paulo: Paz e Terra, 1987.
    luca, Tania Regina de. Indstria e trabalho na Histria do Brasil. So Paulo:
      Contexto, 2001.
    ______. Trabalhadores: direitos sociais no Brasil. In: pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla
      Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo: Contexto, 2003.
    pinSKy, Carla Bassanezi; pedro, Joana Maria. Mulheres: igualdade e especificidade.
      In: pinSKy, Jaime; pinSKy, Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So
      Paulo: Contexto, 2003.
    pinSKy, Jaime. A escravido no Brasil. So Paulo: Contexto, 1993.
    rocHa, Maria Isabel Baltar da (org.). Trabalho e gnero: mudanas, permanncias
     e desafios. So Paulo: Ed. 34, 2000.
    SinGer, Paul. Direitos sociais: cidadania para todos. In: pinSKy, Jaime; pinSKy,
      Carla Bassanezi (orgs.). Histria da cidadania. So Paulo: Contexto, 2003.
    vernant, Jean-Pierre; naquet, Pierre-Vidal. Trabalho e escravido na Grcia
     antiga. Campinas: Papirus, 1989.




trAdio
    A palavra tradio teve originalmente um significado religioso: doutrina ou
prtica transmitida de sculo para sculo, pelo exemplo ou pela palavra. Mas o
sentido se expandiu, significando elementos culturais presentes nos costumes,
nas Artes, nos fazeres que so herana do passado. Em sua definio mais simples,
tradio  um produto do passado que continua a ser aceito e atuante no presente.
 um conjunto de prticas e valores enraizado nos costumes de uma sociedade. Esse
conceito tem profundas ligaes com outros como cultura e folclore. E, em geral,
 matria de estudo das cincias sociais, sendo objeto de pensadores clssicos da
Sociologia como Max Weber.
    A tradio tem, na perspectiva sociolgica, a funo de preservar para a sociedade
costumes e prticas que j demonstraram ser eficazes no passado. Para Weber, os
comportamentos tradicionais so formas puras de ao social, ou seja, so atitudes
que os indivduos tomam em sociedade e so orientadas pelo hbito, pela noo
de que sempre foi assim. Nessa forma de ao, o indivduo no pensa nas razes
de seu comportamento. O comportamento tradicional seria, ento, uma forma de
dominao legtima, uma maneira de se influenciar o comportamento de outros
homens sem o uso da fora.


                                                                                  405
                Uma viso clssica da tradio nas cincias sociais acredita que ela teria
Tradio



           dificuldades em acompanhar as mudanas e,  medida que o liberalismo e o
           individualismo foram ganhando espao no Ocidente, os comportamentos tradicionais
           teriam perdido espao. As tradies, nesse sentido, teriam se enfraquecido com a
           industrializao e o nascimento das sociedades industriais, dando lugar a uma rotina
           cada vez mais preenchida pela cincia e pela tcnica.
                Mas as tradies evoluem e se transformam com as novas necessidades de
           cada sociedade, funcionando inclusive para impedir que ela se dissolva. Segundo
           Dominique Wolton, a tradio no  mais vista pelas cincias sociais como uma
           coisa arcaica, mas como aprendizagem, reapropriao. Para ele, na medida que as
           sociedades se modernizam, a tradio aparece para suportar a mudana social, pois
           nenhuma sociedade muda radicalmente, sendo que cada fase de mudana possui
           tambm estabilidade.
                Outra perspectiva comum  a relao feita entre tradio e modernidade. Para
           Boudon e Bourricard,  corriqueira a oposio entre sociedades tradicionais e
           sociedades industriais. O problema dessa oposio  que ela no traz uma definio
           clara de quais so as caractersticas de uma sociedade tradicional. Na verdade, ela
           engloba sociedades to diferentes quanto o Sacro Imprio Romano Germnico
           e a Babilnia, em contextos histricos totalmente diversos. E, assim, a definio
           de sociedades tradicionais termina por se basear no nas caractersticas que elas
           compartilham, mas nos elementos que elas no possuem, e existem nas sociedades
           modernas, como a escrita, a diviso de trabalho com nfase na produo, as trocas
           interpessoais. Para esses autores, em vista desses problemas  muito mais interessante
           hoje o uso do conceito de tradio do que de sociedades tradicionais, pois tradio
            algo que pode existir em todas as sociedades, inclusive nas industriais.
                A tradio como tema de estudos tem tambm ganhado espao na Histria. Eric
           Hobsbawm, por exemplo, estudando o mundo contemporneo, utiliza o conceito de
           tradies inventadas para denominar o conjunto de prticas, de natureza ritual ou
           simblica, regulado por regras aceitas por todos, que tem como objetivo desenvolver
           na mente e na cultura determinados valores e normas de comportamento, por meio
           de uma relao com o passado feita pela repetio constante dessas prticas.
                Para Hobsbawn, uma das caractersticas das tradies inventadas  que elas
           estabelecem uma continuidade artificial com o passado, pela repetio quase
           obrigatria de um rito. As tradies tm como funo legitimar determinados
           valores pela repetio de ritos antigos (ou de ritos definidos como antigos, no caso
           das tradies inventadas), que dariam uma origem histrica a determinados valores
           que devem ser aceitos por todos e se opem a costumes novos.


           406
     Hobsbawm defende que um dos aspectos mais fortes da tradio  sua




                                                                                          Tradio
caracterstica invarivel, ou seja, seria um conjunto de prticas fixas que, por
serem sempre repetidas de uma mesma forma, remeteriam ao passado, real ou
imaginado. Mas muitas pesquisas antropolgicas recentes, assim como trabalhos
sobre o folclore, contestam o carter fixo das tradies. Para essas, a cultura popular
nas tradies e manifestaes folclricas se renova constantemente por meio da
criao annima. No caso de Hobsbawm, ele estuda tradies inventadas pelas
sociedades industriais, que, aps a Revoluo Industrial, tiveram de criar novas
rotinas e novas convenes. So rituais e eventos que, segundo ele, so muitas
vezes criados por um s personagem, no caso das tradies inventadas.  o caso
do escotismo, o corpo dos escoteiros, instituio internacional criada por Baden
Powell, em 1909, com o objetivo de aperfeioar fsica e moralmente os jovens.
O escotismo est repleto de tradies inventadas, na forma de rituais e normas
de comportamento, constantemente repetidos e ensinados aos novos membros.
Tambm a realeza britnica possui muitas tradies mencionadas por Hobsbawm,
algumas inventadas e outras autnticas, sempre repetidas, como a cerimnia de
coroao ou de sepultamento da realeza na abadia de Westminster, como para
reafirmar a Antiguidade e a legitimidade da monarquia. Nesse sentido, tradio
tambm tem uma ligao muito forte com o conceito de Antiguidade como um
perodo de grandes homens, uma Idade de ouro.
     Socilogos como Tom Bottomore e William Duthwaite, por sua vez, acreditam
que o termo tradio deve ser empregado para as esferas mais importantes da vida
humana, como a religio, o parentesco, a comunidade etc., deixando as esferas
menores de ritos e costumes cotidianos com o conceito de folclore. Defendem,
alm disso, que as tradies no so necessariamente estticas ou imveis. Para
eles, migraes e mesmo revolues, que so fenmenos geradores de mudana por
excelncia, algumas vezes esto baseados no desejo de disseminar tradies ou de
proteg-las. Eles do como exemplo a Reforma Protestante, fenmeno que gerou
muitas mudanas sociais e culturais, mas que teve como base um desejo de retornar
s tradies do Cristianismo primitivo. Por outro lado, poderamos acrescentar que
a colonizao da Amrica espanhola vivenciou tambm tentativas da Coroa, da
Igreja e de determinados grupos sociais de transferir para as colnias tradies e
costumes antigos na prpria Espanha, como o Catolicismo e a cultura da fidalguia.
     Outro exemplo do trabalho histrico com a tradio  o estudo do pensamento
ibrico barroco e moderno, por Rubem Barboza Filho, que por meio da tradio
procura entender a constituio das identidades da Amrica Ibrica. Barboza Filho
observa a influncia da tradio na formao do carter moderno da Ibria. Pensa
tradio como um elemento vivo e atuante, que aparece na vida social do presente.
Afirma que o conceito de tradio foi muito utilizado pelos pensadores ibricos,



                                                                                  407
           como Unamuno, na passagem do sculo xix para o xx, como uma forma de crtica
Tradio



            modernidade, de projeto alternativo  modernizao da Europa que no inclua
           a Espanha. Muitos intelectuais espanhis de ento defendiam a revalorizao
           das tradies ibricas como forma de, mediante elementos culturais puramente
           espanhis, tornar possvel superar a decadncia na qual o pas se encontrava. Os
           elementos que Unamuno caracterizou como tradicionais na cultura espanhola
           foram a f, a paixo, a mstica. Elementos opostos  modernidade, por sua vez
           definida pela cincia e tcnica. Personagens como El Cid e Dom Quixote, a tradio
           cultural do Sculo do Ouro (o sculo xvi na Espanha, auge do imprio espanhol),
           da Arte barroca, da Inquisio e do poderio do Catolicismo e da monarquia foram
           recuperados na passagem do sculo xix para o xx como elementos de tradio teis
           para a construo de uma identidade prpria e conservadora da Espanha, diante
           da expanso da modernidade ocidental.
               Vemos, assim, que tradio possui muitos significados: pode estar atrelada ao
           conservadorismo e ao resgate de perodos passados considerados gloriosos; pode ser
           inventada para legitimar novas prticas apresentadas como antigas. Muitas vezes 
           pensada como imvel, mas hoje cada vez mais estudiosos percebem suas ligaes com
           as mudanas. Est ligada ao folclore,  cultura popular e  formao de identidades.
           Assim,  um tema muito prolfico, que d margem a discusses variadas. No Brasil,
           onde a cultura popular est sendo recuperada cada vez de forma mais intensa e onde
           tambm surge um forte movimento de revalorizao das tradies e do folclore, 
           importante que os professores de Histria entendam os sentidos dessas noes, assim
           como suas diferenas: enquanto a tradio est atrelada a costumes, ritos e valores mais
           abrangentes, o folclore trabalha principalmente com as tradies da cultura popular.

           Ver tAmbm
                 Antiguidade; Barroco; Cultura; Discurso; Folclore; Identidade; Imaginrio;
                 Indstria Cultural; Memria; Mito; Modernidade; Orientalismo; Patrimnio
                 Histrico; Tecnologia.

           sugestes de leiturA
                 barboza FilHo, Rubem. Tradio e artifcio: iberismo e barroco na formao
                   americana. Belo Horizonte/Rio de Janeiro: Ed. uFmG/Ed. iuperJ, 2000.
                 boudon, Raymond; bourricaud, Franois. Dicionrio crtico de sociologia. So
                  Paulo: tica, 1993.
                 dutHWaite, William; bottomore, Tom. Dicionrio do pensamento social do sculo
                  xx. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.

                 HobSbaWm, Eric; ranGer, Terence (orgs.). A inveno das tradies. So Paulo:
                  Paz e Terra, 2002.



           408
tribo




                                                                                           Tribo
     O conceito de tribo  hoje amplamente difundido entre o senso comum e
os profissionais de educao, em especial como referncia  organizao social
dos povos indgenas brasileiros. Mas, em geral, tal ideia  cercada por uma carga
de etnocentrismo, sendo considerada uma organizao "primitiva", de povos
subdesenvolvidos historicamente, o que est longe de corresponder ao estgio atual
do conhecimento histrico e antropolgico sobre os povos nativos americanos.
     A ideia de tribo surgiu nas cincias sociais com o trabalho de antroplogos e
pr-historiadores nas dcadas de 1960 e 1970. A principal obra a fazer referncia
ao conceito foi o livro Pr-histria do Novo Mundo, de William Sanders e Joseph
Marino, que, baseado na tese de Elman Service, construiu um modelo dos estgios
culturais pelos quais passaria a humanidade ao longo da histria. Conhecido como
classificao de Service, esse modelo organiza as "sociedades primitivas" em quatro
categorias: bando, tribo, chefia e Estado antigo.
     Para Sanders e Marino, um estgio cultural seria um corte temporal na histria
no qual determinadas caractersticas culturais apareceriam. Para eles, tais estgios
seriam "degraus" e a humanidade teria de passar por todos eles para poder se
desenvolver. Essa tese  extremamente progressista e etnocntrica, pois acredita
que todos os povos devem evoluir do primitivo para o mais "alto" estgio cultural
possvel, a civilizao, que corresponderia  Europa ocidental contempornea.
     No entanto, se observarmos a tese de Service por outro ngulo, rejeitando
seu evolucionismo, deixando de lado a hiptese de que, comeando em bando e
programando para tribos e chefias, todo povo chegaria ao estgio mais elevado de Estado,
esse modelo pode trazer muitos pontos positivos para o estudo da Histria da Amrica.
     Em primeiro lugar, foi um modelo construdo pensando no continente
americano. Por muito tempo, antroplogos e pr-historiadores na Amrica tiveram
de utilizar as periodizaes elaboradas para a Europa, como Paleoltico, Neoltico,
Idade dos Metais. Mas os americanistas logo perceberam que as diferenas entre a
Amrica e o Velho Mundo eram grandes demais para que as classificaes europeias
fossem empregadas com sucesso na Pr-histria do continente americano. E se a
classificao de Service  hoje, por um lado, bastante criticada por seu evolucionismo,
por outro, ainda no h consenso sobre que modelo de classificao de sociedades
deve ser empregado na Amrica.
     Um segundo ponto positivo no conceito de tribo  o fato de que, ao passo que
o modelo do Paleoltico/Neoltico se baseia apenas na tecnologia para periodizar a
histria humana, o modelo de Service prefere observar a organizao social e sua
diversidade de formas como base para a construo de uma tipologia de sociedades.



                                                                                   409
        Assim, enquanto um modelo explicativo elaborado especificamente para as
Tribo



        peculiaridades das culturas americanas e isento da carga etnocntrica no for
        construdo, podemos optar por adotar uma adaptao do modelo de Service 
        realidade pr-histrica do chamado Novo Mundo.
             Segundo Sanders e Marino, uma tribo  uma sociedade de agricultores
        sedentrios, de no mximo alguns milhares de pessoas, que possui vrios cls e
        no apenas uma nica linhagem de parentesco. Apesar de haver diferenciao de
        status entre seus membros, no tem nem uma estratificao social nem um chefe
        com poder de mando. Distingue-se tanto dos bandos e chefias quanto dos Estados.
        Os bandos so a mais simples forma de organizao social, envolvendo, em geral,
        comunidades pequenas de caadores e coletores, relacionadas pelo parentesco. Tal
        sociedade no possui nenhum tipo de diferenciao social a no ser sexual. Os
        esquims so exemplos atuais de sociedade organizada em bando. Uma chefia, por
        sua vez, possui as caractersticas gerais da tribo, mas com uma hierarquizao social
        incipiente percebida na existncia de artesos especializados, na apropriao de
        excedente de produo pelo chefe e em um poder de mando centralizado. J o Estado
         a sociedade com ampla estratificao social, desigualdade de classes, burocracia,
        classes privilegiadas e apropriao do excedente por essas classes.
             Percebemos, assim, que, se deixarmos de lado a viso evolucionista, essa tipologia
        de sociedades se torna til para classificar diferentes grupos humanos ao longo
        da histria, lembrando que os quatro tipos podem coexistir ao mesmo tempo em
        determinada rea cultural, como a Amrica Central pr-colombiana, por exemplo.
             Apesar de toda a discusso gerada, a ideia de tribo aparece em vrios autores,
        que elaboram suas definies para o termo, como Jlio Csar Melatti. Para esse
        antroplogo, em geral, as sociedades indgenas do Brasil assumem a forma de
        tribo, considerada um grupo de indivduos que ocupam rea contgua, falam uma
        mesma lngua e tm os mesmos costumes. E, alm disso, possuem uma unidade de
        origem e um sentimento de unidade que os identifica como pertencentes a uma
        tribo especfica, em oposio a outras.
             Podemos observar que a definio de tribo elaborada por Melatti se assemelha
        muito ao conceito de etnia. E, de fato, atualmente as controvrsias em torno do
        conceito de tribo, e o pequeno conhecimento sobre as sociedades indgenas brasileiras,
        levam os pesquisadores muitas vezes a preferirem a utilizao de outros termos e
        expresses, como grupo tribal. Isso se d pela dificuldade em se saber se determinada
        populao constitui uma tribo ou diversas. Alm disso, a associao entre a ideia de
        tribo e as populaes indgenas no Brasil, a grande diversidade cultural e a falta de
        homogeneizao social entre essas populaes levam os estudiosos cada vez mais a


        410
preferirem construir definies prprias para cada etnia estudada, observando as




                                                                                         Tribo
caractersticas particulares de cada sociedade indgena e evitando o emprego de
modelos de classificao de sociedades, que generalizam uma s realidade social
para todos os diferentes povos indgenas.
    A discusso em torno do conceito de tribo , assim, algo de grande relevncia
para o profissional de ensino, em particular nesse momento em que o estudo das
minorias na sociedade brasileira  emergente. Para que possamos realizar um
bom trabalho com a construo das identidades minoritrias e do respeito a elas,
precisamos estar bem preparados, constantemente acompanhando as discusses
acadmicas que cada vez mais se preocupam em desconstruir vises etnocntricas
da Histria. O conceito de tribo  ainda muitas vezes comparado ao de Estado,
normalmente sendo considerado uma organizao social inferior a este ltimo.
E, todavia, todo Estado nasce e se desenvolve a partir da desigualdade social
generalizada, quando um determinado grupo de pessoas se apropria da produo e
do trabalho da maioria da populao, criando uma hierarquia entre ricos e pobres.
Tal no existe na tribo, o que pode nos levar a reconsiderar nossos preconceitos
acerca da superioridade de uns em face da inferioridade de outros.

Ver tAmbm
    Arqueologia; Civilizao; Estado; Etnia; Etnocentrismo; Evoluo; Identidade;
    ndio; Interdisciplinaridade; Pr-histria; Sociedade; Tecnologia.

sugestes de leiturA
    cunHa, Manuela Carneiro da (org.). Histria dos ndios no Brasil. So Paulo:
     Companhia das Letras, 1998.
    Funari, Pedro Paulo; noelli, Francisco Silva. Pr-histria do Brasil. So Paulo:
      Contexto, 2002.
    martin, Gabriela. Pr-histria do Nordeste do Brasil. Recife: Universitria uFpe.
    melatti, Jlio Csar. ndios do Brasil. Braslia/So Paulo: Ed. UnB/Hucitec, 1993.
    meSGraviS, Laima; pinSKy, Carla Bassanezi. 2. ed. O Brasil que os europeus
     encontraram. So Paulo: Contexto, 2002.
    prouS, Andr. Arqueologia brasileira. Braslia: Ed. UnB, 1992.
    SanderS, William; marino, Joseph. Pr-histria do Novo Mundo: arqueologia do
      ndio Americano. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1971.
    Service, Elman. Os caadores. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1971.



                                                                                 411
 v

ViolnciA
         V
     A violncia  um fenmeno social presente no cotidiano de todas as sociedades
sob vrias formas. Em geral, ao nos referirmos  violncia, estamos falando da
agresso fsica. Mas violncia  uma categoria com amplos significados. Hoje, esse
termo denota, alm da agresso fsica, diversos tipos de imposio sobre a vida civil,
como a represso poltica, familiar ou de gnero, ou a censura da fala e do pensamento
de determinados indivduos e, ainda, o desgaste causado pelas condies de trabalho
e condies econmicas. Dessa forma, podemos definir violncia como qualquer
relao de fora que um indivduo impe a outro.
     Consideremos o surgimento das desigualdades econmicas na histria: a vida
em sociedade sempre foi violenta porque, para sobreviver em ambientes hostis, o
ser humano precisou produzir violncia em escala indita no reino animal. Por
outro lado, nas sociedades complexas, a violncia deixou de ser uma ferramenta de
sobrevivncia e passou a ser um instrumento da organizao da vida comunitria.
Ou seja, foi usada para criar uma desigualdade social sem a qual, acreditam alguns
tericos, a sociedade no se desenvolveria nem se complexificaria. Essa desigualdade
social  o fenmeno em que alguns indivduos ou grupos desfrutam de bens
ou valores exclusivos e negados  maioria da populao de sua sociedade. Tal
desigualdade aparece em condies histricas especficas, constituindo-se como um
tipo de violncia fundamental para a constituio de civilizaes. Por outro lado, as
sociedades tribais ditas "primitivas" no possuem tal tipo de desigualdade, ou seja,
nas tribos a violncia da apropriao dos bens por uma minoria  desconhecida.
Nessas sociedades, todavia, a violncia ganha um carter fsico muito mais acentuado,
tanto na grande importncia cultural que a guerra tem  os tupis so um exemplo
clssico  quanto na instituio de rituais de iniciao  vida social, que, segundo o
antroplogo Pierre Clastres, so verdadeiros rituais de tortura.
     Nesse sentido, podemos observar que a violncia  um fenmeno inerente a todas
as sociedades humanas, apesar de ganhar contornos prprios em cada uma.
     Como temtica, a violncia sempre esteve presente na reflexo filosfica, assim
como na produo histrica. Na Filosofia, Thomas Hobbes, no sculo xvii, observava a
vida em sociedade como uma resposta  natureza violenta do homem. Para ele, o ser



412
humano era uma criatura naturalmente violenta  "O homem  o lobo do homem" 




                                                                                         Violncia
e precisava do controle do Estado na figura de um soberano forte para que a natural
violncia do individualismo no arruinasse a vida em sociedade. A tese de Hobbes
serviu para justificar o Absolutismo, mas teve tambm grande influncia sobre a
Filosofia ocidental posterior a ele. O pensamento de Karl Marx no sculo xix, por
exemplo, tem algumas similitudes com o de Hobbes nessa questo. S que para Marx,
a violncia do ser humano no  uma caracterstica natural, mas social, ditada pela
desigualdade no acesso aos meios de produo.
     De qualquer forma, visto que a sociedade tem como base a cooperao entre
os indivduos, a violncia, o conflito, que  o contrrio da cooperao, torna-se o
limite da vida em sociedade. Limite aps o qual a comunidade deixa de existir. Na
sociedade a violncia tanto pode ser resultado do descontrole individual, em que
o indivduo foge s regras sociais, como pode ser um instrumento de poder para
submeter os mais fracos. Para os socilogos, uma forma caracterstica de violncia
social  a chamada violncia-anomia, sendo anomia a situao em que o sistema de
valores de uma sociedade perde sua fora, e esse sistema passa a ser desrespeitado por
seus membros. Assim, o que caracteriza a violncia-anomia so as atitudes agressivas
de determinados grupos em uma sociedade em que as normas e a lei no esto em
vigncia. Isso pode levar  dissoluo da sociedade. Tal situao pode ser amplamente
vista na Amrica Latina, onde, na Colmbia, por exemplo, a concorrncia de Estado,
traficantes e guerrilhas cria em algumas regies uma situao de caos social, em que
a lei e as regras sociais no tm valor.
     J na historiografia, a violncia  um dos temas mais antigos, abordada desde
a Antiguidade, tanto nas descries de guerras quanto na Histria do poder. Alm
disso, toda a Histria Poltica  um manancial de representaes de violncia, ainda
que seus historiadores no reconhecessem isso. Atualmente, a violncia  tema de
estudos os mais diversos, desde a criminalidade at o cotidiano, passando pelas
abordagens das relaes de gnero. A presena da violncia ao longo da histria
humana  bastante visvel na enorme quantidade de conflitos que geram rupturas na
vida social. Conflitos esses, revolues, revoltas, guerras, que sempre foram temtica
privilegiada pelos historiadores.
     A partir do final do sculo xx, a violncia comeou a ganhar novos contornos
na historiografia. Na obra de Michel Foucault Vigiar e punir, por exemplo, a
violncia  vista em sua forma de punio legal  criminalidade na Europa Moderna.
Observando os sistemas punitivos dessa regio, Foucault percebe que o que de incio
era violncia fsica passou ao longo do tempo a se constituir em um disciplinamento
do comportamento e dos corpos sem recorrer  agresso fsica. Assim, se na Idade
Mdia a punio normal para os crimes mais variados era o suplcio pblico, a tortura


                                                                                 413
            pblica que fazia dos criminosos um aviso, no final da Idade Moderna os suplcios 
Violncia



            considerados ento contraproducentes  foram substitudos pelas prises, onde os
            criminosos eram controlados tanto no corpo quanto no comportamento. Foucault
            fez, assim, da violncia uma fonte para a compreenso das mudanas nas estratgias
            de controle social de determinadas sociedades, vendo a funo poltica dos castigos
            e sua mudana ao longo da histria.
                 Na historiografia brasileira, por sua vez, um dos campos que mais tm
            privilegiado a violncia como tema so os estudos da Histria da escravido. E
            no poderia ser diferente, uma vez que a escravido tem sempre a possibilidade
            do castigo, do conflito entre senhor e escravo, do uso da fora por ambas as partes.
            O trabalho de Silvia Hunold Lara, Campos da violncia,  exemplo de obra que se
            prope a estudar o castigo corporal no contexto da sociedade escravista, assim como
            as relaes sociais entre escravos e senhores da resultantes. Para a autora, o castigo
            tinha funo privilegiada na manuteno da submisso dos escravos. Ou seja, o
            castigo corporal era um poderoso instrumento de controle social gerenciado pelos
            senhores. A violncia fsica, assim, era uma forma de disciplinar o trabalhador a
            partir do controle de seu corpo. Tal violncia andava lado a lado com uma violncia
            cultural na doutrinao religiosa, que servia, por sua vez, para o controle do esprito.
                 Para o professor de Histria, hoje, a violncia  tema inevitvel, tanto por sua
            ocorrncia em todos os perodos histricos quanto pela presena muito comentada em
            nossa sociedade. Mas muitas vezes  difcil identificarmos a violncia na Histria. Se os
            castigos corporais da escravido e o holocausto judeu na Segunda Guerra Mundial so
            temas em que a violncia  facilmente percebida, a imposio de valores de um povo
            sobre outro nos processos de colonizao, o patriarcalismo da maioria das sociedades
            e a prpria desigualdade econmica so fenmenos violentos que passam muitas vezes
            despercebidos. Precisamos enfatizar o carter violento do processo histrico, levando
            os estudantes a perceber a violncia no cotidiano para alm da criminalidade, que
            em si  apenas um aspecto da violncia econmica de nossa sociedade. O professor
            de Histria deve criticar a banalizao da violncia, o sensacionalismo da mdia e o
            prprio discurso, ingnuo, da classe mdia. Trata-se de um discurso que, no geral, no
            aprofunda os componentes sociais e econmicos da violncia. O professor pode ainda
            trabalhar a violncia em sua relao com os regimes ditatoriais, que usam da tortura
            fsica e psicolgica, entre outras diversas formas de represso, e com o etnocentrismo,
            que pode ser causador de numerosas formas de violncia.

            Ver tAmbm
                  Aculturao; Ditadura; Escravido; Etnocentrismo; Fascismo; Fundamentalismo;
                  Gnero; Golpe de Estado; Imperialismo; Indstria Cultural; Inquisio; Latifndio/
                  Propriedade; Militarismo; Raa; Terrorismo; Tribo; Revoluo.



            414
sugestes de leiturA




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     oS autoreS



Kalina Vanderlei Silva
Professora-adjunta da Universidade de Pernambuco e doutora em
Histria pela uFpe. Coordenadora do Grupo de Estudos Histria
Sociocultural da Amrica Latina  upe (Universidade de Pernambuco).

Maciel Henrique Silva
Professor do Centro Federal de Educao Tecnolgica de
Pernambuco  ceFet-pe e mestre em Histria pela uFpe. Pesquisador
do Grupo de Estudos Histria Sociocultural da Amrica Latina  upe
(Universidade de Pernambuco).




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